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A mostrar mensagens de Abril, 2013
Deu-me hoje a saudade de momentos pintados, trocados em mão-de-obra, pelo carregar de uma placa, pela apanha de uma batata, pelo pó nas frontes e os sorrisos no final de um dia de trabalho, a jorna, o arroz e o feijão e o vinho à socapa. No final, um aperto de mão, uma palmada nas costas, um sorriso mais sincero e menos roupas, menos sapatos, o essencial apenas, talvez porque não era necessário colar nada ao corpo para sentir-se vestido por dentro.  Sem pressa de viver os dias pareciam maiores, sobravam horas para se ler a uma luz farrusca, a ignorância era o conhecimento sem a hipertecnologia que vai nos arrastando dimensionalmente, de trás para a frente, quando o caminho deveria ser feito para cima.
Está na hora de me chamar. De mim conheço poucos, mas a cada saída para a rua, todos ouvem e se unem, trazem-me todos os lugares que em corpo ainda não visitei, todos os sabores, sentidos e segredos que não se escondem, apenas se esgueiram para que possa eu viver o momento. Eu, em muitos, por mim e pelo mundo, enquanto livre, que haveria eu ser, além de vagabundo?
A minha casa sou eu. Habito-me enquanto por cá revivo, antes de, por fim, deixar sentado este corpo e ir, novamente, para onde o tempo nunca viveu.
Vou fazendo do caminho a sandália, do dia a veste, do sonho cajado. Vou caminhando ainda que sem rumo, não por perdido, mas por achado, de acha, quem se muda para ouvir a liberdade. Quantos de nós livres, mas não libertos? Na estrada que se escala, cala quem nunca consentiu, alimentar um sistema que nos dá vida, mas nos quer moribundos, soturnos, agachados de medo atrás do estabelecido, com pavor imediato de erguer, ver o dia nascer e sentir que um dia de cada vez é, sim, a receita que deus fez. Aprisionados e ultrajados ralenteiam quem se sobra ao fim de um dia para ser mais que si mesmo, algures outrem, porque sermos um é sermos mais do que somos e, talvez, quando o formos sejamos então livres, sem socialmente seguro, olhando os lírios no campo ou os pássaros no céu, fazendo de cada dia a poupança no que assenta ao cair da noite logo até o molhar do orvalho. Hás-de caminhar, em ti e numa paisagem, para que se mostre ao fim da vida o continuar da tua jornada, sem caminho porque irás d
Há um dia em que o Sol nasce por entre duas montanhas, ainda de noite, para ver à sua luz o que de tão tenebroso acorrenta os sonhos.  Vi, há tempos de outros tempos, tempos com amor lá dentro.  Parece-me que, hoje em dia, a sociedade tem um pouco mais de só no ciedade.
Um abraço e uma portada segura pelas memórias de uma rua.
Noite Adormecer Dormir Acordar
Pela Primavera vem ligeira a vida, renascida, no calor que se esquece quando de novo a chuva se lembrar de ganhar um espaço ao Sol. Poucos os retratos onde ondulam searas, com um par de mãos dadas, rumo ao inexistente infinito. De que nos querem convencer, de quê?, estes galhos secos que tentam roubar todos os retratos de quem se preocupa em ser apenas um negativo que faz do mundo, mundo? É no dia a dia, sem paz ou alegria, que nos apertam o cerco, que nos incitam a voar sem sair de dentro desta gaiola.
Um dia, a manhã vai nascer sobre uma caneca gasta cheia de um café negro e forte, onde bóiam ainda restos da boroa que lá molhei após ter aberto o pequeno postigo que, orgulhoso, pisca o olho a cada inverno que passa e eu, a cada café, o pão nosso de cada dia.
Tenho um cajado chamado mundo, que me segura as mãos para que não pise eu a relva com força exagerada.
É de encontro ao vidro embaciado pelo café que ainda sobra no copo que fecho os olhos e, mentalmente, desenho as paisagens que sei existirem noutras dimensões.  Fico aqui, assim, como quem se adormece ao som da chuva, porque sei que vais embora, a deixar que a imaginação me conheça, apresento-me e ela ri-se, já me conhecia, diz ela, e quando abro os olhos e me afasto, já o vidro desembaciou, não há rastos de dedos, nem imaginários, apenas o vidro e agora, quem se embacia, sou eu.
Há algures um monte, fora destas paredes onde se enclausuram sonhos, coberto por feno acabadinho de cortar, onde guardo no bolso das calças um bloco sujo prenhe de rabiscos que nunca viram palavras e tiro de mim toda a vontade de ser sobreiro.  Pelos vales que nos ocorrem enquanto soçobramos, pernoitam debaixo da capa estrelada que o universo sarapinta, encostados às cascas mornas das oliveiras, sandaliados os pés frios e poeirentos, para saber adormecer com o respirar da terra que o vento parece querer reproduzir.
Sobraria na vida espaço para algumas poças que reflictam um céu ondulado?