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A mostrar mensagens de Novembro, 2005

Quantos sorrisos mais?

Paro, inspiro um pouco mais de órbitas brilhantes que bailam à minha frente. O ar toca-me levemente como se fosse, também eu, um pouco de vento errante. Enquanto este verde tapete ondula a meus pés, cruzo os braço e fecho os olhos, que estradas tracei? Que caminhos a vida, sempre ela, me pedem para percorrer? Quantos sorrisos mais? E enquanto este eu medita e ao Sol a alma se deleita, outro eu ressuscita…

Brando e benevolente

À sombra do manto espesso e branco que a neblina suspirou, não esqueço, esse olhar brando e benevolente das memórias, finas e ténues, que pintaram as paredes de felicidade ali, a meio da presente saudade…

Teu pai, teu filho

Podia tentar, cantar e escrever a cor das folhas no Outono, festejar a vida em mim que são teus olhos a sorrir, quando o teu esgar ilumina a vida e faz de um pequeno bolo velho e seco um imenso festim. Se estas lágrimas não teimasse em nascer e vir, a esta folha de papel ver-me a escrever o teu sorriso, as fitas e o serrim, queria ser como tu, mas não consigo… Quando eras um gigante eu escondia-me aos pés de sonhos que não sabia ainda possuir, as letras e os cubos, a música bailando ainda espera que eu cante. Viajavas sobre um trovão, uma flecha negra que mesmo parada me fazia voar, percorria cenários só meus e a ninguém levantando a mão, galgava montes e veredas com erva molhada, parecia que nunca iria acabar… A flecha negra parou e tu continuas viajando em passadas largas sobre a neve, em corridas curtas por entre fetos e mato… Como te escrever… Se palavras existem que definam admiração eu não sei, não conheço, tento banhar estas linhas com a

As mentes mortiças

Assim que as luzes mancharam a noite de trevas luminosas, algo em mim surge do momento em que o olhar já não é o tempo, mas o cruzar vasto e metódico de partes replicadas, irreais… Surgem reluzindo e dormindo, aleatoriamente, vagueando serenamente em linhas finas de poemas, em olhar claro penetrante. Não existo sem mim, ou talvez seja o que o deixam ser, enquanto os odores que o vento atiça forem bravo e plenos de jasmim, a minha mão fechar-se-á em torno de uma velha e gasta matriz, que é apenas essa vossa mente mortiça…

Adormeço

Toldado por um inerte pesadelo o Sol prostra-se aos pés da vida, vai longe o sonho de infinito, esmagado por um velho martelo escorre pela frente granítica escanzelada, não, isto não é saída… A Lua lançou-lhe a mão, que de fria e nocturna era pálido como o medo, que o medo tem de mim. Saboreava o travo agridoce da melancolia que o Sol, deitado, vendido, sumia enquanto uns frágeis raios de nada iluminavam o rosto de ninguém… Ser vida não vivida é fugir, espezinhar a morte que adormece à espera, talvez de alguém que só a vida sabe que não vem… Apoiou-se no orvalho que acordou cansado e lamurioso, mas à falta de um ombro saltou-se a tristeza testemunhada pela Lua furtiva… Hão-de haver outros poemas, talvez nascidos ainda mais fundos, escondidos nos aromas de alecrim que são apenas e só, (tão só) a palavra que teima em sair dentro de mim… E eu que te lavo com aspereza, um pouco de alegria, um pouco de tristeza, fito ao perto a neblina que se aproxim

(III) A estrela

Os candeeiros despertavam do seu descanso diurno. A hora exacta, era vê-los acordarem, piscando os olhos, e depois começarem a ver, primeiro lentamente, semicerrados, como que se habituando ao crepúsculo. Tinham mau feitio, tal como muitos de nós quando acordam, e enquanto não os via brilhar com todo o seu vigor ninguém falava com eles, nem entre eles mesmos. A rua possuía um fascínio estranho, encantador. Longe dos caminhos de aldeia, orlados por muros de pedra e musgo, suportados aqui e além por um pastor que, encostado ao muro, com a perna flectida e o pé apoiado no muro, resguardado do frio pelo seu capote de palha e as melenas comprimidas pela boina, velha, quase sempre castanha, comia uma bucha e bebia um gole de vinho. Das ruas que galgou, nenhuma era como esta, pacata, inclinada, com um piso regular de alcatrão. Não se vislumbravam casas, era apenas uma estrada, no meio de algures, com muros altos e baixos, que indicavam diferentes propriedades, diferentes proprietários. A au

(II) O carteiro

A rua foi feita com pedras altas, num mosaico irregular, que o passar dos tempos, dos cascos do gado e dos carros de bois transformou em lisas pedras, carregadas de musgo onde as grandes rodas de madeira, orladas a ferro pelas gerações de latoeiros da aldeia, não calcavam. Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos. À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos… Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome es