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Cinzas

“Cinzas” ou o que sobra de uma crónica Natalícia. No Canal N. Aqui . As cinzas dormem esquecidas do fulgor da noite anterior, repousadas na espessa pedra cujos pés das panelas negras fizeram as covas onde se acumulam as memórias do que não se sabe cozinhar. Por cima, o presunto defuma-se e as teias de aranha ondulam sob o peso da fuligem que o vento, aproveitando as telhas mal sobrepostas, anima.   A noite de Natal, ao contrário das outras, traz consigo o barulho bater das portas do automóvel de cilindrada elevada cuja toponímia automobilística ostenta brasões de cantões difíceis de pronunciar. Depois da velha porta de madeira abrir e se ouvir o tilintar da pequena persiana que serve de coberto para a caixa de correio, ouvem-se os miúdos descerem chapinando o tempo e a chuva que se infiltra por onde quer que se olhe.   A aldeia ilumina-se de alegria, não há pinheiro que resista aos cavaleiros perdidos que regressam ao lar que os viu parir. Os gorros sobre as orelhas e as felpu...

Nascente

Eis a crónica mais recente no Canal N ( https://www.canaln.tv/cronica-nascente/ ) Nascente . Tinha estado virado para o mar, catraio entretido com o avançar e recuar das ondas a meus pés alvos, desconhecendo que nas minhas costas o ondular marinho dobrara terras, criara serras, eriçara pinheiros, sobreiros, oliveiras, carvalhos, castanheiros.   Ao ritmado canto das ondas caindo sobre elas mesmas, sobre o olhar ladino de um ou outro seixo, nas minhas costas a vida fazia-me frente. Eu apenas não sabia, inocente.   A maresia sobrava presa nas dunas, enterrava-me na areia, o mar como traquina borbulhara nos dedos a arfar. Pensara eu que me convidava a navegar.   Quando o Sol se pôs nas águas que pareciam ondular acima do próprio oceano, piscou-me o olho a saudade. Afogava a cidade. Quase caído ao firmamento, convida-me Febo em inusitado lamento, voltar costas à maré, sulcar novos horizontes e, eis, imponente, Trás-os-Montes.   Havia toda uma ilha imensa rodeada de um mar...

Interioridades

“Interioridades”, ou mais uma crónica no Canal N.tv ( https://www.canaln.tv/cronica-interioridades/ ). Quando há alguns anos, após anúncio de cortes nas reformas, vi numa reportagem de um canal de televisão uma repórter perguntar a uma senhora, numa qualquer aldeia do interior, se não a preocupava os anunciados cortes, não esperava o verdadeiro sentimento de interioridade. A menina do microfone perguntava com insistência se não amedrontava a senhora, de negro carregado, lenço debruado a prender o cabelo, duas madeixas alvas a espreitar o dia sobre a testa, o tão aclamado corte na pensão. E a senhora, de uma compleição nobre, como só o consegue o verdadeiro pobre, respondia com educado sorriso a cada investida jornalística. Foi no meio da enésima insistência que, finalmente, despindo a vestimenta a que doutos engravatados teimam em fazer vestir a ignorância, s senhora reformada de uma vida de labuta agrícola, vivendo uma longevidade pautada pelo pão nosso de cada dia, respondeu num tom ...

Queimada

“Queimada”, a crónica de um povo que arde, no Canal N . O pôr-do-sol traz de novo o bailar nocturno dos pirilampos azuis, as intermitências de um socorro enquanto a morte se encosta a um sobreiro recém despido, protegido pelo morno ar que a terra abafa quando cai a vida em trás-os-montes. Colunas de ajuda posicionam-se. A guerra combate-se com a paz. Ei-los, soldados, negros, cinzentos, alvos voluntários. A mão aflita da mãe sobre o ombro do filho ao toque da sirene, “não vás”. Atrás de cada elevação um novo ocaso. A noite caiu há muito, com ela o peso abafado de um calor que colhemos sem, sequer, o termos plantado. A culpa é dos que manietam, mas nada há a fazer além de desenrolar mangueiras, encher baldes e garrafões, erguer em riste as enxadas, ancinhos e pás. Exaurido, o povo apenas quer paz. Não é rubor de um astro que mergulha feliz no firmamento e deixa, inconsequente, um povo no seu lamento. É o fogo que ruge como fera ronronante ao sabor das presas que tombam.   A torga qu...

Término

"Término"  ou o prenúncio dum fim de caminhada. Crónica no Canal N. Ligação aqui . Não é necessário transpor montanhas para nos encontrarmos por trás dos montes. A cada passada podemos galgar socalcos que, mesmo atrás de uma curva que o destino colocou no caminho, nos transportam para lá daquilo que pensamos já não encontrar. Como um casal de velhotes, à sombra tórrida de um coberto de zinco, mão na mão, a namorar. A tarde abrasadora chama incendiário ao Verão, no eucaliptal duvidoso a certeza de um madraço de isqueiro na mão. O fumo negro traz tonalidades de Inverno, caem folhas queimadas, secas, quebradas, negras. A comunicação social não é por aqui bajulada. Toca música clássica. – Olhe, eu nem tocar castanholas! Mas que a música é bonita, lá isso é! – diz-me o velhote, enquanto abana a perna cruzada sobre o joelho e a esposa, sorridente – Não chateies os senhores que vieram trabalhar. – repreende-o, piscando-me um olho que brilha do fundo de uma órbita bastante enrugada. ...

Outeiros

“Outeiros”. a crónica tresmalhada no Canal N . Nas viagens que se fazem pelo silêncio em nós sei-o nunca estarmos sós.  Na neblina que se agita e nos cobre os pés de orvalho há todo um muro coberto de musgo ou as folhas de um carvalho.  O cajado respeita-se pelo sustento, literal e metafórico, com que ordena o bastonário, a existência e as vidas, de olhos semi-cerrados, cercando o cercal em toada firme, não perdendo de vista a clareira onde o rebanho se torna como uma massa única de algodão doce, como nuvem a levitar no prado acinzentado de um verde que teima em não despontar.  O respeito pelas profissões é urdido ao redor de um selo carimbado, os socalcos latinizados, o lacre de uma ruga que um casco selvagem de garrano gravou na face, os créditos de um labor que debita a cada dia, sem pudor, as gotas espessas de um esquecido e ostracizado suor. Pelos montes onde velejam náufragos de um mar ausente, no redemoinho do vento nas urzes paira a semente, o piscar das altas tor...

Alma Tua

"Alma Tua” ou a crónica da última caminhada, para ler no Canal N . O senso comum leva-me a questionar o Norberto se aquele seria o melhor local para estacionar. Está certo que garagem de portas fechadas ou guarda ou não permite entrar, mas mesmo assim, o carro na entrada, o Sol a calcorrear os cumes dos pinheiros mansos, as sombras fugidias sobre as oliveiras, não me deixavam na calmaria de ostentar local à porta de alguém. O Tua ia-se afogando pelas margens sem escape além do que vislumbravam nas fragas do lado de lá da corrente. Sem carris, o ocre soçobrava no cascalho cuja função era, agora, sem mais nem menos, preparar-se leito de uma barrigada de água parada, onde apenas o orvalho vinha beber restos de reflexos que o céu gravou. Os últimos passos em liberdade, sei-o agora, foram dados naquela tarde, a bicharada a grasnar e crocitar uma melodia fúnebre, a sombra de um sobreiro que mirava, sozinho, a curva do Douro penteado pelo vinhedo arquitectonicamente esculpido ao olhar ma...

Ao Pai

“Ao Pai”, a crónica do dia, no Canal N . Quando saiu da curva e a estrada lhe pareceu mais curta, sabia que tinha chegado onde deveria. Há uma espécie de limite na cercania, o 19 de Março haveria de ser o limite para a aventura forasteira, de agora em diante a miragem seria a pastagem forrageira. Calculava com atenção os dias que faltavam, não fosse um fugir à rebeldia dos tempos recentes e deixar passar prazo ao qual se tinha acometido. Tinha saído da sua aldeia quase como foragido, à guarda do futuro calcorreara quilómetros em carrinha alheia, sem que a carteira comportasse a vida no montado, a mulher a cuidar da casa e do filho, o filho a cuidar de crescer e das brincadeiras. Chega-se rápido ao fim do mês, quando ainda que fugidos ao balcão do café, se troquem as moedas e de duas sobrem três, a conta é fácil de fazer, não é?   Atravessados montes, conhecidos e desconhecidos, sulcara a saudade entremeada com trabalhos, aqui e ali, nas consultas ao saldo bancário, pelas noites em ...

Votar no abandono

“Votar no abandono”, a mais recente crónica no Canal N . – A minha promessa eleitoral é não votar no que nos vota ao abandono. – Terminou a frase com um baque surdo no balcão do minúsculo copo onde tinha sido servido o Favaios, o que está debaixo do balcão, por detrás do Favaios com rótulo. Como em tudo na vida, quando algo nos chega sem a etiquetagem do que se pretende publicitar traz em si a originalidade do sabor autêntico do que se é. E, nas pessoas, de quem se É. Pousadas as moedas no zinco, virou costas ao dono no café que olhava as sondagens encomendadas na televisão, todas similares, nas percentagens que representam as permilagens de quem vota, e nas cores dos partidos. – Basta chamarem-se partidos, para sabermos o que aí vem. – antes de sair pela porta de alumínio baço encimada por uma torradeira de moscas que bailam reluzentes antes de caírem inanimadas no tabuleiro. Boa sorte tem a quem boa morte vem. Nas mesas escuta-se – Este é sempre do contra. Se eles ganharem, agora é q...

Presépio de uma pessoa só

“Presépio de uma pessoa só”, crónica no Canal N . A neblina cinzenta filtra os sentimentos de Inverno e alavanca as recordações envoltas em fuligem, os montes abatidos e os dias de advento na ventania que abana a vidraça descalçada e tilinta num carrilhão de luto negro e enraizado.  As curvas da estrada asfaltada serpenteiam sem saírem do local trazendo no regresso as marcas dos pneus na neve, as folhas das árvores e pequenos passos de socos arrastados pelo solo, pela vida. Na alva tarde rural há uma senhora no contrastante luto com a natureza, habitante de montes abatidos, recebendo os filhos emigrados na Suíça, que fugiram de Trás-os-Montes para irem viver por detrás de outros montes albinos, escarpados na distância entre o conforto e a raiz que se esvai a cada Natal ou férias grandes. Sem pressa, guarda pacotes de papel que embrulham nacos de presunto, algumas batatas, cebolas, nabo, nabiças, repolhos e cenouras, empoleirada na traseira alta do ostensivo carro de matrícula em lí...

Tresmalhados

“Tresmalhados”, a minha crónica no Canal N . – Mas você nunca quis sair daqui? – era a pergunta que muitas vezes lhe faziam e que, nas inúmeras respostas acima da quietude tradicional de quem se habitua a falar com o tempo, em amena cavaqueira nos serões à lareira na companhia do silêncio, soçobrava com um – Eu não sou daqui, de que me adianta sair de onde não sou? A pandemia tinha trazido, além do isolamento espacial, uma certa distância temporal para quem sempre se habituou a viver a umas dezenas de quilómetros do maior, mais aconchegante e, também, mais confortável em termos de companhia de outros corpos, envoltos muitas vezes numa ausência sofrida de falar com quem tão perto está e, concomitantemente, tão afastado se vê do coração. Era caso para dizer, perto da vista, mas longe do coração.  No percurso por entre as árvores as botas calcavam com cuidado os ouriços, esfregando-os entre os pés e fazendo saltar as castanhas, libertas de um útero protector, escondido dentro de uma e...

Saldo positivo

"Saldo positivo", a minha crónica no Canal N, para ler aqui . Já só se deslocava à agência bancária a custo, não pela idade que, inexoravelmente, se encostava a si com o prenúncio temporizado de um encontro com os limites da Natureza, a mesma que sempre lhe foi benéfica, na monda, na ronda e na parceria nos pastos de montanha, mas pelo cada vez mais tecnológico discurso dos funcionários. Para lá do balcão tinham ido já os que, reformados, a gosto ou a suplício, o recebiam e por entre palavras, prolongadas depois no balcão de madeira pegajosa da tasca, entre copos que deixavam impressas e imprimidas os bojões redondos por onde a vida se emborca, lá lhe preenchiam um impresso, ora no papel, ora no computador, com o barulho das teclas, tac, tac, tac, tac, a fazerem a vez dos dedos grossos e gretados a rodearem a caneta como quem coloca um cavaco na lareira. Nunca necessitara da impressão digital, agora chamavam-lhe dados biométricos, nem de comprar um telemóvel daqueles que se m...

Pinceladas da vida sobre a morte

“Pinceladas da vida sobre a morte", crónica no Canal N. Pode ser lido aqui . O caminho, nem sempre tortuoso, leva-me sob um calor abafado, o qual as vinhas agradecem e os bagos, roliços, pintalgados, prenhes de um rubor anunciador de grau, se deliciam. Consultei o GPS de véspera, há que preparar antecipadamente qualquer empreitada, ainda que para um funeral. Correcção, ainda por cima para um funeral. Somente a vida, perdão, a morte, não requer preparação prévia, basta umas boas golfadas de ar puro, meia dúzia de gargalhadas, um bom punho fechado sobre o horizonte, o tilintar de dois copos de whiskey e uma parelha de sonhos concluídos em forma de tela pintada a borras de vinho. A vida é uma paisagem, do Douro, apaixonada por um rio onde o céu se vem espelhar, os socalcos alicerçados no suor galego, venha ele donde vier, regados no sangue que se esvai a cada partida deste mundo ilusório. Diria que do lado de lá a vinha somos nós e os nós com que nos cingem ao arame, para que despont...

Tempestade

 “Tempestade”, a minha crónica de uma tarde quente e abafada, no Canal N . As nuvens negras, azuladas, incutem uma certa apreensão devido ao ribombar lento que sobe a encosta e traz novos pedidos a Santa Bárbara. Percorre-se o olhar pela vinha e no coração surge o temor pelo que se avizinha. Pé ante pé escuta o borbulhar da vida nos verdes bagos fetais, crescem alheios à natureza ou à voz surda da reza, as mãos ondulam na folhagem, detêm-se aqui e além num cacho maior, mede-se o sonho na promessa de uma boa colheita, afasta-se o pesadelo da tempestade e sua maleita.  O tempo foi sempre senhor de si mesmo, jamais ficou a dever a ele próprio uma estação, se não é agora é depois o tição. Caso o frio se arrolhe tardiamente, virá mais cedo o Verão. É isto, a vida, tudo se paga neste mundo. Ou no outro, mas de lá poucos retornam com as novas, ficamos por cá com as nossas sovas e eles, além, com o que aos dos céus lhes convém.  O vento aligeira-se, a tarde inebria-se de uma bris...

Demografia

 “Demografia”, crónica no Canal N . Trás-os-Montes faz-se à estrada quando a demografia, por não saber que todos somos um e, ao mesmo tempo, nenhum, e fruto das necessidades nos fazemos nós próprios lugares, tem que seguir em veículos alvos, com listas vermelhas, vulgos táxis de saúde, descendo o Marão em inclinações suavizadas que o progresso, tarde, mas ainda a tempo, veio adicionar, desviando a viagem dos esses sucessivos que um itinerário de montanha sequioso de olhares perscrutadores exigia.  Imagino os olhares das mentes indagadoras, a contas com uma doença qualquer que as unidades locais de saúde enviam para a especialidade de um hospital de uma cidade, são-nas poucas, grandes em toponímia, mas parcas em serviços que a todos sirvam. Os olhares, repito, vendo a paisagem sorver o medo e o Sol que nasce no retrovisor do condutor, o reflexo da face como testemunho de um torpor que ficou para trás, junto das migalhas de boroa caseira ao redor da marca circular da caneca de c...

Semeadura

"Semeadura", crónica no Canal N . O sonho de um lugar novo para o lar tinha nascido ao mesmo tempo em que as mãos descobriram o afago da redonda redoma do útero maternal, em conversas crepusculares quando nascem e se põe as ideias conjugais, à cabeceira de uma cama em casa emprestada, entre paredes idosas de pedra e corações juvenis de ouro. No final do dia, quando o cansaço de uma jorna ainda não despertara, os braços bronzeados misturavam areia, cimento e água, vertida depois na cofragem de madeira, dia após dia, para que no fim-de-semana outros braços, familiares e amigos, surgissem para o matutino auxílio tão típico quanto o orvalho suado pelas noites frias e, tijolo a tijolo, sangue a sangue, suor a suor, ganhasse forma a habitação.  A cozinha exterior foi a primeira edificação, um pequeno assentar de um arraial num terreno ganho à tenacidade das oliveiras. Ali surgiram as primeiras noites da construção, o fogão a lenha debitando o calor com que o amor temperava o rancho...

Soçobro

“Soçobro”, crónica no Canal N, para ler aqui ou aqui . Badala-se o sino, a liga metálica repercutindo no ar gélido da manhã transmontana as ondas sonoras de um lamento. Sabemo-lo dia de luto pelo número de toques, o braço firme retesado que firma e puxa o arame, contrai e relaxa o arame. Viver é um ir e vir.  Algures, entre labutas agrícolas, um ancião retira a boina negra, leva o joelho ao chão bolboso, negro e humidamente fértil, e convida ¬– rezemos um Pai-Nosso por este irmão que partiu – e lestamente, no respeito que merece o fim de uma existência terrena para a partida que se quer serena, os restantes lavradores ajoelham-se e guiados pelo mais velho, o que sabe os toques e repiques, aquele da sábia palavra final, como pontuação sensível no final de qualquer diálogo serrano, concluem a oração, solenemente, pacatamente, sabendo que o tempo é de quem o sabe deixar passar de encontro à sua própria existência. No adro, o musgo, as ervas e as flores crescem entre as frestas das ped...

Perene

Perene, crónica no Canal N.tv O quebrar gélido do solo a cada passo tomado faz da figura transmontana uma espécie de crepitar humano, que acompanha a vida ainda que seja durante esta manhã fria.  O bafo quente a cada expiração inunda a manhã, como se o percurso sobre a terra coberta de neve fosse um longo, não linear, percurso de um comboio numa paisagem ondular e sibilar, que muitos querem aplanar, findar. Passo ante passo, rumo ao povoado, sem qualquer queixume além do lacrimejar glacial que se aglomera nos cantos dos olhos e lhe confere uma visão periférica digna duma paisagem polar, as mãos nos bolsos da samarra, o pescoço encolhido e recolhido para o tronco, os ombros alçados ao céu - como as orações, não é por isto que rezámos? para que nos ouçam celestialmente e nos alcem pela espádua a onde nunca deveríamos ter saído –de encontro ao pêlo animal do casaco, a boina cardada que encima a figura alta e alva finda a descrição do indescritível. Os povoados esvaem-se, a simpli...

Será?

“Será?”, crónica no Canal N, para ler aqui ou ou na página do Canal N . Na clausura onde apenas habita o medo, o nevoeiro deixa-se descobrir por quem sonha para lá das névoas que emolduram as montanhas vazias.  O domingo tem um travo vazio, quando ousamos despir a rua de abandono, o macerar das rodas do carro no húmido empedrado que se faz chão, traz-me aos olhos uma torrente em aluvião. O que fazer à solidão?  Das varandas, timidamente, casais despidos da formalidade dominical auscultam a rua da promovida aldeia em roupão, parecendo preparados para um hibernar forçado e chamando-lhe a isso o seu fado, pacatamente, como o caminhar de um prisioneiro, inocente, não que lhe assine a culpa a vida, mas porque lhes urdiram a existência de sonhos despida. Calcorreio a tijoleira do alpendre numa antecipação do amanhã, que ainda não existe, ao ver que o chão seca-se da humidade como pode, sem ouvir os corvos num esvoaçar prenunciador de ninho pelas redondezas. A alegria, enfim, do negr...

Sozinho, ainda assim

“Sozinho, ainda assim”, crónica no Canal N.tv Sozinho.  Um quarto duplo aumenta a solidão depois de um dia de trabalho.  Cansado.  Após um banho e telefonema para casa, o cadeirão ausculta a noite e, cinicamente, a emissora regional transposta os anos 80 para o presente ao som de So far away dos Dire Straits, embora o verso «Here I am again in this mean old town» não seja muito justo com esta aprazível cidade do interior que, como tantas outras neste rectângulo à beira-mar plantado, tentam atrair os incautos sobreviventes da vida confiando-lhes em vários placards a qualidade de vida que aqui se vive. Sem par no País (escrevo país com letra maiúscula ou minúscula?). Saiu ontem, quarta-feira, no carro da empresa, viagem longa para trabalho curto. Apreciou a paisagem, as aldeias, vilas e cidades quase sem pessoas, os montes íngremes, os restos de vegetação que resistiram aos incêndios, os carros velhos e os semáforos de controlo de velocidade que não funcionam.  Adorand...