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A mostrar mensagens de Março, 2014

Se pringue

Restam-me rebentos nos ramos que não quis podar. Ausculto o bater lento, mas ritmado do tempo ao longo dos séculos e prostro-me perante cada um dos segundos que são os primeiros do momento presente. Nada mais resta à dicotomia além de ser complacente com quem pensa, permitir a existência e dar-me a provar um pouco de mim nos outros, outras, pessoas, situações, próprios pensamentos e ilusões. Gosto deste momento, que não faz depender dele o rebentar das flores pelas bermas da estrada. Gosto de sentir tudo e ser feliz por nada.

Destapar

A gloriosidade de um gesto animal, o olhar de uma inocência cabal, onde reside o mal? Enquanto o vento correr atrás do comboio, as luzes dos trovões se atropelarem quando ribombantes estiverem ocupadas pelo temor ancestral daquilo que do céu cai, enquanto de mim só escorrerem ilustrações sem mais ditongos além do ai. Enquanto viva, quantas cantaras pela noite acima? Silenciosamente, colecciono todas as nuvens que a chuva assina. Quem sabe se, num próximo sorriso, chove mais uma rima?
Inundam-me  o sono e o eco abafado que é a repercussão das vozes aos meus pensamentos. Nunca o vácuo se sentiu tão isolado, porque o infinito descansa agora, a meu lado.

Comer o pão que o sonho amassou

Da minha ceia, Senhor, cabem ainda em mim pregões que não benzi. Aquilo que chamam vida já lá mora no sacrário, em terra de gente cinzenta resta o branco do sudário, e a canalhada, inocente, que de tudo ri. E, eu, nascido em tempos em que o suor já não fazia a ceifa, na inocência e na recordação desejo apenas a côdea da vida em forma de regueifa.

Monumento

Algures, alguém, talvez ninguém travará a batalha dos ímpios por entre rios e canaviais, a solidão de toda uma legião e a cada agrura o seu tormento. Pudesse saber o homem, no vácuo entre a vida e o lamento, que ele próprio, inconsciente, se torna monumento.

703

Confesso, Eremita, Com fé só. E com todas as palavras que cabem no embaciado vidro do autocarro, baixa o pano sobre um dia que parece nem ter nascido. Ou se nasceu, há muito foi ido. Não o sei, distante ou ausente, o que me separa do que sou tem semelhanças com o que é diferente. Confesso. Não sou eu que me meço.

(Mad)eira

A placidez do silêncio. A candura do céu estrelado. O frio que se amena ao cair na pele. O vulto encrustado nos anéis da madeira, eu, que sou ele.

Barões desarmados

Quem te procura, além da sombra deste poste desiluminado e do caminho buracado. Quem te procura no balançar de uma barca feita de pessoas sem marés vivas, apenas águas estagnadas que se agitam de quando em vez, por exemplo, quando no charco resvala um seixo, um godo, uma palavra, um gesto. Divida-se a vida e o trabalho, o resto será carta fora do baralho, o quociente demorará a encontrar um percurso, há quem lhe chame legenda, mas, para mim, só há ali fenda por unir, saudade a partir, consciência a parir. Canto e desencosto-me decassilabicamente sem epopeia, apenas alma, cheia, que leva ao que faço: abraçar os mundos sem dar um passo, atar-me de constelação em constelação sem um nó, eu, sociedade de um homem só.

Dias(pora)

Partilho comigo este momento. Dou oportunidade à vida para saber o que penso dela. Tento resumir a uma palavra, mas como poderei, se um simples olhar pelo envidraçado para a tarde que se começa a ir embora e se despede deixando no chão e nas paredes o resto de um dia em forma de sombra? Se me sobrar tempo para vagabundear um caminho, hei-de adormecer junto ao calor de uma fogueira ou do ameno amor que até as pedras parecem saber emanar. E do ameno ao adormecer, do alaranjado anoitecer, sucumbem-se as palavras e nenhuma resta, nem uma para me despedir de um dia onde o calor se confunde com a candura da miudagem, o aceno da camaradagem e o olhar de quem nos faz alguém. Custa-me fechar os olhos a mais um dia e ficar, breves minutos, em silêncio com quem melhor me escuta, sem ter nada a dizer. Talvez existam palavras que são para serem proferidas apenas e quando nos apercebermos que somos apenas uma letra num alfabeto eterno. Sem minhas palavras: hoje está, amanhã Deus dará.

(Vo)ar

Caber na vida, sem pertencer ao corpo. Vestir o catálogo da indiferença e deixar descansar em qualquer prado ou socalco um pedaço de mim. Querer laminar a vida em dias com sabores diferentes...ver saborear os mesmos aromas de quem tem palato poluído pelo que expulsa em forma de palavra. A vida sabe-me a voo de milhafre. Vou aprender a voar.
Gosto da forma como as pessoas, daqueles com muita gente dentro, se entrega de corpo e alma àquilo de que se fazem os sonhos concretizados. Há-os. Por aí, à espera de quem os abrace e se deixem pertencer a quem deles nada quer, além de vivê-los.

Roteando

Quando a memória se esconder atrás do passado, deixando escorrer apenas lembranças de um tempo desvivido que subsiste apenas pela persistência de quem ao escutado tricotou mais um ponto. Quem será história? Quem será o conto? Das descoloridas películas penderão os vultos assombreados que se assemelham a eternos guardas invisíveis nos quartéis. Mas quando se desmoronar o tempo, quem segurará os capitéis?

Through the bars of a rime

Voltarei, sempre, à semibreve nota que não esqueço por muito que este aglomerado de frequências errantes teime em me dessintonizar ou desacordar ortograficamente. Repercuto infrequentemente porque sei, lá no íntimo entre as linhas da minha pauta, que este caos sonoro levará algures a uma ordem causal, como o tempo, que nos faça ver, perdão, ouvir, que somos todos notas da mesma sinfonia. Sintonia de quem se escuta escutando, sem necessidade de escutar as sinfonias dos outros. Faça-se Luz e, depois, luzidie-se a Música, mesmo a inaudível (eis o meu silêncio).

Fogo de papel

Não, não é pela longura de dias que meço tempos. O tempo é que se deixa atravessar por horas, minutos e segundos consoante a intensidade que nos quer impor à memória. A minha, memória, perde-se sempre no último segundo que é meu mais próximo passado. Esta incerteza, no futuro, encontro-a na própria palavra, que é um fôlego que não sabemos se iremos dar ou receber. Prende-se por vezes o presente tapando os olhos e segurando uma lágrima, o último esforço de se prolongar o passado em mais do que um segundo. O que escrevi é passado, prescreveu, não existe mais, se perguntarem por quem escreveu tamanha insensatez, eu mesmo responderei foi aquele ali que era eu na meia esquina, com ar de quem se deixa perder, sim, bem sei que não o consegue ver. Esse está agora aqui, calado, enfeitiçado pelo tempo e zelando o último segundo para que o presente seja de facto um ate já. Há-de haver o nada onde caberá toda a minha falta de espaço e uma eternidade para que os segundos repousem em paz, numa ete