2011-04-25
Páscoa
Há ocasiões, como nestes dois últimos sábados, que volto a ser criança. Ele não me pede, fala, e eu é que peço para ir. Vou levar um móvel, uma garrafeira, uma prateleira, vou tirar medidas (na verdade vou apenas ver, segurar na fita ou no bloco), fico ali ao lado dele, com um sorriso tímido, como se ainda tivesse 10 anos. Há algo mágico, que não sei explicar, que tento escrever, mas que me deixa ainda mais frustrado, pois sei que não existem palavras. Talvez alguém que tenha/passe por algo assim ou semelhante e com melhores dotes de comunicação possa fazer, mas eu não consigo. Pegar num móvel em esforço, para depois me lembrar que tenho 35 anos, que não preciso de tanta força assim, que sou um homem. Saber para que lado virar, como pegar, como colocar os pés nos degraus, para que lado empurrar, qual a peça de ferramenta que vai precisar a seguir. É esta cumplicidade. O pouco diálogo. Cortar o silêncio com um comentário sobre futebol (do qual me desligo lentamente) ou uma nova teoria de conspiração, ou sobre o livro novo que estás a ler. É falar sobre tudo e sobre nada. O trabalho que dá fazer um parafuso. O mistério que é o Universo, o seu início, o seu fim, o nosso fim. Experimentar um novo troço de autoestrada para te ver como eu era em criança, maravilhado com algo novo. Ainda guardo um cubo de madeira, é a letra Z curiosamente, sobrou-me a última letra de todos os cubos que fizeste com todas as letras e com as quais aprendi, sozinho, a ler e a escrever ao copiar o que via escrito nos livros que lias na altura. É estar sentado no escuro, nos Invernos com trovoadas que levavam a electricidade, sob um coberto cor-de-laranja, contigo a mostrar-me a magia, ao soprares e só passados uns segundos a vela a oscilar.
Tenho 35 anos e, no entanto, quando conduzo, é como se fosse ainda a olhar para ti, a segurar com as mãos um livro do Lucky Luke e a imitar todos os teus movimentos no volante.
É entrar agora contigo no café, ser mais alto uns bons centímetros, dizerem-te "lá vêm os Casagrande", ou tu sorrires e dizeres "atenção que hoje trago guardo-costas!".
É ver-te sentado no sofá, a dormir, e eu apagar a televisão ou baixar o volume e tu responderes "eu estava a ver".
A vida já te deu vários pontapés na boca e tu ainda continuas maravilhado com ela, com a magia da vida, a acreditar na bondade das pessoas, a seres bom, ainda que nem o saibas que és.
Penso ainda, por vezes, condicionado por esta sociedade, que deveria ser riquíssimo, dar-te tudo o que me dás, mas vejo agora que, meu Deus, não há riqueza maior que esta, que nos rirmos com piadas que só nós conhecemos, sinto ainda que vou abraçado a ti, com os olhos fechados, a sentir o vento nas pernas e nas mãos, com o capacete a bambolear, sentado na traseira da barulhenta Java.
É sentir que aconteça o que acontecer, sempre nos teremos uns aos outros, a família, os verdadeiros amigos, enquanto houver pontes, grutas, erva, sol, noite, rios, enquanto houver um universo nada poderá existir que nos tire a liberdade de sermos quem somos, de nos rirmos quando mordemos uma extremidade de um cachorro especial, desses que se compra nas roulottes, e ver cair da outra extremidade um monte de batatas fritas ao mesmo tempo que fugimos com os pés para trás para não nos cair a carrada de molhos que pedimos para colocar sobre aquela saborosa mixórdia.
Se um dia eu puder ser mãos, quero ser as tuas.
E o mais fantástico é que nada disto é novo, é cíclico, já o tinha comigo antes de nascer, continuará comigo e apesar de não saber porque razão escrevo isto agora, faço-o. Porque sim. Porque estas coisas não se explicam e eu estou a aprender que nem preciso de escrever bem, de ser fiel às minhas memórias ou sonhos, porque na verdade e embora me entristeça, porque gostava de poder transmitir tudo aquilo que sinto, tudo já foi escrito, tudo já existe em cada um de nós, em cada uma das pessoas, porque somos felizes com nada e o Universo está cheio dele.
Virá o dia em que não precisaremos escrever (e tudo o que se perde do que vem do etéreo para o cérebro e deste para as mãos) e aí sim, todos saberão o que é escrever com o olhar.
Até lá, vou perdendo o olhar em tudo o que me rodeia, na tentativa de, um dia, as minhas mãos serem um pouco a extensão do que Sou.
2011-04-19
2011-04-18
(lu)Ar
Aqui perto
as nuvens
chovem-me lá
ao longe
como o ribombar surdo
de uns dias que não nascem,
a cidade dissolve-se a cada Verão
as paredes, ainda que vivas,
são túmulos de velhos tocantes
numa orquestra onde todos são solistas.
Cada porta uma teia
onde habitou um conto,
uma história,
a epopeia de um Ulisses fragmentado
que se veste de memória.
Nem sempre fustiga o vento,
sopra, somente, à feição do soluçar
que pode alimentar um lamento
ou despedir-se de ti,
Luar.
2011-04-17
Uma música encomendada
Um Sol no meu dia a nascente do que desejo
Um trilho abandonado no teu beijo
O amor que se entrega e devaneia
à procura da nuvem que te leia…
Um sorriso teu na timidez do que sou
Viajas comigo nas ruas onde não estou
A sombra invisível projectada no meu dia
Trinado solitário de um crepúsculo de magia…
refrão
E os quadros que pintamos serão o céu
da paixão que bailamos no liceu,
Um sulco marcado pelas águas da vida que nunca morreu…
Há em mim um pequeno tudo de ti
Sabor de vida que ainda não vivi,
Somos um segundo da eternidade futura, da canção que escrevi.
O vazio preenche-me os pequenos nadas
E inundam as velhas ondas nas barras
O porto ancorado a um mar isolado
Na ilha deserta, que se chama fado…
Olhares almejados são paredes austeras
Os dias e noites que me rosnam como feras,
A idade faz-me velho num corpo de novo
És a vida que sacia, mas que não sorvo…
refrão
Guardo o segredo de te saber ninguém
Um passado futuro que me contém,
Os passos marcados no afago adiado
As curvas da estrada pendem para o mesmo lado.
Nada do que escreva no teu caminho
Conjuga as notas dum maestro sozinho,
O acorde que se agarra à minha mão
É o voo adiado na palma desta canção…
refrão final
E os quadros pintados são o céu
da paixão que escrevemos e nasceu,
o sulco profundo do rio aberto que é teu.
Tens em ti o tudo que sou e aclama
A noite cantando na tua alma,
Nós no sonho, que suspiras na boca, que me ama.
FaDo
Transporto vários punhados de nuvens
que semeio escondido
nas memórias entrelaçadas
de um puto de ilusão vestido.
Caminho a teu lado
no doce sabor de uma surpresa,
aprendo a sorrir como quem reza
e se espanta com o negrume do fado
cantado
por uma guitarra presa.
2011-04-14
Na alvorada silvestre que desconheço
anseio-me ao futuro que teci,
caminhando no teu ombro onde adormeço
desconhecendo os dias
que vivi.
Ausculto as árvores
cujos frutos nunca amadureci,
sem raízes
ou folhas,
apenas vento,
aos molhes,
vou-me precipitando lentamente
sem que me evapore
a vontade de,
orvalhando,
nascer...
2011-04-11
2011-04-10
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