2006-04-19

Paragens na vida

É difícil encontrar momentos em que a vida pára... Tal como me parece difícil lembrar e escrever tudo o que vejo e desejo colocar neste blog... Ficam os momentos que mais me marcam, quais marcas de varicela...
Um Mercedes, classe E, preto, parado à minha frente. Atrás de mim outros carros param. À esquerda um senhor, velhinho, com um chapéu (chamo-lhe chapéu de lavrador, sem saber qual o nome que deva atribuir) cinzento, camisa e camisola sem condizerem em termos de cor (segundo uma famosa socialite, e outras pessoas que tais, isto é trágico), tapadas por uma samarra (em plena Primavera... Bem, o que protege do frio protege do calor). O corpo curvado olha para o outro lado da estrada, onde se encontra um carro parado, com os quatro piscas ligados e uma senhora, mais nova, com olhar preocupado, estendendo o braço fora do carro em sinal de paragem. É uma curva. O Mercedes continua parado, eu também, assim como os outros atrás de mim. No outro sentido circulam vários carros, sem parar, rápido, rápido, rapido. Surge depois um momento em que não há carros a circular, a senhora do outro lado acena rapidamente, em sinal de "pode vir" e o senhor, idoso, idoso, idoso, começa a atravessar a estrada e, ao passar em frente ao Mercedes, levanta um pouco o chapéu em sinal de agradecimento, enquanto que a senhora do outro lado, agradece também ao condutor... O velhinho passou a estrada, o Mercedes arrancou numa nuvem de fumo negro, enquanto eu, atónito (como é frequente), via pedaços de vida cruzarem-se e mesclarem-se, unindo-se ao mesmo tempo que a vida, que a sociedade impõe, parecia tremer e degradar-se, caindo velhos painéis que são padrões enraízados, como fachadas de edifícios que caem e deixam ver outras paredes mais ricas... Mas a vida não é arqueologia ou gestão de património, nem algo que se pareça, não se compadece.
Acho interessante quando alguém encontra um pouco de tempo para parar e saltar desta vida, vivendo.

De novo nos CTT

Cada saída de casa, deambulando ou não pelas ruas desta vila e redondezas, proporciona-me visões de ternura e amor, carinho, medo e cansaço, todos eles enriquecedores...
Fui aos CTT, posto de Paço de Sousa (nós daqui, deste lado, chamamos-lhe "Espanhóis") enviar uma carta (comissão de festas oblige) e enquanto esperava, uma senhora falava com a menina dos CTT (ainda há pessoas simpáticas), tinha recebido e aberto uma carta dirigida a uma pessoa com o mesmo nome do marido, com o mesmo lugar, mas com uma freguesia diferente. A menina disse-lhe que deveria escrever no verso do envelope algo como "abri por engano carta enviada para o mesmo lugar onde resido" e assinar o primeiro e último nome... Depois a mesma senhora pediu se podia enviar umas "coisas" para a Suíça e tirou do saco uma pequena bolsa de plástico, transparente, com alguns parafusos. "A menina pode pôr a morada? Assim vai lá parar direitinha" e ao mesmo tempo que disse isto sorriu, coçou a cara com a mão direita num toque nervoso e de timidez, enquanto a menina dos CTT sorria, dizendo que sim, que o fazia, e olhava para mim sorrindo... São gestos pequenos, atitudes que parecendo ínfimas, que nos enaltecem aos sentidos aquilo que o ser humano, nós, temos de melhor, a ajuda ao próximo quando necessária... Temo que estas atitudes se vejam cada vez menos no geral, mas mantêm-se ainda nestes meios pequenos... E mais uma vez as estações de CTT proporcionam-me sentimentos de aconchego pessoal, de carinho entre pessoas... Readquiri a esperança num mundo melhor, feito por pessoas cada vez melhores.
Como vêm, não foi nada de mais..

2006-04-18

Atitude

Vinha aqui, prometi a mim mesmo e a quem me ouve quando falo sozinho, apenas para colocar uma fotografia... E não consigo... Sento-me, fico com sono, a cabeça ondula um pouco (felizmente não bebo) e logo esta sala ganha vida própria. As paredes começam a agitar, como se as visse através de um aquário, ondulam, possuem a sua forma, mas menos densa. Tenho vontade de tocá-las com um dedo, para aferir se estão mesmo num estado gelatinoso ou se eu me terei enganado nas ervas do chã... Mas não, é cidreira de facto na caneca "Sailing to Philadelphia-Tour 2004-Mark Knopfler"...
Permaneço assim algum tempo... Vejo o ondular das paredes, dos objectos e começo também a ondular, a sentir-me em estado gelatinoso (e não é falta de banho... Hum, talvez um pouco de banha)... Enquanto luto com a sensação de controlar o corpo físico, a necessidade de sentir que eu o domino, tudo à volta parece ganhar uma tonalidade mais clara, não brilhante ou daquele branco pregado pelos místicos, apenas mais clara... Abandonei a sensação de controlar o corpo, deixei-me seguir pela ondulação e, aí, tudo ganhou mais consistência. Tirando o facto de eu estar em pé, ou sentir-me em pé e ver-me sentado, tudo parece normal. As paredes deixaram de ondular... De facto, quando olho através delas, as mesmas parecem desaparecer... Não resisto e toco na parede. O meu dedo indicador entrou uns milímetros na parede e senti um pequeno formigueiro, algo frio, com a sensação que a parede existe, mas menos densa do que aquilo a que estou habituado. O computador continua a emitir os sons e a luminosidade, mas parece um pouco baço, obscurecido por algo que o cerca... Olho com atenção e vejo o que parecem ser pensamentos, enraízados... Consigo ver inclusive o que são... São emails... Centenas! Que permanecem agarrados ao computador, ao teclado, ao monitor... Passam sempre em claro quando limpo este velho companheiro... Pensei num pano e eis que o mesmo surge na minha mão translúcida... Nah... Não preciso de pano algum, sei que basta pensar e eles saem. E assim fiz, pensei no melhor para os pensamentos (que não faço ideia do que seja) e eles desvaneceram-se... Era emails, pensamentos e emoções ainda agregados ao computador que, coitado, não podendo limpar-se a ele mesmo, ao contrário de nós, que ainda fazemos um desporto ou um hobbie e esquecemos aquelas "formas", fica com aquela "sujidade" acoplada... Hum... Creio que consigo ver melhor agora os autocolantes, especialmente o "RFM-Mark Knopfler-Miguel Gomes" de que tanto me orgulho :)
Aproveito e percorro a casa, apercebendo-me melhor nos objectos e em mim mesmo, o quanto de mim não sou eu, o quanto de mim é também emocional que se colou... Hum, faz-me pensar... Atitude... Sim, atitude, é tudo o quanto é necessário... Para quem gostar de ser minimalista, pode simplesmente "ser" ao invés de seguir mestres e gurus, seitas e religiões, basta ser nós próprios para sermos autênticos, aceitando-nos para não necessitarmos de sermos aceites... O quanto nos tentam vender e convencer (com boa fé e intenção, acredito) que precisamos desta e daquela técnica, deste ou daquele curso, deste aquisição ou libertação de conhecimento, desta ou daquela cidade, deste ou daquele livro para obter qualquer resultado, para nos ajudar no que quer que seja... Nada de errado em livros ou técnicas, desde que utilizados porque assim nós queremos, não porque necessitemos, mas porque desejamos, porque nos facilita e catalisa o nosso processo, seja ele qual for: estudar, trabalhar, lavar a louça, montar uma porta, energizar-mo-nos, etc...
A leveza deste estado é incomparável e incompreensível... Creio até que o raciocínio toma outra dimensão, penso mais e além de mim mesmo, parece que os meus pensamentos se expandem pelo Universo...
Creio ter atingido o limite para esta noite... Auto impus um limite ao ver as horas... O meu corpo precisa de um descanso mais eficaz que digitar estas linhas enquanto uma outra parte de mim explora, novamente, este espaço...
Atitude... Sim, atitude...
Gostava de poder escrever sem limites, não me ver preso à velocidade a que os dedos conseguem premir um conjunto de letras, espaços e pontuações, mas deve ter o seu motivo... Escrever, falar, o que pensamos e vivemos faz-nos viver ainda mais convictamente o que se pensa, mesmo que por vezes seja para reciclarmos o que sabemos por algo novo, para aferirmos que as nossas velhas emoções estão gastas e não precisamos delas, quem diz emoções diz meias, calças, revistas... Não que não possamos continuar com elas, mas podemos não querer sentir e viver o que elas nos avivam...
Falar... Escrever... É difícil... É complicado, porque o que quer que possamos escrever pode ser subvertido, pode ser mal entendido e, assim, para não se ser mal entendido, há que escrever e negar, deixar sempre o leitor com a possibilidade de utilizar e/ou rejeitar o que lê...
Também dá mais autonomia, pois não se diz ou escreve: "é assim que deves fazer, comer, sentir, viver", mas sim "oh, sei lá, eu nem sou daqui, mas vê lá se faz sentido, para mim é válido, o que não quer dizer que para ti não seja, experimenta e depois ensina-me também"...
Por isso, sei lá, eu nem sou daqui... Ajuda-me a compreender cada vez mais, mas cuidado, não me venhas dar sermões se tu, primeiro, não aplicares algo novo, não me venhas falar com os braços cruzados, a cara carrancuda, dizendo apenas "oh, está mal, está errado", sem me explicares muito bem o porquê da tua exposição...
Às vezes confundi-mos teimosia salutar (cepticismo moderado ou apenas prevalecer firme nas nossas convicções quando não temos a certeza da validade aos olhos da nossa verdade de uma nova verdade que se avizinha) com burrice (egocentrismo puro e duro, gostamos de sofrer, de lamber sempre a mesma ferida sabemos apenas o quão é reconfortante, esquecendo o quão bom é não ter a ferida), eu sei, fi-lo e faço-o algumas vezes (orgulhosamente tento fazer cada vez menos) :)
É tarde e vou dormir...

2006-04-16

Welcome to a new world!

Prometi a mim mesmo vir aqui e escrever, tenho, inclusive, algumas histórias que surgiram aquando estes dois dias "fora"... As histórias permanecem no meu pequeno caderno, tenho até uma foto tirada pela minha senhora :) e que irei postar posteriormente de moi même no próprio acto de escrever o tópico (aquilo que os olhos captam e o cérebro esquece) de uma histórinha...
Ora já lá vão dois dias, mas eu até encontro desculpa para não escrever, é Páscoa e tal, amendoas e coiso... A verdade é que nem sempre é possível... Estas histórias, ou pensamentos, são tratadas como a prisão de ventre, quando vem uma vontade, pequenina que seja, toca a correr! Mas não tem sido assim... Estão guardadas, à espera que os personagens decidam vir ter comigo nos sonhos e me digam: "podes escrever"...
Estava a desligar o computador, depois de fazer download dos emails, e eis que fiquei muito quieto, a olhar para o candeeiro (à minha esquerda) e a ver a parede ondular, a cadeira (que tem o scanner), a secretária, tudo a ficar gelatinoso e a típica comichão no corpo... Abri o browser (Firefox rules) e digitei o endereço do Blogger... Alguma coisa vinha até aqui... Et voilá... Dou por mim a escrever estas linhas, sem perceber muito bem porquê... Isto da demência tem muito que se lhe diga!
Pergunto-me para quando o momento de escrever sem metáforas...
Ouço ao longe foguetes...
Tenho à minha frente um bilhete escrito por alunos de uma escola primária onde fui monitor, daquelas que vão fechar (tinha oito alunos quando lá estive)...
Além do meu bloco, tenho um caderno A4 (Modelo, Caderno Espiral, Micropicotado, 80 folhas - 70 g/m2, ou seja, dos mais baratos), liso, com vários esquemas, ideias, projectos... Alguns têm dois anos, outros ainda mais (espalhados por outros cadernos) e fico a olhar para eles... Porque os terei escrito? Qual a razão? Cruzam-se em vários aspectos, apesar de parecerem nada ter em comum, e por momentos vejo-me a realizá-los pois acredito neles...
Costumo dizer, em jeito de brincadeira, que as minha ideias têm um adianto de 2 ou 3 anos (e tenho testemunhas!), pois o que escrevi e foi inviável na altura, está neste momento a ser realizado ou a ser-me apresentado... Será isto ser o que se chama de epicentro? Ok, eu consigo ser epicentro, especialmente nos momentos em que jogo futebol (qual Vitor Baía) e esta massa bruta se atira para o chão... Ontem dei um salto e logo os sismógrafos detectaram um terramoto, a notícia de que o epicentro foi na Lourinha foi apenas para despistar :)
E sobre as ideias, vem-me à ideia o epicentro pessoal... O potencial de cada pessoa ser um epicentro de si mesma, um centro catalisador, alguém que intimamente sabe que está nalgum lado por algum motivo específico, sabe que está a ajudar a algo (ao mesmo tempo que aprende, sempre, muito), que a sua presença, ainda que apenas física, está a desencadear uma série de acções invisíveis, sem saber ao certo o alcance da sua presença, dos seus actos e das suas palavras... Hum... Talvez fosse isto que eles queriam que escrevesse... E puseram na minha mente outra ideia: ISC - International School of Care :) Ora aqui está uma boa ideia (ou não). Um local onde as pessoas (re)aprendam a ser carinhosas numa perspectiva integral, com elas e com os outros, com elas interior e exteriormente (ei, não tem nada a ver com botox, roupas de marcas ou joalharia-quinquilharia), com os outros visível e invisivelmente (ou seja, com os que vemos e os que não vemos)... Ah... O tal de epicentro não faz com que apareças no telejornal nem nas revistas cor-de-rosa... Aliás, o papel de epicentro faz-se sem grandes vaidades, sem tiradas espectaculares dignas dos mestres new-age, sem imposição do que quer que seja, sem chegar e dizer: "Olá, pode tratar-me por sr(a) epicentro"... E lá se foram os candidatos a epicentro... :)
Oh... Afinal já tinha escrito algo parecido no meu caderno... :)
É de mim ou o mundo está como que a desintegrar-se? As pessoas sentem cada vez mais a necessidade de ouvir algo interior, um apelo, a necessidade de fazerem mais e além do que a sociedade tradicionalmente requer?
Welcome to a new world!

2006-04-13

Até já

Choveram toneladas de mega bytes, traduzidos em emails, pedindo que escrevesse mais. Mas não se preocupem, a minha cabeça está a acumular ideias e histórias, paisagens e personagens. Estou ausente uns dias, mas volto. Fica a promessa de, depois, deixar de me render à preguiça da poesia e escrever em prosa(c)...

Hasta ya!

2006-04-12

Coisas inúteis... com utilidade

Para quem diz que já sabe tudo... Ou simplesmente para quem acha que esta vida não tem grande importância...

Metro: comprimento do trajecto percorrido pela luz no vazio, durante um intervalo de 1/299792458 de segundo...

Segundo: duração de 9192631770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de Césio 133.

:)

2006-04-10

Acordar

A noite
passou já por mim três vezes,
dilacerou o olhar
nas arestas da vida,
nas estradas vagas e molhadas
parou,
sentida,
enquanto o atropelo do quotidiano
pendia ao abismo,
as mãos tocaram-se de novo
fermentando
na alma a sina,
na pose
à saudade,
que nos reste além
da crua vida,
a dignidade...

Mandou dizer-me o dia,
que é tarde na noite
a hora que construo
à sombra
de memórias não vividas,
não minhas.
O sorriso calou a embaixada
fastidiosa
de mesquinhez,
rugiu
e partiu,
assombrado por um espelho
alado
e furtado
às mãos da falsa pacatez.

Inspiro,
músculo voluntário do viver,
que tentam amordaçar
o olhar e silenciar o amor,
dos que pensam estar eu
em dor,
sabem tão pouco que sou
a acordar...

2006-04-07

Algumas frases de Confúcio

Sendo alguém que nasceu há largas centenas de anos, parecem bem actuais os seus pensamentos...
* Aquele que for realmente bom nunca poderá estar infeliz.
* Aquele que for realmente sábio nunca poderá estar confuso.
* Aquele que for realmente corajoso nunca terá medo.
* O sábio não se aflige por não ser conhecido pelos homens; ele aflige-se por não conhecê-los. * Não faça aos outros aquilo que não queres que façam contigo.
* Escolhe um trabalho que ames e não terás que trabalhar um único dia da tua vida.
* O homem de bem exige tudo de si próprio; o homem medíocre espera tudo dos outros.
* É mais fácil vencer um hábito hoje do que amanhã.
* O homem superior age antes de falar e depois fala de acordo com as suas acções.
* Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.
* A virtude da humanidade consiste em amar os homens; a prudência, em conhecê-los.
* Aquele que mais estima o ouro do que a virtude, perderá ambos.
* A única maneira de não cometer nenhum erro é não fazer nada. Este, no entanto, é certamente um dos maiores erros que se poderia cometer em toda uma existência.
* O homem distingue-se dos outros seres pelo seu sentido de justiça.
* O silêncio é um amigo que nunca trai.
* O caminho da verdade é largo e fácil de descobrir. O mal está em que os homens não o procuram.
* A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros.
* Não são as más ervas que sufocam o grão. É a negligência do cultivador.
* Ser ofendido não tem importância nenhuma, a não ser que se continue a lembrar disso.
* Um jovem em casa deve amar os pais, e fora dela respeitar os velhos. Deve ser discreto, mas, ao mesmo tempo, falar com convicção quando se fizer necessária a sua acção; deve amar todos os homens, sem distinção, e alegrar-se com as pessoas de bom coração. Se assim se portar, terá condições de bem se governar e a outros.
* Se tiveres acesso à fama, comporta-te como se estivesses a receber um hóspede; se estiveres no governo de um povo, comporta-te como se estivesses pronto a oferecer um grande sacrifício.
* Para onde quer que tu vás, vai "todo", leva junto o teu coração.
* Não suponhas ser tão grande ao ponto de pensar e ver os outros menores que tu.

As últimas palavras

Há momentos que iludem o infinito,
os acenos
encenados com olhares furtivos
exprimem-se
por entre letras
do que não foi dito...

As últimas palavras
pesaram na noite,
o sono caiu sobre a lua
e ofuscou o cintilar
das estrelas
que beijaram o universo.
Que as mãos dormentes
selem,
aconcheguem,
as frases ausentes
e durmam,
pois dos meus olhos
pendem apenas,
sozinhas,
um par de lágrimas
vazias...

2006-04-06

14:16 PM

A lua,
o sol,
até as estrelas já partiram
para fora de mim.
O cheiro de terra lavrada
e os cajados animados
com gente simples
e sadia.
A comida vazia,
sem condimento,
à rebeldia brindaram
as nuvens,
há pesadelos que sobem
do medo ao pensamento,
tudo porque as sombras,
que moram em teus olhos,
sem que as vejas
ou sintas,
pedem-me sorrisos
e esvaem-se
como a madrugada.

2:16 AM

A chuva silenciou-me os pensamentos,
o gotejar levou o pólen
que coloria as minhas sombras,
dos ventos
pendem novas castas
e odores,
que impregnam os sentidos
de gastas
faces idosas na solidão
de seus idos amores.

Escrevo de olhos fechados,
no alpendre sucumbem ruídos
e crescem,
por entre pedras conhecidas,
vultos que buscam abrigo
e corpos cansados
com olhos esmaecidos
que já nada sentem.

O relógio,
o relógio não para de tremer
ao ver o tempo fugir,
nem as folhas que caem
ou as rugas,
que também nascem,
ocultarem um novo rugir.
Há sons que se repetem
mesmo aos ouvidos incautos
dos sonhos gastos
que a noite rasga
ao dormir.

Seriam estes olhos
que se ocultam no retrato
cinza?
À luz de uma vela sem pavio,
de uma sombra
rimada a incandescer,
descansa o tempo
sabendo que nas minhas mãos
está a adormecer...

A chuva no alpendre

Gostava de possuir algum tipo de conexão entre o cérebro e o computador... Bem, pelo menos a uma máquina de escrever...
Chove bastante, coisa habitual no mês de Abril, se não estivéssemos nós em plena fase de Revolução Ambiental... Estive mais de meia hora sentado, com o computador ligado, a pensar no que iria escrever ou como iria escrever, organizar algumas coisas que tenho para dizer... Fiquei em paz comigo e com os pensamentos, porque chove e de alguma forma a chuva leva os meus pensamentos...
Estava para me levantar e escrever, no entanto surgiu um velho desconhecido, com a mão aberta e, nela, algumas nuvens que pensei serem algodão doce. Perguntou-me:
- Isto é seu? - enquanto estendia a mão para mim.
Fiquei a olhar para ele, sem saber o que me perguntava, tão pouco sabia quem era e o que queria de mim, já para não referir que é meia-noite e que além do sono, não é habitual alguém desconhecido entrar-me pela janela, com umas bolas de algodão - ups - nuvens.
- Isto, os pensamentos! - estendia ainda mais a mão, com cara impaciente, como se o facto de eu não saber o que era aquilo
- Os pensamentos? - é verdade, eram pensamentos.
- Sim, são seus?
Fiquei parado, devo ter ficado tão atónito que ele abanou a cabeça e dirigiu-se para mim a sorrir. Sentou-se na cadeira a meu lado, sobre a Super Interessante, PC Mais, Anuário de Fórmula de 1989, uma folha para a pontuação do torneio de malhão e o Autosport desta semana.
- Isto... Isto é seu... Vocês não têm cuidado com o que pensam e, depois, lançam isto para a atmosfera - endoidou, pensei - Não sou doido - não acredito, leu-me o pensamento!, pensei de novo - Sim li e tenho-o aqui - e mostrou-me uma nova nuvem.
- Mas, quem é o senhor?
- Ah, pouco interessa o nome, eu apareço de vez em quando, há quem me veja, há quem me sinta como uma leve brisa na face, outros como um aperto na cabeça, outros ainda como um arrepio e outros também como uma memória que os faz sorrir... Eu vejo todos os vossos pensamentos. Vocês pensam, eles saem de vós e colam-se nesta matriz que vos rodeia. Lentamente crescem e materializam-se, vocês começam a sentir o que pensaram, para depois, mais tarde, sentirem a repercussão física desse pensamento...
- Pois... Eu lembrei-me de pensar no totoloto...
- Só materializas o que acreditas!
- Pois... E quem acredita em guerra? Fome? Ganância?
- Vocês... Acreditam profundamente no que dizem... Conheces a frase "Isto está cada vez pior" ou "Não tenho sorte nenhuma"? Não querem que aconteça, mas acreditam, profundamente, no vosso infortúnio, na mesquinhes humana como vossa herança, que teimam em não transformar em algo mais, como te hei-de dizer, mais fraterno... Não se trata de rezar o que quer que seja... Rezar sim, mas com convicção... - e pensei eu "eu sei lá rezar!" - e achas que as pessoas têm que rezar? O defeito das palavras é estarem já bastante impregnadas no colectivo, na matriz, dizes uma palavra e o que surge é tudo o que está agregado à palavra, tenha ela 10 minutos ou 1.000.000 de anos...
Parou um pouco a olhar para as nuvens que tinha na mão... Suspirou.
- Têm que compreender a importância do pensamento, mas a importância para o bem ou, como gosto de dizer, o melhor para todos e não o melhor para o nosso umbigo...
- Que faço eu com os pensamentos? Não penso? É impossível... Mesmo antes de pensar, já estou a pensar no que vou pensar... É difícil.
- Sim, é. E aí reside o belo de tudo isto, porque quando estás a pensar no que vais pensar, estás já a fazer um esforço para alterares a qualidade do que pensas, e isso é sentido, acreditas no que fazes e aí está a coerência de todo o processo... Involuntariamente, estás já a acreditar que podes pensar melhor... Olha, em tudo o que fizeres, vê bem o que pensas, o que sentes e como reages. O mediatismo parece pedir às pessoas que ajam apenas quando forem notadas, mas não é assim, deves agir sempre e em qualquer ocasião pensando, conscientemente, no melhor para todos, independentemente do que esse "melhor" seja... Estão de tal forma habituados a ajuizar, a julgar de imediato, que nem percebem a repercussão disso em vocês, do quanto atraem dos pensamentos dessas situações... Os pensamentos atraem pensamentos (e tudo neles agregado, o potencial emocional e a possibilidade futura do que sucederá), tem cuidado no que pensas e evocas...
Lembrei-me de lhe perguntar sobre a saudade, mas não o fiz...
- A saudade? - pois, o pensamento... - A saudade é boa, quando utilizada correctamente. A saudade pode ser sadia, podemos a qualquer momento pensar, enviar os nossos melhores pensamentos para as pessoas que estão longe, noutra cidade, noutro país, até noutra dimensão... Saudade sadia é pensares em alguém, mas com amor, desejando o melhor, fazendo repercutir fora de ti o quanto de importante essa pessoa foi e é para ti... Fora desta matriz, destes pensamentos, emoções e acções, existe um mundo novo... Porque não começares a furar um pouco desta matriz? É um trabalho silencioso, começa-se por cultivar em nós o sorriso, a paciência, a certeza de existir algo mais, depois, onde quer que estejas podes tornar-te um embaixador de pensamentos mais leves, menos densos, para que esses possam perfurar a matriz e deixar algum sol (outros pensamentos) entrar... E quando muitos pensarem diferente, de forma mais harmoniosa, mais fraterna, então já entrarão novos pensamentos em número suficiente para que outros, mais distraídos, possam desfrutar igualmente desses novos paradigmas.
Levantou-se, fechou a mão e quando a abriu só tinha uma pequena esfera luminosa, que se apagou como se fosse uma brasa que perde o calor, e desapareceu...
- Vou andando.
E foi.
Fiquei como estou agora, calado, atónito, sem perceber muito bem o que se passou.
Ficou apenas este barulho da chuva no alpendre...

2006-04-04

Sorrisos de gente simples

Já o Inverno tremia de frio
quando o Sol despontou,
os sorrisos aproximaram-se
da palmada amiga
e, unidos,
preencheram o silêncio que imperava
da nascente à foz do rio.

Quem disse que a saudade não tem rosto
temia o cair da noite,
porque até estas folhas
de plátano,
que camuflam o cinzento
de passos perdidos,
sabem
interiormente
que, quando fecho meus olhos,
a felicidade salta da vida
para os meus sonhos...