2007-12-26

Nunca estive

Batalho
e baralho
os sorrisos rasgados
que rasgam
os ramos que trago nas mãos.

Findo
o dia
finado à conta das contas
que não sei fazer
findar.

Suponho sílabas
sibilares
nas pautas deste caderno,
tenho-te em mim
e nos vestígios
de dia
que o ocaso trouxe
à noite,
a mim.

Estou cansado,
ausente
dos recônditos locais secretos
secretamente escondidos
do cansaço...

Tenho tanto frio.

Pedras Revoltas II

2007-12-23

"Let me be" musicado

Ontem foi dia de emoções. Daquelas fortes. Após um dia aniversário em que estive pouquíssimo tempo em casa, fui jantar a casa dos meus pais e a Ana e a minha irmã, como sempre, prepararam uma surpresa ao convidarem alguns dos meus amigos. Entre os amigos surgiu o Luís, que fez uma dupla surpresa. Primeiro, na sua infinita fé ofereceu-me uma viola (é a que podem ver no vídeo) e, depois, cantou o poema "Let me be", do livro "Para lá do que vejo". Foi bonito demais! Embora a capacidade da câmara que gravou não seja a melhor, sei que a continuar assim é de esperar um cd :) O pormenor final. Ele a limpar a "emoção" dos olhos. Uma prova da extrema sensibilidade de quem é um verdadeiro "artista". Obrigado Amigo!


2007-12-21

Lista de Livrarias

Antes de rumar em mais uma viagem de trabalho, fica aqui a lista de livrarias onde podem encontrar o livro "Para lá do que vejo".
  • Poetria (Baixa do Porto)
  • Lello (Clérigos - Porto)
  • Almedina (Arrábida Shopping - V. N. Gaia)
  • Leitura (Baixa do Porto)
  • Sá da Costa (Chiado - Lisboa)
  • Bertrand Stª Catarina (Porto)
  • Bertrand Parque Nascente (Rio Tinto)
  • Bertrand Maia shopping (Maia)
  • Centro Elisabete Teixeira (V. N. Gaia)
  • Livraria Culsete (Setúbal)
  • Livraria Garfos e Letras (Porto)
  • O Livreiro (Chaves)
  • Melo e Castro (Felgueiras)
  • Livraria Esperança (Funchal - Madeira)
Fiquem bem e até breve.

Tenho orgulho "nisto"

Jury Award – First Place
ARE THERE STILL ANY SHEPHERDS?
Dir. Jorge Pelicano, Portugal 2006



















A perfect blend of good cinema and quality research on a subject that generally finds place in academic study and international workshops. The stunning visuals, choice of the protagonist, catchy music, songs with profound lyrics and superbly imaginative editing complements the artful story-telling in the film. We get a profound understanding of the fatigue of those men who are used to the loneliness of the mountains. The filmmakers commitment to the subject and mastery over the cinematic tools have combined well to produce the film that touches the inner chord of the romantic, provides the proverbial food for thought for the intellectual and excellent message recall for others.

2007-12-17

Viagens

Quase perco as mãos para a noite.
O frio não serve de desculpa para não escrever.
Vejo agora que pouco observo. As viagens que fazia em textos eram tão ricas como efémeras, eram e são ainda os sonhos.
Ultimamente não sonho, observo, mas não vejo. Tenho saudades de mim mesmo, escrever tudo o que não sei redigir, sorrir com o olhar e fechar os olhos , dar dois beijos aos sonhos perdidos antes de ter frio e dizer-lhes baixinho: amo-vos.
Tenho a sensação que o barco que estava ancorado no meu coração, onde estavam fundeados os sonhos e seus frutos, vai deslizando pela água para mar alto, onde não sei nadar ou sorrir.

As...

As tua mãos,
as mesmas que embalam o meu sonho,
pousam nos meus ombros
caídos.

As mãos mirradas
e a letra pequena,
saída agora do ventre materno
que é o medo
de ter coragem.

As palavras
plantadas
na terra fértil do pensamento,
os sussurros
que dão voz ao inaudito
em poemas
improváveis.

As futilidades,
as guerras esgrimidas em batalhas não lutadas
no luto
do teu dia.

As noites,
as noites de rumores,
as noites de suores,
as noites que sorvo,
os amores...

As sombras escondidas
que me doem.

As estrelas fugazes
que me constroem...

2007-12-13

De onde sou




















Eu sou daqui... 
Ainda que lá não esteja, 
mesmo quando não 
vou 
lá 
encontro-me por lá.

2007-12-08

Dentro de mim

Dentro de mim habita nevoeiro,
denso e delgado
como uma garra eremita,
que prende na timidez da noite
a leve fuligem
de um braseiro.

Dentro de mim estou, eu,
escondido
num cortinado incolor
com paletas de sons,
numa pauta
de notas coloridas
que iludem a dor
e me silenciam as mãos.

Dentro de mim sorrio,
nadam os soturnos
e os vagos,
os fúteis
e os tragos,
num invólucro sem som,
com sombras
que beijam o papel que me cobre,
nos dias em que
dentro de mim choro.

2007-12-06

Não há duas sem três

O tempo sabe a Natal, mas o quotidiano não tem sabor, é igual a todos os outros dias, um a seguir ao outro, sem nenhum existir, exceptuando o momento actual.

Escrevo num intervalo para beberricar um pouco de chã (tenho que diminuir ao café), tenho a chávena da thermos à minha frente e o calor que emana dá-me sono (isto e o facto de estar a dormir pouco). Não tenho qualquer motivo aparente para escrever, tirando o facto de ainda não ter saído do escritório, nem para sentir se a maresia chega aqui ou se de facto o quotidiano sabe a Natal.

Não, tudo igual... E eu ali atrás de uma nuvem a olhar para mim mesmo.

3º Feedback - Pedras revoltas (musicado)

Aos poucos vou conseguindo colocar aqui os momentos do lançamento do livro.
Acabei de receber um vídeo feito por um telemóvel (obrigado Cláudio). A qualidade não é a melhor, mas quis colocar aqui de qualquer forma, para que possam ver e ouvir o magnífico trabalho do Luís.
Convidei-o uma semana antes do lançamento, no dia seguinte já ele tinha escolhido o poema, a forma como o cantar e a melodia. Passados dois dias já eu ouvia a música... E diz ele que não é músico :)
Em breve coloco mais filmagens de outros momentos e desta música também.

Excluído


Veste-me de sonho
a vida
que o frio faz,
não,
não é para ti que olho,
mas para o deserto
que o teu olhar ausente me traz.

As mãos que pendem da vida,
na vida que sorriu
vida frias,
como as minhas mãos
vazias...

Sonhos
e barcos
e aviões de papel,
amigos
e estrelas cadentes
que pendem do vazio,
frio,
quantos mundos cabem ainda
numa só folha de papel?

Pariu-me o mundo
aqui neste muro,
sozinho.

Vive-me
nos olhos do que serei,
veste-me de carinho...

(fotografia de Norberto Valério)

2007-12-03

Reencontros perdidos

Vozes,
silêncios que falam a ausência
de ti,
de mim.

Este corpo inerte,
com sussurros no peito
e um gelo,
que derrete
por ti,
por mim.

Uma mão quente,
reencontros desencontrados, na vida
que palpita
em ti,
em mim.

A tristeza,
o sorriso que pende do teu olhar,
que pede mãos
e na penúria leveza
de ti,
de mim.

O agri-doce,
o sabor inodoro de sentidos
que o céu cozinha
na tua alma,
por ti,
por mim.

A cadência do infinito,
o Universo que é um sorriso teu
como meu é o pôr-do-Soal
em ti,
apenas em ti...

2007-12-01

Quando eu era como eu fui

A Ana encontrou montes de folhas de coisas, mesmo coisas, que escrevi. Olhar para trás e ler, ver, sentir aquilo que fui, é bastante estranho. Sou eu, sim, mas não o eu que se formou. Sinto-me como uma casa, autoconsciente, que se olha enquanto tijolo, alicerce ou cimento e não se reconhece. Aquilo ali, sabes, direi eu a alguém que me guarde as tardes frias quando os meus olhos dormirem, aquilo ali também fui eu.

São uma série de contos, alguns que gosto e talvez os venha a digitar aqui, enquanto posts, poemas e algumas coisas escritas, em forma de desabafo. Embora não tenha passado muito tempo, é curioso, para mim, não se esqueçam que este post é para eu mesmo ver quando eu era como eu fui, olhar para trás, para o dia de ontem que já não existe e constatar que muito do que escrevi ficou preso pelo caminho, sombras e silvas gastas e secas, velhas e mortas.

Há muitos anos, sim, mesmo muitos, nos primórdios do meu namoro com a Ana, ela, conhecendo a minha artéria (em contraste com a veia) poética, compilou (ou seja, recolheu e digitou, pois sempre escrevi bastante "à mão") e imprimiu tudo num registo em tudo semelhante a um livro... Só agora constato que esta ideia de escrever para um livro, ao invés de escrever para um caderno, é antiga e teve uma primeira edição nos idos anos de quanto eu era como eu fui.

Cheguei há pouco de ver o Sérgio Godinho. Há pessoas que tratam bem as palavras, não há?
Ele falava e tudo era esclarecedor, mas quando tocava, quando as mãos batiam nas cordas e as faziam vibrar, as notas desprendiam-se e saltavam, voando como restos de fogo-de-artifício numa noite de arraial. Algumas pareciam ter vida, brilhando, batendo no tecto, nas paredes, dividindo-se em várias ou pura e simplesmente apagando-se poucos instantes depois de se soltarem. Por que será que algumas notas têm vida? Quem as alimenta? Será quem as canta, quem as ouve, quem as sustém no peito e no olhar?

A maior virtude do lançamento do meu livro, da "cerimónia" propriamente dita, é ter possibilitado retomar o contacto com amigos de longa data, tão longa que lembro-me deles desde que me lembro ser pessoa (mesmo de outras vidas enquanto pessoa). Fico feliz, intimamente, sem floreados ou pseudo-arquétipos, por ser como sou e ter muitos e bons amigos.

Ah! Já não me incomoda o facto de eu querer "falar" sobre a amizade e outras "coisas" que são o combustível do meu coração e não o conseguir. Há coisas que não se falam, não se escrevem, apenas se são. E estas coisas não são coisas.

O passar das horas não costuma perdoar e embora eu saiba que não existem, saber que elas sucumbem a cada 60 segundos conquista-me o respeito. É por elas, pelas horas, que vou desligar o computador e dormir...
e também porque a Ana já aqueceu a cama :)