Deixei que a noite lhe cravasse as garras,
o impugnasse secretamente
ao som de um carrossel abandonado,
um café borbulhante
que suga estas penetrantes amaras…
Despedi-me dele,
infinitamente,
após o espelho me avisar
da triste figura que ostentava
solenemente…
O olhar raiada era triste,
desamparado pelos sorrisos,
de longínquos amigos,
agarrados apenas à noite
que abraçou o dia,
para não morrer quando este fosse,
pela última vez,
nascer…
Quantas rugas
e histórias,
lágrimas e memórias,
em tons de cinzento
e violeta,
em sons
de uma baioneta
rombuda e gasta,
que se despede:
“hasta!”
A corja voltou,
descendo dos céus inferiores
em urros sujos e delatores,
em frondes altaneiras
da ebriedade
que voltou…
Gasta-o vida
aos olhos do sorriso que partiu,
o corpo que o sustenta
e alimenta,
pede à alma que o atiça
e aos soluços do parto,
que o acaricie
e dignifique,
que o esquarteje
e mortifique…
Oh noite,
esses teus amigos inquietos
são filhos de quem?
Do luar que o Sol te dá
ou destes cavaleiros
que o dia sustém?
2005-09-22
2005-09-19
O facto do nada
Isto não é poesia,
de facto não é nada
que minhas mãos possam tecer…
É uma dor fininha
que cala o silêncio,
transmuta a ilusão
em folhas negras de jornal,
isto não é o bem
nem tão pouco o mal…
As rugas na caneta
que escreve o destino,
em longo traço fino,
são pedras e sombras
molhadas,
fruto do ventre podre
de turvas águas passadas…
Mesmo o cerrar dos olhos
na claridade artificial,
ou na noite, é tudo igual,
não traz por si os sonhos,
mas sim fantasmas
enormes
irreais,
medonhos…
de facto não é nada
que minhas mãos possam tecer…
É uma dor fininha
que cala o silêncio,
transmuta a ilusão
em folhas negras de jornal,
isto não é o bem
nem tão pouco o mal…
As rugas na caneta
que escreve o destino,
em longo traço fino,
são pedras e sombras
molhadas,
fruto do ventre podre
de turvas águas passadas…
Mesmo o cerrar dos olhos
na claridade artificial,
ou na noite, é tudo igual,
não traz por si os sonhos,
mas sim fantasmas
enormes
irreais,
medonhos…
2005-09-18
Ser onde não estar...
Soltaram-se, na calada da noite,
os espinhos que soluçam
e me pertencem
sem serem meus...
Estão
e não são...
O vento que me trouxe
ao encontro de ti,
caneta,
é o mesmo que deambula
como um açoite,
que baila no luar
nascente da noite,
das trevas do dia...
É o oceano do sorriso,
o toque morno de carne fria,
a canção que teima em morrer
nos lábios de quem,
ou alguém,
que não sabe ainda nascer...
As mesas que ornamentam,
ou alimentam,
as mãos que se unem
e aliam aos sorrisos,
valem mais que meros suspiros
das lágrimas que suam,
que caem
e esmaecem,
matizam as minhas,
que crescem...
A bela e o senão...
O peito e a mão...
São os anos que vindimam a idade
e a jogam,
como crianças,
para longe da memória
bem dentro das entranhas
da minha história...
Percorro-te,
talvez pela última vez,
encandeado pelo negro véu
que assola e entorpece a razão.
O amor e a dor
estão prostrados na minha fria mão.
Que não morram, também,
em lento torpor
e cândido ardor,
as vossas faces em mim
e os sorrisos que são, afinal,
as mais belas flores
do meu velho jardim...
Fim?
os espinhos que soluçam
e me pertencem
sem serem meus...
Estão
e não são...
O vento que me trouxe
ao encontro de ti,
caneta,
é o mesmo que deambula
como um açoite,
que baila no luar
nascente da noite,
das trevas do dia...
É o oceano do sorriso,
o toque morno de carne fria,
a canção que teima em morrer
nos lábios de quem,
ou alguém,
que não sabe ainda nascer...
As mesas que ornamentam,
ou alimentam,
as mãos que se unem
e aliam aos sorrisos,
valem mais que meros suspiros
das lágrimas que suam,
que caem
e esmaecem,
matizam as minhas,
que crescem...
A bela e o senão...
O peito e a mão...
São os anos que vindimam a idade
e a jogam,
como crianças,
para longe da memória
bem dentro das entranhas
da minha história...
Percorro-te,
talvez pela última vez,
encandeado pelo negro véu
que assola e entorpece a razão.
O amor e a dor
estão prostrados na minha fria mão.
Que não morram, também,
em lento torpor
e cândido ardor,
as vossas faces em mim
e os sorrisos que são, afinal,
as mais belas flores
do meu velho jardim...
Fim?
Um desenho da alma
Olharam
e partiram,
sem querer
que o mundo as possa ver...
São fartas
nas tuas cartas,
delirantes
em almas erradas.
Espartanas
como falsas filigranas,
doentes
como sãos dementes...
Assim são os olhares que me devoram,
que nas campânulas moram...
Tangível,
mas fugidio,
o destino vai correndo atrás de mim,
ansioso e frutuoso,
tentar encontrar-se
ainda antes do fim.
Como é amargo o soçobrar
dos meus braços,
o odor da tinta
que estupra e pinta,
que me dói
e não finda...
Inibidor,
o elogio do feitiço
cobre-me de saudade
se tenta acalmar
as chamas que atiço,
mas é brando o lume
ou orvalho,
é sereno e mortiço.
Refugia-se no aperto de mão, no olhar compreensivo
da sinceridade de um amigo,
que de frágeis
papéis
gastos, sujos, velhos e mudos,
faz de um poema
vivido,
talvez sentido,
um desenho da alma
que trago comigo.
Deitas-te agora,
sobre as palavras que gasto
sem sentido,
mas sentidas,
há um vulto que se aproxima de mim...
Fim?
e partiram,
sem querer
que o mundo as possa ver...
São fartas
nas tuas cartas,
delirantes
em almas erradas.
Espartanas
como falsas filigranas,
doentes
como sãos dementes...
Assim são os olhares que me devoram,
que nas campânulas moram...
Tangível,
mas fugidio,
o destino vai correndo atrás de mim,
ansioso e frutuoso,
tentar encontrar-se
ainda antes do fim.
Como é amargo o soçobrar
dos meus braços,
o odor da tinta
que estupra e pinta,
que me dói
e não finda...
Inibidor,
o elogio do feitiço
cobre-me de saudade
se tenta acalmar
as chamas que atiço,
mas é brando o lume
ou orvalho,
é sereno e mortiço.
Refugia-se no aperto de mão, no olhar compreensivo
da sinceridade de um amigo,
que de frágeis
papéis
gastos, sujos, velhos e mudos,
faz de um poema
vivido,
talvez sentido,
um desenho da alma
que trago comigo.
Deitas-te agora,
sobre as palavras que gasto
sem sentido,
mas sentidas,
há um vulto que se aproxima de mim...
Fim?
2005-09-14
Vivendo sucumbindo
(Há muito, muito tempo atrás... Perdi a data deste poema, mas é bonito vê-lo agora com outros olhos, sentir a energia que dela emana e pensar: "já estiveste assim"...)
Chovem a meus pés as longas tranças de força descomunal,
amputam cada membro que sustenta o tronco
como se fossem mais um sonho.
As pálpebras pesam,
quem sabe não desejarão os olhos sucumbir,
puxando para eles o manto que os cobre
e escondendo-se da imagem que o vento traz
no irreal
Não sei se inspiro
ou força o vento sua entrada no meu corpo.
A vida abandona-me
e leva para longe os telhados de xisto
prostrando no meu peito este teatro que assisto.
Desenrola-se o caminho em mim
e sulca a estrada debaixo desta matéria inerte,
mas eu quero estar parado,
permanecer calado,
ser um apêndice da vida
a quem os outros chamam sina
e esperar que o mundo se renda.
Caiam as armas defronte à apatia
elevando-se o Sol que envergonhado se pôs
fugindo da noite que a imaginação supôs.
Porque foge a paisagem quando passo?
Só em mim fica o barulho da chuva,
são gotas de algo que, indefinidamente, me abalam
e indecisas derrapam na gravidade que os atrai.
A massa disforme a que chamam corpo está inerte,
constato-o ao vê-la longe, abandonada, numa lareira
em que o tempo envolveu e acorrentou.
Restam as ervas que a cobrem como um tapete de luz
e os vermes que penetram na carne morta…
Agora que as palavras desistem de afirmar
ou pedir insoluvelmente ajuda
retorno à inebriante paisagem imaginária que me seduz.
Chovem a meus pés as longas tranças de força descomunal,
amputam cada membro que sustenta o tronco
como se fossem mais um sonho.
As pálpebras pesam,
quem sabe não desejarão os olhos sucumbir,
puxando para eles o manto que os cobre
e escondendo-se da imagem que o vento traz
no irreal
Não sei se inspiro
ou força o vento sua entrada no meu corpo.
A vida abandona-me
e leva para longe os telhados de xisto
prostrando no meu peito este teatro que assisto.
Desenrola-se o caminho em mim
e sulca a estrada debaixo desta matéria inerte,
mas eu quero estar parado,
permanecer calado,
ser um apêndice da vida
a quem os outros chamam sina
e esperar que o mundo se renda.
Caiam as armas defronte à apatia
elevando-se o Sol que envergonhado se pôs
fugindo da noite que a imaginação supôs.
Porque foge a paisagem quando passo?
Só em mim fica o barulho da chuva,
são gotas de algo que, indefinidamente, me abalam
e indecisas derrapam na gravidade que os atrai.
A massa disforme a que chamam corpo está inerte,
constato-o ao vê-la longe, abandonada, numa lareira
em que o tempo envolveu e acorrentou.
Restam as ervas que a cobrem como um tapete de luz
e os vermes que penetram na carne morta…
Agora que as palavras desistem de afirmar
ou pedir insoluvelmente ajuda
retorno à inebriante paisagem imaginária que me seduz.
Boa noite
Boa noite. Aparece sempre, a qualquer hora, a meu lado dizendo: "Boa noite!"
Já deveria estar habituado, há tantos anos. Com outras vozes e rostos, mas sempre o mesmo "Boa noite!", seja dia ou efectivamente noite.
Sorri a meu lado, faz uma cara de espanto quando ponho um ou outro poema no blog. "Uau, tanta coisa, é tudo teu?" E eu respondo que não, que são todos emprestados, que são chaves para portas que não querem ser abertas.
Hoje, neste preciso momento e disse-me: "Acabou a brincadeira rapaz, tens que escrever..."
Eu mando em mim, por enquanto, e com olhos de sono digo "talvez amanhã... hoje estou cansado..."
Já deveria estar habituado, há tantos anos. Com outras vozes e rostos, mas sempre o mesmo "Boa noite!", seja dia ou efectivamente noite.
Sorri a meu lado, faz uma cara de espanto quando ponho um ou outro poema no blog. "Uau, tanta coisa, é tudo teu?" E eu respondo que não, que são todos emprestados, que são chaves para portas que não querem ser abertas.
Hoje, neste preciso momento e disse-me: "Acabou a brincadeira rapaz, tens que escrever..."
Eu mando em mim, por enquanto, e com olhos de sono digo "talvez amanhã... hoje estou cansado..."
2005-09-13
Vitrina embaciada pelo fumo do cigarro
Desilude-me o cruel,
entre carumas que fintam o vento
onde passam raios de um Sol esmaecido
cai o pólen dos ecos perdidos do viver.
A luminosidade que vagueia é espontânea,
própria dos envidraçados redentores de sonhos
que lutam contra o embaciado da tua voz…
Um pássaro negro calca um ramo
e sorri antropomorficamente,
são os vasos que latejam canais
onde corre o líquido injector do sorrir,
que dedos frios estes do vulto,
que sede de carregar com uma nuvem
e fazer chover,
que ânsia de implodir omnipresentemente
e sucumbir,
morrer…
Heras,
galhos e outros tais que amam o tronco,
sobem e sugam seiva,
amam e correm vadios pelo passado.
Rodeiam-nos asas e ruídos
sons e tépidos olhares embevecidos,
são os que ondulam intemporalmente
aqueles a quem chamam mendigos.
Unanimidade em multi tons,
raças distintas do solver
em matizes que gorgolejam numa encruzilhada,
meias palavras que falam
ou cantam
o que sente a madrugada.
Quadrículas escritas a vermelho
indagando o rumo destas lousas negras com musgo,
corre a água nas caleiras
adormece-me a noite com o som das goteiras
e inebria-me o fumo que jorra dos colmos.
Se o salpicar salgado fura o ar perfumado
quem sou eu para contrariar
a serenidade que rompe o choro instigado?
entre carumas que fintam o vento
onde passam raios de um Sol esmaecido
cai o pólen dos ecos perdidos do viver.
A luminosidade que vagueia é espontânea,
própria dos envidraçados redentores de sonhos
que lutam contra o embaciado da tua voz…
Um pássaro negro calca um ramo
e sorri antropomorficamente,
são os vasos que latejam canais
onde corre o líquido injector do sorrir,
que dedos frios estes do vulto,
que sede de carregar com uma nuvem
e fazer chover,
que ânsia de implodir omnipresentemente
e sucumbir,
morrer…
Heras,
galhos e outros tais que amam o tronco,
sobem e sugam seiva,
amam e correm vadios pelo passado.
Rodeiam-nos asas e ruídos
sons e tépidos olhares embevecidos,
são os que ondulam intemporalmente
aqueles a quem chamam mendigos.
Unanimidade em multi tons,
raças distintas do solver
em matizes que gorgolejam numa encruzilhada,
meias palavras que falam
ou cantam
o que sente a madrugada.
Quadrículas escritas a vermelho
indagando o rumo destas lousas negras com musgo,
corre a água nas caleiras
adormece-me a noite com o som das goteiras
e inebria-me o fumo que jorra dos colmos.
Se o salpicar salgado fura o ar perfumado
quem sou eu para contrariar
a serenidade que rompe o choro instigado?
2005-09-08
Vielas
Caminho para um deserto,
é um pilar num ermo da existência
onde cai quem se indaga,
talvez o frio límpido da demência
libertado do fumo ardente de uma saga.
Pé ante pé,
em passos rápidos omnipresentes,
calcando um futuro no retorno do sonho,
são rastos de voos errantes
por uma multidão que não sabe o que é.
Mostra-me a porta,
será por aí que sai o tempo?
Quem tem medo do linear declive do pensamento?
As esquinas onde dobra a calçada
no granítico sujo, frio, da manhã
são locais onde não cabe o amor
que um pobre mendigo me dá…
é um pilar num ermo da existência
onde cai quem se indaga,
talvez o frio límpido da demência
libertado do fumo ardente de uma saga.
Pé ante pé,
em passos rápidos omnipresentes,
calcando um futuro no retorno do sonho,
são rastos de voos errantes
por uma multidão que não sabe o que é.
Mostra-me a porta,
será por aí que sai o tempo?
Quem tem medo do linear declive do pensamento?
As esquinas onde dobra a calçada
no granítico sujo, frio, da manhã
são locais onde não cabe o amor
que um pobre mendigo me dá…
2005-09-07
O dia seguinte
Espreito, ansioso, o dia seguinte.
A tela móvel acompanha-me na jornada
onde sou actor e realizo,
cada sequência é dejá-vu
que saboreio como se fosse o mais sublime requinte,
mas as imagens que vêm beber a água dos meus olhos
pregam-me partidas,
socam-me com sonhos futuros que vivi
e olhares meus nos olhos de outros
e outras.
Agora questiono à vida que realizei,
Quem sou?
A tela móvel acompanha-me na jornada
onde sou actor e realizo,
cada sequência é dejá-vu
que saboreio como se fosse o mais sublime requinte,
mas as imagens que vêm beber a água dos meus olhos
pregam-me partidas,
socam-me com sonhos futuros que vivi
e olhares meus nos olhos de outros
e outras.
Agora questiono à vida que realizei,
Quem sou?
2005-09-06
Noite solitária
A maior parte dos poemas que coloco são fruto de um caminho, são pequenas pedras num rio, que me ajudaram a saltitar de margem em margem à procura de caminhos internos... Não os esqueço e pedem-me eles, agora, que os traga à luz do dia.
Sabes,
a dor que me imobiliza é amor,
é puro-sangue que voa sobre a planície,
e o respirar ofegante da noite faz as searas,
ao seu sabor,
ondular,
mas se o choro que me acomete
purga a certeza da existência
porque devo eu morrer em cada dia
que véu é este que me expõe à demência?
Mergulho no olhar morno e meigo,
o reflexo é meu e do espelho partido,
o sorriso que exibe o Sol esvaiu-se no ocaso
em respostas não perguntadas
pela fibra do tecido o
u vestes que cobrem o fino
e frágil sofrer…
Sabes,
que palavras são estas que tentam sorrir?
Pode a imensidão da noite a solidão sentir
se está ela em todo o espaço circundante,
se é ela, ai minha noite, tudo a jusante
mesmo quando em pleno dia
as estrelas teimam em cair...
Sabes,
a dor que me imobiliza é amor,
é puro-sangue que voa sobre a planície,
e o respirar ofegante da noite faz as searas,
ao seu sabor,
ondular,
mas se o choro que me acomete
purga a certeza da existência
porque devo eu morrer em cada dia
que véu é este que me expõe à demência?
Mergulho no olhar morno e meigo,
o reflexo é meu e do espelho partido,
o sorriso que exibe o Sol esvaiu-se no ocaso
em respostas não perguntadas
pela fibra do tecido o
u vestes que cobrem o fino
e frágil sofrer…
Sabes,
que palavras são estas que tentam sorrir?
Pode a imensidão da noite a solidão sentir
se está ela em todo o espaço circundante,
se é ela, ai minha noite, tudo a jusante
mesmo quando em pleno dia
as estrelas teimam em cair...
De quem não conheci
Invoco a saudade da face de quem não conheci
na presença da sombra,
saboreio a ausência de um sorriso que não vivi,
a mescla de emoções no vazio da noite
entre vagas de ondas, serenas,
e bandeiras desfraldadas num barco de velas amenas.
Os passos que graduam o quotidiano inexistente
vagueiam entre fronteiras
reais,
imaginárias,
no ondular pacato da imaginação
entre veredas de olhares
que não vislumbrando o invisível
rasgam a despedida que precede a solidão.
na presença da sombra,
saboreio a ausência de um sorriso que não vivi,
a mescla de emoções no vazio da noite
entre vagas de ondas, serenas,
e bandeiras desfraldadas num barco de velas amenas.
Os passos que graduam o quotidiano inexistente
vagueiam entre fronteiras
reais,
imaginárias,
no ondular pacato da imaginação
entre veredas de olhares
que não vislumbrando o invisível
rasgam a despedida que precede a solidão.
Feições
Abandono-te na lama,
meu velho corpo
entorpecido nas feições,
de uma alma que ama
um ideal morto...
meu velho corpo
entorpecido nas feições,
de uma alma que ama
um ideal morto...
A chuva ao som da noite (reticências)
Começo a estabelecer um horário próprio, certo, e sento-me em frente ao computador, com o teclado sobre as pernas, abro o Word, aumento o zoom para 130% e relaxo na cadeira…
A inspiração já cá estava à espera, sentada, paciente… Hoje tenho chuva e só não a consigo ouvir melhor devido ao barulho do computador a funcionar…
Abençoada chuva! Permite andar por aí, com o vidro aberto, abotoando o casaco e sorrindo, como só quem gosta da chuva sorri…
À noite as paisagens são mais curiosas e os seres que encontramos também, aves raras como as que encontro são difíceis de ver… Apenas uma coisa me entristece, as árvores que se curvam sobre mim à medida que passo, à medida que as ilumino com os faróis, o castanho, negro e dourado da paisagem queimada, o sufoco das suas lamurias, dos seus choros, da sua morte lenta… Já ninguém fala nos incêndios, nas vítimas, nas perdas materiais, a preocupação reside apenas na recuperação psicológica de alguém cujo salário de um mês permitiria reconstruir a vida a muito boa gente que ficou sem nada… Não é para isto que venho escrever…
Hoje visitei a minha antiga casa, onde vivi 26 anos, onde cresci e onde tudo foi perdendo tamanho, os sofás, as cadeiras, a cama, as paredes… Fez-me bem estar lá, perto, e ver que algumas coisas permanecem… Mas também não quero escrever sobre isto… Então o quê?
Pensei que uma das minhas histórias, daquelas que estão por escrever, ficaria bem no blog… Tenho que o alimentar… Mas também não me apetece escrever histórias, verificas, baseados em factos fictícios…
Também não era isto, mas paciência… Escrever sobre estas coisas é mexer no lodo, agitar água com lixo e quando isto acontece, há que ter por perto um purificador…
Para a próxima falo sobre outras coisas ou talvez conte uma história, como a do bombeiro de almas…
A inspiração já cá estava à espera, sentada, paciente… Hoje tenho chuva e só não a consigo ouvir melhor devido ao barulho do computador a funcionar…
Abençoada chuva! Permite andar por aí, com o vidro aberto, abotoando o casaco e sorrindo, como só quem gosta da chuva sorri…
À noite as paisagens são mais curiosas e os seres que encontramos também, aves raras como as que encontro são difíceis de ver… Apenas uma coisa me entristece, as árvores que se curvam sobre mim à medida que passo, à medida que as ilumino com os faróis, o castanho, negro e dourado da paisagem queimada, o sufoco das suas lamurias, dos seus choros, da sua morte lenta… Já ninguém fala nos incêndios, nas vítimas, nas perdas materiais, a preocupação reside apenas na recuperação psicológica de alguém cujo salário de um mês permitiria reconstruir a vida a muito boa gente que ficou sem nada… Não é para isto que venho escrever…
Hoje visitei a minha antiga casa, onde vivi 26 anos, onde cresci e onde tudo foi perdendo tamanho, os sofás, as cadeiras, a cama, as paredes… Fez-me bem estar lá, perto, e ver que algumas coisas permanecem… Mas também não quero escrever sobre isto… Então o quê?
Pensei que uma das minhas histórias, daquelas que estão por escrever, ficaria bem no blog… Tenho que o alimentar… Mas também não me apetece escrever histórias, verificas, baseados em factos fictícios…
Também não era isto, mas paciência… Escrever sobre estas coisas é mexer no lodo, agitar água com lixo e quando isto acontece, há que ter por perto um purificador…
Para a próxima falo sobre outras coisas ou talvez conte uma história, como a do bombeiro de almas…
A magia do mundo pelos olhos das crianças
O dia amanheceu com chuva. Na verdade, a chuva já lhe entrava pelas entranhas à medida que o Sol invisivelmente se levanta sobre as nuvens… Acordei a meio da noite, cerca das 4:00, com a melodia da água a cair na terra seca e o compasso mais ou menos ritmado das grossas gotas que caiam das telhas do alpendre…
Agora foi-se a chuva, ficaram estas nuvens escuras, cinzentas, que me devolvem a serenidade e o tempo frio, que tanta falta me faz… Ouço Carlos Paredes, só o mestre faz sentido nestas manhãs das primeiras chuvas… Paro um pouco para o escutar, gosto de apurar o ouvido e saborear a respiração dele por entre uma ou outra nota… Isto, Isabel Silvestre ou “Everybody pays” do Mark Knopfler…
Tenho saudades de ser mais baixo que os arbustos, de entrar de rompante pelo monte dentro e ficar todo molhado, sentir o frio da água com os ramos destes meus amigos que me abraçam… Lembro-me de sorver a água que ficava sobre o portão de casa… Quando se é criança tudo é magia, inocência, amizade, ingenuidade (Miguel, não sejas ingénuo) e legitimidade… Onde ficarão estes sentidos à medida que crescemos? E os nossos amigos invisíveis? E os visíveis?
Da minha janela consigo ver alguns, se calhar apenas eu, correndo pelos arbustos, escondendo-se atrás de umas giestas e largando os ramos quando eu passo ou debaixo de uma árvore que eu abano só para os molhar…
As raízes dos pinheiros e eucaliptos são ou foram as garagens dos nossos carrinhos, que andavam sobre caminhos feitos com as vassouras roubadas às mães e animados pelas nossas mãos pequenas… Se não eram os carrinhos eram as caricas, em pistas dignas de figurar nos livros de automobilismo, com curvas em relevo e várias armadilhas pelo caminho… E quando não no caminho, era no muro de minha casa, autênticas corridas que um qualquer Hidalgo gostaria de participar… Havia o jogo do canhão, o futebol que era animado quando a dona chamava a GNR para participar, pasmem-se!, que uma dúzia de crianças calcava o mato… Havia as grutas, o poço das “moutadas”, as “austrálias” e umas mãos de feno roubadas a um colmo para fazer o telhado de uma cabana… E as cabanas, de vários feitios, de vários materiais, que ora construíamos ora destruíamos, à nossa vontade ou como vingança de algo que era logo esquecido… E os jogos de cowboys? Um tiro imaginário, pum!, e ganhava-se uma baixa… As naves na areia do tanque… Puf… Tanto para dizer e lembrar, e sempre o mesmo denominador comum: sou tão feliz com todo o meu trajecto, com todos os meus amigos… E fica sempre tanto por dizer…
Ontem fui a uma das resistentes pequenas drogarias, daquelas acomodadas numa garagem em que as paredes são pintadas com a cor das caixas dos artigos, canhões de fechaduras, puxadores de várias cores e feitios, dobradiças de joelho e outras normais, latonadas ou cromadas, basculantes e até um telefone tapado com uma saca de plástico… No tecto, pendurados dizeres vários, na verdade apenas dois, aos quais não ficamos indiferentes pelas cores garridas… Ao centro, o balcão, com os seus inúmeros blocos de apontamentos e uma caligrafia de fazer inveja ao escriba dos escribas… A simpatia é ainda traço constante e o aperto de mão dos mais sólidos que conheço… É assim mais uma personagem da novela da minha vida, desta minha senda pelos sorrisos dos outros…
Aquela drogaria trouxe-me à memória brincadeiras de criança, em dias de chuva, numa barraca construída em plástico sob a pequena ramada do Sr. Carvalho (que deve sorrir agora onde quer que esteja), onde eu e mais dois amigos compúnhamos avarias imaginárias em objectos inexistentes… Olhar o mundo pelos olhos de criança é mais mágico…
Agora foi-se a chuva, ficaram estas nuvens escuras, cinzentas, que me devolvem a serenidade e o tempo frio, que tanta falta me faz… Ouço Carlos Paredes, só o mestre faz sentido nestas manhãs das primeiras chuvas… Paro um pouco para o escutar, gosto de apurar o ouvido e saborear a respiração dele por entre uma ou outra nota… Isto, Isabel Silvestre ou “Everybody pays” do Mark Knopfler…
Tenho saudades de ser mais baixo que os arbustos, de entrar de rompante pelo monte dentro e ficar todo molhado, sentir o frio da água com os ramos destes meus amigos que me abraçam… Lembro-me de sorver a água que ficava sobre o portão de casa… Quando se é criança tudo é magia, inocência, amizade, ingenuidade (Miguel, não sejas ingénuo) e legitimidade… Onde ficarão estes sentidos à medida que crescemos? E os nossos amigos invisíveis? E os visíveis?
Da minha janela consigo ver alguns, se calhar apenas eu, correndo pelos arbustos, escondendo-se atrás de umas giestas e largando os ramos quando eu passo ou debaixo de uma árvore que eu abano só para os molhar…
As raízes dos pinheiros e eucaliptos são ou foram as garagens dos nossos carrinhos, que andavam sobre caminhos feitos com as vassouras roubadas às mães e animados pelas nossas mãos pequenas… Se não eram os carrinhos eram as caricas, em pistas dignas de figurar nos livros de automobilismo, com curvas em relevo e várias armadilhas pelo caminho… E quando não no caminho, era no muro de minha casa, autênticas corridas que um qualquer Hidalgo gostaria de participar… Havia o jogo do canhão, o futebol que era animado quando a dona chamava a GNR para participar, pasmem-se!, que uma dúzia de crianças calcava o mato… Havia as grutas, o poço das “moutadas”, as “austrálias” e umas mãos de feno roubadas a um colmo para fazer o telhado de uma cabana… E as cabanas, de vários feitios, de vários materiais, que ora construíamos ora destruíamos, à nossa vontade ou como vingança de algo que era logo esquecido… E os jogos de cowboys? Um tiro imaginário, pum!, e ganhava-se uma baixa… As naves na areia do tanque… Puf… Tanto para dizer e lembrar, e sempre o mesmo denominador comum: sou tão feliz com todo o meu trajecto, com todos os meus amigos… E fica sempre tanto por dizer…
Ontem fui a uma das resistentes pequenas drogarias, daquelas acomodadas numa garagem em que as paredes são pintadas com a cor das caixas dos artigos, canhões de fechaduras, puxadores de várias cores e feitios, dobradiças de joelho e outras normais, latonadas ou cromadas, basculantes e até um telefone tapado com uma saca de plástico… No tecto, pendurados dizeres vários, na verdade apenas dois, aos quais não ficamos indiferentes pelas cores garridas… Ao centro, o balcão, com os seus inúmeros blocos de apontamentos e uma caligrafia de fazer inveja ao escriba dos escribas… A simpatia é ainda traço constante e o aperto de mão dos mais sólidos que conheço… É assim mais uma personagem da novela da minha vida, desta minha senda pelos sorrisos dos outros…
Aquela drogaria trouxe-me à memória brincadeiras de criança, em dias de chuva, numa barraca construída em plástico sob a pequena ramada do Sr. Carvalho (que deve sorrir agora onde quer que esteja), onde eu e mais dois amigos compúnhamos avarias imaginárias em objectos inexistentes… Olhar o mundo pelos olhos de criança é mais mágico…
2005-09-05
Os sorrisos meus, agora que fora de criança sou...
Quanto valerá um sorriso?
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?
Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…
Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…
A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…
Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…
Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…
O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.
As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…
Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…
Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…
Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…
Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.
A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…
O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…
A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…
Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.
Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…
Dou por mim a pensar num preço, numa medida qualquer palpável, concreta, daquelas que estão padronizadas, mas não encontro medida ou valor…
O quanto custará sorrir?
Vamos lá ver se é desta que eu vou escrevendo… Domingo foi dia de passeio – convívio. Há muito combinado, o convívio das marchas populares teve lugar no domingo a um sítio apelativo: Srª da Boa Morte…
Posso ter 30 anos, quase, quase, mas estes passeios colocam-me com 9 ou 10 anos. Quando entro na camioneta e olho aquelas faces, com mais rugas, mais velhas, mas iguais ainda, sinto-me regressar no tempo, como se fosse possível, e vejo-me a percorrer a pé o caminho da escola para casa… Agora posso andar a pé, no mesmo caminho, mas os sorrisos não são mais os meus, nem as pessoas o são… Novas caras chegaram, velhas caras partiram… Voltando ao passeio… Entrar na camioneta (de Alpendorada – mais recordações…) e ver aquelas caras, olhar com sinal de respeito, eu sem estes olhares não sou nada, ou serei bem menos do que sou agora… Todas aquelas faces fazem parte da minha história, da minha infância…
A música, tinha saudade da música, do rancho e do cantar ao desafio em letras irónicas e mordazes… Tinha saudade de sentar-me no banco e afundar-me, mas agora as pernas não deixam, batem no banco da frente…
Gostava muito de poder grafar os meus pensamentos no exacto momento em que os sinto, em que eles me escrevem… Agora, com esta dor de cabeça, torna-se difícil passar para palavras o que se viveu…
Fico a imaginar o quão fácil para ser a convivência em harmonia, apesar de todas as diferenças… Em local de convívio surgiam faces desconhecidas, gente simples de farnel às costas, que se sentava perto só para ver e ouvir cantar e tocar, viola e concertina… E esta gente simples ficava sentada perto, comendo o panado ou o rissol, beberricando um tinto, rindo, apoiando a cabeça nas mãos…
O pó que se levantava durante e após os passos de dança, mais ou menos improvisados, de gente que cresceu dando vida e corpo a folclore, a desfolhadas e bailaricos de aldeia, banhado pelo sol parecia-me ouro, ouro fino com que os sorrisos daquelas gentes me vão enriquecendo.
As malhas, nas mãos a resina dos pinheiros, o pó, novamente o pó, e a terra revolvida pelo bater do ferro e do bater no meco, desgraçado, que tomba perante o nosso divertimento…
Junto a estes homens, gente de honradez e sorriso, jogando malhas com eles, sinto-me uma criança aceite pelos homens… Esqueço que tenho 30 anos, ups, ainda não, que sou como eles, mas ainda penso como sendo criança. Ontem, domingo, o tempo voltou definitivamente atrás…
Mas o sorrisos… Sorrisos de gente feliz, de gente que vive estes convívios, estes passeios que outros poderão chamar de chungas, chulas, num país marcado pela mesquinhez intelectual… Custa-me pensar que daqui a pouco tempo, políticos (tão pouco vieram deste povo) estarão, avessamente, beijando caras e apertando estas mãos calosas de gente boa, como se fossem deles, como se tivessem comido cebola com sal acompanhada com um bom naco de boroa e uma chávena de café com borra, se fosse Inverno… Não quero falar disto, do estupro praticado pelas hienas, quero voltar ao passeio, ao convívio…
Por umas horas, somos todos iguais, sempre o fomos, obviamente, mas é diferente, agora não há distanciamentos, há sorrisos, cantares, bailaricos, panados, boroa, uns tachos aqui e acolá, um garrafão (ou vários!) e olhares de felicidade…
Não consigo deixar de me comover com estas visões… Com a felicidade das pessoas bailando, braços no ar, olhares cercados por incontáveis rugas e sorrisos desdentados de gente boa e simples, povo que amo.
A Srª da Boa Morte fica em Ponte de Lima, num alto, como convém a qualquer santuário… Rodeado de árvores, este sítio de festejo pagão foi, como todos os outros, apropriado pela igreja… Fica a pensar na religião… O povo faz a religião, não é a religião que faz as pessoas… Veneradamente as pessoas entram na igreja, eu também, contemplam as figuras e fotografias de benfeitores, santos de madeira em restauro… Há qualquer coisa de sinistro na subida para o local onde estão os santos, do meu tamanho, e um caixão aberto onde está a suposta Srª da Boa Morte, não lhe faltando sequer uns olhos moribundos ou como diz a minha mão, de “carneiro mal morto”… Detenho-me alguns instantes, o local apertado e baixo, de pedra, pouco iluminado leva-me a alma para tempos antigos, de cátaros, de encontros anónimos. Resolvo-me subir quando, a meio, tenho que voltar atrás para deixar passar pessoas que descem… Subo e contemplo as imagens primeiro e, depois, o caixão… Parece-me macabro, mas ainda assim melhor do que por aí se vê, como entrar numa capela feita em ossos… O religioso confunde-se com o místico e transcendental, num folclore que é, inegavelmente, parte integrante da nossa história… No altar todas as figuras parecem olhar para mim, rostos ovais, como antigos Maias, de crianças com harpas, violas e outras coisas mais na mão…
O sino vai chamando as pessoas para a missa… Há que apressar o passo… O delas, não o meu…
A hora do regresso chegou, todos se sentam, ainda que por breves instantes, pois as colunas trémulas soltam música da minha gente… O motor faz interferência com a rádio, junto às castanholas, cavaquinhos, reco-reco, ferrinhos e outros que tais, ouve-se um silvo… O meu povo pôs-se em pé a dançar, braço no ar, suor a pingar e sorrisos, muitos sorrisos! Não consigo deixar de me comover com estas imagens… Às vezes acho que só a mim isto não me passa indiferente… Conheço poucas pessoas que parem por momentos apenas para ver os sorrisos dos outros e apreciá-los…
Hora da chegada, desfaz-se a companhia e acaba a festa… Os tempos são outros, poucos se levantam à alvorada para ir ao campo ou pensar os animais… Agora alimenta-se a máquina dos bilhetes de comboio e a alvorada é um caminhar, rápido, para a estação da CP e esperar encontrar lugar sentado, para dar mais uma hora de sono ao corpo.
Cada qual segue o seu caminho e eu fico, aqui, com os seus sorrisos, a sonhar sozinho…
2005-09-01
Vida
Diz-me vida,
que queres que faça?
Roubas o ar que respiro,
partes os vidros onde me encontro,
sujas com lama e sangue
estes meus sonhos que são,
afinal,
um não distante retiro…
Não me deixas chorar,
lágrimas saltam sem medo e toldam-me,
não é só a visão,
é o exprimir.
Transformas o sorriso em pedra
e o júbilo de falar num torpor,
um movimento desconexo dos lábios
que não te beijam,
gritam,
arfam,
respirando muco que em meus pulmões arde,
queima o meu ser com infinita dor.
Aqui me tens,
prostrado a teus pés,
Corta minha cabeça assim como fazes ao sorriso,
tens coragem?
Coitada de ti, vida,
que nada mais és que uma vazia miragem…
Salta de mim a fúria escondida
e ri-se de ti,
de tuas tramas e encruzilhadas,
da figura que criaste com suor e saliva,
julgavas tu que me moldavas?
Vences-me,
desvias de mim o sentido,
o rumo da rosa dos ventos,
o cabelo que descai a meus olhos
e me fecha o pensamento.
Mas continuo aqui,
penso em ti,
tento entrar nessa teia,
mas meu mundo é deste lado,
olhando-te sem ter predefinida uma ideia,
descobrir que no sorriso,
atrás de um rosto fechado,
surge o crepitar do lume,
o amor na alma sem aviso.
Julgavas que conseguias enganar-me?
Dás-me papel e caneta,
fazes surgir uma nuvem no céu
e pensas que eu,
sim, eu, julgas que sou como tu?
Ah! Deixa-me rir!
Eu construo canções,
canto monumentos e solto estrelas,
dou asas à água para que corra em tições,
e isto fora de ti,
não sabes que existo,
mas digo-te que sei mais eu sobre ti, vida,
do que tu mesma sobre mim,
fazes correr o mundo,
tiras o tapete a que em ti acredita,
falsa!
Manténs-te afastado,
debruçado neste velho muro coberto de musgo,
é ele uma forma de ti, vida,
e eu...
Olho-te, levas todos contigo,
deito um último olhar melancólico,
triste sina,
pela enésima vez recuo continuar,
não quero fazer parte desse mundo,
dos dogmas que fazem chorar!
Criaste-me,
jarros brancos florem em silvados,
o pólen cai e seca as lágrimas
e eu não sei o que faço aqui,
apoiado numa folha branca,
tento lutar contigo com esta caneta
e nas palavras que espalho,
mas és mais forte do que eu…
Penso que não existo,
sou o reflexo de alguém que quer sair de ti.
Dá vida a uma grande massa de carne humana,
sonha sonhar livremente
e refugiar-se na alma errante,
mas não resulta…
Desisto!
Vida, aqui me tens!
Faz de mim o que quiseres,
rasga-me as entranhas com essa garra abominável,
tira-me os olhos que te vêem
e cose o sorriso que te atemoriza,
mas os sonhos, não, os sonhos continuam,
semeio-os aqui, numa folha de papel,
numa conversa de café,
no afago a uma criança,
no lento escutar das lamúrias alheias,
no abraço a uma árvore queimada…
Não podes combater isto, vida,
combato os teus ideais,
submeto-me a teu remoinho espiral,
sorris pensando que me rendi,
minha querida,
não faço de ti inimiga,
estou cá, em ti, vida,
mas em breve partirei,
voarei de novo para os sonhos,
sulcarei mares arenosos em busca de um beijo…
Pensas que me deglutes,
abres teus braços pensando que eu vou,
mas tu não me queres abraçar,
queres dar-me o beijo da morte,
sugar meus sonhos,
o futuro que por mim passou,
o murmúrio arrastado
que é eu mesmo
a chorar…
Não julgues que te destruo,
não te odeio,
vejo que não és verdade,
és apenas algo que não sabes que és,
como uma flor que nasce num jardim…
Beijo-te, vida,
porque te amo,
estimo,
louvo teu rápido esgar,
mas não me chames,
não estou mais em ti,
és minúscula,
rodopias como um velho pião
na palma da minha mão.
Controlo-te,
mas logo vens a mim,
como o conhecido sacrifício a que digo sim,
giro agora na tua mão
e tu sorris de escárnio,
Amo-te!,
Foi de mais para ti não foi?
Não é isto forma de viver,
resiste-se como o velho amolar
roça a faca na pedra
e dá a pedra a face à faca,
mas existem os dois.
Afia meus sentidos,
dá-me olhares negros como de um anjo
e vem até mim, como estes raios de sol
que fazem sombra sobre o que escrevo,
transformam minha mão em vida,
geram duas canetas,
duas penas que acentuam a mágoa…
Paro na minha quietude,
abandono minhas sombras
e são elas que te escrevem,
vê-me a olhar o sol,
fecho os olhos e vejo globos azuis,
pássaros de cristal que voam em mim,
mas não sabes o que isto é pois não?
Estás muito atarefada...
Permito que sombras te escrevam
como se as lágrimas arrancassem o choro,
como se a foz chamasse o rio da nascente…
Eu continuo aqui,
olhando-te,
confuso,
indiferente…
que queres que faça?
Roubas o ar que respiro,
partes os vidros onde me encontro,
sujas com lama e sangue
estes meus sonhos que são,
afinal,
um não distante retiro…
Não me deixas chorar,
lágrimas saltam sem medo e toldam-me,
não é só a visão,
é o exprimir.
Transformas o sorriso em pedra
e o júbilo de falar num torpor,
um movimento desconexo dos lábios
que não te beijam,
gritam,
arfam,
respirando muco que em meus pulmões arde,
queima o meu ser com infinita dor.
Aqui me tens,
prostrado a teus pés,
Corta minha cabeça assim como fazes ao sorriso,
tens coragem?
Coitada de ti, vida,
que nada mais és que uma vazia miragem…
Salta de mim a fúria escondida
e ri-se de ti,
de tuas tramas e encruzilhadas,
da figura que criaste com suor e saliva,
julgavas tu que me moldavas?
Vences-me,
desvias de mim o sentido,
o rumo da rosa dos ventos,
o cabelo que descai a meus olhos
e me fecha o pensamento.
Mas continuo aqui,
penso em ti,
tento entrar nessa teia,
mas meu mundo é deste lado,
olhando-te sem ter predefinida uma ideia,
descobrir que no sorriso,
atrás de um rosto fechado,
surge o crepitar do lume,
o amor na alma sem aviso.
Julgavas que conseguias enganar-me?
Dás-me papel e caneta,
fazes surgir uma nuvem no céu
e pensas que eu,
sim, eu, julgas que sou como tu?
Ah! Deixa-me rir!
Eu construo canções,
canto monumentos e solto estrelas,
dou asas à água para que corra em tições,
e isto fora de ti,
não sabes que existo,
mas digo-te que sei mais eu sobre ti, vida,
do que tu mesma sobre mim,
fazes correr o mundo,
tiras o tapete a que em ti acredita,
falsa!
Manténs-te afastado,
debruçado neste velho muro coberto de musgo,
é ele uma forma de ti, vida,
e eu...
Olho-te, levas todos contigo,
deito um último olhar melancólico,
triste sina,
pela enésima vez recuo continuar,
não quero fazer parte desse mundo,
dos dogmas que fazem chorar!
Criaste-me,
jarros brancos florem em silvados,
o pólen cai e seca as lágrimas
e eu não sei o que faço aqui,
apoiado numa folha branca,
tento lutar contigo com esta caneta
e nas palavras que espalho,
mas és mais forte do que eu…
Penso que não existo,
sou o reflexo de alguém que quer sair de ti.
Dá vida a uma grande massa de carne humana,
sonha sonhar livremente
e refugiar-se na alma errante,
mas não resulta…
Desisto!
Vida, aqui me tens!
Faz de mim o que quiseres,
rasga-me as entranhas com essa garra abominável,
tira-me os olhos que te vêem
e cose o sorriso que te atemoriza,
mas os sonhos, não, os sonhos continuam,
semeio-os aqui, numa folha de papel,
numa conversa de café,
no afago a uma criança,
no lento escutar das lamúrias alheias,
no abraço a uma árvore queimada…
Não podes combater isto, vida,
combato os teus ideais,
submeto-me a teu remoinho espiral,
sorris pensando que me rendi,
minha querida,
não faço de ti inimiga,
estou cá, em ti, vida,
mas em breve partirei,
voarei de novo para os sonhos,
sulcarei mares arenosos em busca de um beijo…
Pensas que me deglutes,
abres teus braços pensando que eu vou,
mas tu não me queres abraçar,
queres dar-me o beijo da morte,
sugar meus sonhos,
o futuro que por mim passou,
o murmúrio arrastado
que é eu mesmo
a chorar…
Não julgues que te destruo,
não te odeio,
vejo que não és verdade,
és apenas algo que não sabes que és,
como uma flor que nasce num jardim…
Beijo-te, vida,
porque te amo,
estimo,
louvo teu rápido esgar,
mas não me chames,
não estou mais em ti,
és minúscula,
rodopias como um velho pião
na palma da minha mão.
Controlo-te,
mas logo vens a mim,
como o conhecido sacrifício a que digo sim,
giro agora na tua mão
e tu sorris de escárnio,
Amo-te!,
Foi de mais para ti não foi?
Não é isto forma de viver,
resiste-se como o velho amolar
roça a faca na pedra
e dá a pedra a face à faca,
mas existem os dois.
Afia meus sentidos,
dá-me olhares negros como de um anjo
e vem até mim, como estes raios de sol
que fazem sombra sobre o que escrevo,
transformam minha mão em vida,
geram duas canetas,
duas penas que acentuam a mágoa…
Paro na minha quietude,
abandono minhas sombras
e são elas que te escrevem,
vê-me a olhar o sol,
fecho os olhos e vejo globos azuis,
pássaros de cristal que voam em mim,
mas não sabes o que isto é pois não?
Estás muito atarefada...
Permito que sombras te escrevam
como se as lágrimas arrancassem o choro,
como se a foz chamasse o rio da nascente…
Eu continuo aqui,
olhando-te,
confuso,
indiferente…
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