Sorri. Quando os primeiros, mas grossos, pingos começam a cair, ele simplesmente encosta a vassoura a um caixote do lixo, dá uns quatro passos, dirige-se ao carrinho do lixo, retira o colete e veste o impermeável. Coloca o capuz, dá novos quatro passos, agarra novamente na vassoura e continua a varrer o lixo, sarrabiscando as ruas com o piaçaba. Sorri.
2011-10-24
2011-10-23
Faço de conta que amanhã, aos primeiros pingos de Sol, vou levantar-me como quem planta o mundo, meter a mão na água fria, lavar a cara, meter uns cotos de madeira na lareira, aquecer o café. E, depois, por entre chuvas e aguaceiros, cheirar a terra, que se perfuma diferente todos os dias e noite, e viver um dia inteirinho, com todos os minutos contados, para chegar ao fim, abraçar uma tigela de sopa e deixar que o sono me vá embrulhando como o fumo a enrolar as travessas do telhado.
2011-10-19
2011-10-18
2011-10-13
Exposição "Alma Tua"
À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás, o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo. Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, vem desaparecendo: o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular. É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua. É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta. Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua. Esperamos que o visitante possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras. Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo."
www.almatua.com
2011-10-10
2011-10-09
Trouxe a vida, eu, na palma das mãos como quem embala um mundo cheio de gente adormecida.
Era quarto crescente e eu, minguante, deixava-me orbitar pelos caminhos que se levedavam ao luar, mostrando-me não apenas a direcção, mas o sentido.
Os muros aos quais me seguro, rugosos, são sedosos como nunca os egos solitários o foram, musgados pelo tempo nascem para o Natal como eu para a chuva e, sim, é aqui que vou pousar o mundo, até que despertem.
2011-10-07
A noite encostou-se às estrelas, há um cunho de bom malandrismo na forma ligeira e lânguida com que, sorrateiramente, se aproxima delas, primeiro crepuscularmente, o bom velho como quem não quer a coisa, depois, já não a tinham visto, ela estrelava-se esparramada pelo céu e sorria.
É noite.
Um dia há-de chover.
Uma noite há-de crescer.
Um eu há-de escrever.
Encostado às estrelas.
2011-10-06
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