Paro,
inspiro um pouco mais de órbitas brilhantes
que bailam à minha frente.
O ar toca-me levemente
como se fosse, também eu, um pouco de vento
errante.
Enquanto este verde tapete ondula
a meus pés,
cruzo os braço e fecho os olhos,
que estradas tracei?
Que caminhos a vida,
sempre ela,
me pedem para percorrer?
Quantos sorrisos mais?
E enquanto este eu medita
e ao Sol a alma se deleita,
outro eu ressuscita…
2005-11-30
2005-11-28
Brando e benevolente
e branco
que a neblina suspirou,
não esqueço,
esse olhar brando e benevolente
das memórias, finas e ténues,
que pintaram as paredes de felicidade
ali,
a meio da presente
saudade…
2005-11-22
Teu pai, teu filho
Podia tentar,
cantar
e escrever a cor das folhas
no Outono,
festejar a vida em mim
que são teus olhos a sorrir,
quando o teu esgar ilumina a vida
e faz de um pequeno bolo velho e seco
um imenso festim.
Se estas lágrimas não teimasse em nascer
e vir, a esta folha de papel
ver-me a escrever
o teu sorriso,
as fitas e o serrim,
queria ser como tu,
mas não consigo…
Quando eras um gigante
eu escondia-me aos pés de sonhos que não sabia ainda possuir,
as letras e os cubos,
a música bailando
ainda espera que eu cante.
Viajavas sobre um trovão,
uma flecha negra que mesmo parada
me fazia voar,
percorria cenários só meus
e a ninguém levantando a mão,
galgava montes e veredas com erva molhada,
parecia que nunca iria acabar…
A flecha negra parou
e tu continuas viajando
em passadas largas sobre a neve,
em corridas curtas por entre fetos e mato…
Como te escrever…
Se palavras existem que definam admiração
eu não sei, não conheço,
tento banhar estas linhas com a minha mão
e acariciar o vento que passa,
mas o sentimento que me ultrapassa
vai já além das emoções que perfilho
e é fora da vida que alcanço
o sentimento de ser teu pai
e teu filho…
cantar
e escrever a cor das folhas
no Outono,
festejar a vida em mim
que são teus olhos a sorrir,
quando o teu esgar ilumina a vida
e faz de um pequeno bolo velho e seco
um imenso festim.
Se estas lágrimas não teimasse em nascer
e vir, a esta folha de papel
ver-me a escrever
o teu sorriso,
as fitas e o serrim,
queria ser como tu,
mas não consigo…
Quando eras um gigante
eu escondia-me aos pés de sonhos que não sabia ainda possuir,
as letras e os cubos,
a música bailando
ainda espera que eu cante.
Viajavas sobre um trovão,
uma flecha negra que mesmo parada
me fazia voar,
percorria cenários só meus
e a ninguém levantando a mão,
galgava montes e veredas com erva molhada,
parecia que nunca iria acabar…
A flecha negra parou
e tu continuas viajando
em passadas largas sobre a neve,
em corridas curtas por entre fetos e mato…
Como te escrever…
Se palavras existem que definam admiração
eu não sei, não conheço,
tento banhar estas linhas com a minha mão
e acariciar o vento que passa,
mas o sentimento que me ultrapassa
vai já além das emoções que perfilho
e é fora da vida que alcanço
o sentimento de ser teu pai
e teu filho…
2005-11-21
As mentes mortiças
Assim que as luzes mancharam a noite
de trevas luminosas,
algo em mim surge do momento
em que o olhar já não é o tempo,
mas o cruzar vasto e metódico
de partes replicadas,
irreais…
de trevas luminosas,
algo em mim surge do momento
em que o olhar já não é o tempo,
mas o cruzar vasto e metódico
de partes replicadas,
irreais…
e dormindo,
aleatoriamente,
vagueando
serenamente
em linhas finas de poemas,
em olhar claro penetrante.
ou talvez seja o que o deixam ser,
enquanto os odores que o vento atiça
forem bravo e plenos de jasmim,
a minha mão fechar-se-á
em torno de uma velha e gasta matriz,
que é apenas
essa vossa mente mortiça…
2005-11-16
Adormeço
Toldado por um inerte pesadelo
o Sol prostra-se aos pés da vida,
vai longe o sonho de infinito,
esmagado por um velho martelo
escorre pela frente granítica escanzelada,
não,
isto não é saída…
A Lua lançou-lhe a mão,
que de fria e nocturna
era pálido como o medo,
que o medo tem de mim.
Saboreava o travo agridoce da melancolia
que o Sol, deitado, vendido, sumia
enquanto uns frágeis raios de nada
iluminavam o rosto de ninguém…
Ser vida não vivida
é fugir,
espezinhar a morte
que adormece à espera,
talvez de alguém
que só a vida sabe que não vem…
Apoiou-se no orvalho
que acordou cansado e lamurioso,
mas à falta de um ombro
saltou-se a tristeza
testemunhada pela Lua furtiva…
Hão-de haver outros poemas,
talvez nascidos ainda mais fundos,
escondidos nos aromas de alecrim
que são apenas e só,
(tão só)
a palavra que teima em sair dentro de mim…
E eu que te lavo com aspereza,
um pouco de alegria,
um pouco de tristeza,
fito ao perto a neblina
que se aproxima,
estendendo a mão vazia
e os olhos de quem se foi,
convida-me a saltar de sonho em sonho
e esfaquear o pesadelo mais medonho.
Armadura ficou-ma o Sol com ela
e, escondida, riu-se de mim a Lua
à janela,
fechada pela claridade,
fustiga-me o ventre num movimento sem dor.
Sorri-me a vida
a cada olhar que respiro, dizendo:
“sabes que tens que escrever o amor…”
Adormeço…
o Sol prostra-se aos pés da vida,
vai longe o sonho de infinito,
esmagado por um velho martelo
escorre pela frente granítica escanzelada,
não,
isto não é saída…
A Lua lançou-lhe a mão,
que de fria e nocturna
era pálido como o medo,
que o medo tem de mim.
Saboreava o travo agridoce da melancolia
que o Sol, deitado, vendido, sumia
enquanto uns frágeis raios de nada
iluminavam o rosto de ninguém…
Ser vida não vivida
é fugir,
espezinhar a morte
que adormece à espera,
talvez de alguém
que só a vida sabe que não vem…
Apoiou-se no orvalho
que acordou cansado e lamurioso,
mas à falta de um ombro
saltou-se a tristeza
testemunhada pela Lua furtiva…
Hão-de haver outros poemas,
talvez nascidos ainda mais fundos,
escondidos nos aromas de alecrim
que são apenas e só,
(tão só)
a palavra que teima em sair dentro de mim…
E eu que te lavo com aspereza,
um pouco de alegria,
um pouco de tristeza,
fito ao perto a neblina
que se aproxima,
estendendo a mão vazia
e os olhos de quem se foi,
convida-me a saltar de sonho em sonho
e esfaquear o pesadelo mais medonho.
Armadura ficou-ma o Sol com ela
e, escondida, riu-se de mim a Lua
à janela,
fechada pela claridade,
fustiga-me o ventre num movimento sem dor.
Sorri-me a vida
a cada olhar que respiro, dizendo:
“sabes que tens que escrever o amor…”
Adormeço…
2005-11-09
(III) A estrela
Os candeeiros despertavam do seu descanso diurno. A hora exacta, era vê-los acordarem, piscando os olhos, e depois começarem a ver, primeiro lentamente, semicerrados, como que se habituando ao crepúsculo. Tinham mau feitio, tal como muitos de nós quando acordam, e enquanto não os via brilhar com todo o seu vigor ninguém falava com eles, nem entre eles mesmos.
A rua possuía um fascínio estranho, encantador. Longe dos caminhos de aldeia, orlados por muros de pedra e musgo, suportados aqui e além por um pastor que, encostado ao muro, com a perna flectida e o pé apoiado no muro, resguardado do frio pelo seu capote de palha e as melenas comprimidas pela boina, velha, quase sempre castanha, comia uma bucha e bebia um gole de vinho. Das ruas que galgou, nenhuma era como esta, pacata, inclinada, com um piso regular de alcatrão. Não se vislumbravam casas, era apenas uma estrada, no meio de algures, com muros altos e baixos, que indicavam diferentes propriedades, diferentes proprietários. A ausência de regos para a água descer livremente, mas confinada, fazia com que qualquer alma que se aventurasse a andar num dia destes, de chuva intensa, acabasse por ficar com os pés mais lavados que o habitual.
Não fazia a mínima ideia de como teria chegado ali. Do alto da rua via os candeeiros, espreguiçando–se, brilhando cada vez com mais veemência, mas ainda assim muito mortiços. A rua terminava, saindo do horizonte numa curva para a direita onde, finalmente, à mesma direita, surgia uma casa branca, velha, com um fiozinho de fumo que fazia crescer água na boca pelo imaginar de uma lareira, mãos estendidas aquecendo–se e falando com o fogo.
Inspirou prolongadamente, de olhos fechados, enchendo os pulmões com o ar gélido do lento cair da noite e pensando como seria bom que o Sol brilhasse um pouco, antes de rumar a outras paragens. Abriu os olhos e, no final da rua, antes desta fugir à visão para a direita, levantavam–se vários eucaliptos, como por magia, e de folhas verdes, muito verdes, completamente molhadas, reflectia o brilho esmaecido de um Sol cansado de um dia de labuta. A visão era estonteante, como o são todas as nossas visões de sonhos, os eucaliptos ondulavam lentamente ao sabor do vento e as folhas competiam entre si para ver qual a que ficava mais à frente, a que recebia antecipadamente os raios de Sol. Enquanto bailavam reflectiam a luz do Sol adquirindo ainda uma tonalidade mais escura, parecia daquelas aves que ele viu uma vez numa quinta. Bem, não avistou a ave, apenas adivinhou como seria, pois apenas tinha visto uma pena, de várias cores, que brilhava consoante olhávamos para ela de diferentes ângulos.
O Sol acabou por não resistir e adormeceu, talvez para acordar noutras partes do mundo, onde as pessoas andam de cabeça para baixo. Os eucaliptos pararam de ondular e as folhas deixaram–se cair numa hibernação rápida e fugidia. Era a noite que avançava, ouvia–se os passos da mesma e, de quando em vez, um suspiro. A respiração era acompanhada pelo vapor que saía da boca e, admirado por não sentir frio, começou a descer a rua com um ânimo que talvez a ausência do alforge patrocinasse. De novo o suspiro…
Ao passar pelo primeiro candeeiro, olhou para cima. Era um poste antigo, de cimento, bastante alto, que tinha uma placa, roída nalgumas zonas pela ferrugem, com bastante sujidade e que não permitia ler o que quer que estivesse escrito. Tirou a mão direita do bolso e começou a esfregar a placa, raspando–a com as unhas. Ouviu novamente o suspiro, seguido de um riso contido. Parou de raspar e olhou em redor, nada, absolutamente nada, excepto o negro da noite que empurrava o azul, agora escuro, do céu diurno. Continuou a raspar e, lentamente, surgiram umas letras pretas sobre um fundo amarelo ferrugento e cansado. Olhou as unhas, estavam sujas e partidas, mas não lhe doíam, pegou então na manga da camisola (amarela, de malha, com um nome escrito, bordado a lã azul grossa – Alcance) e agarrou–a com os dedos, prendendo–a ao punho e a metade da palma da mão. Retomou a actividade, mau grado a sujidade e o estrago na camisola, as letras surgiram todas: “Perigo de morte!”.
Saltou para trás, como pudera ser tão imprudente...
– Sujeito a morrer aqui, num sítio que nem conheço – pensou em voz alta
Novamente o suspiro, profundo, e uma voz soturna, grave, que parecia entrar no âmago do seu ser:
– Não te preocupes, não morrerás…
Olhou em redor, nada se vislumbrava, apenas o céu bem negro e estrelas que tentavam encontrar uma aberta entre as nuvens para espreitarem o que se passava neste mundo.
– Aqui, em cima – ouviu novamente.
Olhou para cima e assustou–se, incrédulo. Quem lhe falava estava no candeeiro.
– Não, não estou no candeeiro – responderam – sou o candeeiro…
Fixou o olhar, franziu os olhos e viu, ainda que pouco nitidamente, dois olhos atrás da luminosidade.
– Aproxima–te, não mordo… – riu sozinho do que acabara de dizer – Habituei–me a ver–vos passar, ouvir–vos, que na impossibilidade de vos imitar os gestos, copiei as vossas falas… Foi assim que aprendi a falar… Eu e todos os outros que vês pela rua.
Olhou para a rua, todos os candeeiros assumiram um ângulo inusitado, que os permitia ver este candeeiro e ele mesmo.
– Eu… – começou, sem saber o que dizer – Eu nunca vi nada assim…
– Nunca viste um candeeiro?
– Não, quer dizer, sim!
– Então…
– Nunca tinha visto no mundo um candeeiro assim, falante
– Oh, ficarias admirado com as coisas que não sabes e que nunca viste… – riu – Daqui vemos coisas que ninguém vê!
– Sim?
– Claro rapaz, e aquelas amigas ali, curiosas, vês? – ergueu aquilo a que podemos chamar de face para o céu – As tais a que vocês chamam de estrelas.
Olhou para o céu e, de facto, via-as atarefas, quase irritadas, esticando uns invisíveis braços que tentavam, à força, abrir espaço entre as nuvens. O vento soprava, subiu a rua rapidamente e parou por momentos junto do candeeiro. Tinha um rosto de criança, um sorriso terno e um olhar profundo que parecia atravessá-lo de um lado ao outro.
- Vejo que deixaram vir mais um! – disse o vento para o candeeiro, enquanto apontava com o olhar para o rapaz.
- Sim, tem sido assim ultimamente. Alguém tem trabalhado bem – piscou o olho ao vento.
- Rapaz, desejo-te uma boa estada aqui, aproveita! – falou, já em voz alta, enquanto corria agora para cima, empurrando as nuvens umas contra as outras, num jogo de gato e rato, abrindo brechas aqui e ali que as estrelas tentavam aproveitar.
- Ei, tu é que és o vento? – gritou o rapaz em direcção às nuvens, com as mãos em concha em frente à boca, para que o som se propagasse mais longe, como lhe tinha explicado certa vez um pastor.
- Sim! – respondeu uma voz ao seu lado.
O susto foi tão grande que quase caiu. Sentiu-se corar quando o vento soltou uma sonora gargalhada de criança e, ao longo da rua, todos os candeeiros sorriam.
Ao lado dele, cara a cara, estava o mesmo rosto de criança, o vento.
- Mas… Tu estavas ali! – apontou para o céu, na esperança de não o ver lá, mas via-o soprando, empurrando as nuvens.
Ficou muito sério a olhar para o vento, que nada mais era que um rosto de criança transparente, a sorrir, com um olhar cor de folha de eucalipto quando fecha os olhos ao brilho do Sol.
- Eu estou em todo o lado! – e perante o ar incrédulo do rapaz – Ainda não sabias disto?
- Ele chegou aqui há pouco tempo, deve ser a primeira vez que cá vem sem ser a dormir – explicou o candeeiro no seu tom pausado
- Ah! Então está tudo explicado! – sorriu de novo o vento – Vais ter tempo para descobrir isso…
O rapaz sorriu perante a certeza do vento, de facto, tudo o que ele queria saber era em que sítio estava, quem eram estas pessoas…
– Pessoas? Mas nós lá somos parecidos com pessoas? – interpelou o vento, mais uma vez parecia que lhe liam o pensamento.
- Não, não lemos – respondeu o candeeiro, enquanto o vento anuía com a cabeça, sorrindo – Olha ao redor de ti, o que vês?
Ele olhou, não via nada extraordinário, tirando o facto de ter uma camisola de lã, velha, amarela, com letras escritas a azul.
- Não, olha ao redor de ti, não para ti…- sorria o candeeiro.
E ele olhou… Imediatamente a seu lado estava um pequeno ponto luminoso, que pairava. Parecia uma partícula qualquer ondulando sobre água expelida na vertical, tal como vira uma vez na casa de um velho louco, onde tinha entregado uma estranha carta num envelope em forma de peixe, ele chamava àquilo, onde os peixes nadavam presos e tristes, de aquário.
- O que é isto? – pensou, enquanto mirava aquele estranho ponto luminoso.
Não teria passado uma fracção de segundo e um novo ponto luminoso soltou-se dele e foi pairar junto ao anterior.
- Estás a descobrir, é giro, mas tenho que ir – disse o vento, piscando o seu olho de menino ao candeeiro – aqui este teu amigo tem muito que fazer!
E arrancou, desta vez para uma outra nuvem que se desvanecia. Com mãos de artesão moldou a nuvem, com um pouco de outras nuvens.
- Que estranho – pensou novamente o rapaz.
- Sim, sou estranho! Mas apenas até te habituares à ideia! – sorriu de novo o vento, desta vez com a cara colada à cara do rapaz. Tão próximo que a respiração, ofegante, do rapaz, fazia com que a sua cara se dissipasse nas expirações, para se reagrupar novamente quando o rapaz inspirava.
- Olha – continuou – agora não posso mesmo conversar contigo, mas para teres uma ideia, vês aquelas estrelas? Algumas tentam ver-nos, outras vêm-nos já. A mim compete-me, aqui, nesta rua, zelar pela ordem natural das coisas.
O candeeiro anuía lentamente, o que fazia com que a rua de iluminasse intermitentemente à medida que ele se movia.
- Àquelas estrelas que não nos vêm ainda, permito apenas, com as minhas amigas nuvens, vislumbrar um pouco do que será, ou seremos.
- E as outras? – perguntou o rapaz.
- As outras sabem quem somos, o que somos, onde estamos e como estamos.
O rapazito abanava a cabeça, não compreendia palavra por palavra, mas encontrava algum sentido nas palavras e nos pontos luminosos que saíam do vento.
- E o que acontece quando as outras estrelas sabem quem vocês são, o que são, onde estão e como estão? – perguntou.
- Bem, aí elas já não são elas, nem nós somos nós... – continuou o candeeiro.
- Sim, é verdade, quando isso acontece…
- E não acontece ao acaso… - rematou o candeeiro
- Sim, nada é ao acaso. Quando acontece, já elas não são elas, nem nós somos nós. Elas são nós mesmos, percebes? Nós… - tentava encontrar as palavras certas, olhando para o candeeiro como que pedindo ajuda.
Por fim o candeeiro ajudou, dizendo:
- Quando nós temos consciência de nós mesmos, não precisamos de procurar. Quando nós nos descobrimos e, por conseguinte, descobrimos os outros, por muito longe que estejam, acabamos por ser apenas um…
- Não compreendo… - respondeu, desconsolado, o rapaz.
- É normal rapaz – disse o vento, enquanto descrevia uma volta completa em torno do rapaz – as palavras são sempre palavras, a nossa interpretação delas é e será sempre diferente.
- Mas o que existe, isso ninguém nega, olha para mim – dizia o candeeiro – as pessoas vêm a luz e o que dizem?
- Não sei…
- Sabes sim… Por exemplo, uns descrevem como brilhante, outros como ofuscante, outros como quente, outros como fria, outros como interminável, outros como intermitente…
- Pois…
- E se para me descreverem encontram termos tão distintos, imagina para tentar descrever isto que esse malandro te disse – e sorriu, olhando para o vento, que lhe fez uma careta divertida.
- Quer dizer, que agora que eu vos encontrei, vocês são eu?
- É parecido, vejo que começas a compreender! – respondeu, rindo, o vento.
- Pois… Então, se eu estiver numa outra estrela, vocês são sempre vocês?
- Melhor!!! – respondia o candeeiro – Tu, mesmo estando noutra estrela, vais estar aqui connosco e noutros locais ainda!
- Mas, como? Quando?
- Uma coisa de cada vez rapaz… A ansiedade não te permite pensar…
- Olha para as estrelas, o que vês?
- Vejo um ponto de luz no céu…
- Não, o que digo é para tu pensares na estrela… Seres a estrela, o que vês?
O rapaz fez um cara engraçada, com os olhos fechados franzia a testa, num esforço aparente de alguma forma mágica ir até á estrela.
- Calma, a continuar assim ainda te acontece algo que não queres! – Disse o vento, soltando uma sonora gargalhada,
- Não consigo – disse o rapaz.
- Consegues sim – tranquilizou o candeeiro - não é uma questão de estares lá, é apenas uma questão de seres!
Tornou a fechar os olhos, pensou no que lhe tinham dito, o ser e estar, o estar e não ser. De repente, sentiu que via, parecia-lhe estar a visualizar as nuvens, as estrelas e, de repente, a cara sorridente do vento surgiu mesmo à sua frente e perguntou:
- Então, já chegaste? – e deu uma gargalhada.
- Vá lá, deixa-o fazer sossegado – dizia o candeeiro, no seu tom conciliador, enquanto o rapaz tinha caído no chão com o susto e, só depois, compreendeu que estava de facto com os olhos fechados.
Deixou-se estar sentado, esticou as pernas e com as mãos no chão, inclinado para trás, fechou os olhos. Queria verificar se podia voltar a ver, de olhos fechados, o que tinha visto… Não desejou pensar o que quer que fosse, deixou apenas que o seu olhar viajasse para além dele mesmo. Lentamente, pensou-se sem corpo, tal era a leveza que sentia, e desejou estar em pé. E assim foi, ficou em pé, olhando para o candeeiro e o vento que sorria. Este último deixou de ter cara e, simplesmente, desenhou-se a si mesmo como uma mão com um polegar em sinal afirmativo e encorajador.
Sentia-se em pé, mas não estava em pé, na realidade, não tinha qualquer corpo, estava ali, a pairar, olhando as estrelas. De repente, ao seu comando, começou a viajar, no sentido ascendente, a uma velocidade vertiginosa. Passou pelas nuvens, que pareciam não o impedir, entrando e saindo delas com uma simplicidade notável. As estrelas começaram a aproximar-se dele, sentia o calor, um calor íntimo que não queimava. Começou a ver todo o universo passar por ele, a uma velocidade estonteante. As estrelas não eram estrelas, eram apenas um pequeno traço luminoso, semelhante às estrelas cadentes que tinha visto. Não conseguia perceber onde estava, pois no exacto momento em que pensava em tal, era de imediato acelerado para outro local e assim sucessivamente, até todas as estrelas serem riscos de luz na noite e estes riscos de luz eram tantos e tão intensos que começaram a sobrepor-se ao escuro da noite. A noite começava a ganhar uma tonalidade esbranquiçada, por vezes de um azul-púrpura. Sentia que se podia deslocar em todos os sentidos, em todas as direcções, não havia local onde não pudesse ir, pois já lá estava, sentia-se parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Deslocando-se, parado…De facto, a velocidade era tanta que ele conseguia estar em dois locais ao mesmo tempo… Não, três locais…Mais locais… Começou a adquirir um sentimento imenso de felicidade, não se sentia movimentar, mas sentia-se, ao mesmo tempo, em todos os locais, em todas as estrelas, em todas as pessoas… Por momentos viu-se a dormir junto a uma lareira. Viu pelos olhos de um padre, uma visão diferente da compaixão e, de repente, um homem agradecia-lhe intimamente ter lido uma carta à sua esposa que ainda era viva. Num estranho momento, viu-se como sendo um pai natal de chocolate nas mãos de uma criança e sentiu, na sua verdadeira essência, uma ponta de tristeza por não poder nem saber escrever tudo o que vislumbrava…
Parou de pensar e de estar, agora era, em toda a concepção da palavra simplesmente era. Via… Ou melhor, sentia estar num local banhado por uma luminosidade estranha, que não iluminava, de todas as cores e ao mesmo tempo escura, consciente e ao mesmo tempo indiferente… Percepcionava em todas as direcções, via como se tivesse olhos em todo o seu corpo, como se ele próprio fosse um olho… Sem qualquer percepção de peso, de corpo, deixou-se estar ali, sentindo e vivendo cada momento num espaço de tempo que não existia. Para ele tudo parecia já ter decorrido, toda a história conhecia, todas as histórias que pudesse inventar, mesmo ele sentia-se como se não existisse sequer, como se fosse sempre assim…Abaixo de si, logo atrás do seu limite de percepção enquanto ser ou entidade, ou fosse lá o que fosse, sentia que era todas as pessoas, que ele era de facto muitas pessoas, muitos seres e, paradoxalmente, todas as pessoas, todos os seres, tudo o que ele via era ele mesmo… Sentiu que não poderia sentir mais nada, não existia espaço para outro sentimento que o calor ameno que o amparava, que a própria essência que respirava, que a própria energia que o constituía e a tudo o que o cercava naquele bocadinho de nada…
– Será isto o amor? – Deve haver mais do que isto… – pensou – O que é isto?
Continuava ali, a pairar, numa experiência tão fantástica como banal, tão real como imaginária… De repente, todo o cenário começou a movimentar-se e ele sentia o processo inverso ao de ter chegado ali, junto daquela estrela… À medida que as estrelas começavam a ser traços no céu, olhou uma última vez para aquela luz estranha que o tinha acolhido por breves momentos de uma eternidade. Sentiu que lhe piscava o olho, não viu, apenas sentiu… Sentiu que dentro dele algo crescia incomensuravelmente, infinitamente, para jamais o abandonar…Deixou-se cair no vazio, com um sorriso, feliz... Enquanto todas as estrelas pareciam abrandar e retomar o seu local no firmamento, ele ia abrindo lentamente os olhos… Uma lágrima fina escorreu lentamente pela face.
- Fácil, não é? – Perguntou o candeeiro, mas o rapaz parecia ainda atordoado, como se fosse possível resumir toda uma experiência a um corpo, a um pequeno conjunto de moléculas.
- Sim… Não sei bem onde estive…
Ainda na mesma posição, demonstrou algum cansaço e começou por tirar as mãos do chão.
Apesar da água das chuvas escorrer pela estrada, ele não sentia frio, nem tão pouco estava molhado, parecia simplesmente que a água passava por ele, por dentro dele, sem o molhar.
- Tenho frio… - disse, com um ar cansado e confuso, sem perceber ainda tudo o que presenciara, nem tão pouco onde estava e com quem estava.
- É estranho… - respondeu o candeeiro em tom preocupado – Hum…
Fez uma pausa, pensando e, depois, com um sorriso de quem tinha compreendido algo, disse:
- Fecha os olhos, dorme, estás cansado…
O rapaz deitou-se, a água corria por ele e por dentro dele. Mudou de posição…
Abriu um pouco as pálpebras, à frente dele uma fogueira ia perdendo vigor. Com o braço estendido agarrou uma videira velha e seca, que jazia no chão da eira, e empurrou um pequeno tronco para a fogueira. Esta foi ganhando vida lentamente, aos poucos libertava mais calor e mais luz. Deitou a mão sobre as pernas e ajustou a camisola amarela… Atrás dele pairavam milhões de partículas douradas e prateadas. Começava a ficar, agora, mais quente e aconchegado. Fechou os olhos…
Em poucos segundos levantou-se, mas não se mexiam as roupas, nem tão pouco o corpo no chão. Ficou em pé, olhou para trás e viu-se a ele mesmo, deitado, dormindo…
Deu um passo em frente, à sua direita encontrava-se a criança que lhe tinha dado a camisola de lã.
Olhou para mim e, sorrindo, fez um gesto com a mão sobre a cabeça, no que parecia indicar o acto de colocar um chapéu… Não compreendi e ele, lentamente, aproximou-se do monitor, bafejou-o e com o dedo estendido escreveu: chapéu…
Sorri, tirei o chapéu do bolso que a criança me tinha dado e coloquei-o à minha esquerda. Ele sorriu igualmente, saiu do monitor, piscou-me o olho enquanto passava por mim e desapareceu…
Desliguei o computador e liberto da luminosidade do monitor vi ao longe o que parecia ser uma estrela, sem brilho definido, a sorrir…
A rua possuía um fascínio estranho, encantador. Longe dos caminhos de aldeia, orlados por muros de pedra e musgo, suportados aqui e além por um pastor que, encostado ao muro, com a perna flectida e o pé apoiado no muro, resguardado do frio pelo seu capote de palha e as melenas comprimidas pela boina, velha, quase sempre castanha, comia uma bucha e bebia um gole de vinho. Das ruas que galgou, nenhuma era como esta, pacata, inclinada, com um piso regular de alcatrão. Não se vislumbravam casas, era apenas uma estrada, no meio de algures, com muros altos e baixos, que indicavam diferentes propriedades, diferentes proprietários. A ausência de regos para a água descer livremente, mas confinada, fazia com que qualquer alma que se aventurasse a andar num dia destes, de chuva intensa, acabasse por ficar com os pés mais lavados que o habitual.
Não fazia a mínima ideia de como teria chegado ali. Do alto da rua via os candeeiros, espreguiçando–se, brilhando cada vez com mais veemência, mas ainda assim muito mortiços. A rua terminava, saindo do horizonte numa curva para a direita onde, finalmente, à mesma direita, surgia uma casa branca, velha, com um fiozinho de fumo que fazia crescer água na boca pelo imaginar de uma lareira, mãos estendidas aquecendo–se e falando com o fogo.
Inspirou prolongadamente, de olhos fechados, enchendo os pulmões com o ar gélido do lento cair da noite e pensando como seria bom que o Sol brilhasse um pouco, antes de rumar a outras paragens. Abriu os olhos e, no final da rua, antes desta fugir à visão para a direita, levantavam–se vários eucaliptos, como por magia, e de folhas verdes, muito verdes, completamente molhadas, reflectia o brilho esmaecido de um Sol cansado de um dia de labuta. A visão era estonteante, como o são todas as nossas visões de sonhos, os eucaliptos ondulavam lentamente ao sabor do vento e as folhas competiam entre si para ver qual a que ficava mais à frente, a que recebia antecipadamente os raios de Sol. Enquanto bailavam reflectiam a luz do Sol adquirindo ainda uma tonalidade mais escura, parecia daquelas aves que ele viu uma vez numa quinta. Bem, não avistou a ave, apenas adivinhou como seria, pois apenas tinha visto uma pena, de várias cores, que brilhava consoante olhávamos para ela de diferentes ângulos.
O Sol acabou por não resistir e adormeceu, talvez para acordar noutras partes do mundo, onde as pessoas andam de cabeça para baixo. Os eucaliptos pararam de ondular e as folhas deixaram–se cair numa hibernação rápida e fugidia. Era a noite que avançava, ouvia–se os passos da mesma e, de quando em vez, um suspiro. A respiração era acompanhada pelo vapor que saía da boca e, admirado por não sentir frio, começou a descer a rua com um ânimo que talvez a ausência do alforge patrocinasse. De novo o suspiro…
Ao passar pelo primeiro candeeiro, olhou para cima. Era um poste antigo, de cimento, bastante alto, que tinha uma placa, roída nalgumas zonas pela ferrugem, com bastante sujidade e que não permitia ler o que quer que estivesse escrito. Tirou a mão direita do bolso e começou a esfregar a placa, raspando–a com as unhas. Ouviu novamente o suspiro, seguido de um riso contido. Parou de raspar e olhou em redor, nada, absolutamente nada, excepto o negro da noite que empurrava o azul, agora escuro, do céu diurno. Continuou a raspar e, lentamente, surgiram umas letras pretas sobre um fundo amarelo ferrugento e cansado. Olhou as unhas, estavam sujas e partidas, mas não lhe doíam, pegou então na manga da camisola (amarela, de malha, com um nome escrito, bordado a lã azul grossa – Alcance) e agarrou–a com os dedos, prendendo–a ao punho e a metade da palma da mão. Retomou a actividade, mau grado a sujidade e o estrago na camisola, as letras surgiram todas: “Perigo de morte!”.
Saltou para trás, como pudera ser tão imprudente...
– Sujeito a morrer aqui, num sítio que nem conheço – pensou em voz alta
Novamente o suspiro, profundo, e uma voz soturna, grave, que parecia entrar no âmago do seu ser:
– Não te preocupes, não morrerás…
Olhou em redor, nada se vislumbrava, apenas o céu bem negro e estrelas que tentavam encontrar uma aberta entre as nuvens para espreitarem o que se passava neste mundo.
– Aqui, em cima – ouviu novamente.
Olhou para cima e assustou–se, incrédulo. Quem lhe falava estava no candeeiro.
– Não, não estou no candeeiro – responderam – sou o candeeiro…
Fixou o olhar, franziu os olhos e viu, ainda que pouco nitidamente, dois olhos atrás da luminosidade.
– Aproxima–te, não mordo… – riu sozinho do que acabara de dizer – Habituei–me a ver–vos passar, ouvir–vos, que na impossibilidade de vos imitar os gestos, copiei as vossas falas… Foi assim que aprendi a falar… Eu e todos os outros que vês pela rua.
Olhou para a rua, todos os candeeiros assumiram um ângulo inusitado, que os permitia ver este candeeiro e ele mesmo.
– Eu… – começou, sem saber o que dizer – Eu nunca vi nada assim…
– Nunca viste um candeeiro?
– Não, quer dizer, sim!
– Então…
– Nunca tinha visto no mundo um candeeiro assim, falante
– Oh, ficarias admirado com as coisas que não sabes e que nunca viste… – riu – Daqui vemos coisas que ninguém vê!
– Sim?
– Claro rapaz, e aquelas amigas ali, curiosas, vês? – ergueu aquilo a que podemos chamar de face para o céu – As tais a que vocês chamam de estrelas.
Olhou para o céu e, de facto, via-as atarefas, quase irritadas, esticando uns invisíveis braços que tentavam, à força, abrir espaço entre as nuvens. O vento soprava, subiu a rua rapidamente e parou por momentos junto do candeeiro. Tinha um rosto de criança, um sorriso terno e um olhar profundo que parecia atravessá-lo de um lado ao outro.
- Vejo que deixaram vir mais um! – disse o vento para o candeeiro, enquanto apontava com o olhar para o rapaz.
- Sim, tem sido assim ultimamente. Alguém tem trabalhado bem – piscou o olho ao vento.
- Rapaz, desejo-te uma boa estada aqui, aproveita! – falou, já em voz alta, enquanto corria agora para cima, empurrando as nuvens umas contra as outras, num jogo de gato e rato, abrindo brechas aqui e ali que as estrelas tentavam aproveitar.
- Ei, tu é que és o vento? – gritou o rapaz em direcção às nuvens, com as mãos em concha em frente à boca, para que o som se propagasse mais longe, como lhe tinha explicado certa vez um pastor.
- Sim! – respondeu uma voz ao seu lado.
O susto foi tão grande que quase caiu. Sentiu-se corar quando o vento soltou uma sonora gargalhada de criança e, ao longo da rua, todos os candeeiros sorriam.
Ao lado dele, cara a cara, estava o mesmo rosto de criança, o vento.
- Mas… Tu estavas ali! – apontou para o céu, na esperança de não o ver lá, mas via-o soprando, empurrando as nuvens.
Ficou muito sério a olhar para o vento, que nada mais era que um rosto de criança transparente, a sorrir, com um olhar cor de folha de eucalipto quando fecha os olhos ao brilho do Sol.
- Eu estou em todo o lado! – e perante o ar incrédulo do rapaz – Ainda não sabias disto?
- Ele chegou aqui há pouco tempo, deve ser a primeira vez que cá vem sem ser a dormir – explicou o candeeiro no seu tom pausado
- Ah! Então está tudo explicado! – sorriu de novo o vento – Vais ter tempo para descobrir isso…
O rapaz sorriu perante a certeza do vento, de facto, tudo o que ele queria saber era em que sítio estava, quem eram estas pessoas…
– Pessoas? Mas nós lá somos parecidos com pessoas? – interpelou o vento, mais uma vez parecia que lhe liam o pensamento.
- Não, não lemos – respondeu o candeeiro, enquanto o vento anuía com a cabeça, sorrindo – Olha ao redor de ti, o que vês?
Ele olhou, não via nada extraordinário, tirando o facto de ter uma camisola de lã, velha, amarela, com letras escritas a azul.
- Não, olha ao redor de ti, não para ti…- sorria o candeeiro.
E ele olhou… Imediatamente a seu lado estava um pequeno ponto luminoso, que pairava. Parecia uma partícula qualquer ondulando sobre água expelida na vertical, tal como vira uma vez na casa de um velho louco, onde tinha entregado uma estranha carta num envelope em forma de peixe, ele chamava àquilo, onde os peixes nadavam presos e tristes, de aquário.
- O que é isto? – pensou, enquanto mirava aquele estranho ponto luminoso.
Não teria passado uma fracção de segundo e um novo ponto luminoso soltou-se dele e foi pairar junto ao anterior.
- Estás a descobrir, é giro, mas tenho que ir – disse o vento, piscando o seu olho de menino ao candeeiro – aqui este teu amigo tem muito que fazer!
E arrancou, desta vez para uma outra nuvem que se desvanecia. Com mãos de artesão moldou a nuvem, com um pouco de outras nuvens.
- Que estranho – pensou novamente o rapaz.
- Sim, sou estranho! Mas apenas até te habituares à ideia! – sorriu de novo o vento, desta vez com a cara colada à cara do rapaz. Tão próximo que a respiração, ofegante, do rapaz, fazia com que a sua cara se dissipasse nas expirações, para se reagrupar novamente quando o rapaz inspirava.
- Olha – continuou – agora não posso mesmo conversar contigo, mas para teres uma ideia, vês aquelas estrelas? Algumas tentam ver-nos, outras vêm-nos já. A mim compete-me, aqui, nesta rua, zelar pela ordem natural das coisas.
O candeeiro anuía lentamente, o que fazia com que a rua de iluminasse intermitentemente à medida que ele se movia.
- Àquelas estrelas que não nos vêm ainda, permito apenas, com as minhas amigas nuvens, vislumbrar um pouco do que será, ou seremos.
- E as outras? – perguntou o rapaz.
- As outras sabem quem somos, o que somos, onde estamos e como estamos.
O rapazito abanava a cabeça, não compreendia palavra por palavra, mas encontrava algum sentido nas palavras e nos pontos luminosos que saíam do vento.
- E o que acontece quando as outras estrelas sabem quem vocês são, o que são, onde estão e como estão? – perguntou.
- Bem, aí elas já não são elas, nem nós somos nós... – continuou o candeeiro.
- Sim, é verdade, quando isso acontece…
- E não acontece ao acaso… - rematou o candeeiro
- Sim, nada é ao acaso. Quando acontece, já elas não são elas, nem nós somos nós. Elas são nós mesmos, percebes? Nós… - tentava encontrar as palavras certas, olhando para o candeeiro como que pedindo ajuda.
Por fim o candeeiro ajudou, dizendo:
- Quando nós temos consciência de nós mesmos, não precisamos de procurar. Quando nós nos descobrimos e, por conseguinte, descobrimos os outros, por muito longe que estejam, acabamos por ser apenas um…
- Não compreendo… - respondeu, desconsolado, o rapaz.
- É normal rapaz – disse o vento, enquanto descrevia uma volta completa em torno do rapaz – as palavras são sempre palavras, a nossa interpretação delas é e será sempre diferente.
- Mas o que existe, isso ninguém nega, olha para mim – dizia o candeeiro – as pessoas vêm a luz e o que dizem?
- Não sei…
- Sabes sim… Por exemplo, uns descrevem como brilhante, outros como ofuscante, outros como quente, outros como fria, outros como interminável, outros como intermitente…
- Pois…
- E se para me descreverem encontram termos tão distintos, imagina para tentar descrever isto que esse malandro te disse – e sorriu, olhando para o vento, que lhe fez uma careta divertida.
- Quer dizer, que agora que eu vos encontrei, vocês são eu?
- É parecido, vejo que começas a compreender! – respondeu, rindo, o vento.
- Pois… Então, se eu estiver numa outra estrela, vocês são sempre vocês?
- Melhor!!! – respondia o candeeiro – Tu, mesmo estando noutra estrela, vais estar aqui connosco e noutros locais ainda!
- Mas, como? Quando?
- Uma coisa de cada vez rapaz… A ansiedade não te permite pensar…
- Olha para as estrelas, o que vês?
- Vejo um ponto de luz no céu…
- Não, o que digo é para tu pensares na estrela… Seres a estrela, o que vês?
O rapaz fez um cara engraçada, com os olhos fechados franzia a testa, num esforço aparente de alguma forma mágica ir até á estrela.
- Calma, a continuar assim ainda te acontece algo que não queres! – Disse o vento, soltando uma sonora gargalhada,
- Não consigo – disse o rapaz.
- Consegues sim – tranquilizou o candeeiro - não é uma questão de estares lá, é apenas uma questão de seres!
Tornou a fechar os olhos, pensou no que lhe tinham dito, o ser e estar, o estar e não ser. De repente, sentiu que via, parecia-lhe estar a visualizar as nuvens, as estrelas e, de repente, a cara sorridente do vento surgiu mesmo à sua frente e perguntou:
- Então, já chegaste? – e deu uma gargalhada.
- Vá lá, deixa-o fazer sossegado – dizia o candeeiro, no seu tom conciliador, enquanto o rapaz tinha caído no chão com o susto e, só depois, compreendeu que estava de facto com os olhos fechados.
Deixou-se estar sentado, esticou as pernas e com as mãos no chão, inclinado para trás, fechou os olhos. Queria verificar se podia voltar a ver, de olhos fechados, o que tinha visto… Não desejou pensar o que quer que fosse, deixou apenas que o seu olhar viajasse para além dele mesmo. Lentamente, pensou-se sem corpo, tal era a leveza que sentia, e desejou estar em pé. E assim foi, ficou em pé, olhando para o candeeiro e o vento que sorria. Este último deixou de ter cara e, simplesmente, desenhou-se a si mesmo como uma mão com um polegar em sinal afirmativo e encorajador.
Sentia-se em pé, mas não estava em pé, na realidade, não tinha qualquer corpo, estava ali, a pairar, olhando as estrelas. De repente, ao seu comando, começou a viajar, no sentido ascendente, a uma velocidade vertiginosa. Passou pelas nuvens, que pareciam não o impedir, entrando e saindo delas com uma simplicidade notável. As estrelas começaram a aproximar-se dele, sentia o calor, um calor íntimo que não queimava. Começou a ver todo o universo passar por ele, a uma velocidade estonteante. As estrelas não eram estrelas, eram apenas um pequeno traço luminoso, semelhante às estrelas cadentes que tinha visto. Não conseguia perceber onde estava, pois no exacto momento em que pensava em tal, era de imediato acelerado para outro local e assim sucessivamente, até todas as estrelas serem riscos de luz na noite e estes riscos de luz eram tantos e tão intensos que começaram a sobrepor-se ao escuro da noite. A noite começava a ganhar uma tonalidade esbranquiçada, por vezes de um azul-púrpura. Sentia que se podia deslocar em todos os sentidos, em todas as direcções, não havia local onde não pudesse ir, pois já lá estava, sentia-se parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Parado e ao mesmo tempo a uma velocidade imensa… Deslocando-se, parado…De facto, a velocidade era tanta que ele conseguia estar em dois locais ao mesmo tempo… Não, três locais…Mais locais… Começou a adquirir um sentimento imenso de felicidade, não se sentia movimentar, mas sentia-se, ao mesmo tempo, em todos os locais, em todas as estrelas, em todas as pessoas… Por momentos viu-se a dormir junto a uma lareira. Viu pelos olhos de um padre, uma visão diferente da compaixão e, de repente, um homem agradecia-lhe intimamente ter lido uma carta à sua esposa que ainda era viva. Num estranho momento, viu-se como sendo um pai natal de chocolate nas mãos de uma criança e sentiu, na sua verdadeira essência, uma ponta de tristeza por não poder nem saber escrever tudo o que vislumbrava…
Parou de pensar e de estar, agora era, em toda a concepção da palavra simplesmente era. Via… Ou melhor, sentia estar num local banhado por uma luminosidade estranha, que não iluminava, de todas as cores e ao mesmo tempo escura, consciente e ao mesmo tempo indiferente… Percepcionava em todas as direcções, via como se tivesse olhos em todo o seu corpo, como se ele próprio fosse um olho… Sem qualquer percepção de peso, de corpo, deixou-se estar ali, sentindo e vivendo cada momento num espaço de tempo que não existia. Para ele tudo parecia já ter decorrido, toda a história conhecia, todas as histórias que pudesse inventar, mesmo ele sentia-se como se não existisse sequer, como se fosse sempre assim…Abaixo de si, logo atrás do seu limite de percepção enquanto ser ou entidade, ou fosse lá o que fosse, sentia que era todas as pessoas, que ele era de facto muitas pessoas, muitos seres e, paradoxalmente, todas as pessoas, todos os seres, tudo o que ele via era ele mesmo… Sentiu que não poderia sentir mais nada, não existia espaço para outro sentimento que o calor ameno que o amparava, que a própria essência que respirava, que a própria energia que o constituía e a tudo o que o cercava naquele bocadinho de nada…
– Será isto o amor? – Deve haver mais do que isto… – pensou – O que é isto?
Continuava ali, a pairar, numa experiência tão fantástica como banal, tão real como imaginária… De repente, todo o cenário começou a movimentar-se e ele sentia o processo inverso ao de ter chegado ali, junto daquela estrela… À medida que as estrelas começavam a ser traços no céu, olhou uma última vez para aquela luz estranha que o tinha acolhido por breves momentos de uma eternidade. Sentiu que lhe piscava o olho, não viu, apenas sentiu… Sentiu que dentro dele algo crescia incomensuravelmente, infinitamente, para jamais o abandonar…Deixou-se cair no vazio, com um sorriso, feliz... Enquanto todas as estrelas pareciam abrandar e retomar o seu local no firmamento, ele ia abrindo lentamente os olhos… Uma lágrima fina escorreu lentamente pela face.
- Fácil, não é? – Perguntou o candeeiro, mas o rapaz parecia ainda atordoado, como se fosse possível resumir toda uma experiência a um corpo, a um pequeno conjunto de moléculas.
- Sim… Não sei bem onde estive…
Ainda na mesma posição, demonstrou algum cansaço e começou por tirar as mãos do chão.
Apesar da água das chuvas escorrer pela estrada, ele não sentia frio, nem tão pouco estava molhado, parecia simplesmente que a água passava por ele, por dentro dele, sem o molhar.
- Tenho frio… - disse, com um ar cansado e confuso, sem perceber ainda tudo o que presenciara, nem tão pouco onde estava e com quem estava.
- É estranho… - respondeu o candeeiro em tom preocupado – Hum…
Fez uma pausa, pensando e, depois, com um sorriso de quem tinha compreendido algo, disse:
- Fecha os olhos, dorme, estás cansado…
O rapaz deitou-se, a água corria por ele e por dentro dele. Mudou de posição…
Abriu um pouco as pálpebras, à frente dele uma fogueira ia perdendo vigor. Com o braço estendido agarrou uma videira velha e seca, que jazia no chão da eira, e empurrou um pequeno tronco para a fogueira. Esta foi ganhando vida lentamente, aos poucos libertava mais calor e mais luz. Deitou a mão sobre as pernas e ajustou a camisola amarela… Atrás dele pairavam milhões de partículas douradas e prateadas. Começava a ficar, agora, mais quente e aconchegado. Fechou os olhos…
Em poucos segundos levantou-se, mas não se mexiam as roupas, nem tão pouco o corpo no chão. Ficou em pé, olhou para trás e viu-se a ele mesmo, deitado, dormindo…
Deu um passo em frente, à sua direita encontrava-se a criança que lhe tinha dado a camisola de lã.
Olhou para mim e, sorrindo, fez um gesto com a mão sobre a cabeça, no que parecia indicar o acto de colocar um chapéu… Não compreendi e ele, lentamente, aproximou-se do monitor, bafejou-o e com o dedo estendido escreveu: chapéu…
Sorri, tirei o chapéu do bolso que a criança me tinha dado e coloquei-o à minha esquerda. Ele sorriu igualmente, saiu do monitor, piscou-me o olho enquanto passava por mim e desapareceu…
Desliguei o computador e liberto da luminosidade do monitor vi ao longe o que parecia ser uma estrela, sem brilho definido, a sorrir…
2005-11-04
(II) O carteiro
A rua foi feita com pedras altas, num mosaico irregular, que o passar dos tempos, dos cascos do gado e dos carros de bois transformou em lisas pedras, carregadas de musgo onde as grandes rodas de madeira, orladas a ferro pelas gerações de latoeiros da aldeia, não calcavam.
Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos.
À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos…
Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome escrito no destinatário de envelopes velhos, amarelecidos pelo tempo e pelo couro do alforge, que algumas cartas tinham aspecto de terem viajado mais que cem anos… É alto, bastante alto para os corpos curvados pela lide do tempo e dos campos, pela enxada e foice, o cabelo sai-lhe do chapéu de carteiro, meio grisalho, que se mostra mais escuro quando tira o chapéu para, por cordialidade, saudar as pessoas com quem se cruza.
Visitou a primeira pessoa há anos, ou décadas, já não há certeza, a história é contada como se tivesse passado apenas uma ou duas semanas… Entrou no centro da aldeia, um pequeno aglomerado de casas à volta de uma capela, com um cruzeiro no centro da praça. O fontanário estava, então, povoado de mulheres, novas e idosas, com mãos frias e vermelhas de bater a roupa na água fria. Não escapou aos olhares malandros das raparigas mais novas quando se abeirou delas, pousou o saco, deixando cair algumas cartas e um embrulho atado com uma fita muito tosca e amassada, e disse ao mesmo tempo que tirava o chapéu:
- Bom dia minhas senhoras!
O pudor de então não permitia uma resposta imediata, directa, mas passados alguns segundos, a senhora mais velha, antipática, de rugas formadas na testa por tanto franzir as sobrancelhas, num olhar ameaçador, respondeu:
- Bom dia…
O carteiro enfiou o chapéu na cabeça e disse:
- Sou o novo carteiro, ando um pouco perdido, parti a minha bicicleta atrás, antes da ponte, e por sorte não me parti a mim também – sorriu – procuro uma aldeia chamada Dalmas, pode dizer-me onde fica?
A mulher olhava ainda de desdém, desconfiada:
- Para que quer saber? Aqui não passa um carteiro há anos, nem há quem nos escreva mais… Está enganado certamente…
As mulheres e meninas pareciam esconder-se atrás desta mulher mais velha, com medo de esta lhes ver um olhar mais furtivo para o carteiro.
- Pois, acredito que sim, mas tenho aqui algumas centenas de cartas e este pacote, como pode ver, para entregar e só me pagam quando isto entregar… Procuro agora uma senhora chamada – parou e olhou melhor para a carta tentando compreender o que estava escrito - Alice Martins, creio que é este o nome…
- Sou eu, mas ninguém tenho que me escreva! E mesmo que tivesse, não sei ler, isso era tarefa do meu marido, que é ido agora, para onde todos iremos… - respondeu com azedume e tentando terminar por ali a conversa.
- A carta tem selo de há 8 anos atrás e o remetente é um senhor, creio que se chama Artur Martins…
O olhar da mulher ficou vago e distante, parecia atingida por um murro no peito, deixou de respirar por instantes e todas as outras sussurraram entre elas…
- Esse… - falou com o olhar no chão – Esse… era o meu marido…
Com um sorriso, o carteiro estendeu o braço à senhora, entregando a carta, ao que esta a recebeu e a manteve na palma das mãos, olhando, com os olhos a encherem-se de lágrimas.
O carteiro ficou em pé, olhando para ela, esperando que a emoção passasse para perguntar por outros destinatários…
- O senhor… - balbuciou – o senhor não se importa de ma ler? Nenhuma de nós sabe ler… Apenas escrevemos o nosso nome… Algumas de nós apenas assinamos com uma cruz… - e estendeu-lhe a carta ainda por abrir.
- Certamente, minha senhora – pegou novamente na carta e sorriu – Quer que a leia aqui?
- Não, não… Vamos até ali – e apontou com a cabeça para o cruzeiro do centro da praça.
Andaram um pouco, o carteiro arrastou o seu alforge e a mulher andava e limpava as mãos ao avental. Chegados ao cruzeiro, a mulher sentou-se e o carteiro, após pousar o alforge, endireitou o chapéu, retocou com a mão o cabelo que saía do chapéu, endireitou o casaco e abriu lentamente a carta. À medida que o fazia, a mulher soluçava baixinho, espaçadamente, enquanto lhe caía uma ou outra lágrima pelo rosto, que ela limpava com uma ponta do avental.
Pigarreou um pouco, clareando a voz e começou a ler:
“Querida Alice, o quanto lamento eu em vida não ter sorrido mais, não te ter amado como sei agora que é possível… Já lá vão uns anos e não sei se existe forma de te falar, de te ver…” O carteiro cambaleou um pouco, parecia cansado, a sua visão turvou-se um pouco e ele teve que se sentar, fazendo-o no chão. Baixou um pouco a cabeça, o que permitiu esconder os seus olhos turvos, quase brancos por uma névoa que os cobria agora. Continuou a ler:
“Continuas bela como sempre, mas a tua amargura sente-se até aqui onde estou e mesmo nosso filho, que morreu tão cedo, antes da sua primeira comunhão, se compadece de tua dor… Eu não tenho muito mais tempo para escrever e falar, não é sempre que o podemos fazer… Estou bem, feliz, tão liberto da vida e da dor que foi sair daí, mas agora vejo que tudo é passageiro, que o que fica somos nós, o amor… Olha, o amor aqui é tudo o que existe, aqui respira-se amor, vive-se amor, é um amor diferente do que conhecemos… Eu queria dizer-te tantas coisas, mas não tenho tempo…”
A mulher ouvia de olhos fechados, as lágrimas continuavam a correr, baixou a cabeça e pousou-a nos braços que estavam cruzados sobre os joelhos.
“Peço-te que recebes estas minha palavras com carinho e amor… Peço-te, imploro-te, que olhes para todas as pessoas como se olhasses para mim, que gostasses das outras pessoas como se fossem os teus mais queridos filhos, como se me visses em cada uma das pessoas… Sei que é difícil, mas acredita em mim, fá-lo por ti mesma e pelos outros, para que se sintam amados, libertos dos seus medos… Quem sabe eu estarei num desses olhares? Agora tenho que ir… Estou aqui à tua espera, aguardo ansiosamente a altura em que nos possamos olhar olhos nos olhos e te possa dar um abraço… Um abraço à nossa maneira… Até lá, do teu marido, Artur.”
O carteiro olhou em frente, para a senhora, compreendeu que estava sentado e levantou-se rapidamente, abanando um pouco a cabeça como que a sacudir pensamentos, limpou as calças e fechou cuidadosamente a carta. Deu dois pequenos passos e apontou a carta à senhora que o olhava, ainda de olhos húmidos, com os braços cruzados sobre as pernas. Esticou o braço e pegou na carta.
- Obrigada…
- Oh, não tem mal, faço isto muitas vezes por esses montes adiante… É a minha vida…
- Não compreendo… Parece-me que perdi tanto tempo… Com…
- Nunca perdemos tempo… Diz-me a vida que ganhamos sempre alguma experiência, que aprendemos sempre algo.
- Mas eu perdi muito tempo, já lá vão alguns anos que ele partiu… Eu apenas tenho acumulado tristeza, raiva… Não consigo olhar nos olhos ninguém, fico com raiva da felicidade dos outros… - parou um pouco, baixou a cabeça – Já olhou para aquelas pobres coitadas? Nenhuma delas namora, pelo menos que eu saiba, nenhuma delas se atreve a sorrir quando estou com elas… Acho que têm medo… Não sei… Acho que me tornei amarga, raivosa com a vida… - falava e abanava a cabeça, como que não querendo acreditar no que se tinha transformado…
- Ainda está a tempo de mudar… De sorrir… De amar…
- Estou nada… Estou velha… Cansada…
- Não está não… Olhe… Eu era para ser carteiro desde que nasci, sabia que era isto, que tinha que entregar cartas, falar e ouvir com as pessoas… Mas nunca o fiz… Passados alguns anos encontrei uma pessoa que me entregou uma carta, uma carta velha, muito velha… Nessa carta diziam-me que se eu tivesse falado, se eu tivesse dito o que sabia, que essa pessoa já seria mais feliz, teria agido de outra forma… - encolheu os ombros e sorriu - Acho que cada um de nós encontra forma de fazer o que tem que fazer, sabe? Às vezes não o fazemos por orgulho, por comodidade, mas todos sabemos o que temos que fazer…
Olhou por ele abaixo, fez um movimento com os braços como que exibindo o seu uniforme de carteiro:
- Acha que eu queria andar assim? Agora nem bicicleta tenho… Caminho por aí com cartas que ninguém lê… Mas sou feliz… Há qualquer coisa nessas cartas que me faz ver que somos mais que palavras, somos acção, e que esta acção só nós sabemos qual é… - parou um pouco – Como é que hei-de dizer… Acho que nós temos que fazer pelos outros, tudo o que faríamos por nós…
Levantou o alforge e colocou-o ao ombro, endireitou o chapéu:
- Pode ser que um dia destes, alguém me entregue uma carta assim… - sorriu – Tenha um bom dia!
Partiu em direcção à capela, tinha uma carta a entregar e sabia que encontraria a pessoa ali, na capela, não viesse no destinatário “Padre…”
Chegou à capela e pousou o alforge, olhou para trás e ficou a contemplar a senhora a quem lera a carta. Esta tinha-se levantado e caminhava em direcção ao fontanário. Levava a carta na mão e quando se abeirou de uma das raparigas esta encolheu-se, talvez com medo… A senhora Alice levantou os braços e deu-lhe um abraço forte, demorado, e quando a largou beijou-a na testa, com muito carinho… A surpresa parecia ser enorme e a repercussão desse abraço viu-se nas restantes raparigas que abraçaram Alice em conjunto… Era capaz de jurar que a própria água parecia mais límpida e Alice parecia mais nova…
Tirou a carta do alforge e caminhou em direcção à porta da capela… Gostou da capela, além da pequena igreja, possuía à frente desta um coberto, com bancos de pedra e uma antiga pia baptismal à direita da porta de entrada. Não gostou de ver as grades em forma de lança…
- Jovem, posso ajudá-lo? – perguntou uma voz muito grave.
Assustou-se, estava perdido a olhar para as grades.
- Sim, por favor, procuro o padre Bernardo, tenho uma carta para ele.
- Uma carta? Mas aqui, meu jovem, já não há carteiro que chegue… Há anos…
- Pois agora há - e sorriu, tirando o chapéu e exibindo orgulhosamente o símbolo dos carteiros.
- E diz-me que a carta é para o padre Bernardo?
- Sim, é.
- Ele não está, mas posso entregá-la pessoalmente, se assim desejar.
Pensou um pouco, as ordens que tinha era para entregar pessoalmente ao destinatário… Enfiou novamente o chapéu e sorriu, como se uma ideia o tivesse atingido.
- Está bem, se não for incómodo. – E entregou a carta ao padre.
Pegou no alforge novamente e caminhou para fora do coberto, dirigindo-se em direcção ao cruzeiro. Parou quando ouviu a porta da capela fechar e voltou para trás. Sentou-se num dos bancos frios de pedra. Por momentos sentiu a tentação de colocar algumas das cartas que trazia sobre o banco para não ter tanto frio, mas afastou o pensamento com um sorriso.
Olhava atentamente à volta, havia qualquer coisa de acolhedor naquela pequena aldeia, qualquer coisa de agradável.
Não teriam passado cinco minutos quando ouviu a porta da capela abrir repentinamente, o padre a quem tinha deixado a carta surgia, ofegante e olhava para a praça tentando encontrar o carteiro, que nem o tinha visto sentado ao lado da porta.
- Ah, está aí! – disse, surpreso e ao mesmo tempo sem saber o que dizer.
- Sim, estou cansado, descanso um pouco, se não se importa.
- Claro que não… - ficou a olhar para a carta aberta.
- Quem lhe entregou esta carta?
- Não sei, isso é do serviço, eu apenas carrego o alforge e deixo as cartas com os seus donos. – respondeu humildemente.
- Ah…
- Mas padre, são más notícias?
Ficou a olhar para o carteiro por alguns segundos.
- Não sei… Importa-se que me sente a seu lado? – perguntou com uma dose de simplicidade que o carteiro ainda não tinha visto.
- Oh meu padre, eu estou em sua casa, não precisa de me pedir autorização – respondeu divertido.
O padre sorriu, realmente, fazia sentido.
- Estou em minha casa sim… Fiz dela a minha casa… Mas não é minha… Tenho-me esquecido disso… Posso confessar-lhe uma coisa?
O carteiro olhou surpreso…
- Mas padre, como posso eu confessá-lo? O senhor confessa-se com Deus… Eu sou um carteiro…
- Sim, tens razão jovem – e pousou a sua mão esquerda sobre o joelho do carteiro – mas eu ultimamente tenho-me confessado a um Deus… - parou um pouco e olhou em frente – tenho-me confessado a um Deus que eu criei…
Ao olhar curioso e perplexo do carteiro, o padre continuou.
- Eu criei este Deus, este que vês à tua volta – e fazia um gesto com o braço direito, empunhando ainda a carta, apontando para as grades em torno do coberto – Transformei palavras de amor e libertação em grades e opressão, em medos infundados… - Suspirou – tenho-me esquecido que também eu sou carteiro…
Parou e olhou para o carteiro, tirou a mão do joelho e deu-lhe uma pequena palmada nas costas. Depois, sorrindo, tirou-lhe o chapéu e colocou-o sobre a sua cabeça.
- Que tal, pareço um carteiro?
- Se me permite senhor padre… - foi interrompido pelo padre.
- Bernardo… O meu nome é Bernardo, tenho-me esquecido disso.
- Pois… Sabe, uma vez li numa carta para outra pessoa – emendou de seguida – Espere, li numa carta para outra pessoa, porque essa pessoa me pediu para a ler! – o padre riu-se – Li que as pessoas valem pelo que são, pelo que fazem com o que têm… Eu acho que sou carteiro, mesmo sem o chapéu e o uniforme… Se calhar o senhor padre…
- Bernardo – interrompeu-o
- Se calhar o Bernardo também seria padre sem a batina e o anel…
- Sim, tens razão… Se calhar… Mas habituei-me tanto a este papel, a este poder, que tenho-me esquecido de ouvir as pessoas, para e por quem eu vim para aqui… Vou ter que mudar alguma coisa… Rapaz, dás-me uma ajuda? – perguntou levantando-se.
- Sim…
- Então agarra nessa ponta, cuidado não te piques! – disse, indo para a outra extremidade da grade.
Agarram um em cada ponta da grade e começaram a fazer força para fora, mas a grade não se mexeu.
- Acho que as grades que têm que cair, caem para dentro… - lançou o carteiro. E começaram a puxar, agora para dentro do coberto.
Não tardou muito para que as grades cedessem á força do padre e do seu recente amigo. Primeiro desencaixaram-se e depois dobraram-se, o que fê-los cair de costas, rindo.
- Ainda faltam aquelas – disse o padre, apontando para o outro lado do coberto.
Caíram com mais facilidade que as outras.
- O que vai fazer a isto? – perguntou o carteiro.
- Não sei… Isto não arde… Tive uma ideia! Ora ajuda-me aí na ponta! – falava e olhava para a grade tombada.
Agarram um em cada lado da grade e o padre foi guiando, à frente. Pararam à entrada do coberto. O padre riu-se sozinho e disse:
- Levanta essa parte da grade. Assim não, ao contrário, de forma a fazer uma escada!
O carteiro começou a levantar a grade, até que esta chegou ao tecto, apoiando numa viga de madeira. Ao lado da viga, por cima do portão, estava uma faixa que dizia: “Casa de Deus”.
O padre subiu, então, a grade transformada em escada e agarrou a faixa, retirando-a com cuidado. Desceu com a faixa e, chegado ao chão, disse:
- Segura aí, por favor, vou lá dentro buscar um material.
Regressou com um pincel e tinta, que pousou no banco de pedra. Depois, pegando na faixa, estendeu-a no chão e disse:
- Chegas-me por favor a tinta e o pincel? Quando escrevi isto, não era bem isto que queria escrever.
Começou a escrever na faixa, molhando o pincel na tinta, limpando o excesso de tinta no rebordo da lata. Quando acabou podia ler-se: “Bem-vindo à cada de todos os deuses”.
Sorria orgulhoso e olhava para o carteiro com uma expressão de felicidade, como que a pedir uma opinião abanou a cabeça.
- Está diferente… Mas o que quer dizer?
- Bem, quer dizer que esta casa não escolhe deuses, nesta casa é livre de entrar quem quiser, também podem perguntar o que quiserem…
- Mas, é mesmo assim? Acha que as pessoas aceitam bem?
- Acho que as pessoas têm que aceitar outros pontos de vista, têm que respeitar os deuses das outras pessoas.
- Mas, isso não leva as pessoas a não acreditarem em deus?
- Talvez… Mas na carta que em boa hora me entregaste, dizia que as pessoas precisam de acreditar mais nelas, nelas próprias… Dizia que transferiam muita da sua responsabilidade para um padre ou para deus… Que está na hora de acreditarem nelas com um deus, como o seu deus…
- Mas senhor padre…
- Bernardo, rapaz, chamo-me Bernardo…
- Pois, mas onde fica deus então? Não existe?
- Oh, claro que existe… Deus é tudo o que existe… Acho que é a vida… A natureza… Os animas… O espaço… Tu… Eu…
- Eu?
- Sim, tu, porque não?
- Não sei… Nunca tinha pensado nisso…
- Habituamo-nos a não pensar… A ser o que os outros são… A seguir os outros… Está na hora de sermos nós mesmos…
- Mas as pessoas são tão diferentes… Cada uma tem o seu Deus…
- Mas este planeta não deixa de ser este planeta por ter povos diferentes, animais diferentes, climas e países diferentes, ou deixa?
- Acho que não…
- E este universo não deixa de ser este universo por existirem vários planetas, estrelas, etc… Ou deixa?
- Pois não…
- Quando cada um de nós agir de acordo consigo mesmo será um deus…
- E o que acontecerá?
- Bem, acontecerá que quando todos formos um deus, deus existirá em cada um de nós…
- E isso não irá separar as pessoas?
- Não… Os valores base são iguais, respeito pelo homem, por tudo o que existe, respeito por nós próprios e pelo nosso espaço, sentido de responsabilidade perante o que nos rodeia, o que vemos e não vemos… A religião é uma questão cultural… O que existe é o amor…
- É estranho…
- Sim, muito, ainda não consigo compreender… Mas estava escrito na carta… Agora ajuda-me a colocar esta faixa lá em cima.
O carteiro subiu enquanto o padre segurava na escada improvisada. Levava a faixa presa nos dentes e agarrava-se com as duas mãos à grade. Chegado ao cimo encostou a cabeça à viga e, com medo, tirou as mãos da grade, segurando a faixa. Primeiro prendeu uma parte, segurando a faixa no prego que estava lá para o efeito, depois prendeu a outra ponta… Só quando o padre deu uma gargalhada compreendeu que tinha colocado a faixa ao contrário.
- A não ser que queiras que as pessoas façam o pino para ler, é melhor mudarmos a faixa…
- Oh, que diabo! – tapou a boca com a mão e caiu abaixo da grade.
O padre ria-se, enquanto que o carteiro esfregava, com um esgar de dor, o cotovelo…
- Estás bem?
- Sim, estou… - enquanto esfregava continuamente o cotovelo – Desculpe, não devia ter dito aquilo…
- O quê? O diabo?
- Sim…
- Oh, aqui há lugar para todos! – riu – Não devemos ter medo de nada, isso é de facto a única coisa que devemos evitar… O medo. Vamos continuar?
- Bem, sim…
E lá subiu de novo a escada, mas agora colocou a faixa correctamente.
- Rapaz, muito obrigado! – disse o padre, enquanto caminhava em direcção à capela
- De nada… - respondeu, enquanto pegava no seu chapéu e alforge.
O padre quase já tinha desaparecido, quando o carteiro correu para trás e perguntou:
- Senhor padre!
- Bernardo! – ouviu-se já do fundo da capela.
- Bernardo, quem lhe escreveu essa carta? Não tinha remetente…
O padre voltou a trás, olhou para o carteiro, pousou a lata de tinta e tirou a carta do bolso da batina. Abriu-a…
- Que engraçado, com a pressa de a ler, acabei por não ver quem a tinha assinado.
Deu uma gargalhada que fazia abanar toda a batina.
- Está aqui assinado no final: Deus…
O carteiro abanou a cabeça, tinha-lhe passado completamente ao lado esta vivência… Saiu confuso e pensativo. Parou, meteu a mão às cegas no alforge e tirou uma carta.
- Onde raio é que vou encontrar esta aldeola?
Olhou em redor, via o cruzeiro à sua frente, mais ao fundo a estrada por onde veio e, do lado direito, o fontanário onde parara, com várias mulheres jovens e adultas a cantarem. À sua esquerda erguiam-se algumas casas, do lado direito havia um pequeno largo em terra e, ao fundo, uma estrada – Talvez a continuação da estrada por onde vim – pensou e metendo a carta que tinha tirado no bolso de dentro do casaco começou a andar, assobiando.
Ao sair da aldeia olhou para trás, talvez devesse ver se tinha mais alguma carta para aquela aldeia, mas deitou pés ao caminho, para trás ficou apenas uma pequena praça com um cruzeiro no centro e, agora, dois jovens em pé a olhar para a faixa que o padre Bernardo tinha pintado riam.
Andou alguns quilómetros e parou, não pelo cansaço, mas porque não via vivalma e o céu estava já a escurecer. Olhou em redor, não via nada, decidiu continuar até encontrar sítio onde pudesse dormir.
O caminho era em terra, ladeado por muros com cerca de um metro de altura, que serpenteavam por entre campos cultivados.
Algumas árvores que não conhecia tornavam o caminho mais escuro e desejou estar num local abrigado do vento que teimava em soprar. A temperatura baixara, o ar que expirava saía em vapor e sonhava já com uma casa abandonada onde pudesse fazer uma fogueira, aquecer-se, comer um pouco do pão que trazia e dormir.
Os sonhos misturavam-se já com a realidade, perdido nos seus devaneios despertou quando ao sair de uma curva viu um pequeno celeiro com todo o aspecto de estar abandonado. Saiu da estrada, subiu o campo que antecedia e parou em frente ao celeiro. Era, de facto, uma eira, tradicional, com o seu chão em lousa. Tinha os portões fechados, decidiu empurrar para ver se estaria de facto fechado e ficou contente quando o portão pequeno abriu, rangendo. Olhou em volta e não existia nada que indiciasse que aquela eira era de alguém ou, se de facto fosse, não era utilizada vai para muitos anos…
Entrou e fechou o portão atrás de si. Havia alguma palha muito seca, que poderia utilizar como colchão… A utilidade da palha foi de imediato esquecida quando encontrou uns sacos velhos de serapilheira, alguma roupa muito gasta e com bastantes buracos. A eira parecia ter sido utilizada por alguém com os mesmos intentos, pois num dos cantos encontrou vestígios de uma velha lareira improvisada. Pousou por fim o alforge e pendurou o chapéu num dente em madeira de um ancinho abandonado. Ia tirar o casaco quando sentiu frio e decidiu ficar com ele. Meteu a mão dentro do casaco e encontrou a carta, pousou-a em cima de uma meia pipa invertida. Vasculhou um pouco mais e agora sentiu algo pequeno, que fazia barulho quando abanava, eram os fósforos.
Juntou um pouco de palha e saiu para apanhar alguns galhos que por ali tinha ido parar com o vento. Era pouco. Saiu novamente da eira e sem dificuldade vislumbrou uma videira bastante seca e velha, partiu-a facilmente pela raiz e levou-a para a eira. Ainda não chegava, saiu de novo, andou uns cem metros e regressou com dois pinheiros novos, mas secos, que algum fogo queimou e que agora não serviam nem para árvore de Natal. Com o joelho conseguiu partir os pinheiros, mas a videira apesar de seca ficou intacta.
Era já noite, acendeu um fósforo à primeira tentativa e chegou-o à palha. Em segundos, esta ardeu e os troncos secos por cima começaram, lentamente, a ruborescer, ardendo brandamente em seguida.
Sentou-se sobre alguns dos trapos e sacos que encontrou. Arrastou o alforge para junto dele e, com todo o braço imerso em cartas e embrulhos, procurou algo. Encontrou. Tirou, era um saco de pano que abriu, retirando um pão de milho grande. Desembrulhou um guardanapo de pano e tirou a faca, que utilizou para partir o pão em fatias. Por momentos pensou em sair e voltar atrás na estrada para colher algumas das amoras que tinha visto num silvado, mas era já tarde e noite escura.
Levantou-se, pousando o pão, e dirigiu-se para a meia pipa onde estava a carta. Pegou nela, colocou-a entre os dentes e arrastou a meia pipa para a porta, de forma a ficar fechada, não fosse o vento abri-la. Pegou na carta e pousou-a ao lado do pão, sentou-se, a fogueira iluminava já as paredes da eira e dava um calor que aconchegava o corpo e a alma.
O vento começou a soprar com mais intensidade.
O sono começava a invadi-lo. É sempre assim, quando damos descanso ao corpo, o nosso outro corpo pede descanso também. Aqueceu pão quase até ficar tostado e comeu-o, fatia a fatia, deixando algum para o dia seguinte, não fosse a aldeia ser distante. Lembrou-se da carta e pegou nela, colocou-a contra a claridade que a fogueira dava, era uma carta, mais uma…
Pensou em subir uma escada de madeira que levava a um patamar superior, certamente para proteger alguns produtos dos ratos e afins, mas estava cansado demais e a fogueira era, de facto, uma excelente companhia. Guardou religiosamente o pão junto com as cartas, fechou o alforge e colocou a próxima carta a entregar por cima deste.
Estendeu os sacos no chão, limpou o chão à volta da lareira, não fosse alguma faúlha indecisa de noite incendiar as suas cartas. Com um molhe de palha e um pano, que parecia ter sido um avental, inventou uma almofada. Descalçou as botas, sentou-se, puxou o alforge para cima dos pés para os aquecer e deitou-se. O casaco serviu de cobertor e tudo o resto começou a ser longe demais, dos sentidos, da realidade.
Estava a mergulhar nos sonhos quando ouvi um ruído fora da eira, pareciam ramos a cair.
- Podes entrar… - disse meio acordado, meio adormecido
Através da porta entrou uma criança, aparentava 9 anos ou 10.
- Não te importas que fique por aqui a descansar?
- Mas tu já nem precisas de descansar…
- Pois, mas ainda não estou desabituado… Vou sentar-me aqui um pouco.
- E então, tens visitado muitos? – perguntou sem abrir os olhos.
- Visitei há pouco um… São interessantes… Deixei-lhe o meu chapéu para que não me esqueça…
Sorriu e pousou a sacola, sentando-se em cima dela, em frente à fogueira, estendendo as mãos para as aquecer.
- Tens ainda muitas cartas?
- Sim… - meio chateado por ter sido arrancado a um sonho que se aproximava
- E quando as entregares todas?
- Não sei… Não sei se isto alguma vez acaba… Sabes como andam os outros, já entregaram muitas? – ainda de olhos fechados.
- Alguns sim… Outros fazem de conta que não sabem o que têm para fazer e outros, ainda, vão adiando…
O vento parou, a fogueira crepitava num lume brando, quente, hipnotizador, que envolveu lentamente o ambiente… A criança continuava sentada, aquecendo as mãos… O carteiro respirava cada vez mais profundamente. Pelas janelas entravam sonhos de todas as cores, pareciam uma chuva de pó, mas um pó cor de ouro, dourada, prateado também, com partículas pequenas que sorriam, permaneciam juntas, de mãos dadas… Ficaram um pouco a pairar, sorriram baixinho, para não o acordar, e olharam para a criança que tinha entrado. Piscaram-lhe o olho, ele fez um movimento com a cabeça como que apontado para o carteiro e retribuiu o piscar. Então, serenamente, desceram, ainda de mãos dadas, milhões de partículas douradas, pairaram um pouco sobre o corpo do carteiro e, depois, começaram a pousar sobre ele. Umas entraram directamente por entre as roupas e a pele, outras pelos olhos, ouvidos, boca e nariz…
O carteiro suspirou e sorriu, puxou um pouco o casaco-cobertor para si, descobrindo as pernas. A criança tirou a camisola, amarela, com a palavra “Sonho” escrita, e pousou-a sobre as pernas do carteiro. Com o corpo quente, aconchegado por milhões de partículas douradas e prateadas, o carteiro caiu num sono profundo…
As partículas pareciam sair novamente do corpo, lentamente, mas desta vez traziam o carteiro, ou o que parecia ser ele, pois o seu corpo permanecia deitado, sorrindo, aquecido pelo casaco-cobertor, a caminha de Sonhos e a fogueira. Lentamente, os milhões de partículas levantaram um carteiro simples, com um corpo luminoso, mais subtil, que parecia não ter peso algum. Ainda dormiam, com os olhos fechados, os dois carteiros, o deitado no chão e este que os milhões de partículas amparavam… A criança olhou para eles e disse:
- Levem-no lá, ele tem-se esforçado… - e piscou-lhes o olho.
Os milhões de partículas envolveram-no numa esfera de luz, a sensação parecia ser agradável, pois mesmo este carteiro que estava no chão sorria de felicidade…
De repente, os milhões de partículas, de mãos dadas, começaram a movimentar-se, primeiro lentamente e, depois, tão depressa que já não se distinguiam umas das outras, até formarem uma esfera brilhante, mas transparente, numa luminosidade que feria o olhar…
Envolvido em tão fabulosa esfera, o carteiro, em posição fetal, desapareceu, ficando apenas este carteiro, que dormia profundamente, aquecido por uma fogueira, que me piscou o olho…
Meto a mão no bolso, agarro o chapéu, pisco olho e sorrio…
Subia-a um vulto carregado com um alforge, sorridente, escorregando aqui e ali no musgo. A população espera-o em dias alternados. Nem sempre vem quando desejam e, quando vem, carrega às costas notícias boas e más, sonhos e pesadelos.
À medida que sobe a rua e rasga uma espécie de neblina levanta a cabeça, solta um suspiro ao constatar que ainda lhe faltam mais degraus e muitas mais casas… Bem, estas não contam, algumas estão desabitadas, mesmo por fantasmas, que gente não mora mais aqui, apenas sonhos passados, festas vividas, desfolhadas e beijos escondidos, tímidos, tempos idos…
Nesta aldeia é já conhecido, apareceu de um dia para o outro, com o saco às costas, perguntando por moradores que tinham seu nome escrito no destinatário de envelopes velhos, amarelecidos pelo tempo e pelo couro do alforge, que algumas cartas tinham aspecto de terem viajado mais que cem anos… É alto, bastante alto para os corpos curvados pela lide do tempo e dos campos, pela enxada e foice, o cabelo sai-lhe do chapéu de carteiro, meio grisalho, que se mostra mais escuro quando tira o chapéu para, por cordialidade, saudar as pessoas com quem se cruza.
Visitou a primeira pessoa há anos, ou décadas, já não há certeza, a história é contada como se tivesse passado apenas uma ou duas semanas… Entrou no centro da aldeia, um pequeno aglomerado de casas à volta de uma capela, com um cruzeiro no centro da praça. O fontanário estava, então, povoado de mulheres, novas e idosas, com mãos frias e vermelhas de bater a roupa na água fria. Não escapou aos olhares malandros das raparigas mais novas quando se abeirou delas, pousou o saco, deixando cair algumas cartas e um embrulho atado com uma fita muito tosca e amassada, e disse ao mesmo tempo que tirava o chapéu:
- Bom dia minhas senhoras!
O pudor de então não permitia uma resposta imediata, directa, mas passados alguns segundos, a senhora mais velha, antipática, de rugas formadas na testa por tanto franzir as sobrancelhas, num olhar ameaçador, respondeu:
- Bom dia…
O carteiro enfiou o chapéu na cabeça e disse:
- Sou o novo carteiro, ando um pouco perdido, parti a minha bicicleta atrás, antes da ponte, e por sorte não me parti a mim também – sorriu – procuro uma aldeia chamada Dalmas, pode dizer-me onde fica?
A mulher olhava ainda de desdém, desconfiada:
- Para que quer saber? Aqui não passa um carteiro há anos, nem há quem nos escreva mais… Está enganado certamente…
As mulheres e meninas pareciam esconder-se atrás desta mulher mais velha, com medo de esta lhes ver um olhar mais furtivo para o carteiro.
- Pois, acredito que sim, mas tenho aqui algumas centenas de cartas e este pacote, como pode ver, para entregar e só me pagam quando isto entregar… Procuro agora uma senhora chamada – parou e olhou melhor para a carta tentando compreender o que estava escrito - Alice Martins, creio que é este o nome…
- Sou eu, mas ninguém tenho que me escreva! E mesmo que tivesse, não sei ler, isso era tarefa do meu marido, que é ido agora, para onde todos iremos… - respondeu com azedume e tentando terminar por ali a conversa.
- A carta tem selo de há 8 anos atrás e o remetente é um senhor, creio que se chama Artur Martins…
O olhar da mulher ficou vago e distante, parecia atingida por um murro no peito, deixou de respirar por instantes e todas as outras sussurraram entre elas…
- Esse… - falou com o olhar no chão – Esse… era o meu marido…
Com um sorriso, o carteiro estendeu o braço à senhora, entregando a carta, ao que esta a recebeu e a manteve na palma das mãos, olhando, com os olhos a encherem-se de lágrimas.
O carteiro ficou em pé, olhando para ela, esperando que a emoção passasse para perguntar por outros destinatários…
- O senhor… - balbuciou – o senhor não se importa de ma ler? Nenhuma de nós sabe ler… Apenas escrevemos o nosso nome… Algumas de nós apenas assinamos com uma cruz… - e estendeu-lhe a carta ainda por abrir.
- Certamente, minha senhora – pegou novamente na carta e sorriu – Quer que a leia aqui?
- Não, não… Vamos até ali – e apontou com a cabeça para o cruzeiro do centro da praça.
Andaram um pouco, o carteiro arrastou o seu alforge e a mulher andava e limpava as mãos ao avental. Chegados ao cruzeiro, a mulher sentou-se e o carteiro, após pousar o alforge, endireitou o chapéu, retocou com a mão o cabelo que saía do chapéu, endireitou o casaco e abriu lentamente a carta. À medida que o fazia, a mulher soluçava baixinho, espaçadamente, enquanto lhe caía uma ou outra lágrima pelo rosto, que ela limpava com uma ponta do avental.
Pigarreou um pouco, clareando a voz e começou a ler:
“Querida Alice, o quanto lamento eu em vida não ter sorrido mais, não te ter amado como sei agora que é possível… Já lá vão uns anos e não sei se existe forma de te falar, de te ver…” O carteiro cambaleou um pouco, parecia cansado, a sua visão turvou-se um pouco e ele teve que se sentar, fazendo-o no chão. Baixou um pouco a cabeça, o que permitiu esconder os seus olhos turvos, quase brancos por uma névoa que os cobria agora. Continuou a ler:
“Continuas bela como sempre, mas a tua amargura sente-se até aqui onde estou e mesmo nosso filho, que morreu tão cedo, antes da sua primeira comunhão, se compadece de tua dor… Eu não tenho muito mais tempo para escrever e falar, não é sempre que o podemos fazer… Estou bem, feliz, tão liberto da vida e da dor que foi sair daí, mas agora vejo que tudo é passageiro, que o que fica somos nós, o amor… Olha, o amor aqui é tudo o que existe, aqui respira-se amor, vive-se amor, é um amor diferente do que conhecemos… Eu queria dizer-te tantas coisas, mas não tenho tempo…”
A mulher ouvia de olhos fechados, as lágrimas continuavam a correr, baixou a cabeça e pousou-a nos braços que estavam cruzados sobre os joelhos.
“Peço-te que recebes estas minha palavras com carinho e amor… Peço-te, imploro-te, que olhes para todas as pessoas como se olhasses para mim, que gostasses das outras pessoas como se fossem os teus mais queridos filhos, como se me visses em cada uma das pessoas… Sei que é difícil, mas acredita em mim, fá-lo por ti mesma e pelos outros, para que se sintam amados, libertos dos seus medos… Quem sabe eu estarei num desses olhares? Agora tenho que ir… Estou aqui à tua espera, aguardo ansiosamente a altura em que nos possamos olhar olhos nos olhos e te possa dar um abraço… Um abraço à nossa maneira… Até lá, do teu marido, Artur.”
O carteiro olhou em frente, para a senhora, compreendeu que estava sentado e levantou-se rapidamente, abanando um pouco a cabeça como que a sacudir pensamentos, limpou as calças e fechou cuidadosamente a carta. Deu dois pequenos passos e apontou a carta à senhora que o olhava, ainda de olhos húmidos, com os braços cruzados sobre as pernas. Esticou o braço e pegou na carta.
- Obrigada…
- Oh, não tem mal, faço isto muitas vezes por esses montes adiante… É a minha vida…
- Não compreendo… Parece-me que perdi tanto tempo… Com…
- Nunca perdemos tempo… Diz-me a vida que ganhamos sempre alguma experiência, que aprendemos sempre algo.
- Mas eu perdi muito tempo, já lá vão alguns anos que ele partiu… Eu apenas tenho acumulado tristeza, raiva… Não consigo olhar nos olhos ninguém, fico com raiva da felicidade dos outros… - parou um pouco, baixou a cabeça – Já olhou para aquelas pobres coitadas? Nenhuma delas namora, pelo menos que eu saiba, nenhuma delas se atreve a sorrir quando estou com elas… Acho que têm medo… Não sei… Acho que me tornei amarga, raivosa com a vida… - falava e abanava a cabeça, como que não querendo acreditar no que se tinha transformado…
- Ainda está a tempo de mudar… De sorrir… De amar…
- Estou nada… Estou velha… Cansada…
- Não está não… Olhe… Eu era para ser carteiro desde que nasci, sabia que era isto, que tinha que entregar cartas, falar e ouvir com as pessoas… Mas nunca o fiz… Passados alguns anos encontrei uma pessoa que me entregou uma carta, uma carta velha, muito velha… Nessa carta diziam-me que se eu tivesse falado, se eu tivesse dito o que sabia, que essa pessoa já seria mais feliz, teria agido de outra forma… - encolheu os ombros e sorriu - Acho que cada um de nós encontra forma de fazer o que tem que fazer, sabe? Às vezes não o fazemos por orgulho, por comodidade, mas todos sabemos o que temos que fazer…
Olhou por ele abaixo, fez um movimento com os braços como que exibindo o seu uniforme de carteiro:
- Acha que eu queria andar assim? Agora nem bicicleta tenho… Caminho por aí com cartas que ninguém lê… Mas sou feliz… Há qualquer coisa nessas cartas que me faz ver que somos mais que palavras, somos acção, e que esta acção só nós sabemos qual é… - parou um pouco – Como é que hei-de dizer… Acho que nós temos que fazer pelos outros, tudo o que faríamos por nós…
Levantou o alforge e colocou-o ao ombro, endireitou o chapéu:
- Pode ser que um dia destes, alguém me entregue uma carta assim… - sorriu – Tenha um bom dia!
Partiu em direcção à capela, tinha uma carta a entregar e sabia que encontraria a pessoa ali, na capela, não viesse no destinatário “Padre…”
Chegou à capela e pousou o alforge, olhou para trás e ficou a contemplar a senhora a quem lera a carta. Esta tinha-se levantado e caminhava em direcção ao fontanário. Levava a carta na mão e quando se abeirou de uma das raparigas esta encolheu-se, talvez com medo… A senhora Alice levantou os braços e deu-lhe um abraço forte, demorado, e quando a largou beijou-a na testa, com muito carinho… A surpresa parecia ser enorme e a repercussão desse abraço viu-se nas restantes raparigas que abraçaram Alice em conjunto… Era capaz de jurar que a própria água parecia mais límpida e Alice parecia mais nova…
Tirou a carta do alforge e caminhou em direcção à porta da capela… Gostou da capela, além da pequena igreja, possuía à frente desta um coberto, com bancos de pedra e uma antiga pia baptismal à direita da porta de entrada. Não gostou de ver as grades em forma de lança…
- Jovem, posso ajudá-lo? – perguntou uma voz muito grave.
Assustou-se, estava perdido a olhar para as grades.
- Sim, por favor, procuro o padre Bernardo, tenho uma carta para ele.
- Uma carta? Mas aqui, meu jovem, já não há carteiro que chegue… Há anos…
- Pois agora há - e sorriu, tirando o chapéu e exibindo orgulhosamente o símbolo dos carteiros.
- E diz-me que a carta é para o padre Bernardo?
- Sim, é.
- Ele não está, mas posso entregá-la pessoalmente, se assim desejar.
Pensou um pouco, as ordens que tinha era para entregar pessoalmente ao destinatário… Enfiou novamente o chapéu e sorriu, como se uma ideia o tivesse atingido.
- Está bem, se não for incómodo. – E entregou a carta ao padre.
Pegou no alforge novamente e caminhou para fora do coberto, dirigindo-se em direcção ao cruzeiro. Parou quando ouviu a porta da capela fechar e voltou para trás. Sentou-se num dos bancos frios de pedra. Por momentos sentiu a tentação de colocar algumas das cartas que trazia sobre o banco para não ter tanto frio, mas afastou o pensamento com um sorriso.
Olhava atentamente à volta, havia qualquer coisa de acolhedor naquela pequena aldeia, qualquer coisa de agradável.
Não teriam passado cinco minutos quando ouviu a porta da capela abrir repentinamente, o padre a quem tinha deixado a carta surgia, ofegante e olhava para a praça tentando encontrar o carteiro, que nem o tinha visto sentado ao lado da porta.
- Ah, está aí! – disse, surpreso e ao mesmo tempo sem saber o que dizer.
- Sim, estou cansado, descanso um pouco, se não se importa.
- Claro que não… - ficou a olhar para a carta aberta.
- Quem lhe entregou esta carta?
- Não sei, isso é do serviço, eu apenas carrego o alforge e deixo as cartas com os seus donos. – respondeu humildemente.
- Ah…
- Mas padre, são más notícias?
Ficou a olhar para o carteiro por alguns segundos.
- Não sei… Importa-se que me sente a seu lado? – perguntou com uma dose de simplicidade que o carteiro ainda não tinha visto.
- Oh meu padre, eu estou em sua casa, não precisa de me pedir autorização – respondeu divertido.
O padre sorriu, realmente, fazia sentido.
- Estou em minha casa sim… Fiz dela a minha casa… Mas não é minha… Tenho-me esquecido disso… Posso confessar-lhe uma coisa?
O carteiro olhou surpreso…
- Mas padre, como posso eu confessá-lo? O senhor confessa-se com Deus… Eu sou um carteiro…
- Sim, tens razão jovem – e pousou a sua mão esquerda sobre o joelho do carteiro – mas eu ultimamente tenho-me confessado a um Deus… - parou um pouco e olhou em frente – tenho-me confessado a um Deus que eu criei…
Ao olhar curioso e perplexo do carteiro, o padre continuou.
- Eu criei este Deus, este que vês à tua volta – e fazia um gesto com o braço direito, empunhando ainda a carta, apontando para as grades em torno do coberto – Transformei palavras de amor e libertação em grades e opressão, em medos infundados… - Suspirou – tenho-me esquecido que também eu sou carteiro…
Parou e olhou para o carteiro, tirou a mão do joelho e deu-lhe uma pequena palmada nas costas. Depois, sorrindo, tirou-lhe o chapéu e colocou-o sobre a sua cabeça.
- Que tal, pareço um carteiro?
- Se me permite senhor padre… - foi interrompido pelo padre.
- Bernardo… O meu nome é Bernardo, tenho-me esquecido disso.
- Pois… Sabe, uma vez li numa carta para outra pessoa – emendou de seguida – Espere, li numa carta para outra pessoa, porque essa pessoa me pediu para a ler! – o padre riu-se – Li que as pessoas valem pelo que são, pelo que fazem com o que têm… Eu acho que sou carteiro, mesmo sem o chapéu e o uniforme… Se calhar o senhor padre…
- Bernardo – interrompeu-o
- Se calhar o Bernardo também seria padre sem a batina e o anel…
- Sim, tens razão… Se calhar… Mas habituei-me tanto a este papel, a este poder, que tenho-me esquecido de ouvir as pessoas, para e por quem eu vim para aqui… Vou ter que mudar alguma coisa… Rapaz, dás-me uma ajuda? – perguntou levantando-se.
- Sim…
- Então agarra nessa ponta, cuidado não te piques! – disse, indo para a outra extremidade da grade.
Agarram um em cada ponta da grade e começaram a fazer força para fora, mas a grade não se mexeu.
- Acho que as grades que têm que cair, caem para dentro… - lançou o carteiro. E começaram a puxar, agora para dentro do coberto.
Não tardou muito para que as grades cedessem á força do padre e do seu recente amigo. Primeiro desencaixaram-se e depois dobraram-se, o que fê-los cair de costas, rindo.
- Ainda faltam aquelas – disse o padre, apontando para o outro lado do coberto.
Caíram com mais facilidade que as outras.
- O que vai fazer a isto? – perguntou o carteiro.
- Não sei… Isto não arde… Tive uma ideia! Ora ajuda-me aí na ponta! – falava e olhava para a grade tombada.
Agarram um em cada lado da grade e o padre foi guiando, à frente. Pararam à entrada do coberto. O padre riu-se sozinho e disse:
- Levanta essa parte da grade. Assim não, ao contrário, de forma a fazer uma escada!
O carteiro começou a levantar a grade, até que esta chegou ao tecto, apoiando numa viga de madeira. Ao lado da viga, por cima do portão, estava uma faixa que dizia: “Casa de Deus”.
O padre subiu, então, a grade transformada em escada e agarrou a faixa, retirando-a com cuidado. Desceu com a faixa e, chegado ao chão, disse:
- Segura aí, por favor, vou lá dentro buscar um material.
Regressou com um pincel e tinta, que pousou no banco de pedra. Depois, pegando na faixa, estendeu-a no chão e disse:
- Chegas-me por favor a tinta e o pincel? Quando escrevi isto, não era bem isto que queria escrever.
Começou a escrever na faixa, molhando o pincel na tinta, limpando o excesso de tinta no rebordo da lata. Quando acabou podia ler-se: “Bem-vindo à cada de todos os deuses”.
Sorria orgulhoso e olhava para o carteiro com uma expressão de felicidade, como que a pedir uma opinião abanou a cabeça.
- Está diferente… Mas o que quer dizer?
- Bem, quer dizer que esta casa não escolhe deuses, nesta casa é livre de entrar quem quiser, também podem perguntar o que quiserem…
- Mas, é mesmo assim? Acha que as pessoas aceitam bem?
- Acho que as pessoas têm que aceitar outros pontos de vista, têm que respeitar os deuses das outras pessoas.
- Mas, isso não leva as pessoas a não acreditarem em deus?
- Talvez… Mas na carta que em boa hora me entregaste, dizia que as pessoas precisam de acreditar mais nelas, nelas próprias… Dizia que transferiam muita da sua responsabilidade para um padre ou para deus… Que está na hora de acreditarem nelas com um deus, como o seu deus…
- Mas senhor padre…
- Bernardo, rapaz, chamo-me Bernardo…
- Pois, mas onde fica deus então? Não existe?
- Oh, claro que existe… Deus é tudo o que existe… Acho que é a vida… A natureza… Os animas… O espaço… Tu… Eu…
- Eu?
- Sim, tu, porque não?
- Não sei… Nunca tinha pensado nisso…
- Habituamo-nos a não pensar… A ser o que os outros são… A seguir os outros… Está na hora de sermos nós mesmos…
- Mas as pessoas são tão diferentes… Cada uma tem o seu Deus…
- Mas este planeta não deixa de ser este planeta por ter povos diferentes, animais diferentes, climas e países diferentes, ou deixa?
- Acho que não…
- E este universo não deixa de ser este universo por existirem vários planetas, estrelas, etc… Ou deixa?
- Pois não…
- Quando cada um de nós agir de acordo consigo mesmo será um deus…
- E o que acontecerá?
- Bem, acontecerá que quando todos formos um deus, deus existirá em cada um de nós…
- E isso não irá separar as pessoas?
- Não… Os valores base são iguais, respeito pelo homem, por tudo o que existe, respeito por nós próprios e pelo nosso espaço, sentido de responsabilidade perante o que nos rodeia, o que vemos e não vemos… A religião é uma questão cultural… O que existe é o amor…
- É estranho…
- Sim, muito, ainda não consigo compreender… Mas estava escrito na carta… Agora ajuda-me a colocar esta faixa lá em cima.
O carteiro subiu enquanto o padre segurava na escada improvisada. Levava a faixa presa nos dentes e agarrava-se com as duas mãos à grade. Chegado ao cimo encostou a cabeça à viga e, com medo, tirou as mãos da grade, segurando a faixa. Primeiro prendeu uma parte, segurando a faixa no prego que estava lá para o efeito, depois prendeu a outra ponta… Só quando o padre deu uma gargalhada compreendeu que tinha colocado a faixa ao contrário.
- A não ser que queiras que as pessoas façam o pino para ler, é melhor mudarmos a faixa…
- Oh, que diabo! – tapou a boca com a mão e caiu abaixo da grade.
O padre ria-se, enquanto que o carteiro esfregava, com um esgar de dor, o cotovelo…
- Estás bem?
- Sim, estou… - enquanto esfregava continuamente o cotovelo – Desculpe, não devia ter dito aquilo…
- O quê? O diabo?
- Sim…
- Oh, aqui há lugar para todos! – riu – Não devemos ter medo de nada, isso é de facto a única coisa que devemos evitar… O medo. Vamos continuar?
- Bem, sim…
E lá subiu de novo a escada, mas agora colocou a faixa correctamente.
- Rapaz, muito obrigado! – disse o padre, enquanto caminhava em direcção à capela
- De nada… - respondeu, enquanto pegava no seu chapéu e alforge.
O padre quase já tinha desaparecido, quando o carteiro correu para trás e perguntou:
- Senhor padre!
- Bernardo! – ouviu-se já do fundo da capela.
- Bernardo, quem lhe escreveu essa carta? Não tinha remetente…
O padre voltou a trás, olhou para o carteiro, pousou a lata de tinta e tirou a carta do bolso da batina. Abriu-a…
- Que engraçado, com a pressa de a ler, acabei por não ver quem a tinha assinado.
Deu uma gargalhada que fazia abanar toda a batina.
- Está aqui assinado no final: Deus…
O carteiro abanou a cabeça, tinha-lhe passado completamente ao lado esta vivência… Saiu confuso e pensativo. Parou, meteu a mão às cegas no alforge e tirou uma carta.
- Onde raio é que vou encontrar esta aldeola?
Olhou em redor, via o cruzeiro à sua frente, mais ao fundo a estrada por onde veio e, do lado direito, o fontanário onde parara, com várias mulheres jovens e adultas a cantarem. À sua esquerda erguiam-se algumas casas, do lado direito havia um pequeno largo em terra e, ao fundo, uma estrada – Talvez a continuação da estrada por onde vim – pensou e metendo a carta que tinha tirado no bolso de dentro do casaco começou a andar, assobiando.
Ao sair da aldeia olhou para trás, talvez devesse ver se tinha mais alguma carta para aquela aldeia, mas deitou pés ao caminho, para trás ficou apenas uma pequena praça com um cruzeiro no centro e, agora, dois jovens em pé a olhar para a faixa que o padre Bernardo tinha pintado riam.
Andou alguns quilómetros e parou, não pelo cansaço, mas porque não via vivalma e o céu estava já a escurecer. Olhou em redor, não via nada, decidiu continuar até encontrar sítio onde pudesse dormir.
O caminho era em terra, ladeado por muros com cerca de um metro de altura, que serpenteavam por entre campos cultivados.
Algumas árvores que não conhecia tornavam o caminho mais escuro e desejou estar num local abrigado do vento que teimava em soprar. A temperatura baixara, o ar que expirava saía em vapor e sonhava já com uma casa abandonada onde pudesse fazer uma fogueira, aquecer-se, comer um pouco do pão que trazia e dormir.
Os sonhos misturavam-se já com a realidade, perdido nos seus devaneios despertou quando ao sair de uma curva viu um pequeno celeiro com todo o aspecto de estar abandonado. Saiu da estrada, subiu o campo que antecedia e parou em frente ao celeiro. Era, de facto, uma eira, tradicional, com o seu chão em lousa. Tinha os portões fechados, decidiu empurrar para ver se estaria de facto fechado e ficou contente quando o portão pequeno abriu, rangendo. Olhou em volta e não existia nada que indiciasse que aquela eira era de alguém ou, se de facto fosse, não era utilizada vai para muitos anos…
Entrou e fechou o portão atrás de si. Havia alguma palha muito seca, que poderia utilizar como colchão… A utilidade da palha foi de imediato esquecida quando encontrou uns sacos velhos de serapilheira, alguma roupa muito gasta e com bastantes buracos. A eira parecia ter sido utilizada por alguém com os mesmos intentos, pois num dos cantos encontrou vestígios de uma velha lareira improvisada. Pousou por fim o alforge e pendurou o chapéu num dente em madeira de um ancinho abandonado. Ia tirar o casaco quando sentiu frio e decidiu ficar com ele. Meteu a mão dentro do casaco e encontrou a carta, pousou-a em cima de uma meia pipa invertida. Vasculhou um pouco mais e agora sentiu algo pequeno, que fazia barulho quando abanava, eram os fósforos.
Juntou um pouco de palha e saiu para apanhar alguns galhos que por ali tinha ido parar com o vento. Era pouco. Saiu novamente da eira e sem dificuldade vislumbrou uma videira bastante seca e velha, partiu-a facilmente pela raiz e levou-a para a eira. Ainda não chegava, saiu de novo, andou uns cem metros e regressou com dois pinheiros novos, mas secos, que algum fogo queimou e que agora não serviam nem para árvore de Natal. Com o joelho conseguiu partir os pinheiros, mas a videira apesar de seca ficou intacta.
Era já noite, acendeu um fósforo à primeira tentativa e chegou-o à palha. Em segundos, esta ardeu e os troncos secos por cima começaram, lentamente, a ruborescer, ardendo brandamente em seguida.
Sentou-se sobre alguns dos trapos e sacos que encontrou. Arrastou o alforge para junto dele e, com todo o braço imerso em cartas e embrulhos, procurou algo. Encontrou. Tirou, era um saco de pano que abriu, retirando um pão de milho grande. Desembrulhou um guardanapo de pano e tirou a faca, que utilizou para partir o pão em fatias. Por momentos pensou em sair e voltar atrás na estrada para colher algumas das amoras que tinha visto num silvado, mas era já tarde e noite escura.
Levantou-se, pousando o pão, e dirigiu-se para a meia pipa onde estava a carta. Pegou nela, colocou-a entre os dentes e arrastou a meia pipa para a porta, de forma a ficar fechada, não fosse o vento abri-la. Pegou na carta e pousou-a ao lado do pão, sentou-se, a fogueira iluminava já as paredes da eira e dava um calor que aconchegava o corpo e a alma.
O vento começou a soprar com mais intensidade.
O sono começava a invadi-lo. É sempre assim, quando damos descanso ao corpo, o nosso outro corpo pede descanso também. Aqueceu pão quase até ficar tostado e comeu-o, fatia a fatia, deixando algum para o dia seguinte, não fosse a aldeia ser distante. Lembrou-se da carta e pegou nela, colocou-a contra a claridade que a fogueira dava, era uma carta, mais uma…
Pensou em subir uma escada de madeira que levava a um patamar superior, certamente para proteger alguns produtos dos ratos e afins, mas estava cansado demais e a fogueira era, de facto, uma excelente companhia. Guardou religiosamente o pão junto com as cartas, fechou o alforge e colocou a próxima carta a entregar por cima deste.
Estendeu os sacos no chão, limpou o chão à volta da lareira, não fosse alguma faúlha indecisa de noite incendiar as suas cartas. Com um molhe de palha e um pano, que parecia ter sido um avental, inventou uma almofada. Descalçou as botas, sentou-se, puxou o alforge para cima dos pés para os aquecer e deitou-se. O casaco serviu de cobertor e tudo o resto começou a ser longe demais, dos sentidos, da realidade.
Estava a mergulhar nos sonhos quando ouvi um ruído fora da eira, pareciam ramos a cair.
- Podes entrar… - disse meio acordado, meio adormecido
Através da porta entrou uma criança, aparentava 9 anos ou 10.
- Não te importas que fique por aqui a descansar?
- Mas tu já nem precisas de descansar…
- Pois, mas ainda não estou desabituado… Vou sentar-me aqui um pouco.
- E então, tens visitado muitos? – perguntou sem abrir os olhos.
- Visitei há pouco um… São interessantes… Deixei-lhe o meu chapéu para que não me esqueça…
Sorriu e pousou a sacola, sentando-se em cima dela, em frente à fogueira, estendendo as mãos para as aquecer.
- Tens ainda muitas cartas?
- Sim… - meio chateado por ter sido arrancado a um sonho que se aproximava
- E quando as entregares todas?
- Não sei… Não sei se isto alguma vez acaba… Sabes como andam os outros, já entregaram muitas? – ainda de olhos fechados.
- Alguns sim… Outros fazem de conta que não sabem o que têm para fazer e outros, ainda, vão adiando…
O vento parou, a fogueira crepitava num lume brando, quente, hipnotizador, que envolveu lentamente o ambiente… A criança continuava sentada, aquecendo as mãos… O carteiro respirava cada vez mais profundamente. Pelas janelas entravam sonhos de todas as cores, pareciam uma chuva de pó, mas um pó cor de ouro, dourada, prateado também, com partículas pequenas que sorriam, permaneciam juntas, de mãos dadas… Ficaram um pouco a pairar, sorriram baixinho, para não o acordar, e olharam para a criança que tinha entrado. Piscaram-lhe o olho, ele fez um movimento com a cabeça como que apontado para o carteiro e retribuiu o piscar. Então, serenamente, desceram, ainda de mãos dadas, milhões de partículas douradas, pairaram um pouco sobre o corpo do carteiro e, depois, começaram a pousar sobre ele. Umas entraram directamente por entre as roupas e a pele, outras pelos olhos, ouvidos, boca e nariz…
O carteiro suspirou e sorriu, puxou um pouco o casaco-cobertor para si, descobrindo as pernas. A criança tirou a camisola, amarela, com a palavra “Sonho” escrita, e pousou-a sobre as pernas do carteiro. Com o corpo quente, aconchegado por milhões de partículas douradas e prateadas, o carteiro caiu num sono profundo…
As partículas pareciam sair novamente do corpo, lentamente, mas desta vez traziam o carteiro, ou o que parecia ser ele, pois o seu corpo permanecia deitado, sorrindo, aquecido pelo casaco-cobertor, a caminha de Sonhos e a fogueira. Lentamente, os milhões de partículas levantaram um carteiro simples, com um corpo luminoso, mais subtil, que parecia não ter peso algum. Ainda dormiam, com os olhos fechados, os dois carteiros, o deitado no chão e este que os milhões de partículas amparavam… A criança olhou para eles e disse:
- Levem-no lá, ele tem-se esforçado… - e piscou-lhes o olho.
Os milhões de partículas envolveram-no numa esfera de luz, a sensação parecia ser agradável, pois mesmo este carteiro que estava no chão sorria de felicidade…
De repente, os milhões de partículas, de mãos dadas, começaram a movimentar-se, primeiro lentamente e, depois, tão depressa que já não se distinguiam umas das outras, até formarem uma esfera brilhante, mas transparente, numa luminosidade que feria o olhar…
Envolvido em tão fabulosa esfera, o carteiro, em posição fetal, desapareceu, ficando apenas este carteiro, que dormia profundamente, aquecido por uma fogueira, que me piscou o olho…
Meto a mão no bolso, agarro o chapéu, pisco olho e sorrio…
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