2007-10-31

Oração solitária

Pende-te um rosário invisível
das mãos
e a vida,
contas as contas gastas
enrolando-as
nos dedos cobertos de rugas
e calos,
de os teres sabes já de cor
anos e meses
e dores.

Fogem-te os movimentos
de doenças e maleitas
que não sabes
o nome,
de vago e vazio
teu estômago não sabe
o que é a fome,
trajas de preto no dia
porque a noite te levou a matiz
quanto teu Sol partiu
para longe,
em terra cujo nome não se diz.

Onde guardas a juventude?
Quantas desfolhadas e vindimas
e madrugadas de geada,
quantas?
O teu mundo repousa
nos dias que trazes nos olhos
que inundam
quando o bailado das searas
te faz viver os sonhos,
mas estes são um,
um só,
cravo não florido no jardim das tuas mãos agrestes.

Fechas os olhos,
uma mais
com a força da idade
para que cheguem ao céu,
as voltas do mundo que trazes no coração
são histórias vívidas
que nunca esmaecem,
são atilhos curtidos
que comandam e afagam
cada letra invisível
na minha mão.

2007-10-29

Hold me

Tombaste quando o vento amainou,
as vozes ameaçaram
em tom de medo
e segredo,
nos dias azuis
a ânsia de ser o espelho
de outras faces,
saberás tu que a ignorância que plantas
na sementeira da vaidade
tem gosto a vermelho
sangue
vivo?

Os corpos que empurras
contra o calor
da saudade
têm fome de amar,
exibem a desnuda pele
e saliências
que desconheces existirem,
o culto que regrides
em tardes sentadas são sonetos
e poemas
que não agradeces,
apenas te entregas ao devaneio
de sentir o amor
contra o teu seio.

Quando chega o Inverno

Quando chega o Inverno ou mesmo quando apenas se aproxima, quando o Sol começa o seu período de hibernação e as nuvens se tornam cinzentas, há algures um local perfeito, com uma casa de pedra e xisto, telhado de madeira, telhas que deixam fugir o fumo da lareira, divisões pequenas, mas acolhedoras, paredes mistas de branco, pedra e madeira clara e escura, cozinha de lavrador aquecida pelas brasas, amigos à mesa rindo e putos traquinas a jogarem jogos onde só eles conhecem as regras, pão sobre panos coloridos e canecas de café fumegante, um pátio em xisto e terra depois do alpendre com pilares em madeira e telhas à vista, uma cama de rede e um estendal, uma cadela a dormitar e um vento a levantar…
As luzes ao longe dão vida à aldeia, o terreno não tem redes ou muros, é meu e de todos, vai até onde a relva acaba e se erguem pinheiros e eucaliptos, de onde se tiram umas folhas para a água fervida e se inala, lenha seca recolhida e empilhada e teias de aranha, uns degraus aquecidos pelo tímido Sol onde irei sentar-me e a cadela, ao ver-me sentado, virá deitar-se a meu lado, um poço de água e alguns pássaros atarefados trinando ao desafio…
Sou capaz de sentir o cheiro, de ver todos os sentidos ansiando por se encontrarem…
Está tudo lá, falto apenas eu…

2007-10-28

Winter's at my door

Nevava,
fazia frio
como os olhares escuros
de corpos
sem gente lá dentro.

O primeiro abrigo ocupava um vazio
opaco
e bafiento,
as histórias colavam-se aos dedos
e rezavam baixinho
expiando os seus medos.

Não te alcançam
ou tocam,
o hiato entre olhares e mãos é longo,
chama-se dor
e tem nas sombras
e trevas
a sua cor.

A noite traz, sempre, algum amigo
nas gotas do orvalho,
aquelas que se confundem
com os teus olhos molhados
de solidão,
cansados de esperar
e correr
ao encontro de um sereno
turbilhão.

Seeds

Acordo nos murmúrios das noites,
dos que me oscilam
nos gritos que não solto.

A madrugada ainda não me fez
o tempo
que vou viver,
não nasceu ainda o não
que estende o braço
e alcança,
ao de leve,
a corda que me sustém
contra o abraço.

Quantos gelos
e rios
cabem nos sulcos de uma face?

Ergo estátuas a heróis
solitários,
como os barcos que ancoraram em mim,
nos lugares atados
possuídos e mal fadados,
carregando fardos alheios
e olhares
de poesias apagadas cheios.

Muda-me o sentido,
o rumo,
ou tudo que faça nascer os locais
que surgem
por entre acordes que não sei
dedilhar...

2007-10-24

Ver, crescer

Cresces
nos corredores da vida,
enquanto entras
e sais do teu mundo.
Sente a vida no vento
e a eternidade
num só segundo
para que saibas,
amigo,
onde as estrelas te levarem
eu estarei lá,
contigo.

Semear felicidade

Nas mãos de Primavera
onde plantas Saber
há, sempre,
um amanhã que sorri.
Encosta o ouvido a uma estrela
e descobre,
ri,
a tua felicidade não chove,
nasce perto,
dentro de ti.

Arados sem mãos

A estrada não tem fim,
começa-me nos olhos
fechados
e segue adiante,
entre saídas
de árvores cinzentas e doridas,
avante!,
que ainda não
se acabaram os sonhos!

A terra por arar pariu
um pastor,
dos montes queimados
só a esperança não partiu,
que se lhe agarrava à saia
a dor.

2007-10-09

Invisível visão

Estive lá,
mas não me encontrei,
vi os montes e as nuvens
e as nuvens nos montes gravadas,
tal como sonhei.

O brilho esquálido das estrelas
e a brandura física das caravelas,
as linhas pintadas com palavras
e cada uma com o ruído das estrelas
a dançar,
apenas para rimar.

Tenho folhas novas e vazias,
odores desconhecidos
e lençóis de águas frias,
nas mãos os sorrisos idos
e no sorriso
lápis partidos.

Escrevo agora, aqui,
desconexo
confuso,
tudo porque estive lá
e não… não me vi…