2008-11-20

Polvilho as sementes do amanhecer,
há carinhos que nos nascem pelos olhos
e germinam na ausência
do anoitecer.

Há quadros e mesas e aparas de carácteres
no repouso de um guerreiro
e na vitória de um aguaceiro,
no simples gesto do vulto na face
que a outra face ocultou,
há lugares de mim mesmo
onde vive quem sou...

2008-11-13

Guardo o olhar que choveste,
deixo as nuvens florirem
nos pastos faustos do destino,
tacteio mãos e escuridões
em busca de um dorso
com outras mãos.

Curvam-se as curvas da estrada
e as margens
que me separam da madrugada.

Empobrece-me o nada
à sombra e resguardo da minha alçada,
no noctívago sentimento
de aguardar,
à candeia ténue da Lua,
o suspiro inaudível
da vida no meu peito
a ancorar...

2008-11-04

Trovoou-me o silêncio
no caos tumultuoso
de gentes irreais,
percorreu-me a calçada
e ondulou
nos semáforos que o destino teima
encarnar.

Nos espelhos que me miram
e olhos incendiados
de quem uma gota tenta sorver,
as feições esculpidas na memória
ainda antes de se terem por presente
eram já passado.

Na ponte que une as margens
do que sou aqui
(e agora)
correm as águas que não chovem,
mas nascem nuvens
no meu céu...