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A mostrar mensagens de Abril, 2015
Olho para o fruto, caiu-me colhido na mão aberta. Ficaria o resto deste tempo limitado neste pé de laranjeira somente a e para te ver crescer, para que também tu me vejas semeado na vida sem contudo frutar, porque as palavras germinam, mas jamais o fruto colhe o que polinizou. Olho para mim, nascente a poente, com o desejo de emancipar almejado diário de tudo o que serpenteia no céu, ainda que nele sobre apenas desejo, meu.
Guardei o melhor para agora, que tudo dorme, para abrir os braços e deixar-me levar ao colo pela noite, que tudo acorda.
Trago já de longe o barulho característico do metal das rodas do comboio a zunirem no ferro do carril. Ouvir é-me deixar escorregar pelas imagens de uma paisagem que me olhava quando puto me colocava em pé, sobre os radiadores, e espreitava o vento a correr do lado de lá da janela, o cheiro a cigarro, o pregão intermitente do rebuçadinho da Régua, a lentidão do trajecto na rapidez da aventurança de catraio a tentar descobrir o que era o sonho de vir a ser carruagem com locomotiva de ronco forte e áspero. Paro, escuto, olho. O que vejo faz-me levar a mão aos olhos, não vá o vento, o calor da linha e o cheiro de óleo queimado deitar fora o sal que ainda me tempera a visão.

A liberdade de escrever

in Bird Magazine . É comigo que o silêncio fala, escuto ainda que não o ouçam os pobres olhares que dizem nada terem a ver. Vidradas as luzes bruxuleiam-se ao tecto para se derramarem sem cuidado nas noites que tentam iluminar. Enquanto na caverna temem a vida vivendo cá fora acautela-se e emoldura-se o vento e até a estupidez se cala, porque ao longe vem o silêncio e é comigo que ele fala… Ainda que me doa o acordar é pelo sonho que me vivo, no momento de me ter escrito separar o vulgar de um sopro inaudito cá te almejo por entre mim fugindo do destino que soçobra altivo, és planeta que se expande num botão de Universo que plantei no meu jardim. Intriga-me a quietude do silêncio o amadurecer do êxtase a órbita orbitada inefável pela noite (sempre, sempre a noite) que se desliga do mundo para se ligar à vida (sempre, sempre a vida) enquanto as perolazitas a que chamam estrelas rebolam e se enfiam olhos adentro como se os dias chorassem para dentro de nós. Que me lembre, sempre,
Vou não indo, a decisão toma-se quando não se decide. Por crer, creio que o amanhã poderá querer ser diferente, trazer o que se faz ausente, permitir que floresça um caminho do qual se sente apenas o odor, a certeza da incerteza, a volatilidade do infinito em constante mutação. Estão-nos a parir, vamos nascer com olhos nas estrelas, mas por enquanto o mais próximo de lá é o olhamento de uma brisa ténue, quase sem vento.
Acredito, um dia, dois que sejam, a indiferença pese menos que a diferença e por esta o trigo possa seguir adiante, sementeira e seco na eira e até o joio alimente, não a bolsa de quem semeia fome, mas quem no fundo do esquecimento nos olha, de frente.
Oh alicerce, pinta-se o monumento e as mãos do Homem e tudo se perde se além do amor nada perece, façam-se as vozes caladas canção a sombra onde se esconde  tempo e visão guardada a sete almas  a chave, toma-te criança habitada por quem se sabe perdida, aí jamais a morte alcança.

Não vamos!

Vamos caminhado, em círculos, percorrendo os mesmos trilhos, vamos caminhando, mesmo, sempre, pequenos, vamos caminhando, afundando o caminho na passada, cavando o que nos resta de solidariedade e seriedade, vamos, vamos, caminhando, sempre, não olhes para trás, atrás vem gente, segue, vai, indiferente, não pares, caminha, caminhando, vai, escurece, escava um pouco mais do caminho, vai, caminha, que a sina de se ser homem é urdir as vozes do pensamento com "o que é que ele tinha?"

Nau

Crónica de domingo na Bird Magazine . Um estrondo estreme as vidraças e a janela, embora a impassividade com que verte o resto do conteúdo da lata de atum, óleo de girassol incluso, sobre a fatia de pão velho transpareça o alheamento do som. O vento empurrou a portada, descascada de verde, que bateu forte sobre a madeira, não causando estragos, porque estes já foram causados pelo tempo, que lhe trouxe um vidro partido. Este jogo de quem assusta quem vem de longe, vento que o assusta ou tenta assustar e ele, sentado, como que falecido, causando a curiosidade do vento que chega de mansinho apenas para saltar e correr encosta acima deitando abaixo folhas já soltas preparadas para o Outono, quando ele abre de repente os olhos e o olha como que o tivesse visto. O riso ouve-se invariavelmente a cada chuvada que cai, seja Inverno ou Verão, Outono ou Primavera, quando o homem se faz era e encosta à parede desbranqueada o corpo nu. Não há pudores, nem dores, onde já só habita o último homem só
Saturo a ausência de estratos perfilo-me à chamada de uma vida  vejo-os ali, soçobrados, cegos, pendidos pela força dos seus egos, onde cairá a chuva que me leva ao pó onde chuva só? Trino as estrelas do firmamento há em ti todo o lamento rosáceas que se querem para o mundo sem que as prendam um momento. E eu, saturado, aguento caloricamente o verão arado pelos dias frios que me austero, eu estou quem quero, porém se de mim me disserem, já não tens idade, sorrio, os anos que por mim passam são apenas uma tarde no dia que na palma da mão se arde.

Páscoa

Crónica de domingo na Bird Magazine . Sons de sinos, pequenas badaladas que vão percorrendo as ruas empedradas e sorridentes. Ele pega-te na mão e traz-te pelo céu, viajando de raspão pelo arco-íris que teimosamente teimas em colorir a cada manhã que acorda molhada. Corres sem pisar o chão, volitas entre as opas vermelhas, o crucifixo dourado, as flores que o encimam e reparas que ao teu redor há toda uma natureza que parece ressuscitada. Chama-te a atenção do petiz que segue ora à frente, ora atrás, quando o cansaço o assim obrigar, badalando-se ao som da sineta. Vai orgulhoso da tarefa e tu, que nunca foste de badaladas, vestes-te de arco-íris e vais colorindo o caminho, olhando à volta, percorrendo os olhares, cheirando as flores e lamentando a sua sina. Pensas que mais valeria plantar as flores de vésperas pelas ladeiras onde este passo passasse, fazendo de todo o caminho não um tapete, mas uma colina florida, apenas até te perceberes que as colinas, canteiros e ladeiras d
Vê bem aquilo que o silêncio te quer fazer ouvir.  Está ali, ao virar de ti mesmo, a casa onde desejas chegar.  Vale a pena esperar. Ser onde se está, fechar os olhos, sorrir.
Quando as minhas mãos se cansam, tacteiam o papel e só pela rugosidade, pelo que está escrito ainda por escrever, sentem-se saciadas. Eu... Creio que Eu é sinónimo de livro, inacabado, desfolhado, presente que se faz de passado. Livro, eu, a querer ser, por escrever...