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Pastoreio

  Pastoreio , conto publicado na colectânea de contos do Parque das Serras do Porto, 2023 – Ramalho, não! Passa por mim, numa simpatia apressada, a pastora ofegante por detrás das graduadas lentes que a visão adequa à miopia e madeixas, engrenhadas, coladas ao suor de uma tarde transpirada. – Ramalho! Não! As galochas verdes calcam o chão num ritmo atordoado enquanto o calor se afasta do bordão agitado no ar. Desvio-me, nunca se sabe onde o cajado irá parar. Mas o Ramalho, deduzo ser o nome do carneiro, senhor do seu casaco urdido em flocos cinzentos, de terra rebolada em pó sublimado, continua a correr em direcção à fonte de água barrenta, não oxidando o minério que a serra vai parindo, sem necessidade de garimpo. Atrás dele, ordeiras, à pastora ou ao patriarca ovil, seguem cordeiros tenros em passos saltitantes, numa preocupação animal de encher o espaço entre refeições, com outras ruminâncias que o tempo encarregará de saltar em transumâncias. A Serra espreguiça-se, ca...

IV Os coelhos

O barulho de uma motorizada, ao longe, fá-lo acordar. Não sabe como, mas tinha coberto a cabeça com a serapilheira, talvez para se resguardar dos primeiros raios de Sol e não acordou com o raiar do dia, como era costume. Levanta-se de uma vez só, espreguiça-se continuamente até ao portão, afasta a meia pipa e espreita por uma nesga. O barulho da motorizada aproxima-se, estridente. Aquele zingarelho com duas rodas levava condutor, que era a modos a pessoa que agarrava aquele ferro e indicava o caminho ao cego motociclo e, atrás dele, agarrado a ele, uma menina agarrava-se ao condutor, com medo do vento a levantar. Tinha um minúsculo capacete, que premia contra as costas do pai e, ao passar pela eira onde o carteiro espreitava pareceu sorrir, como se o visse. A motorizada segue o seu caminho, cega, com o seu domador a atiçar ora para a esquerda ora para a direita, galgando caminho por entre terra batida, terra solta, raízes de árvores e regos feitos por outras motorizadas e pela água da ...

Pequenitates

Nascido e criado em terras de gente grande, o pequeno Pequenitates fazia dos seus dias de traquina o horizonte do seu futuro. Corriam os dias e o Pequenitates, com a cabeça no ar, saltava de nuvem azul em nuvem azul, das que se soltam dos sonhos de infância. Nenhuma das grandiosas aventuras era pequena para o seu corpo, lá cabiam todas as realidades, mesmo as mais irreais… De salto em salto, a jogo em jogo, Pequenitates fazia do Sol Lua e da Lua brincadeira. Abrigado em esconderijos que só ele via, os pequenos pés anunciavam a sua presença e ninguém, mesmo ninguém, o denunciava, fazendo com que os risos fossem crescentes e enchessem as divisões de alegria. As letras juntaram-se e até as notas musicais apareceram para colorir a meninice do garoto. Falava e cantava, tocava e sorria, nos dias em que Pequenitates descobria que lhe cresciam ossos e carne, cabelos e espinhas, como se a realidade de pré-adolescente tentasse sair por todos os poros do seu corpo. Aos poucos a voz de Peq...

Sonhos e o caminho para os mesmos

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Fica tão fácil ser feliz quando os nossos sonhos são pequenos. E o que dizer daqueles sonhos que se realizam, sem sabermos que eram sonhos? Não sei o que me fascina no olhar das pessoas, mas escrevo-o, vejo-o, vivo-o e vou acumulando as pequenas centelhas de sonhos e concretizações suspensas, na esperança de lhes dar vida numa ou noutra história. Não consigo estar estando, só sou presença quando estou ausente, como os sonhos grandes. Esqueci-me de postar a imagem de um aluno da EB1 Soutelo - Mouriz, que captou aquilo que eu quis transmitir com o conto " Um sonho li(n)do ", aqui fica a "homenagem".

Sete Sóis

É um pouco contra o que quer fazer. Escrevo apenas para sentir a chuva. Deitado na cama, com o barulho das gotas e do vento ao meu redor, não consigo senti-lo, tenho que estar aqui, a olhar para as letras, que surgem como magia. Tenho que olhar para os meus dedos para perceber que eles é que estão a premir as teclas que a minha alma dita. Não tenho muito mais para escrever. Aos poucos, sem grandes floreios "poetísticos", vou-me resignando à estrada, às ervas molhadas e curvadas que não posso tocar, ao trigo e centeio que crescem nos campos e pelos quais não posso correr, à claridade falsa de um monitor que vai sendo o meu dia-a-dia. Vou estar por fora, volto mais tarde. Até lá, fica aqui uma pequena história escrita para o Norberto e seus alunos para o dia mundial do livro. *** Um sonho li(n)do Ouço choramingar. Do meio de uns troncos velhos, cortados, chega até aos meus ouvidos um choro baixinho. Vou até lá. Sentado num velho pedaço de madeira, um pequeno ser olha pa...

Al Ua

É tão tarde, eu quero dormir, todas as partes do meu corpo querem dormir, mas eu tinha que vir aqui, tinha que vir dizer-te, antes de qualquer pessoa, antes que olhes e vejas a diferença. Fui com os meus pais a casa.  Espera.  Enganei-me, tenho que dar um fio condutor a isto, não que seja primordial, mas para que fiques a saber tanto quanto eu e compreendas como tudo aconteceu.  A Ana faz anos, aliás, fez, porque é já dia 27 de Setembro, tivemos, a exemplo do ano anterior, a família toda aqui e, na hora de ir embora, aproveitei e fui com os meus pais a casa deles.  Encontrei, no sábado, umas pilhas para a minha lanterna e e fui munido para a luta com a noite, calções, t-shirt, chinelos de praia e lanterna, a minha companheira quase inseparável.  Ia à frente, iluminando o caminho, mas nem era preciso, a minha amiga Lua estava no seu esplendor, desconfio que esteja apaixonada, tal é o brilho que ostenta.  Deixei os meus pais em casa, fui ao computador...

Papagaio de poemas

Saio fora do escritório, noto pela primeira vez que está um vento mais forte do que o usual. Habituo-me às condições atmosféricas pouco usuais para a época, principalmente quando a temperatura é mais baixa que o normal (eu e o frio...). Entro novamente no escritório, tinha-me esquecido do caderno onde escrevo alguns poemas. Ao ver-me entrar, o caderno entra em sobressalto, sabe que vou levá-lo comigo, agita-se tentando abrir-se sozinho. Pego nele e encosto-o a mim, acaricio-o, percorro os poucos metros até à porta e pouso-o na palma da minha mão. O vento abre-o e folheia-o, as folhas soltam-se do caderno e juntam-se no ar, formam um aglomerado de poemas, as rimas rimam-se e agarram-se às virgulas, os pontos-finais, em minoria face às reticências, unem-se e formam um desenho, um coração alado. O vento pegou nele com carinho, ergueu-o e convidou-me a voar... Segui pelo céu, a princípio com medo, os pés sentiram a liberdade das nuvens e eu nem me atrevi a abrir os olhos, porque é qua...

Rain in a sunny day

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Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro. O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão. Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha.  E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar. Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava.  Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva.  E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe b...

Rosa vermelha

Era perto das 20:30, entrada de uma grande superfície comercial em Penafiel, entrei com a Ana e logo à nossa frente estava um homem, ar humilde (não era o ar ambiente, era mesmo o olhar que o vestia), com um fato gasto, azul escuro com finas riscas brancas, um cabelo semi-penteado, ou melhor, um semi-cabelo penteado, uma cara gasta e um olhar que não sei descrever.  Ao seu lado estavam algumas sacas de plástico.  Tinhas botas, castanhas, escuras, castanhas de origem e escuras de tempo. Mas o que mais me atraiu, o que os meus olhos gravaram, foi a rosa vermelha na lapela. Aquela flor conferia ao cenário um toque de génio, é como quando tentamos desenhar algo, escrever umas linhas, mas sabemos que falta algo para terminar, uma pincelada oculta, uma linha mais no poema, assim era a rosa. Desconheço a razão, seria um encontro? Não sei. Seguimos para uma loja, tentar ser mordido pelo gordo cão do consumismo, e quando voltamos ainda lá estava.  Fizemos as compras, andamos ...

A chuva no alpendre

Gostava de possuir algum tipo de conexão entre o cérebro e o computador... Bem, pelo menos a uma máquina de escrever... Chove bastante, coisa habitual no mês de Abril, se não estivéssemos nós em plena fase de Revolução Ambiental... Estive mais de meia hora sentado, com o computador ligado, a pensar no que iria escrever ou como iria escrever, organizar algumas coisas que tenho para dizer... Fiquei em paz comigo e com os pensamentos, porque chove e de alguma forma a chuva leva os meus pensamentos... Estava para me levantar e escrever, no entanto surgiu um velho desconhecido, com a mão aberta e, nela, algumas nuvens que pensei serem algodão doce. Perguntou-me: - Isto é seu? - enquanto estendia a mão para mim. Fiquei a olhar para ele, sem saber o que me perguntava, tão pouco sabia quem era e o que queria de mim, já para não referir que é meia-noite e que além do sono, não é habitual alguém desconhecido entrar-me pela janela, com umas bolas de algodão - ups - nuvens. - Isto, os pensam...

(III) A estrela

Os candeeiros despertavam do seu descanso diurno. A hora exacta, era vê-los acordarem, piscando os olhos, e depois começarem a ver, primeiro lentamente, semicerrados, como que se habituando ao crepúsculo. Tinham mau feitio, tal como muitos de nós quando acordam, e enquanto não os via brilhar com todo o seu vigor ninguém falava com eles, nem entre eles mesmos. A rua possuía um fascínio estranho, encantador. Longe dos caminhos de aldeia, orlados por muros de pedra e musgo, suportados aqui e além por um pastor que, encostado ao muro, com a perna flectida e o pé apoiado no muro, resguardado do frio pelo seu capote de palha e as melenas comprimidas pela boina, velha, quase sempre castanha, comia uma bucha e bebia um gole de vinho. Das ruas que galgou, nenhuma era como esta, pacata, inclinada, com um piso regular de alcatrão. Não se vislumbravam casas, era apenas uma estrada, no meio de algures, com muros altos e baixos, que indicavam diferentes propriedades, diferentes proprietários. A au...

(II) O carteiro

A rua foi feita com pedras altas, num mosaico irregular, que o passar dos tempos, dos cascos do gado e dos carros de bois transformou em lisas pedras, carregadas de musgo onde as grandes rodas de madeira, orladas a ferro pelas gerações de latoeiros da aldeia, não calcavam. Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos. À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos… Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome es...

(I) O chapéu

Há qualquer coisa de estranho com este tempo, com esta chuva... Está tanto vento que alguns galhos dos pinheiros caem, batendo nas janelas e na porta... Na porta... Já mais do que uma vez caem dos pinheiros e batem... Olho para o meu lado direito e assusto-me, entra uma criança, muito jovem, talvez 9 anos, e fica a olhar para mim, com olhos traquinas, sorriso de esguelha e pequenino, com a mão direita apoiada na porta, chapéu vermelho, típico de lavrador, camisola de malha amarela e um nome bordado a linha vermelha: "Sonho"... Sonho... Que raio de nome... As calças parecem feitas de um tecido similar à serapilheira e os pés tinham umas botas toscas, velhas, nas quais adivinho um buraco na sola... Nas costas trazia uma sacola, espécie de pasta, parecia feita de couro, "muito" castanha, sem fivelas a apertar, tinha apenas um arame grosso e meio ferrugento... Tirou a mão da porta e foi andando até se sentar a meu lado, na cadeira vazia. Enquanto se aproximava, deu ...