2008-07-31

Tenho rios de xisto a correrem na face,
agrilhoei a vida
aos papeis gastos
onde me banho.

Na peugada dos meus próprios passos
percorro a poeira
que ramos virgens ostentam,
porque todo o poema é um traço incompleto
na reticência final
de um sorriso invisível,
tal como o infinito inalcançável
que trago atado
por um cordel...

2008-07-27

Chuva de verão

Desde o tempo que escrevi aqui pela última vez, a única diferença é a chuva tímida que cai lá fora.
Curioso auscultar a opinião das pessoas, que varia consideravelmente de dia para dia (e momento para momento), na semana passada era um calor abrasador, que fazia jus às previsões catastróficas do Verão deste ano como sendo o mais quente dos últimos 25 anos. Hoje (e não apenas hoje) ter que ouvir a chuva cair provoca-me um conforto maior ainda do que imaginar estar a ouvir o vento soprar no telhado de uma cozinha grande, aliás casa, com o calor de um braseiro. Parece-me que as opiniões acompanham os tempos modernos, varia com a mesma facilidade com que se muda de canal e disto sei do que falo, não fosse eu um zapper incondicional, tirando as vezes, raras, em que apanho um canal que gosto.
Tenho andado com dores de cabeça, sinal da necessidade de descanso ou simplesmente a destruição de algumas sinapses, mas não queria deitar-me sem vir aqui deixar umas linhas. Confesso que tenho andado longe deste blog, mesmo longe dos meus cadernos (e são alguns), para escrever o que quer que seja, tal como sempre. Mas hoje, não por ser domingo, não por chover, apenas porque sim, resolvo-me vir aqui, privando-me ao barulho da chuva. Tenho à minha volta todas as personagens que vivi e ainda não escrevi. Motiva-me saber o quanto tenho que escrever, embora me apavore o facto de eventualmente não saber quanto tempo tenho. Queria que soubesses que aqui, em mim, vive sempre um pouco de ti, seja numa personagem vista, vivida ou ainda por inventar. Se calhar não sabes que vivias até te leres num poema meu. Acredito que sim e não te surpreendas, comigo aconteceu o mesmo, descobri-me quando me li num poema que escrevi. Perdão, como possuo o condão de viver com o escritor (ia escrever pseudo antes), descobri-me no momento em que ele me pensou, idealizou e deu vida. Talvez por ter nascido assim, tenha pouca propensão para viver apenas num local. Na realidade, o que sou está repartido em tudo o que encontro, o que torna tão difícil sentir-me bem aqui, sabendo que poderia estar ali e, de facto, estou... Mas os tempos mudam, os reconhecimentos também, curiosamente a qualidade que mais admiro na mudança é a sua consistência, tudo muda, embora permaneça no mesmo local.
Paro um pouco e olho à esquerda. Tenho uma velha personagem comigo. Tento imaginar onde a poderei encaixar, mas não encontro local ou posição adequada. Um dos motivos pelo qual adio a escrita é a falta de paisagem onde plantar todos estes seres que habitam na minha morada, penso em várias histórias e na verdade até possuo algumas, mas não encontro narrativa para a maioria. Penso nelas como trovões ou relâmpagos, não precisam de cenário adequada, além das condições meteorológicas normais, apenas surgem, troam e desaparecem, para surgirem não se sabe quando.
Esta minha característica de perfeição ou (tentativa de) controlo impede-me de escrever mais, simplesmente porque quero que as personagens e vivências imaginári0-reais tenham um livro, sejam mais perfeitas que o momento actual, esquecendo-me obviamente que o momento actual é sempre o mais perfeito, embora compreenda algumas das personagens, como este simpático casal à minha direita, que preferem surgir, anunciarem-se e, depois, trazerem com eles todo o cenário, tempo e até indumentária... Então o que fazer? Bem, na realidade não sei. Para as personagens com vontade própria escrevo histórias, apenas porque pedem com educação, para as outras, eventualmente sairão um poema ou um pequeno texto, apenas para sentirem, elas, que encontrarão sempre solo fértil, mesmo que cresçam pouco.

Gosto disto. Gosto de vir escrever sem ter nada em mente e tudo começar a ajustar-se, a sair normalmente e fico a pensar para mim mesmo, que pena será amanhã acordar e ter esquecido tudo isto, as intenções.

Habitam em mim mais do que a parte de um todo. De facto, transporto comigo os tempos antecedentes, presentes e consequentes, como se todos caminhos que pudesse percorrer tivessem já traçados e vividos, como se num só segundo vivesse mais do que em infinitas vidas passadas e futuras. E, sabes, não me causa transtorno, não me aflige ou angustia, não me causa ansiedade. Apenas me formigam os dedos e a imaginação, com a vontade que tenho de pegar nas palavras e emoldurar corações.

Até já, porque depois de leres isto, eu serei também um pouco de ti e tenho a certeza que, fechando os olhos momentaneamente, poderás sentir uma ligeira brisa no rosto. Não estranhes, comigo aconteceu o mesmo.

2008-07-24

Ainda estou por aqui, embora possa não parecer. A quantidade de histórias a fermentar na minha mente é surreal e, ainda por cima, encontrei uma capa com vários poemas e contos antigos (muito antigos), que irei passar para aqui um dia.

Eu volto (nunca cheguei a sair).


2008-07-16

Não há noite que não alcance as estrelas,
embalar-me num pulsar invisível
enquanto me abraço a elas.

Flutuo
enquanto percorro vários céus
sob o mesmo luar,
sou caneta e papel
encenando estes dedos meus,
que ninguém me diga:
a noite está a acabar.

Rebolo-me no próprio sorriso,
dou as mãos
às mãos que não conheço,
envolto nas circunferências
das tonalidades
em que jamais esmaeço.

A cor do que escrevo é fugaz,
tem traço de homem
e gesto irrequieto de rapaz.

Não há noite que não me faça ao infinito,
acordo esvanecendo no mundo,
hoje sou grito,
amanhã, talvez, vagabundo...

2008-07-14

2008-07-11

Os ecos inaudíveis
nas vozes abafadas
surgem já entre os sonhos,
há um imaginário real
do que a alma escuta
no vazio,
um clarão que ofusca a dor
na penumbra do desassossego,
eclode o passado presentemente no futuro
num olhar transparente
que se chama Amor.

2008-07-09

Nem as palavras me deitam,
apenas o cansaço
de uns passos rodopiados
na orla
de um jardim,
não procuro o não
ou o sim,
aguardo um serrado
com ervas como gente,
uma caneta, carvão, arado
com que possa cantar
a minha semente.

Crescem-se pinhais,
onde escondo
medos que nunca vivi,
em suspiros, sem ais.

Meço e peso cada espaço
entre as linhas,
e o saber das letras
entre as palavras
são o que sorvo,
no que resta das giestas.

Resisto ao adormecimento,
o meu corpo... meu corpo,
pesa-me como um casaco,
um pedaço de vida
que nunca viverá até onde a minha mão alcança.

No carinho deste silêncio,
quando são os que não são
do dia que me anoitece quando desperto,
há um sorriso emoldurado
no verso do teu quadro.
Pacificam as estrelas o luar
que me levam o leve caminhar
percorrido
e o quanto de encontrado, está perdido.

Há um infinito de eternos nadas,
um frio adocicado
de uma brisa que traz mar.

Há grifos ascendentes de fénixes ressarcidas,
palavras em leitos sempre frios
de poemas que me leram
sem saberem a mar...

2008-07-04

Um post - duas mensagens

Sobre quem eu não seria se não fosse quem não sou
Falava agora com o Norberto, sobre o curioso que é escrever. Adoro escrever, mas mais do que isso, gosto mesmo é de ler os comentários e de perceber o que perceberão as pessoas (deduzo que quem me leia seja pessoa) que lêem. O post anterior - Pequenitates - é sobre alguém, mas não eu. Em primeiro porque as minhas nuvens não são azuis, pelo menos não no tom azul que as pessoas pensam e em segundo porque nem tenho a certeza que tenha sido escrito por mim, apareceu por aqui no computador.
Por fim, dou por mim a olhar como criança, a iludir-me como criança, a acreditar como criança, a escrever como criança, mas a cravar garras como adulto (e às vezes tenho vergonha de ter crescido).

Sobre a mais velha profissão do mundo (professor) e um amigo
De vez em quando "falo" no Norberto neste blog, mas ainda não o conhecem (creio eu). Estava na converseta com ele, via messenger, quando ele envia umas imagens de um livro de final de curso da escola onde ele lecciona. Amante das tecnologias, construíram um blog onde até colocaram uma historieta minha, e para final de ano surgiria algo diferente para todos: o livro de final de curso... Calma, coloco já uma imagem... O Norberto foi quem que apresentou o meu livro na Casa da Cultura de Paredes, mas foi ainda mais, pois foi ele, perante a minha passividade (e medo) para programar a apresentação (visto ter preferido apresentar primeiro em "casa" do que num "bar" com a editora), ele simplesmente "emailou" ao Vereador da Cultura, que respondeu prontamente e, num espaço de poucas horas, já tinha local, data e hora de apresentação. Curioso foi, também, na apresentação surpresa que a minha irmã e a Ana fizeram para o dia/noite/momento o primeiro comentário (retirado do blog) que surge ser do Norberto. E mais curioso foi o facto de antes, muito antes, tê-lo encontrado num hipermercado e ele, brincalhão como ninguém, dizer que alguém andava a fazer desaparecer os carteiros. Bolas. Naquele tempo eu ainda tinha quatro neurónios (restam dois, embora um esteja em recuperação), mas mesmo assim não consegui perceber sobre o que ele falava, até deduzir que era sobre uma pseudo-história (em três partes: do tipo uma, duas e três) e, claro, para surpresa minha, ele acompanhava o meu blog...

Foi um momento mágico, pelo menos para mim, ainda por cima com uma mensagem do Jorge Pelicano, realizador do documentário "Ainda há Pastores?", com quem ele falou e "pediu" umas frases para o lançamento. Mas isto não acaba aqui. Ambos admiradores (moi même e ele) do documentário, conseguimos/convidámos (com a suprema ajuda da Casa da Cultura de Paredes) que o documentário fosse exibido na Casa da Cultura, com a presença do Jorge e da Rosa, confraternizamos com eles, foi demais. Enfim. Já tive que ir buscar outra mochila para guardar tantos sonhos... Conhecemo-nos quase por acaso, num projecto chamado "Internet@EB1" ou "Internet nas Escolas" ou outros nomes mais pomposos que não vêm ao caso. E agora, quero que o conheçam, a pessoa que tem uma profissão que admiro: professor do 1º ciclo ou como gosto de dizer "Professor Primário" (com iniciais maiúsculas).

Já tentamos umas brincadeiras, como esta, e novos projectos estão na forja, né amigo? :)

A fotografia foi retirada do livro de curso e publicada com a permissão do mister.


2008-07-02

Pequenitates

Nascido e criado em terras de gente grande, o pequeno Pequenitates fazia dos seus dias de traquina o horizonte do seu futuro.
Corriam os dias e o Pequenitates, com a cabeça no ar, saltava de nuvem azul em nuvem azul, das que se soltam dos sonhos de infância.
Nenhuma das grandiosas aventuras era pequena para o seu corpo, lá cabiam todas as realidades, mesmo as mais irreais…
De salto em salto, a jogo em jogo, Pequenitates fazia do Sol Lua e da Lua brincadeira.
Abrigado em esconderijos que só ele via, os pequenos pés anunciavam a sua presença e ninguém, mesmo ninguém, o denunciava, fazendo com que os risos fossem crescentes e enchessem as divisões de alegria.
As letras juntaram-se e até as notas musicais apareceram para colorir a meninice do garoto.
Falava e cantava, tocava e sorria, nos dias em que Pequenitates descobria que lhe cresciam ossos e carne, cabelos e espinhas, como se a realidade de pré-adolescente tentasse sair por todos os poros do seu corpo.
Aos poucos a voz de Pequenitates não parecia a de Pequenitates, assemelhava-se a um grasnar de gente crescida dentre de gente pequena.
Corriam os dias e as nuvens azuis eram já pequenas para os saltos do garoto, mas Pequenitates continuava a correr e a saltar, deixando que os dias saíssem da sacola para o teclado do computador e para a tabela do cesto de basquetebol e assim, de salto em salto e distracção em distracção, Pequenitates de pequeno se fez grande, provando que mesmo nos dias de Inverno, há uma Primavera na vida de alguém.