2012-07-23


Que lamento
o meu
de mil anos não trazer numa só vida,
para, por meu próprio pé, ser caminho dentro da própria estrada,
ser vento ascendente
que eleva uma águia planada,
o calor nas gretas de uns lábios descolorados,
o frio que se torna amigo do fogo que adormece a lareira,
ser pelourinho móvel de um fio de água,
estar onde nunca chegarei,
sem eira, nem beira.
Concede-me a vida, ou deus,
golfadas de idade que transformo em manhã,
sem recordar os passeios noutras pernas
cada um a cor única de minhas cãs.
Tenho-te como paisagem
e horizonte, 
onde quer que vá
é em ti que me faço monte.

2012-07-22

Ambulanteio-me
em ofícios que não me nasceram,
entre montes em que arreio-me
faço das mãos utensílios onde goivas serpenteiam
ao cimo dum cerne, freixo ou oliveira,
mas é dos cardos meu cardume
o Sol que vai lambendo terra como quem se lava
e desta terra quente onde planície é toda cume
o restolho é temperado com suor,
aqui não se sobrevive
respira-se bem cá ao fundo
o amor.
É aqui
mais perto das estrelas
onde me chamo lar,
àquele que esqueci
por me lembrar de mim
deixo parte da vida a soluçar.
As palavras que cultivei são como eu,
semente sem fruto,
ideia em árvore seca que ardeu,
porque de mim, silêncio, alvo
que aumenta a cada leito
dos passos na noite ajardinada,
onde me condenam, me salvo
para soçobrar vitorioso
sobre uma espada.
Oh Leónidas,
de curtos ferros austeros
se soltam as noites inglórias
entre vanglórias
e tristezas
alma das hortências
alfazemas
que a noite tombou sem nome
quando soube que de quatro vezes se soltam
três nãos um sim.
Há noite num luar,
sozinha,
a chorar.

2012-07-12

Cada livro mil almas, para me descobrir e enternecer com todas as palavras que não li. Na falta de uma lombada, entretenho-me a desfolhar os dias como páginas do livro que, sem prefácio, me fazem acreditar ter escrito.

2012-07-11