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A mostrar mensagens de Novembro, 2021

Tresmalhados

“Tresmalhados”, a minha crónica no Canal N . – Mas você nunca quis sair daqui? – era a pergunta que muitas vezes lhe faziam e que, nas inúmeras respostas acima da quietude tradicional de quem se habitua a falar com o tempo, em amena cavaqueira nos serões à lareira na companhia do silêncio, soçobrava com um – Eu não sou daqui, de que me adianta sair de onde não sou? A pandemia tinha trazido, além do isolamento espacial, uma certa distância temporal para quem sempre se habituou a viver a umas dezenas de quilómetros do maior, mais aconchegante e, também, mais confortável em termos de companhia de outros corpos, envoltos muitas vezes numa ausência sofrida de falar com quem tão perto está e, concomitantemente, tão afastado se vê do coração. Era caso para dizer, perto da vista, mas longe do coração.  No percurso por entre as árvores as botas calcavam com cuidado os ouriços, esfregando-os entre os pés e fazendo saltar as castanhas, libertas de um útero protector, escondido dentro de uma espin

Felicidade

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 “ Felicidade ”, a minha crónica na secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto . – Hoje sou eu que pago os cafés! – Ainda não tinha acabado de beberricar o negro, torrado, quente néctar que me habituei a ter na boca, já me tinha batido no ombro a sorrir. Agradeço e pergunto o porquê de tanta generosidade, mas tinha sido a simpatia que realmente me tinha cativado – Faço hoje 50 anos! 50! Passa num instante! Há uma genuinidade na simplicidade que me desarma. Não é pelo café, sessenta cêntimos não são nada (ao mesmo tempo são seis pães), na verdade foi um euro e vinte cêntimos, era o meu café e o do meu pai, mas a alegria de uma data que, caso não fosse ele a recordar e celebrar dificilmente alguém o faria, pelo desconhecimento da mesma, pela ausência da família, pela rapidez com que acrescentamos dias à vida e nos esquecemos de os viver. Era dia de festa! Por entre a clientela, lá surge um pedido diferente, um copo de Porto, um sujo, uma cerveja, um favaios, e tudo ele pagava pousando