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A mostrar mensagens de Janeiro, 2008

Locais não localizáveis

Há músicas que nos colocam no nosso local, no lugar que é nosso, como se a música nos levasse de olhos fechados e sentíssemos apenas a brisa fria do céu profundo que sopra nos corações simples, para ao abrir os olhos vermos e os nossos corpos dizerem: "estou em casa". É tarde, não tenho tido tempo para escrever e isto dói-me. Parece bizarro não ter tempo necessário para escrever apenas umas letras, mas... Mas tem sido assim, dias que começam cedo e terminam quando já o Sol entrou ventre adentro da noite. Hoje não é excepção. Estou cansado... Perco-me imensas vezes, com a facilidade com que adormeço os sentidos ao som de uma viola ou de um saxofone, na ilusão complexa da minha necessidade do simples. Recordo o dia do lançamento do meu livro... Perdido no trânsito, nas faces medrosas da raiva e nos laivos de loucura de pessoas com medo de ver vida, trago para mim, de novo, o momento, o odor, o sabor dos abraços que vão até à alma. Vejo ainda, porque tenho gravados nas pá

In the sky(line)

Tenho os olhos cheiiiinhos de coisas que sonho e que sinto necessidade de colocar aqui, mas que (eu sei porquê) não consigo escrever. Vou parar com a poesia... Gosto muito de escrever, do exercício de fechar os olhos e afinizar com as várias mensagens que pairam ao meu redor. Adoro perceber o ambiente, mexer lentamente a mão e saborear as ondas harmoniosas e tépidas do próprio ar... Mas acaba por ser uma condensação de punhos fechados e histórias que dormitam num muro velho de granito com musgo... Escrevo para perder tudo o que encontro e as minhas mãos, como as que escrevo, pedem Sol e uma respiração pausada e breve, para além daquela linha onde estou, ainda antes de lá chegar.

Mantra

Tenho na mão a noite em comum com um mantra, ecoo em mim quase sem me conhecer, nos cantos da minha casa doce alma, quem me habita? Jugos e burgos que não pertencem à minha pele, senão o poema que me impele além de outra noite e outra, que pesos se agarram aos sonhos pendurados nos meus olhos? Escrevo-te breve, como um espasmo voluntário e um frio que teima em não gelar, como a brisa leve e um sudário deste porto a naufragar...

Dor(es)

O cinzento dos olhares é o arco-íris esbatido que alguma alma almeja perder, são as pancadas secas do vazio e o frio, perdido e solto, das ameias sofríveis, sofridas, aos quais as estrelas chamam medo. O cinzento dos olhares é a dor que me entra na alma ainda antes de eu ser dia... Dói-me...

Sorrisos angulares

O ocaso repetido da manhã, o som da Lua a nascer-me no peito, a tez negra de um sorriso ido, trago nos olhos mais ingredientes e sabores, sussurro entre dentes a canção das dores. As sombras angulares e a caneta nua no caderno, quem me guia a escrita crua? Há uma dor, um latejar ritmado no peito que dorme, apenas, quando sobre o resto do dia (ido) me deito...

Poesias

Dizem-me que a poesia não é fácil e não deve ser... Falam-me nela como algo de outra dimensão, quase oculta, misto de ciência e religião... Não sei bem o que é, mas escorre-me dos dedos, entranha-se na alma, salta-me aos olhos de quem se cruza comigo na vida ou numa esquina qualquer... O meu barco não é destas águas, ancorou onde outros navegam, fundeia nos locais que soluçam, tem ameias e escotilhas onde nunca ninguém espreitou, veleja-me nos ombros e na brisa que nasce na face, invisível, invencível. O meu barco não é destas águas e eu, eu não sou deste barco...

Estradas, estradas...

As sombras possuem estradas, o pânico ansioso das faces comidas pelo tempo e pelo fumo do cigarro, tudo tem caminhos. O sorriso... O sorriso tímido de quem de si se acha e perde, na vida e num quarto desconhecido. Quantas interrogações cabem numa única nuvem? Os olhares comovem-me, movem-me em direcção a uma estrada que traço, em cada ruga nova nascida no meu espelho, em corpo féretro de novo habita a cara de um velho... Tenho o Sol a despontar nas árvores das vidas, em folhas mortas e vagos uivos de um só vento, agora que a noite me cobre e dá alento à exaustão, fecho os olhos e vejo, tenho todas as estradas na minha mão...

Simples orvalho

Crónica na Bird Magazine . A vida que me pendia dos olhos não era medo, era orvalho. A neblina dos cascos no dorso da minha mão ecoa, onde? não sei, talvez no veludo do chão que descobri ser cascalho. A surpresa do engano e a veracidade do erro, as somas dos olhares que me subtraem ao espartano, nem o quadro que pintei na madrugada das tuas telas esconde as vidas do teu baralho. Tenho saudades do simples, de deixar escorrer os dias numa chávena matinal de café e encontrar todas as letras e forças numa "malga" de sopa... Os meus dias têm vários anos acoplados, os horizontes escasseiam quando a estrada é imutável porque os sonhos não as pintam. Vou partir, quando os teus olhos nascerem e os meus esmaecerem já terá o Sol suspenso, na pauta de todas as rimas e nos versos, ancorado as letras que escondi por trás da noite existente no hiato entre duas palavras. Dorme, é apenas orvalho...

Couraças

O meu rio tem choros e maleitas de felicidade, nos grãos que semeio no estio da alma nocturna existem planícies nunca colhidas e abraços que não sei dar. Os que vociferam quando a caravana passa sobre os trilhos ausentes, como as mentes, escapam à luz que me pende dos dedos. As lágrimas que deixei cair no papel principal, que é meu, só meu, pedem-me companhia, como a couraça quente desta minha mão, triste,tão triste e fria...

Memórias

A memória tem sons, mãos e luzes e frios! A soma das verdades é apenas entre muitas uma, a mentira. Os que do passado saem sã polidos e húmidos pelas lágrimas moles que correm nas pedras duras do amanhã que me nasce no dia de hoje. A memória tem sons, vozes e pétalas e rios! A memória tem... aquele que já não sou quando morro no amanhã, na frase que não irei escrever nem mesmo quando a vida aos meus olhos não vier...