Não é pela noite, mas pelo adormecer que se seguem, nas palavras, as cordas que se arrastam pelo cais enquanto amaro, sem amaras, ao porto que me viu nascer.
2012-06-30
2012-06-29
Os corredores quase vazios. Ele vem vermelho de Sol, camisola de alças branca, suja de quem se trabalha, com um saco com pão quente na mão, uma embalagem de queijo e outra de fiambre. Para em frente a uma prateleira de chocolates, mete a mão no calção sujo de tinta, tira uns trocados, olha de novo para a mão, ri-se e tira um chocolate.
A felicidade parece ser feita de tirar um doce da prateleira da vida.
2012-06-28
2012-06-27
2012-06-26
2012-06-21
Provavelmente trazida pelo vento, a mudança vai chegando como dentes-de-leão à deriva. E eu sonho que me leve, para um interior quase esquecido, onde lá, aqui dentro, possa fazer uma casa do tamanho de uma aldeia e caiba lá todo o mundo que me vai banhando quando suspiro (e vejo a areia escorrer).
Começo a não ter paciência para este modelo degradado.
2012-06-03
2012-06-02
Olho em volta e, de repente, estou noutro mundo. As coisas simples estão tão distantes e desvalorizadas, que gostar de sentir a chuva parece despropositado. Lentamente, cercam-nos, criam-nos criados, serventes de uma sistema decadente. Governados sem escrúpulos, enfermos de vida, carentes de ratings em que ser é ter, mais e mais, correndo cada vez mais depressa para longe de nós mesmos.
Ofereço-me para ir para uma aldeia do interior, com um curso de água perto, árvores que me atirem sombra em dias de Sol e ruídos em dias de chuva e tempestade.
Viver, o supra objectivo desta presença efémera no planeta, passou a ser uma guerra, uma feira de vaidades onde todos são Reis, nus.
2012-06-01
Vendo-me à vida
pelos cortes que a seiva lava,
quente,
nos regressos de uma jornada só de ida.
O calor ergueu-se aos confins do que respirou
e cala a voz urdida,
afaga
o frio, ausente, que se amotina
no aluno espiralado que brinca e, assim, me ensina.
Há.de o tempo contornar dias
e, no sossego do meu cansaço,
trazer-me ao campanário soalheiro
onde pela primeiras vez desvendei-me e, tu, sorrias.
Em todos os caminhos
descanso das viagens que não fiz,
auscultando sentidos do pó que se obstina,
sou o aguaceiro previsto
e que desagua nas órbitas da minha íris.
Não me julguem cego por não ver,
tenho mãos entrelaçadas
e marés sem oceanos nas abissais do viver.
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