2006-06-28

Still

Os poemas têm sido o "escape" a nada escrever aqui... Fico parado, tentando ordenar as ideias, as histórias que vivo, ouço, vejo e sonho, para as transformar em palavras, mas invariavelmente fico apenas a olhar... No monitor vão passando todos os episódios, todos sem excepção e, por vezes, até têm relação uns com os outros e transformam-se numa espécie de filme com capítulos que apesar de não estarem relacionados uns com os outros, fazem parte de um cenário maior, como as ruas, distantes, da mesma cidade... E enquanto olho para o monitor, muitas outras histórias surgem a meu lado, à frente, por cima pairando... As histórias e seus protagonistas pedem que os escreva, mas não consigo... Surgem por vezes protagonistas de histórias que não conheço e dizem que é apenas para mandar um recado, pode ser uma linha simples de um poema, ou uma vírgula após uma palavra, que obrigue a parar um pouco nessa mesma palavra... Mas hoje, nem ultimamente, não dá... Tenho a convicção, que nem com todo o tempo deste mundo (que aliás não existe - e começaria aqui uma grande dissertação - o tempo, não o mundo - que também não existe et voilá, mais dissertações) eu conseguiria escrever tudo o que sinto...
É como os meus braços, uma envergadura de 1,90 mt, que apesar de grandes, não chegarão nunca para abraçar os meus amigos, conhecidos e desconhecidos...
É como a minha boca, que não chegará nunca a dizer o que deveria dizer, todos os recados, nem que saísse por esse mundo fora a correr e a dizer a cada pessoa: "Olá amigo(a)"...

Bem, tenho que me contentar em ter tudo isto no meu coração... (se ao menos tivesse uma janelinha por onde espreitar, só para mostrar, como aqueles adereços que têm cidades e quando abanamos cai neve...)

Desculpem lá o mau jeito, mas só deu para escrever isto...

2006-06-27

Náufragos

Os faróis afastaram-se dos meus navios,
a espuma baça bailava
contra a proa
do meu sonho,
há náufragos que nunca viram o mar...

Os fantasmas movimentaram-se em pleno dia,
as cortinas abafam a noite
numa toada surda
e cansada,
é ainda da noite o trilho da alvorada...

As faces oscilavam em ameaça sobre a mão,
as lágrimas olharam a saudade
em despedida
do que chegou à falsa vida,
o irreal digitou a dor que o sonho guardou na ilusão...

2006-06-21

Os sons de quando chove

Ia dormir, mais uma vez, sem me sentar aqui e escrever qualquer coisa... Bem, qualquer coisa não, as histórias que vou acumulando permitiam, assim houvesse tempo, paciência e vontade, estar a escrevê-las durante umas boas horas... Mas, vá lá, hoje consegui vencer a preguiça e o sentimento de: "escrever para quê?".

Andava com um poema atrás de mim, já desde dia 13 de Junho, incompleto, que por tanto esperar acabou por se completar por ele, com algumas linhas em branco, aqui vai ele...

Quando chove
a vida adormece.
A nuvem pariu ouro,
que deleita as rugas
que moldam os rostos
envoltos e amparados
por longos
lenços pretos...

E sobre que é este poema? Ou pseudo-poema? Sobre as faces das viúvas que vivem do quintal, das suas faces cobertas por luto eterno, que é o mesmo que o medo da felicidade, digo eu, que nem sou daqui... Quando chove, cai ouro... Assim é a chuva em mim...

Antes de me ir deitar, queria apenas que fizesses um exercício, coisa simples, aliás não poderia deixar de ser simples, porque para ginástica, já basta a da carteira ao longo do mês...
Então aqui vai, começa por te sentares comodamente, mas com regra, costas direitas, pernas quase unidas, antebraços apoiados na cadeira (se não tiveres cadeira, apoia-os nas coxas) e mãos abertas sobre as pernas. Assim, confortável, recorda e visualiza um sonho teu, do coração, bem lá do fundo, daqueles que te enchem a alma (lamentavelmente não enchem a carteira)
, fecha os olhos um pouco e sorri durante 5 segundos (podes contar)...

Agora, que não estás à espera, ouve
apenas (não personifiques, não sou eu a dizer, apenas ouve) a seguinte palavra: Amo-te...

É bom, não é?

2006-06-12

Mais

Há segredos
que velam pela vida,
quantas verdades
se escondem
em mentiras,
que olhos
julgaram ouvir
como um eco,
das mãos rugosas,
que embalam
o chamado
da face direita,
entre dias que vivem à noite.

As linhagens
dos sorrisos voadores
pereceram
com o tempo,
que esvaiu
na fina camada do olhar.

Quando
oblíquos tesouros
me chamam no sonho
já eu sou das estrelas
e das nuvens
que embaçam a retina,
lá,
onde eu sou mais eu
e as vozes díspares
se calam,
no emaranhado
e confuso
pleonasmo,
de viver uma ilusão.

Lá,
onde eu sou mais...
Mais de mim mesmo...

2006-06-08

Sorrisos suspensos

Voltei
da vida
a tempo do medo pontapear,
enquanto degraus sustinham
um passadiço
para o errante
se afogar,
que há ainda quem cante
nas costas do olhar
um velho
suspiro mortiço...

2006-06-07

Sorrisos escorpiões

Ainda que tivesse
três estrelas
e um quarto
de Lua minguante,
jamais o dia
serão seria,
porque em cada pedra
há um escorpião
e em cada sorriso
um senão,
que a vida escalda
e dilui
cada suspiro
no coração...