2008-02-29

Quase lá

- Tens escrito no blog?
- Nops - respondo... Não sei bem porquê. Falta de tempo? Digamos que o tempo nunca falta quando sabemos que o temos. A verdade é que não sei bem porquê, é um torpor, um emudecimento vazio, como os dias de nevoeiro, em que mal vemos o chão que pisamos.
Passos os dias a escrever mentalmente, a passar por locais e situações e a deixar, no local, impregnado, alguns pensamentos que desejo recordar mais tarde. Ficam ali, a flutuar, algumas vezes perdidos entre pensamentos de outras pessoas, a murmurar entre eles "quando é que ele nos vem buscar?". E, mais tarde, passo lá e recolho-os, seja como pensamentos, seja como um sorriso de alguém que os apanhou antes de mim.

Gosto de ler os comentários, no blog ou pessoalmente, de pessoas que passam aqui, no blog e não deixo de pensar e de achar curioso as diferentes interpretações que cada um dá ao que escrevo, ao que lêem.
Não, não sou taciturno ou vejo apenas o lado mau (mas existe lado mau?) da realidade do quotidiano (existe outra realidade, a dos meus sonhos), simplesmente gosto de me questionar, numa perspectiva de igualmente ir conhecendo-me melhor, a cada passo, a cada nova realidade. E isso leva-me a pensar não apenas em mim (e no meu papel no meio da multidão), mas no nosso futuro enquanto humanidade, como grupo, como habitantes de um condomínio gigante chamado "Terra". Obviamente e seguindo frases (bem) feitas, tal como Ghandi ("Seja a mudança que quer ver no mundo"), tento melhorar um pouco, a cada dia, o que não significa que fique melhor ou pior humorado, apenas reflicto e vejo, sem medo, mas com receio, tudo o que sou, de bom e de mau, tentando melhorar, sem me esconder atrás de máscaras... Este é o meu movimento, cada qual tem o seu, não é melhor ou pior, é, como referi, o meu.
E tudo isto porquê? Porque acho que as pessoas estão cada vez mais a correrem atrás de nada (e será nada ter que pagar contas como educação, alimentação, habitação?), agressivas, austeras, consumistas e reféns de um sistema que lhes incute medo e insegurança, ao invés de tentar difundir uma imagem de confiança, de comunidade, de fraternidade... Nascemos diferentes, somos diferentes e morreremos diferentes, mas a nossa passagem cá, diferente para cada um de nós, pode ter um objectivo maior comum, dentro dos nossos objectivos pessoais diferentes, mas, como sempre, isto é apenas o meu ponto de vista... Sim, diferente :)

Ouvi há pouco, na rádio (creio que Antena 1) alguém dizer que a única energia renovável e inesgotável é... a alma humana. Vamos aproveitar este recurso? Sendo como somos e melhores do que julgamos ser?

O problema destas palavras, alma e outras derivadas, é o caminho que as pessoas seguem, a sua interpretação, o acordar neo-místico, o encontro com outras correntes e o seguimento incoerente de algo (o mesmo acontece na política) sem bom-senso e racionalidade (física e espiritual) e, depois, quando alguém atingiu uma posição de "destaque", raras são as que se mantêm firmes e serenas na sua convicção de nada saberem, pois a maioria tende, ainda, a colocar-se "acima de", em posição de guru...

No meio disto, fiquei sem saber onde queria chegar. Mais uma vez, fui escrevendo ao longo de duas horas, seja na pausa para café, no intervalo de ir ao WC ou simplesmente para respirar... Acho que tenho que tomar mais cafés, para poder escrever mais um pouco.

Sei que, por muito que as pessoas digam que isto está mau, creio que a quantidade de pessoas a pensar por elas próprias aumenta exponencialmente, o que indica, claramente, que estamos quase lá.

Bom fim-de-semana.

Fica aqui uma música que gosto muito, de Mark Knopfler, da banda sonora do filme Cal. Ah! E dia 4 de Abril lá estarei no Campo Pequeno.

2008-02-22

Cat e golias

Dou por mim a pensar (hoje concedo-me a este luxo) e a escrever um pouco aqui, no blog.
Não consigo deixar de tentar perceber porque razão (e para onde) estamos todos a correr... Não consigo, por muito que me esforce. Visto de fora, o panorama actual é engraçado, somos formiguinhas ordeiras, correndo sem saber para onde, basta uma começar a correr numa direcção e todas as outras seguem... Mas o que pretendemos atingir? Qual a finalidade?
Hoje de manhã passei por uns putos a caminho da escola... Fez-me recordar os meus tempos de garoto, onde havia tempo para achar engraçado uma nova espécie de aranha ou tentar perceber se o poço recém-descoberto era muito fundo.
Ainda consigo emocionar-me a ver um luar como o de ontem, tentar contar quantas vezes abana a Farrusca o rabo por minuto, ver as nuvens como hoje de manhã, numa tonalidade sem tom e imaginar-me saltar de uma em uma até chegar ao Sol...
Entrar no trânsito é uma aventura, a estrada transforma-se facilmente em local de agressivida, ostentação, prioridade, buzinões, palavrões e outros ões... É difícil, muito difícil, encontrar alguém a cantar no carro, a sorrir, sem estar a ranger os dentes, a esbracejar, a espumar...
Depois, bem, depois a imposição do stress negativo (porque existe o stress positivo), o cutucar o gado com o pau, mentir, olhar de soslaio para a etiqueta da camisa...
Quem, mas quem consegue ser quem é?

Olhem, bom fim-de-semana!

2008-02-15

Sulcos abandonados

São dos lírios o meu olhar,
o vaguear,
o sorrir ao vento
que uiva
nas encostas do meu alento.

Estão na passada primeira
que ergue
da terra, a poeira,
eis quem de mim me pede
a vida
no respirar,
deixo-te o claro cerrado da minha sede
adormecida
nos teus olhos, o luar.

Leva-me brisa
as sombras para o horizonte
e de lá me fite o destino,
não há um suspiro sobre a cinza
e água corrida sob a ponte,
que leve o pleno da saudade de um campo,
sozinho.

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A falta de tempo para escrever um pouco mais (e melhor) deixa-me assim, como hei-de dizer, "desconsolado", mas como para tudo há um tempo, eu não sou excepção... Tu não sabes, mas quando vou a locais bonitos, com os quais me identifico, levo comigo muitos dos olhares que pousam aqui... Espero que gostes.

É quase fim-de-semana e, claro, eu desejo-te um cheio, daqueles em que acordamos cheios de sonhos e dizemos para nós próprios: "vou realizá-los... hoje!"

2008-02-13

Juventude intemporal

Fico feliz, muito feliz, por ter crescido a ver, ouvir, sonhar e poder correr entre árvores imaginando todas as aventuras que uma pequena caixa a preto e branco me trazia...
Consegues ver sem sorrir inocentemente e largar uma pequena lágrima de saudade e conforto por ter isto dentro do coração?
O maior segredo era (é) ser tão feliz, com tão pouco.

2008-02-12

Primaverno

É sintoma que os tempos mudam, estas noites de Invernos e manhãs de Primavera, fazem-nos pensar que não somos nós que estamos a mudar, a Natureza adapta-se aos nossos próprios ciclos... Creio mesmo que esta espécie de auto-destruição ambiental é sintoma da Natureza a adaptar-se à nossa auto-destruição enquanto espécie (não, não acordei de mal com o mundo).

Mas eu gosto deste tempo... O dia quente passa-me um pouco ao lado, porque passo os meus dias num escritório sem janela, saindo para serviços ocasionais na "rua" ou para almoçar, mas a manhã e a noite são perfeitas para mim.
A manhã acorda fria, aquecendo facilmente, eu percorro os quilómetros que me separam em direcção contrária ao Sol, o que faz que este reflicta nos espelhos e me aqueçam a cara. Devo ser a única pessoa que se ri disto, porque no trânsito não vejo mais ninguém a sorrir.
As crianças na paragem de autocarro espremem-se por uma nesga de Sol e riem-se... Um ou outro cão corre pela estrada atrás de um osso no caixote do lixo e uma mão trémula segura uma chávena de café com leite à janela. O dia parece espreguiçar-se, lentamente, saindo de uma cama confortável para uma manhã fria depois de uma noite com aqueles sonhos que nos fazem acordar a sorrir.
A noite cai com a placidez das noites de Inverno, fria, gélida, onde brinco com o bafejar... Está tanto frio que as próprias estrelas parecem mais próximas da terra, tremendo. E eu, com pouca roupa para o frio, rio-me ao dar por mim a tremer os dentes enquanto percorro algumas ruas da minha aldeia (recém-promovida a vila), com todo o tempo do mundo para colher alguns sonhos que pendem no vazio...

2008-02-07

Por instantes

Por instantes, vim aqui, no meio de uns bits, sinais eléctricos, cabos de programação e outra panóplia de utensílios que têm feito o meu quotidiano.

Recentes comentários feitos por antigos alunos no meu hi5 têm contribuído para eu reflectir sobre várias coisas, entre elas as palavras que vamos proferindo em determinado momento, quando somos nós mesmos, sem sabermos muito bem por quê, mas que saem cá de dentro.
Não tenho tempo para colocar aqui os comentários, fá-lo-ei depois, não por uma questão de ego, mas por perceber (agora sim) o impacto daquilo que podemos dizer e ser quando somos (passe a redundância) nós mesmos...
Nenhuma palavra, proferida com amor ou ódio, fica em vão e, de facto, tudo retorna a nós próprios, seja em forma de um olá terno e ameno no coração, seja um pontapé frio na boca...

E este post porquê? Bem, além das razões supracitadas, para reflectir e agradecer a quem tem passado aqui e me tem plantado sementes de tranquilidade no olhar. Os vossos comentários são muito, mas mesmo muito bons (a minha mana Anabela e a Ana já tinham utilizado isto no lançamento do livro, na apresentação surpresa que me fizeram) e mesmo quando não comentam, saber que passaram aqui, como que deixando pegadas de amizade virtual, faz-me sentir que vale a pena ser o que se é (afinal, só assim somos nós próprios, correcto?).

Logo voltarei aqui, agora há que continuar com o trabalho. Fiquem bem

2008-02-03

Um abraço

O tempo não é aquilo que pensamos, tão pouco o que já ouvi (o tempo somos nós que o fazemos). O tempo vai talhando, esculpindo, desbastando e desbravando aquilo que em nós existe e não conhecemos... E quando conhecemos, mas não queremos ver, trata de nos atirar à face as arestas dos nossos próprios ângulos... Por outro lado (agradavelmente) trata de nos ventar com carícia todas as folhas de Outono que perdemos e julgamos esquecer.

Tenho a meu lado um sonho, daqueles que viveram e continuam a viver ainda que para lá do que vejo. Fala-me de um sonho sem fronteiras, umas paredes erguidas a um céu baixo com nuvens húmidas de candura e estrelas que parecem pintadas nas pálpebras dos meus olhos fechados. Fala-me das paredes, das pinturas dos amigos, dos abraços dados e nunca perdidos, dos beijos que espelham um pouco do carinho das estrelas por nós.
Sussurra-me do bem-estar, do encontro com o esquecido, da lei de não ter leis, dos risos das crianças com cores de arco-íris, das passadas rápidas no cascalho que faz os caminhos espirais. Mostra-me a planta, o projecto, as árvores, os sorrisos que chegarão dos trilhos que me levam da palma da minha mão a cada um dos dedos... A lareira a crepitar um lume que arde por dentro, temas e invocações novas, competições sem concorrentes, apenas participantes, cabeças encostadas a ombros, suspiros e uma plenitude que alcança todo e qualquer lugar inexistente do Universo.

Beija-me, envia-me um abraço pelos olhares de outras pessoas e pousa a mão no meu ombro direito. No escritório vazio (ou num qualquer cubículo, que eu peço apenas conforto para a alma e para este corpo que me mantém dentro) ecoa o som de um sorriso, uma gargalhada rasgada que parece encher o peito de ar, o meu peito... O Sol brilha por momentos, embora seja noite, tu partes, para qualquer local que existe em todo o lado, mas onde as minhas mãos não chegam e fico aqui, a olhar, a ouvir música que nem sabia que tocava, escutando ainda o riso distante e tão dentro do meu peito... Dentro dos olhos trago a planta, ainda, o projecto, todos os traços e caras de quem comigo se cruza, os alicerces, as árvores de fruto e o fruto que outros chamam Amor, está tudo aqui e embora esteja completo sei que vou dormir e acordar com as mãos vazias...

Embora tenha outras, estas foram as letras que saíram, directamente de ti, para mim, porque tudo o que te dei, foi tudo aquilo que me deram um dia, umas folhas caídas, um sorriso e um sonho em forma de terra cultivada por mãos de gente. Espero que gostes.