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2017-09-30

A deus

A saudade soluça na espera de quem nunca chegou.
É o tempo germinado fora do útero.
A ti, meu vale, onde frago ainda o que sou, esta riqueza de me ambicionar pobre pinta-me ocre e ausência.
Contra Deus nem religião, nem ciência.
Dorme, Tua, afundado na tua inocência.

2013-09-24

Diluo-me pelo teu esquecimento,
o nada da minha memória é, agora, o orvalho das minhas manhãs,
não teria já palavras
ou índices
que assinalassem algumas esperanças vãs,
já nem o barulho, nada, apenas pó
e cimento.
Vou descansar, descansado,
sem corpos
nem velório em catadupa derramado,
o rio corre por entre rostos
e em soluços gente no peito,
esta vida tem caudal,
mas já não tem leito.

2011-10-13

Exposição "Alma Tua"


À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás, o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo. Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, vem desaparecendo: o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular. É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua. É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta. Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua. Esperamos que o visitante possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras. Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo." 
www.almatua.com

2011-02-16

Os dias escorregam-me pela noite,
há uma loucura que se ausenta
e dos meus sonhos
a liberdade que se afugenta,
um cansaço que transpira,
uma mão nas costas, fria.

Dilui-se a vida na paisagem
e a voz,
sem preço,
que se desfaz em viagem
pelo silencioso suspiro da terra fria urdida,
agora é a chuva que uiva à ausência
da alma do transmontano
por eles vendida.



2011-02-09

Embarca no horizonte,
longe as sombras do sustento,
a lavoura que se faz com um lamento,
a mão poeirenta no som da cancela rangida,
aqui só a morte parece ganhar vida.

Olhos embaçados,
nublados,
tolhidos pela recordação que se quer presente
sobre os dias que se avançam
quase de forma demente.

Nasce um quotidiano
ou uma criança,
as fragas enviúvam caladas,
ao redor da solidão um negrume que dança
veste a noite que dura um ano.

Um passo imóvel,
o tempo chove tão lentamente
que até a novidade, quando surge,
vem em aguaceiros.

Forma de gente à soleira
entrecortada num postigo semicerrado,
uma mão,
um cachaço,
a loucura abraçada pelo amor
num sussurro calado.

Ao destino da partida
a voz que pergunta “onde vais?”,
mas já os movimentos crepuscularam
caindo arfando num futuro
que não volta mais…

2011-01-25

This was a big river

O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair.

Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.

2011-01-24

A pé

Chove tristeza.
Chove e entranha-se na vida,
pintando,
gradualmente
de negro e cinzento
as cores errantes
com que construo meu lamento.

Há um bafiento odor a abandono,
um borbulhante queixume ao encontro da maré,
sempre vaza,
pelos que nos roubam o andar
sem saberem
que os sonhos
se fazem a pé.


2011-01-13

Vidas atadas

De vidas atadas se faz um silêncio,
de silêncios sulcados se ara um povo,
as pedras com que os lapidam
têm nome de gente,
vozes surdas que se atiçam,
num velho Sol que nasce, de novo.
Leiloem-se mãos,
cegas ocultam um céu igual
às noites caladas,
onde por elas navegaram os chãos,
roubados,
sobram agora vários farrapos de nada,
afundados,
por mar de gente
que se faz lodaçal.
Os amanheceres prometidos,
as nesgas de um tudo
nos vários pedaços de nada,
estão minhas mãos desfolhadas e cegas
abraçando mil corpos despidos.
Escuto o vosso horizonte mudo
na escuridão que se ajoelha e reza,
para ser o amortalhado
calado
povo
que vossa ganância despreza.

2010-10-25

Se(de)

Orvalho a sede
pelas paisagens que não sorvo,
há um dia que se põe
em cada esquina da parede
no crepúsculo em que moro.

São meus olhos cordéis
tecendo as curvas que me afogam,
o negro mascarado dos túneis,
a voz ausente dos agrilhoados
que me evocam.

Dá-me a vida
e o sonhar,
a água que em ti brota
ó luar,
há gente ainda em ti
meu paraíso?
Ou não serão chuva
as saudades
que me teimam em chorar...

2010-09-29

Leito

Há um lamurio escorrido
das frontes,
do rio,
das cansadas enxadas
e das calosas mãos de rosas,
em borbulhar desatento
às curvas gémeas do leito
que namoram à janela do tempo
com as faces,
com o vento.

2010-07-30

9 minutos, com Fernando Alvim

Um tema sério, falado muito a brincar.
9 minutos para falar, rir, expor fotografias e... e soube a pouco.
Aqui ficam as fotografias.


Pós-entrevista e uma pequena amostra do trabalho...


Falas tu ou falo eu? Eu? Não, o combinado eras tu!


a começar.

2010-07-24

Eterno

É por te saber eterno,
meu fio de água,
que choro a cegueira dos que morrem
quando à sombra das noites se erguem
para te fazer saudade.

Corro-te à nascente,
retorno à foz que te abraça em torno de um cais
para te sorver,
contente,
porque te esquecem, os homens
e outros que tais,
nadando num rio invisível
que uma curva escurece,
vou traçando a cinzel estes riscos na pele,
no papel,
meu fio de água,
que em mim te sei eterno...

2010-06-25

Deuses vadios

Encosto-me às notas do piano,
soltas,
pelo murmurar do calor
e do silêncio
a retorcida figura no horizonte cai,
o erguer de um ganido jaz
a meio da poeira
e do abandono,
na vida não há escravos
apenas deuses vadios
sem dono...

2010-05-23

Desde que sou tempo, passam-me a conversar pares quadrigêmeos de mãos sem se tocarem.
- Acho que vi uma pessoa.
- Não vejo. Virá para aqui?

Pouco se rende o cansaço, nem esmorecendo a esquina que não se consegue dobrar, há sempre um par de cegueiras vendadas que me faz acordar.
- Passou novamente sem parar…
- Nem abrandou?

Nada me demove, mesmo aqui parado ouço outros imóveis urdindo planos elevados onde não alcança o céu, quanto mais as estrelas…

- Vem aí alguém!
- Outra vez?
- Não, vem mesmo para aqui.
- A sério?
- Sim… E traz algo.

Os passos apressados, inquietos, trazem a cegueira que me atribuem, conspurcam a mágoa e as ombreiras do destino, pintando de negro o arco-íris da amizade.
Ladrilhando de solidão o transparente, facilmente cegou a sua irmã oposta em gestos firmes sem vida, onde chaves invisíveis jamais abrirão em par o agreste que semeia o verde.

- Quem era?
- Não sei, já não vejo…

2010-03-22

Onde

Navegarei ao infinito
nas lágrimas que não choro
adormecerei na luz
do destino
porque habito um corpo
onde não moro.

2010-01-25

Alma Tua

Olá!
Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua.
Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem.
Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade.
Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto.
Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua.
O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda.
Visitem-nos em http://www.almatua.com
Trata-se do site de promoção do nosso projecto, que possui alguns "rebuçados" sobre o final.

"À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo.

Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, ultimamente, até porque a memória dos autores não perscruta tão longe assim, os sucessivos governantes (propositadamente com g minúsculo) tendem a fazer: fazer desaparecer o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular.
Sem ter quem defenda a bondade da arrogância política, os que não têm voz e que pela força do isolamento acreditam em quem lhes atira umas palavras caras acompanhadas de fato e gravata, que se chamou domingueiro há idos, soçobram ao genocídio mudo, à devassidão moral de quem promete e nunca cumpriu.
É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua.
É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta.
Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua e a sua linha.
Esperamos que o leitor possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está por detrás dos pigmentos das cores ou das curvas das letras.
Que não morra em nós, nunca, a força de lutar pelo que é nosso, salvando-nos do abandono e das mãos tiranas que de longe manobram os fios com que tentam enforcar um povo.
Por Trás-os-Montes (o de portugueses, como Torga).
Pelo Tua."
www.almatua.com
Miguel Gomes e Norberto Valério

2009-12-16

Onde quer que estejas

Meus braços quentes
num corpo que nunca toquei,
assim caminho na tua ausência.

Clamo um nome à cor que não te dei
sem saber que o teu silvo,
meu respirar,
é canção de embalar
a quem não abracei…

2008-09-08















(fotografia de Norberto Valério)

A cor dos meus olhos

traja fantasia,
ostenta quadros de sonhos
e noites orfãs
de dia.


Sei-te o tom
a voz
da tua alma
o som.


Cobre-te de mim

e eu de ti

terra austera,

porque em cada ramo meu florescem rumores secos
e uma espiga
de Primavera.


Sombra
e frondosa postura,
se cabelos houvesse seria hera
e chuva mole aqui,
meu arado em terra
pura.


Que me aguarde a morte
e me tema a vida,

as minhas searas plantam a sorte

e entre mim e eu mesmo
abrigam-se ainda corpos
,
gente que se ama

de alma
despida...

2008-09-01













fotografia de Norberto Valério

Vejo horas nos fragmentos
das vidas
que se abatem em mim.

Quebro tempos e memórias
nos ponteiros que me viajam,
vendo dias e histórias
e arestas que se soltam
do meu olhar cego.

Pauto momentos
em indeléveis estalidos,
o tempo não se compadece do relógio,
fugaz e austero
lança esquecimentos nas mãos
e sonhos
de quem do fino frio fiava
os suspiros
de quem não chegava.

Mudo, agora,
restam-me apenas horas que não voam,
minutos que anunciavam fremente vapor
escasseiam,
como lenços e abas que mãos tremeluzindo amor
passeiam.

Amparo a solidão
da madeira cansada dos bancos
e do uivo gasto do vento,
soçobrando à ilusão
de quem me olha sem ver
ausculto a dimensão dos momentos,
não sou a espera adiantada do início
apenas prenuncio de nome:
fim-dos-tempos...

2008-08-27













(fotografia de Norberto Valério)

Sobranceira ao meu olhar,
aninho-te no regaço
da saudade que o Sol dissipa,
enquanto voltam a teu ventre cadilhos
e a teus braços, gastos,
filhos.

Perdidos passos percorrem poeira,
restos de memórias vivas
morrem lentamente à sombra do esquecimento
que um falso Sol peneira,
afasta-se o rumo,
a vida,
os cheiros e a tez,
porque já não curte o frio
os frutos
e as mãos
de petiz, que homem se fez.

Dás-me corpo ondulado,
seiva e calor
de teu regaço longínquo
e molhado,
namora-te o estio
a ausência e o pousio,
o vazio que te percorre arde
sem chama,
vivos frios olhares e labutas
guardam jardins de sonhos idos que se encontram
com a calma.

Em ti, a paz
que desejo minha,
a tépida esperança acesa
tem gotas de rio que te beija,
que não te sabendo rainha
ingenuamente murmura:
princesa...