2006-03-30

Dourado

As pedras polidas,
a face nova da chuva
esbate um arco-íris esmaecido
pelo gotejar das vidas,
não há rua
que não possua um sorriso florido.

Cada corpo
em amor convertido
tem um silêncio,
reverencia o esforço do momento,
quer do olhar
ou sentir,
do pleno gesto
que se transforma em presente,
de mão quente
que estende amizade
saem mais que palavras,
sulcam velhos caminhos
jamais trilhados,
desembarcam em tons dourados
ou letras
como o Sol sobre a ilusão.

É destes momentos
que se alimenta o meu coração.

2006-03-29

Sonhos e amigos

Fui visitado esta noite por amigos...
São amigos que não vejo há muito tempo, desde os tempos de liceu...
Apareceram em sonhos, muito lúcidos, e a surpresa de os encontrar foi tanta que quase acordei.
Falamos sobre coisas triviais deste mundo, porque é assim que vemos este mundo, do lado de lá, uma coisa passageira, uma etapa, que busca ligar-se ao mundo dos sonhos...
Fico a pensar na importância que (não) prestamos aos amigos, aos laços que se criam e desfazem, acompanhados pela expressão: "é normal, tudo muda"...
Sim, tudo muda (este espaço é para os mais eruditos citarem Camões e seus foliões lusitanos), mas por rotação normal da terra ou porque somos demasiado pequenos para caber mais alguém no nosso coração?

Talvez seja da música que estou a ouvir (Donkeytown - Mark Knopfler & Emmylou Harris), que me torna um pouco nostálgico, no sentido positivo... É como a saudade positiva, sem emoção, apenas a saudade de amigos, que amamos plenamente e desejamos que estejam bem, onde quer que estejam, movidos por esta forte e firme convicção de que, mais tarde, todos estaremos juntos, de uma forma ou de outra...
Cito Carl Sagan, no filme "Contacto", ao referir-se, na pele de Ellie Arroway (Jodie Foster), à imensidão do espaço e à distância entre planetas, povos, corações: "nas nossas pesquisas, chegamos à conclusão que o que torna suportável esta distância, este vazio, é o Amor"...
Deixo no final deste post lamechas, uma certeza, um dia, mais tarde ou mais cedo, poderemos olhar nos olhos os nossos amigos, presentes e ausentes, e mesmo os invisíveis, do lado de lá dos sonhos, terão rosto visível... Até lá, resta-nos amar, para dar sabor à vida...
E, claro, da minha parte, a tentativa de afirmar, viver e escrever, que o que existe é amor...

2006-03-27

Ocaso

O vento levou já o eco
dos meus passos
no sonho.
A chuva já não cai
ao compasso
do respirar,
tudo o que foi já o era,
não porque o riso assim o quisesse,
apenas as sombras
o sabem.
Não estava para ninguém,
no entanto,
quando o medo assolou à porta
da saudade
a noite surgiu
em auxílio do Sol,
que antes ainda de ser dia
constava, no mundo ausente,
que morria...

2006-03-26

Carinho

Por vezes somos brindados com a presença de amigos invisíveis, presenças que apenas nós sentimos...
Em momento algum me sinto sozinho, desamparado, nos raros maus momentos e nas fantásticas ocasiões em que a vida entra-me nos sentidos... Por isso, para vocês, o meu carinho... O meu reconhecimento pela paciência e amor, sempre demonstrado...

2006-03-25

Alguns pensamentos

De vez em quando, da miríade de emails que recebo, um ou outro possuem frases (feitas) úteis, curiosas ou, pelo contrário, sem qualquer referência em termos do que pode ou não ser útil a mim ou a quem lê este blog (mas alguém lê este blog?)... Aqui ficam:

"Para mudar, preciso compreender que render-me não é desistir, nem fracassar. É não precisar mais de estar certo."


"Hoje lembrar-me-ei: Um estado permanente de transição é a condição mais nobre do homem."

"Semeia um pensamento, colhe um acto; semeia um acto, colhe um hábito; semeia um hábito, colhe um carácter; semeia um carácter, colhe um destino." - Marion Lawense

"Não importa o que fizeram de você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram de você." - Sartre

2006-03-20

Sintomas da Paz Interior

Desconheço o autor das seguintes linhas, mas parecem-me serem justo alvo de reflexão (até parecia um filósofo)...

-
Tendência a pensar e agir espontaneamente ao invés de basear-se no medo e nas experiências do passado;
- Uma habilidade imensa de valorizar e aproveitar cada momento;
- Perda pelo interesse de julgar pessoas;
- Perda pelo interesse de interpretar a acção alheia;
- Perda pelo interesse de participar em conflitos;
- Perda da habilidade de se preocupar;
- Frequentemente dominado por episódios de imensa apreciação;
- Sentimentos de satisfação pela conexão com os outros e com a natureza;
- Frequentes ataques de sorrisos;
- Uma incrível tendência a deixar as coisas acontecerem ao invés de forçá-las a acontecer;
- Uma incrível susceptibilidade ao amor recebido de outros, tanto quanto à incontrolável necessidade de estendê-lo ao próximo.

2006-03-17

As baleias

Não costumo ouvir Roberto Carlos, à excepção de quando a minha mãe coloca os CD's dela... No domingo retribui um gesto... A vida proporciona-nos sempre aquilo que temos que viver e sentir, mas também nos retribui...
Há 15 anos chorei... Queria ver os Dire Straits em Alvalade, mas vi-me sem companhia, todos os amigos que tinham dito que iam, não foram e eu, rapazinho da aldeia, não fui sozinho... Chorei... E lembro-me da minha mãe dizer: "Deixa lá, vais ver que eles vêm cá outra vez"... E eu chorei outra vez, porque eles tinham acabado e nunca mais poderia assistir a um concerto (na verdade, seria o primeiro).
E então, no ano da graça de 1996, um senhor chamado Mark Knopfler, mentor, líder, guitarrista, vocalista e compositor dos Dire Straits visita Portugal... Esqueci a quantidade de vezes que corri para a Tubitek (saudades) para comprar o bilhete... E lá consegui, 2 bilhetes, para a 2ª fila, para mim e para a minha irmã (que teve uma prenda de anos que não estava à espera)...
O homem entrou no palco, o Coliseu estava assombroso! Guitarra no ar, cumprimentou os milhares de fãs e, depois, começou a arrancar, ao longo de duas horas, solos, canções, voz e coros, centenas de isqueiros... Tocou connosco o tradicional "Oê, oê, oê"... Foi um momento inesquecível e eu, mais velho que em 1992, consegui comover-me com o concerto...
Depois disto, já o vi/ouvi duas vezes na RFM (obrigado RFM) e no Atlântico...
E a minha mãe tinha razão...
Há duas semanas, cheguei a casa com bilhetes para o Roberto Carlos, 5 bilhetes, para Guimarães, 12 de Março... A minha mãe não imaginava... Riu-se... Parecia uma criança... Nunca imaginou ir a um concerto do Roberto Carlos... E eu fiquei feliz..
Na hora do concerto, perfilados, com outros tantos, as luzes apagaram-se e o Roberto Carlos entrou em palco... "Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo..."
A minha mãe bateu palmas, comoveu-se, e eu, atrás, presenciando, comovi-me...
Olhei para ela e vi-me a mim mesmo, há 10 anos, a bater palmas comovido... A felicidade sentida no momento é indescritível...
A vida retribui-nos tudo... Com juros...

Fica aqui uma música do Roberto Carlos... A letra é linda e a música também... Tal como o Imagine do John Lennon, há músicas que parecem não ter idade...
As Baleias
(Roberto Carlos - Erasmos Carlos)
Não é possível que você suporte a barra
De olhar nos olhos do que morre em suas mãos
E ver no mar se debater em sofrimento
E até sentir-se um vencedor nesse momento.
Não é possível que no fundo do seu peito
Seu coração não tenha lágrimas guardadas
Pra derramar sobre o vermelho derramado
No azul das águas que você deixou manchadas.
Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Que eles viram em velhos livros
Ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão.
O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e a fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos, em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão.
Como é possível que você tenha coragem
De não deixar nascer a vida que se faz
Em outra vida que sem ter lugar seguro
Te pede a chance de existência no futuro.
Mudar seu rumo e procurar seus sentimentos
Vai te fazer um verdadeiro vencedor
Ainda é tempo de ouvir a voz dos ventos
Numa canção que fala muito mais de amor.

Esta vontade

Estas tardes dão vontade de andar pelo monte, por entre as árvores, tremer quando uma gota grossa nos cai mesmo no pescoço.
Dão vontade de...
De ter por companhia um qualquer programa de rádio, com música tradicional.
Pegar em terra e senti-la húmida...
Ficar parado, apenas para não afugentar um melro...
Deitar num muro por acabar, sacudir as pedras que magoam a cabeça, deixar pender uma perna para não perder o equilíbrio e com a palma da mão tapar o sol, apenas para ver o céu, e todas estes pontos luminosos que bailam...
Abrigar numa velha paragem de autocarro, à espera que pare a chuva...
Parar com medo de um cão e respirar de alívio, quando ele abana o rabo e nos vem lamber a mão.
Sorrir quando se toca com a mão fria numa parede quente.
Abrir os braços e deixar que a chuva nos molhe, completamente e depois, encharcado, tomar banho e adormecer meio corpo a ver uma lareira.
Sentar com amigos, sem falar.
Sorrir apenas porque se está vivo.
Sorrir apenas porque se sabe que não se morre.
Sorrir ao lembrar das crianças e dos adolescentes, alunos.
Sorrir apenas.
Apenas permanecer assim, tal como se é.

2006-03-11

Para quê um título?

Perdi a conta aos minutos...
Tinha-os aqui, na palma da mão, mas deixei-os fugir...
Entre o deitar e dormir (e acordar dormindo e voar) ou ficar aqui, a olhar ainda os minutos, creio que vou...
Num dia só vivem-se e sentem-se milhares de coisas...
Coisas assim, como os minutos...
A chuva ainda vai trazendo alguma serenidade...
Fico feliz com as vitórias dos outros, com o brilho no olhar da humildade...
Fico com sono...
As sombras da chuva recordam-me tempos de criança, de agasalho, de cevada com boroa, de cebola e sal, de gentes que partiram e só encontro no sonho...
Retribuir algo que nos foi dado não tem preço...
Ver o olhar humedecido pela emoção...
Ver as rugas nascerem de quem nos fez novos...
Eu sou feliz...
Gostava de escrever o que sinto...
Que não em verso ou prosa...
Escrever no ar, nas pessoas, no vento...
Escrever que sou feliz (com tão pouco... com tão pouco)...
Também deveria escrever que adoro os meus ex-alunos... Que aprendi tanto com eles...
Isso e também as crianças do 1º ciclo... Especialmente um... Que me marcou até hoje...
E as pessoas!
Tantas pessoas!
Amo as pessoas... Como forma de chegar a mim... Também a mim...
E viver sem etiquetar, como será?
Sem carimbar...
E as dores... Ai as dores... Essas também... Que me mostra(ra)m o poder retemperador das lágrimas... E nos dá vergonha na cara, para não chorar de novo...
E o mundo! O mundo? Este pano velho que pinta pensamentos, que cristaliza almas... O mundo não é o que vês...
Como será ser não canal?
Como será viver pela mão que nos embala o respirar?
Hum... Deve ser óptimo, cerrar os olhos e abrir os pulmões...
E viver a ilusão...
Parir sonhos doi...
Valha a ilusão de ser tudo ilusão...
Acho que gostava mesmo de mostrar mais que a capa... Sem ser mortificado...
Gostava de abraçar o mundo...
Vou dormir...
Porque tenho sono...
Porque me esperam...
Do lado de lá da vida...

2006-03-08

Formas de olhar

Há formas de olhar
que moldam os sonhos,
sorriem
como se a tela em que me pinto
fosse um pequeno globo luminoso
incandescente,
será algo que sinto?

Há formas de olhar
que sorriem o dia,
moldam
a vida ténue e sobranceira
com argila límpida,
clara,
tingida pela noite que partiu
e o sorriso
que o sonho pariu...

Há formas de olhar
que apenas eu vejo,
sorriso e sonhos
e amor...
Amor que deambula pacientemente
aguardando a compaixão
dos que dela ainda não bebem...

Há formas de olhar,
mas não escrevem...