2008-03-30

A linha da minha vida

Os sulcos crus que me temperam a pele
e a alma,
o ruído de vida
e faces novas
a descoberto,
um silvo que me rasga o sorriso
em flocos de vapor
e neblina.

A cor das cores
maior que uma Primavera,
o prateado ondular de um rio
num passeio agreste
da vida por um fio.

Chegou e partiu
num local deserto e ermo,
que me mova o carril
e a travessa
que me acalma o sonho,
sem ter por onde partir
serei morto
e perfilhado dos montes e fragas,
sem a certeza da cadência
de um relógio a rugir,
morrerá em mim qualquer curva que há-de vir.

Serão de meus olhos a saída,
a face crua
e a alma nua,
porque a linha da minha vida
não é minha,
é Tua…

Paredes com alma

Planto o suor
e cravo a calejada alma
na terra,
na vida.

A companhia do vento
de um destino agreste,
o ciclo de um estio
que a enxada rasga,
ser o dia madrugador meu alento,
o som ondulante
dos velhos moinhos de vento
o único livro que leste.

O escuro ocaso de um destino,
ter mãos de ceifeira
e uma alma entregue a Deus,
um odor a terra,
feno e erva,
aquilo que outros chamam de merda.

Ser relógio de Sol
e nuvens atiçadas,
dar asas a sonhos
e chorar filhos idos
que são colheitas derramadas.

Tudo esquecer
quando a mão no ventre quente
esmaecer,
ser do chão
para voltar a semear nas nossas vidas
um Verão,
orgulhar um braço forte
com o verde que nos acalma,
ser pedra e erva
em Paredes
com Alma…

2008-03-28

Fortuna navegante

Estrada,
olhar,
um suspiro perdido
na face que te ocultar,
um sono eterno
que trazes contigo,
vacila no forte,
e na esteira do sorriso
entra-te o mar
e a sorte.

Levo riqueza comigo
e tinta,
que se estende na paleta
das mãos
e de um amigo,
em frases que calei entre vidas,
pendendo do sono
e a dormida,
pinto-te no firmamento
onde entras
com torpor,
a matiz que me respira sozinha
tem nome de sonho:
amor...

Falas onde outros não escutam,
oscilas anónima
nas ameias que te prescutam,
no cálido incolor entardecer
que baila no céu
da alma (da alma?),
apesar de perdido
por entre nuvens altas e dormentes,
rio-me do dia, da noite,
de mim, da morte
e é por teus olhos
que me entra o mar
e a sorte...

2008-03-18

Ido futuro

Ternura,
trajas vida no olhar
e nos passos
serenos
que é o teu respirar.

A mão
e o pousio,
o sorriso lateral
que faz o mundo inteiro
surgir,
vazio.

Saudade
e o Outono
que trago algures em mim,
frutos caídos
das noites ausentes
e as nuvens, cerradas,
que permeiam o vácuo
entre o não
e o sim.

Encontra-me,
nas cidades
que são as avenidas vazias,
entre cada pedra
e mão,
no ido futuro
ou agora,
no chão...

2008-03-13

A gente não lê

A quem vem aqui frequentemente peço desculpa pelas teias de aranha e pelo pó.
Este blog parece um candelabro antigo. As ideias são novas, os sonhos semelhantes aos de outras vidas. De igual, apenas eu. Não tenho escrito, trago na minha camisola dobrada, ao colo, uma quantidade imensa de histórias e poemas, prosas e rosas, mas não os/as consigo escrever, desculpa(-me).


Em breve, sim, em breve talvez consiga estar presente com P grande, agora é apenas hora de olhar para o relógio, pousar todas letras ao lado da minha almofada e adormecer, na esperança de todas elas, letras, esculpirem um sorriso permanente na face e contra-face das faces da vida.

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Dia 20 estarei na FNAC do GaiaShopping, num evento promovido pela FNAC e pela Corpos Editora (que "editou" o meu livro), integrado nas comemorações (antecipadas) do "Dia Mundial da Poesia". Serão distribuídas 600 mini-books de livros de 46 autores (entre eles o meu) até final do dia 21. Apareçam e apoiem quem apoia a cultura.

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Escrita por Carlos Tê (quem mais?) e tocada/cantada por Rui Veloso, a música "A gente não lê" parece feita exclusivamente para a voz de Isabel Silvestre. Resume muito daquilo que "sou".