2013-09-27

Anos em minutos,
uma existência de hiatos
e chãos encardidos,
sinos que cambaleiam melancolicamente
e trovejam badaladas, pela atmosfera conspurcada da cidade,
cansadas
de serem tempo.
É cansada que esta locomotiva empurra o ar à sua frente,
vai cheia e, talvez por isso,
sussurra a espaços a sua triste sina
num monocórdico monólogo demente
entre o frio ferroso carril
e a electricidade que a encima,
vai só,
febril.

2013-09-25

O frio do Outono
na primeira chuva da alvorada,
do travo agridoce do abandono
a um Verão de vida desperdiçada.
Estes transportes que descarregam animalescas formas de ser
os abraços, um tímido beijo,
o caminho isolado por entre uma cidade
que ignora os degraus sujos desta estação,
esta escadaria que ascende teima, enfim, em descer.
Para onde vão estes transeuntes?
Que motivo e motivação
dilacera
um amontoado de corpos semi vivos a que chamam multidão?
E a mim,
semi humano,
que multidão de corpo amontoado
me leva amortalhado
às flores dispersas neste desterro espartano
a que chamam jardim?
Fazem-me companhia as sombras,
gosto de as ver entaiparem o que sobra de um dia,
não se esquivam as esquinas rombas
ou o pedaço de chuva que ornamenta esta galeria.
Ouço os rumores do fim de um dia de trabalho,
recortes, avulsos, farrapos, gente,
naipes de uma só cor que parto e baralho,
uma janela que traz um calor abafado,
este vazio prenhe de uma voz demente.
Prefiro, sim, as sombras,
um eco que se estende ao tecto da gare,
a surpresa de um fim de tarde chuvoso
e as nuvens opacas que a noite vai parindo
entre o alvoraçado de um sol nervoso
e a lua que iço, 
sorrindo.

2013-09-24

Diluo-me pelo teu esquecimento,
o nada da minha memória é, agora, o orvalho das minhas manhãs,
não teria já palavras
ou índices
que assinalassem algumas esperanças vãs,
já nem o barulho, nada, apenas pó
e cimento.
Vou descansar, descansado,
sem corpos
nem velório em catadupa derramado,
o rio corre por entre rostos
e em soluços gente no peito,
esta vida tem caudal,
mas já não tem leito.

2013-09-17

Sei o barulho que o autocarro fará quando parar, conheço de cor os sons dos pneus sobre as tampas assíncronas no pavimento. A voz sintetizada da menina que anuncia as paragens, as mudanças de zona, o zumbido que os auriculares vomitam para fora dos ouvidos, o gemido cansado das portas a abrirem. Não conhecia a voz de alguém que pedia, a uma paragem completamente cheia, do fundo de uma cadeira de rodas: "alguém me pode ajudar a subir a rampa para o autocarro?". Começo a acreditar que, talvez, o som que penso conhecer seja apenas o rugido lento do fundo do tacho a que chamam vida onde nos fazem condimento e estrugido.

2013-09-16

A vida, de vida propriamente dita, pouco tem. Paga-se a vida, em vez de a viver. Entrega-se tudo a este bicho nojento e grande, a um sistema que de protector tem muito pouco, quotiza-se a vida, muito cara, sem retribuição alguma e, se um dia ensolarado te faz diferente, o contribuinte encarregar-se-à de te olhar, aterrorizado, porque a liberdade de se ser voador atemoriza. Flutua o teu caminho, sem que te deixes atrasar pelos teus passos arrastados.

2013-09-12

Não chegaste a completar um parágrafo, apenas uma pausa breve como uma vírgula e tão prolongada como uma reticência infinita. Talvez por isso, sem saber bem como te escrever, me sinta impelido a procurar nos olhos de outros como tu, as palavras avulsas que se aglomerem em frases. No entanto, parece-me, do pouco que vislumbro ou compreendo, que não te escrevo porque as palavras utilizam letras, grafias estranhas, cuja imaginação constrói unindo imaginariamente as estrelas do céu.

2013-09-10

Vou brincando com o mundo na palma da mão, rolando como se um berlinde fosse, enquanto não o solto por aí e, correndo, me vá divertir vendo-lhe as voltas e baldrocas, até me lembrar de saltar para ele, só para me sentir gente novamente.
Meios para fins.
Se quem se encontra no fim, terá tempo para o meio?
Ou o fim, de nada valeu pelos meios, por isso mesmo se terminou.
Ali.
No fim.

2013-09-09

Perdi as palavras por 6 minutos apenas,
a diferença entre cair no sono
e sonhar
reside na imensa capacidade que o tempo tem
de dormir
e descansar,
porquanto me saiba o quotidiano a figura inacabada
permaneço prisioneiro
entre a vida
e nada.
O rumor dos passos nesta gare estéril
oblitera o próprio relógio,
é rumor de ausente tempo
e gente febril,
é saber já o ali o infinito
e ter por viver, aqui à frente,
dias mil.
Pudesse o meu silêncio
ser de ouro
e no meio de todo o valor
comprar o mundo
por preço algum.
Eis o que valho,
dia e meio de labor
e uma merenda,
para chegar ao conforto de uma noite fria
e ter no céu negro e estrelado
a verdadeira oferenda.

2013-09-08

Acabaram-se
os ferros forjados
e a vegetação rasteira que se agarrava aos meus passos,
longínqua a voz de um passado
ou um abraço,
porque são já poucas as histórias que repousam no meu regaço.
Longe, bem longe,
amanhã talvez onde estou agora,
pela tarde que já é tarde
as palavras que espasmo
e se vão, cabisbaixas, embora.
A direcção parece-me turva,
o Sol põe-se no meu retrovisor
sem olvidar que todo o ocado precede dor,
e toda a recta termina em curva.
Ouço os risos
e os medos
e todos os sons que flutuam como cinzas,
o meu corpo não tem rugas, tem frisos por onde escoaram incógnitos
uma mão cheia de poemas e segredos.
Onde me leva a vida
eu que a sei não existir,
que passos nestas ruas sem nome
que vultos nestes corpos sem fome
é do mundo que me separo
e do seu ego avaro
retornando à casa que me viu nascer
eu, ironicamente, que me sei nunca morrer.