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A mostrar mensagens de Janeiro, 2015

É pi só dios

in Bird Magazine . Há um cão que vagueia na estrada, desatento, arfando como quem sorri ao patear o asfalto, de costas para o trânsito. Negro como a noite, dia não fosse, diria que me sorriu, o bicho. Há um Sol que se espreguiça de encontro a um muro, como que se lembrando que é quase Outono e as pedras do muro são quentes ao final da tarde. Sol, de sol em sol, até se aninhar rendido no olhar de quem se acriança. Há um sorriso de uma criança, que recorda com satisfação, de olhos fechados, o primeiro almoço na cantina da escola. Há um atirar para o restolho dos restos dos dias que vivo. Quatro vidas se vivem, em quadras que jamais escreverei. Quatro, que quatro mil, quatro milhões que fossem, que ao me atirar para esta vida, ficou de mim no lado de lá aquilo que jamais emergirá. E a vida que se atiça aos dedos, saltando, tecla em tecla, letra em letra, sem que se dissipe o nevoeiro que trouxe ao cais dos meus olhos uma palavra. Há. E isso basta-me. * Os bancos de jardim, do mundo, r
Há ainda vida a escorrer pelos olhos de quem se quer ver. Não obstante a rarefacção da luz, ainda dormem as duas cores de um só arco-íris, o limiar de um dia arfado, cansado, atado de pés e mãos ao nada que tudo prende. A liberdade liberta-se a cada mão que nos toca de raspão, como se pedisse envergonhadamente licença ao esquecimento para ousar ser um pouco mais de corpo.

Imortal idade

Crónica de domingo na Bird Magazine . Vou combatendo o tempo com a minha ideia de imortalidade. Nada como chegar aqui, sem nada para escrever, desfolhar ontem um livro ilustrado, com uma história infantil, com moral para gente grandinha, e deixar-me perder nos desenhos. A cabana de madeira, paredes estreitas, um banco onde repousa um livro, uns óculos, uma vela já derretida, pelo fogo ou pelo sonho, uma manta de retalhos sobre uma cama tosca, uma cadeira para dar descanso à roupa da labuta diária, um suporte e uma bacia, terá água para trazer aos olhos um novo dia, uns chinelos e umas meias dentro deles, tudo sobre um tapete com inscrições que mal cabe no quarto do tamanho da cama. Há um postigo, mas deverá servir apenas de despertador. Quem assim se deita, ainda que personagem ilustrada, ainda que imaginada por quem de traços se faz à vida, saberá que a noite é feita de leituras, de letras que se sacodem pelas sombras que a vela atira ao mundo quando respira. E antes q
Afogar-me-ia num mar tumultuoso se isso parasse a sanilidade das lágrimas que tempestuam o teu sorriso.

Na_tal

Crónica de domingo na Bird Magazine . A estrada sinuosa, tal como os tempos que se comprimem antes do Natal. O sentimento vem-me em tempo fora de tempo. Longe vai a Natividade, tem dias o menino, Maria, embora virgem de concepção, sofre as agruras e as dores de uma recente paridez, segurando ao peito a salvação e amamentando o seu fruto, de leite e coração. José, impoluto, negociando com o dono do estábulo, verdadeira semente de alberguista, oscila pela novidade de ser pai vigilante e conceptor ausente. Ainda não lhe cabem as futuras indagações e o olhar vago para o espaço, de onde terás vindo tu que te fizeste filho sem eu me ter feito progenitor? Mas sabe-o, ele, precursor de uma parentalidade verdadeira, a doação de labor, tempo e amor a um fruto, sem importar qual a árvore ou seiva que lhe deu vida. Desconhece igualmente, porque a mitigação tecnologia surgiria apenas um longo par de milénios, mais coisa, menos coisa, depois da noite fria no estábulo, que outros houvera antes d
Vai lá à vida, mas não regresses sem me trazer a colhedura do que ficou por semear. Vão  fazer-me falta, os frutos, as bagas, o barulho esvoaça dor das cigarras. Vai lá à vida e traz-me um pouco das novas, das que ensinam a viver, mesmo quando o frio faz gretar lábios e rezamos para que no frio da paragem do autocarro, à sombra, nos olhe do lado de lá, ao sol, a vinda do transporte ou, atrasando o passo, chegue primeiro a sinceridade e, fazendo do meu tremor seu braseiro, me abrace até se ebulir a saudade.

Memo(ria)

Quando o presente terminar continua em frente, é lá que irás encontrar, aconchegado junto a um teu que esqueceste, todos os passados que não quiseste lembrar.
A sobriedade da companhia da estrada, escura, enquanto o asfalto resvala para debaixo de mim. A paisagem encerra o mesmo encanto porque apenas eu sei que é noite, ela vê-se despida dos dias por não saber que o ocaso que me vê nascer é um fugidio amanhecer. Vou tranquilamente adormecer o corpo e viajar para onde me queira levar o vento ebulido que sopra bem cá dentro de mim. Se ao menos fosse Inverno e, eu, pudesse multiplicar o infinito pelo eterno...

NATIVA(IDADE)

Crónica de domingo, na Bird Magazine . Começo por não identificar um teor repetitivo em tudo o que me rodeia, do ar ao chão, em mim, no meu andar, na respiração. Termina o Natal, a azáfama tolerada de um mote que se quer acelerado, quase não saboreado, de uma terminologia dedilhada em tons de manhã com neve, uma brisa, leve. De que me querem de vida salpicado? Já tolero as costas por onde se atropela um arado, um punho em cravos fechado. Caminho lentamente com medo que o mundo me fuja pelo andar, sem me saber que de caruma em caruma se faz o monte meu lar. O vento encaminha as nuvens para onde quer que me volte. Traz-me novas em forma de velhas formas, um pedaço de céu sobreposto à atmosfera, o rufar lento, síncrono, de uma memória de útero, o coração de mãe que se fez habitação, o rouco boa-noitar de um marido que se saberá pai. À vida, sozinho, ainda não se vai. Sem que me vejam permaneço pontualmente a ver o sol nascer, ainda que de tarde se tome, surge áspero por detrás