2008-01-30

Locais não localizáveis

Há músicas que nos colocam no nosso local, no lugar que é nosso, como se a música nos levasse de olhos fechados e sentíssemos apenas a brisa fria do céu profundo que sopra nos corações simples, para ao abrir os olhos vermos e os nossos corpos dizerem: "estou em casa".

É tarde, não tenho tido tempo para escrever e isto dói-me. Parece bizarro não ter tempo necessário para escrever apenas umas letras, mas... Mas tem sido assim, dias que começam cedo e terminam quando já o Sol entrou ventre adentro da noite. Hoje não é excepção.

Estou cansado... Perco-me imensas vezes, com a facilidade com que adormeço os sentidos ao som de uma viola ou de um saxofone, na ilusão complexa da minha necessidade do simples.

Recordo o dia do lançamento do meu livro... Perdido no trânsito, nas faces medrosas da raiva e nos laivos de loucura de pessoas com medo de ver vida, trago para mim, de novo, o momento, o odor, o sabor dos abraços que vão até à alma. Vejo ainda, porque tenho gravados nas pálpebras os momentos, todas as palavras e a frase que sempre proferi (e sonhei desde criança): "Um momento para ter os meus amigos por perto". Vejo-vos a entrar no auditório, a olharem curiosos como se todos fossemos crianças, naquele instante eu seria a mais nova criança, o olhar cúmplice, o aceno sorridente e a minha vergonha como um puto que recebeu uma prenda maior que ele próprio. Vejo-vos ávidos de ver as cores do papagaio que lancei naquela noite ventosa. Ali, naqueles minutos, todos fomos um só, raízes de uma mesma árvore, sonhos de uma noite chamada Amizade. Naquele dia fui Eu. Podia não ser (e sei que não foi) nada de especial, mas estiveste lá (ou aqui, no meu peito) e agora sinto-te aqui.

Sinto tanta falta, tanta... Sinto tanta falta de abrir os braços, receber as caras esquecidas, tratar todos os ventos por Tu, apertar a mão como quem afaga a alma.

Escrevo e olho para o canto inferior direito do computador, são 0:34 e daqui a cerca de 5 horas tenho que acordar... Por favor, inspira fundo, não demorarei mais que umas horas até chegar aqui, vestir o meu casaco azul (o casaco da escrita) e deixar que todos estes meus amigos, que me rodeiam agora vestidos de sonhos e paisagens que esqueci de visitar, me pousem a mão no ombro direito e sussurrem um segredo, daqueles que não sei, porque são escritos para ti.

Paro de escrever, leio e releio, sei que entre frases tenho palavras escritas e escondidas, não sei como, nem porquê. Vejo histórias iniciadas, sem desenvolvimento ou conclusão e questiono-me porque as deixo assim, talvez seja Eu, talvez seja eu. Ficam ali, como que esquecidas, a germinarem em cada momento que penso nelas, até ao dia em que me chamam, estendem a mão frágil e afagam-me os 32 anos de vida, pedem vida e vida lhes dou, porque não sei ser diferente nem sonhar vidas que não são minhas ou correr por estradas cheias cujo fim é o vazio. Gosto de as ver, encostar-lhes letras pequenas e quentes e perguntar “estão bem?”. Ai como adoro quando me chamam, sorrindo, com a cara encostada a uma reticência e um sorriso do tamanho de um parágrafo chamado Felicidade…

Venho já.

2008-01-27

In the sky(line)

Tenho os olhos cheiiiinhos de coisas que sonho e que sinto necessidade de colocar aqui, mas que (eu sei porquê) não consigo escrever.

Vou parar com a poesia... Gosto muito de escrever, do exercício de fechar os olhos e afinizar com as várias mensagens que pairam ao meu redor. Adoro perceber o ambiente, mexer lentamente a mão e saborear as ondas harmoniosas e tépidas do próprio ar... Mas acaba por ser uma condensação de punhos fechados e histórias que dormitam num muro velho de granito com musgo...

Escrevo para perder tudo o que encontro
e as minhas mãos, como as que escrevo, pedem Sol e uma respiração pausada e breve, para além daquela linha onde estou, ainda antes de lá chegar.

2008-01-25

Mantra

Tenho na mão
a noite
em comum com um mantra,
ecoo em mim
quase sem me conhecer,
nos cantos da minha casa
doce
alma,
quem me habita?

Jugos
e burgos
que não pertencem à minha pele,
senão o poema que me impele
além de outra noite
e outra,
que pesos se agarram aos sonhos
pendurados nos meus olhos?

Escrevo-te breve,
como um espasmo voluntário
e um frio
que teima em não gelar,
como a brisa leve
e um sudário
deste porto
a naufragar...

2008-01-24

Dor(es)

O cinzento dos olhares
é o arco-íris esbatido
que alguma alma almeja
perder,
são as pancadas secas do vazio
e o frio,
perdido
e solto, das ameias sofríveis,
sofridas,
aos quais as estrelas chamam medo.

O cinzento dos olhares
é a dor
que me entra na alma
ainda antes de eu ser
dia...

Dói-me...

2008-01-23

Sorrisos angulares

O ocaso repetido da manhã,
o som
da Lua a nascer-me no peito,
a tez negra de um sorriso
ido,
trago nos olhos mais ingredientes
e sabores,
sussurro entre dentes
a canção das dores.


As sombras angulares
e a caneta
nua
no caderno,
quem me guia a escrita
crua?

Há uma dor,
um latejar ritmado no peito
que dorme, apenas,
quando sobre o resto do dia
(ido)
me deito...

2008-01-22

Poesias

Dizem-me que a poesia não é fácil e não deve ser... Falam-me nela como algo de outra dimensão, quase oculta, misto de ciência e religião... Não sei bem o que é, mas escorre-me dos dedos, entranha-se na alma, salta-me aos olhos de quem se cruza comigo na vida ou numa esquina qualquer...

O meu barco não é destas águas,
ancorou
onde outros navegam,
fundeia nos locais que soluçam,
tem ameias
e escotilhas onde nunca ninguém espreitou,
veleja-me nos ombros
e na brisa que nasce na face,
invisível,
invencível.

O meu barco não é destas águas
e eu,
eu não sou deste barco...

2008-01-21

Estradas, estradas...

As sombras possuem estradas,
o pânico ansioso
das faces comidas pelo tempo
e pelo fumo do cigarro,
tudo tem caminhos.

O sorriso...
O sorriso tímido
de quem de si se acha
e perde,
na vida
e num quarto desconhecido.

Quantas interrogações cabem numa única nuvem?

Os olhares comovem-me,
movem-me
em direcção a uma estrada
que traço, em cada ruga nova
nascida no meu espelho,
em corpo féretro de novo
habita a cara de um velho...

Tenho o Sol a despontar
nas árvores das vidas,
em folhas mortas
e vagos uivos de um só vento,
agora que a noite me cobre
e dá alento
à exaustão,
fecho os olhos e vejo,
tenho todas as estradas
na minha mão...

2008-01-17

Simples orvalho

Crónica na Bird Magazine.

A vida
que me pendia dos olhos
não era medo,
era orvalho.

A neblina dos cascos no dorso da minha mão
ecoa,
onde? não sei,
talvez no veludo do chão
que descobri ser cascalho.

A surpresa do engano
e a veracidade do erro,
as somas dos olhares
que me subtraem ao espartano,
nem o quadro que pintei na madrugada das tuas telas
esconde as vidas do teu baralho.

Tenho saudades do simples, de deixar escorrer os dias numa chávena matinal de café e encontrar todas as letras e forças numa "malga" de sopa... Os meus dias têm vários anos acoplados, os horizontes escasseiam quando a estrada é imutável porque os sonhos não as pintam.


Vou partir,
quando os teus olhos nascerem
e os meus esmaecerem
já terá o Sol
suspenso, na pauta de todas as rimas
e nos versos,
ancorado as letras que escondi
por trás da noite existente no hiato
entre duas palavras.

Dorme,
é apenas orvalho...

2008-01-08

Couraças

O meu rio tem choros
e maleitas de felicidade,
nos grãos que semeio
no estio da alma nocturna
existem planícies nunca colhidas
e abraços
que não sei dar.

Os que vociferam
quando a caravana passa
sobre os trilhos ausentes,
como as mentes,
escapam
à luz que me pende dos dedos.

As lágrimas
que deixei cair
no papel principal,
que é meu,
só meu,
pedem-me companhia,
como a couraça quente
desta minha mão,
triste,tão triste
e fria...

2008-01-07

Memórias

A memória tem sons,
mãos e luzes
e frios!

A soma das verdades
é apenas entre muitas
uma,
a mentira.

Os que do passado
saem
sã polidos e húmidos
pelas lágrimas moles
que correm nas pedras duras
do amanhã
que me nasce no dia de hoje.

A memória tem sons,
vozes e pétalas
e rios!

A memória tem... aquele
que já não sou
quando morro
no amanhã,
na frase que não irei escrever
nem mesmo quando a vida
aos meus olhos
não vier...