Subir o Marão, olhar a placa alusiva a Miguel Torga, descer para Vila Real e, mesmo parado, continuar a viajar pelas estações do ano que moram em cada cara com que me cruzo...
2010-05-29
2010-05-23
É incontrolável, surgindo como quem brota de um muro moído pela água e pelo roçar de gado que se faz gente, incontrola-se aos poucos, na certeza do que se faz jamais se disse, porque no olhar, na procura, no vislumbre que o destino aparenta exibir, há sempre um portão a fechar-se, um som de ferro em ferro, ecoando em mim o eco e o som, sem se saber qual deles nasceu primeiro, se o ferro, se o muro.
Desde que sou tempo, passam-me a conversar pares quadrigêmeos de mãos sem se tocarem.
- Acho que vi uma pessoa.
- Não vejo. Virá para aqui?
Pouco se rende o cansaço, nem esmorecendo a esquina que não se consegue dobrar, há sempre um par de cegueiras vendadas que me faz acordar.
- Passou novamente sem parar…
- Nem abrandou?
Nada me demove, mesmo aqui parado ouço outros imóveis urdindo planos elevados onde não alcança o céu, quanto mais as estrelas…
- Vem aí alguém!
- Outra vez?
- Não, vem mesmo para aqui.
- A sério?
- Sim… E traz algo.
Os passos apressados, inquietos, trazem a cegueira que me atribuem, conspurcam a mágoa e as ombreiras do destino, pintando de negro o arco-íris da amizade.
Ladrilhando de solidão o transparente, facilmente cegou a sua irmã oposta em gestos firmes sem vida, onde chaves invisíveis jamais abrirão em par o agreste que semeia o verde.
- Quem era?
- Não sei, já não vejo…
in Alma Tua.
2010-05-22
IV Os coelhos
O barulho de uma motorizada, ao longe, fá-lo acordar. Não sabe como, mas tinha coberto a cabeça com a serapilheira, talvez para se resguardar dos primeiros raios de Sol e não acordou com o raiar do dia, como era costume.
Levanta-se de uma vez só, espreguiça-se continuamente até ao portão, afasta a meia pipa e espreita por uma nesga. O barulho da motorizada aproxima-se, estridente. Aquele zingarelho com duas rodas levava condutor, que era a modos a pessoa que agarrava aquele ferro e indicava o caminho ao cego motociclo e, atrás dele, agarrado a ele, uma menina agarrava-se ao condutor, com medo do vento a levantar. Tinha um minúsculo capacete, que premia contra as costas do pai e, ao passar pela eira onde o carteiro espreitava pareceu sorrir, como se o visse.
A motorizada segue o seu caminho, cega, com o seu domador a atiçar ora para a esquerda ora para a direita, galgando caminho por entre terra batida, terra solta, raízes de árvores e regos feitos por outras motorizadas e pela água da chuva, que teimava seguir sempre o mesmo caminho. É coisa de manias, a água.
Abre a porta da eira por completo, está frio sim senhor.
Volta para dentro, calça-se, veste o casaco, olha para a fogueira que dormia agora em forma de brasas. O alforge tem já lá dentro o pão que sobrou, agora mais duro. Fica a olhar em volta, como que à procura de algo. Não fosse o sono e seria capaz de jurar que na noite anterior alguém lhe tinha coberto os pés com uma camisola amarela.
Aconchegou a palha no avental, compondo a almofada, há que deixar melhor do que estava. Certificou-se que a fogueira dormia profundamente, não fosse nenhuma brasa abrir os olhos, pegou no envelope, olhou-o, “Professora…” e saiu.
O barulho afastou-se até parar ao longe, junto a uma casa branca. Seria a escola? Se escola seria, professora teria e fez-se ao caminho.
O caminho era igual ao percorrido pela motorizada, mas parecia maior, com regos mais fundos, terra mais batida e terra mais solta, mas com umas agradáveis amoras que subiam os muros de pedra. Ainda orvalhadas, matavam a fome e a sede.
Ladeavam a estrada alguns candeeiros, toscos, agora desligados e veio-lhe à memória um sonho estranho que teve, com candeeiros que falavam.
“O cansaço leva-nos a cada sonho, cada imaginação”, pensou, e uma forte rajada de vento atirou-lhe a boina ao chão.
Dobrou-se para a apanhar, sacudiu-a e colocou-a na cabeça novamente, enfiando-a mais fundo, estragava-se o penteado e apertava-se as ideias, mas não saltaria mais com o vento.
Algumas casas surgem, o caminho começa a subir, os mesmos buracos, a mesma terra, desvia-se para dar passagem à motorizada, não vá o seu cavaleiro orientar o ferro para ele e lhe arremessar com uma cornada que certamente lhe arrancaria a boina e, pior que isso, lhe estenderia a correspondência pelo chão. Mas a motorizada passou, o cavaleiro guinava o ferro ao sabor dos buracos e regos, tivesse o carteiro visto o mar e suas barcaças e diria que este cavaleiro é marinheiro em oceano errado.
Uma senhora idosa passa por ele, com os braços cruzados atrás das costas, toda de preto a roupa contrastava com o branco do cabelo e o castanho da cor da armação dos óculos que ajudavam uns olhos azuis claros a verem melhor o caminho e a vida. Diferente das restantes pessoas, não parece ter receio esta senhora idosa ao cruzar-se com um desconhecido, ainda que com respeitável farda dos correios.
- Sabe a senhora dizer-me se aquela casa branca lá em cima é a escola? – pergunta ao mesmo tempo que levanta o chapéu em forma de cumprimento.
- Oh meu filho, escola foi e escola será, enquanto houver gente que ensine e gente que queira aprender. – respondeu sorrindo, ao mesmo tempo que retribua o cumprimento com um acenar da cabeça, sem que os olhos azuis se soltassem dos seus.
- Trazia aqui uma carta para a professora, sabe se ela está lá?
- Se não está agora, estará quando lá chegar, é quase hora da petizada entrar.
- Muito obrigado – repete o cumprimento com o chapéu – e um bom dia para a senhora!
A senhora sorri, inicia a caminhada e passado um pouco responde-lhe “Bom dia”. O carteiro, já sem estar à espera de resposta virou-se para trás, ainda pensou dizer bom dia, mas calou-se ao ver aquela simpática velhinha, vestida de preto, com os braços cruzados nas costas e nas mãos um envelope…
(continua)
Partes I, II e III
Levanta-se de uma vez só, espreguiça-se continuamente até ao portão, afasta a meia pipa e espreita por uma nesga. O barulho da motorizada aproxima-se, estridente. Aquele zingarelho com duas rodas levava condutor, que era a modos a pessoa que agarrava aquele ferro e indicava o caminho ao cego motociclo e, atrás dele, agarrado a ele, uma menina agarrava-se ao condutor, com medo do vento a levantar. Tinha um minúsculo capacete, que premia contra as costas do pai e, ao passar pela eira onde o carteiro espreitava pareceu sorrir, como se o visse.
A motorizada segue o seu caminho, cega, com o seu domador a atiçar ora para a esquerda ora para a direita, galgando caminho por entre terra batida, terra solta, raízes de árvores e regos feitos por outras motorizadas e pela água da chuva, que teimava seguir sempre o mesmo caminho. É coisa de manias, a água.
Abre a porta da eira por completo, está frio sim senhor.
Volta para dentro, calça-se, veste o casaco, olha para a fogueira que dormia agora em forma de brasas. O alforge tem já lá dentro o pão que sobrou, agora mais duro. Fica a olhar em volta, como que à procura de algo. Não fosse o sono e seria capaz de jurar que na noite anterior alguém lhe tinha coberto os pés com uma camisola amarela.
Aconchegou a palha no avental, compondo a almofada, há que deixar melhor do que estava. Certificou-se que a fogueira dormia profundamente, não fosse nenhuma brasa abrir os olhos, pegou no envelope, olhou-o, “Professora…” e saiu.
O barulho afastou-se até parar ao longe, junto a uma casa branca. Seria a escola? Se escola seria, professora teria e fez-se ao caminho.
O caminho era igual ao percorrido pela motorizada, mas parecia maior, com regos mais fundos, terra mais batida e terra mais solta, mas com umas agradáveis amoras que subiam os muros de pedra. Ainda orvalhadas, matavam a fome e a sede.
Ladeavam a estrada alguns candeeiros, toscos, agora desligados e veio-lhe à memória um sonho estranho que teve, com candeeiros que falavam.
“O cansaço leva-nos a cada sonho, cada imaginação”, pensou, e uma forte rajada de vento atirou-lhe a boina ao chão.
Dobrou-se para a apanhar, sacudiu-a e colocou-a na cabeça novamente, enfiando-a mais fundo, estragava-se o penteado e apertava-se as ideias, mas não saltaria mais com o vento.
Algumas casas surgem, o caminho começa a subir, os mesmos buracos, a mesma terra, desvia-se para dar passagem à motorizada, não vá o seu cavaleiro orientar o ferro para ele e lhe arremessar com uma cornada que certamente lhe arrancaria a boina e, pior que isso, lhe estenderia a correspondência pelo chão. Mas a motorizada passou, o cavaleiro guinava o ferro ao sabor dos buracos e regos, tivesse o carteiro visto o mar e suas barcaças e diria que este cavaleiro é marinheiro em oceano errado.
Uma senhora idosa passa por ele, com os braços cruzados atrás das costas, toda de preto a roupa contrastava com o branco do cabelo e o castanho da cor da armação dos óculos que ajudavam uns olhos azuis claros a verem melhor o caminho e a vida. Diferente das restantes pessoas, não parece ter receio esta senhora idosa ao cruzar-se com um desconhecido, ainda que com respeitável farda dos correios.
- Sabe a senhora dizer-me se aquela casa branca lá em cima é a escola? – pergunta ao mesmo tempo que levanta o chapéu em forma de cumprimento.
- Oh meu filho, escola foi e escola será, enquanto houver gente que ensine e gente que queira aprender. – respondeu sorrindo, ao mesmo tempo que retribua o cumprimento com um acenar da cabeça, sem que os olhos azuis se soltassem dos seus.
- Trazia aqui uma carta para a professora, sabe se ela está lá?
- Se não está agora, estará quando lá chegar, é quase hora da petizada entrar.
- Muito obrigado – repete o cumprimento com o chapéu – e um bom dia para a senhora!
A senhora sorri, inicia a caminhada e passado um pouco responde-lhe “Bom dia”. O carteiro, já sem estar à espera de resposta virou-se para trás, ainda pensou dizer bom dia, mas calou-se ao ver aquela simpática velhinha, vestida de preto, com os braços cruzados nas costas e nas mãos um envelope…
(continua)
Partes I, II e III
2010-05-09
Era o mundo nosso,
reino de rugas,
urzes e fragas,
solo pedregoso talhado a suor,
memórias caídas
que com teu esquecimento esmagas.
Pasto-me ao largo
e volto empastado no lombo
sem rédea, coice ou afago,
percorro meu destino redondo
enquanto não me Inverno com os estrepes da colheita
e o trotear com que na paisagem me apago.
2010-05-05
Desconhecer
Soubesse-me o Sol mundo
já prostrado à sombra
de uma verdade que floresce
Primaveria uma forma de vagabundo
às estradas que se esquivam
aos caminhos que se erguem
agora
que um outro aflora.
Sei-me
em mim e pelo universo fora
e no entanto as fábulas urdidas
fazem-me respiração
e um mundo de Sol que se sabe
desconhecer.
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