2012-09-27

Segados até aos estrepes
os amanhãs preocupam-se com as indumentárias dos lírios,
Salomão vai nu!
dizem os pássaros,
sem auscultarem o grande imenso sol que nebulou
emergem entre lótus
sem saberem que o futuro traz um tempo que há muito acabou.

2012-09-26

Encurralado pelo sonho
deixo-me escorrer languidamente pela chuva
molhando as pontas do arco-íris
enquanto ao postigo me ponho,
a paisagem muda,
apenas os salpicos das pessoas falam comigo,
as almas sacodem-se dos corpos,
dois vagabundos pedem a sorrir mais dois copos
e brindam à vida,
deles,
que levam entre leis
eles
que de vidas contam já seis,
fazem desta
desregrada
a número sete,
eles sim,
sabem,
que é no frio que o corpo não arrefece.

2012-09-22

Salva dos alicerces,
a história
liberta-se do encontro com o esquecimento
e ascende à memória,
ao abraço firme de um momento,
aos fóruns já adultos
onde, criança, nasces.
Escrevo para não me esquecer de mim, 
para voltar à voz, 
a nós, 
de quem me separei por nascer 
aqui, individual, eu mesmo, 
ao que vim.

2012-09-19


É no ondular ritmado da luz
que a vela se projecta no chão,
eu de quem me perco e a mim conduz
saúdo a noite do alto do universo
que tenho a descansar na minha mão.

2012-09-16

Entre o hoje e o agora, és livre para te libertares. Ninguém é mais, nem menos, do que aquilo que é.

2012-09-14

Quem sabe, um dia, elevados a onde saímos, seremos expoente de uma base quase esquecida, que não se itera, apenas propaga tão rapidamente que, sem o saber, estaremos em todo o lado ao mesmo tempo. Omnipresença.

2012-09-10

Começo a olhar para aquele horizonte ondulado, ponteado de verdes e agrestes fragas que me lembram a face escanhoada de um velho pastor, com um misto de saudade e aventura, como se me chamasse o interior para viver vendo apenas o Sol deixar-se adormecer atrás dos montes, projectando sombras de ruínas que serão um dia a civilização.

2012-09-07

Lentamente, sem que te apercebas, colocam-te a corda, laça, vão puxando, cada vez mais, sempre devagar, para que não fujas, lentamente, até começar, gradualmente, a tirar-te a respiração, mas tu habituas-te, respiras menos, devagar, até novo puxão, menos ar, mais sangue e, um dia, quando pensares que não podes respirar menos e mais devagar, eles aproximar-se-ão de ti, com um sorriso acima do seu pescoço engravatado numa boca conspurcada, e quando pensas que te vão abraçar eles, simplesmente, do alto do seu sorriso sarcástico, chutam o banco que tens debaixo dos pés e morres, enforcado, para que eles possam tirar a corda, lavar e usar novamente noutros, daqui a anos ou séculos, que o tempo pouco passa para os déspotas.

2012-09-05

Troco todas as minhas latitudes pelas searas, já secas, a ondular e eu, absorto, a deixar-me secar pelo ondulado restolho enquanto vejo a natureza, incauta, nascer dia após dia em todas as longitudes.

2012-09-04

Enquanto as lides do mundo se atarefam em domesticar o lixo, eu tento construir uma cabana com tecto de estrelas onde possa sonhar vigilante as vezes que bem desejar.