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A deus

A saudade soluça na espera de quem nunca chegou. É o tempo germinado fora do útero. A ti, meu vale, onde frago ainda o que sou, esta riqueza de me ambicionar pobre pinta-me ocre e ausência. Contra Deus nem religião, nem ciência. Dorme, Tua, afundado na tua inocência.
Diluo-me pelo teu esquecimento, o nada da minha memória é, agora, o orvalho das minhas manhãs, não teria já palavras ou índices que assinalassem algumas esperanças vãs, já nem o barulho, nada, apenas pó e cimento. Vou descansar, descansado, sem corpos nem velório em catadupa derramado, o rio corre por entre rostos e em soluços gente no peito, esta vida tem caudal, mas já não tem leito.

Exposição "Alma Tua"

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À medida que o tempo avançava e o caminho abandonado de cascalho, carris e travessas, ficava para trás, o que era um projecto tornava-se em sonho, palpável e objectivo. Percorrer a linha do comboio, falar com um punhado de pessoas, semear aqui e ali uma fotografia ou deixar gravada numa travessa um poema avulso, tudo se transforma numa vontade de preservar aquilo que, vem desaparecendo: o sorriso digno dos transmontanos em geral e dos habitantes dos concelhos directamente afectados pelo assassínio da linha do Tua em particular. É impossível, quando se veste um pouco mais de alma, ficar indiferente à beleza do Vale do Tua. É impossível, quando se ouvem Pessoas, ficar indiferente ao grito mudo de gentes com a porta sempre aberta. Sem arrogâncias ou falsas modéstias, este projecto tem como Sonho preservar a imagem do vale do Tua. Esperamos que o visitante possa encontrar um pouco daquilo que os autores viram, mas, acima de tudo, possam entrar no mundo daquilo que sentiram e que está po...
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Os dias escorregam-me pela noite, há uma loucura que se ausenta e dos meus sonhos a liberdade que se afugenta, um cansaço que transpira, uma mão nas costas, fria. Dilui-se a vida na paisagem e a voz, sem preço, que se desfaz em viagem pelo silencioso suspiro da terra fria urdida, agora é a chuva que uiva à ausência da alma do transmontano por eles vendida. www.almatua.com
Embarca no horizonte, longe as sombras do sustento, a lavoura que se faz com um lamento, a mão poeirenta no som da cancela rangida, aqui só a morte parece ganhar vida. Olhos embaçados, nublados, tolhidos pela recordação que se quer presente sobre os dias que se avançam quase de forma demente. Nasce um quotidiano ou uma criança, as fragas enviúvam caladas, ao redor da solidão um negrume que dança veste a noite que dura um ano. Um passo imóvel, o tempo chove tão lentamente que até a novidade, quando surge, vem em aguaceiros. Forma de gente à soleira entrecortada num postigo semicerrado, uma mão, um cachaço, a loucura abraçada pelo amor num sussurro calado. Ao destino da partida a voz que pergunta “onde vais?”, mas já os movimentos crepuscularam caindo arfando num futuro que não volta mais…

This was a big river

O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair. Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.

A pé

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Chove tristeza. Chove e entranha-se na vida, pintando, gradualmente de negro e cinzento as cores errantes com que construo meu lamento. Há um bafiento odor a abandono, um borbulhante queixume ao encontro da maré, sempre vaza, pelos que nos roubam o andar sem saberem que os sonhos se fazem a pé.

Vidas atadas

De vidas atadas se faz um silêncio, de silêncios sulcados se ara um povo, as pedras com que os lapidam têm nome de gente, vozes surdas que se atiçam, num velho Sol que nasce, de novo. Leiloem-se mãos, cegas ocultam um céu igual às noites caladas, onde por elas navegaram os chãos, roubados, sobram agora vários farrapos de nada, afundados, por mar de gente que se faz lodaçal. Os amanheceres prometidos, as nesgas de um tudo nos vários pedaços de nada, estão minhas mãos desfolhadas e cegas abraçando mil corpos despidos. Escuto o vosso horizonte mudo na escuridão que se ajoelha e reza, para ser o amortalhado calado povo que vossa ganância despreza.

Se(de)

Orvalho a sede pelas paisagens que não sorvo, há um dia que se põe em cada esquina da parede no crepúsculo em que moro. São meus olhos cordéis tecendo as curvas que me afogam, o negro mascarado dos túneis, a voz ausente dos agrilhoados que me evocam. Dá-me a vida e o sonhar, a água que em ti brota ó luar, há gente ainda em ti meu paraíso? Ou não serão chuva as saudades que me teimam em chorar...

Leito

Há um lamurio escorrido das frontes, do rio, das cansadas enxadas e das calosas mãos de rosas, em borbulhar desatento às curvas gémeas do leito que namoram à janela do tempo com as faces, com o vento.

9 minutos, com Fernando Alvim

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Um tema sério, falado muito a brincar. 9 minutos para falar, rir, expor fotografias e... e soube a pouco. Aqui ficam as fotografias. Pós-entrevista e uma pequena amostra do trabalho... Falas tu ou falo eu? Eu? Não, o combinado eras tu! a começar.

Eterno

É por te saber eterno, meu fio de água, que choro a cegueira dos que morrem quando à sombra das noites se erguem para te fazer saudade. Corro-te à nascente, retorno à foz que te abraça em torno de um cais para te sorver, contente, porque te esquecem, os homens e outros que tais, nadando num rio invisível que uma curva escurece, vou traçando a cinzel estes riscos na pele, no papel, meu fio de água, que em mim te sei eterno...

Deuses vadios

Encosto-me às notas do piano, soltas, pelo murmurar do calor e do silêncio a retorcida figura no horizonte cai, o erguer de um ganido jaz a meio da poeira e do abandono, na vida não há escravos apenas deuses vadios sem dono...
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Desde que sou tempo, passam-me a conversar pares quadrigêmeos de mãos sem se tocarem. - Acho que vi uma pessoa. - Não vejo. Virá para aqui? Pouco se rende o cansaço, nem esmorecendo a esquina que não se consegue dobrar, há sempre um par de cegueiras vendadas que me faz acordar. - Passou novamente sem parar… - Nem abrandou? Nada me demove, mesmo aqui parado ouço outros imóveis urdindo planos elevados onde não alcança o céu, quanto mais as estrelas… - Vem aí alguém! - Outra vez? - Não, vem mesmo para aqui. - A sério? - Sim… E traz algo. Os passos apressados, inquietos, trazem a cegueira que me atribuem, conspurcam a mágoa e as ombreiras do destino, pintando de negro o arco-íris da amizade. Ladrilhando de solidão o transparente, facilmente cegou a sua irmã oposta em gestos firmes sem vida, onde chaves invisíveis jamais abrirão em par o agreste que semeia o verde. - Quem era? - Não sei, já não vejo… in Alma Tua .

Onde

Navegarei ao infinito nas lágrimas que não choro adormecerei na luz do destino porque habito um corpo onde não moro.

Alma Tua

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Olá! Deixa-me que te fale um pouco do vale do Tua. Este vale, o rio Tua e a linha com o mesmo nome, bem como uma boa parte da população do Nordeste Transmontano, estão ameaçados pelo abandono a que há muito são condenados por parte do poder político e mais recentemente pela ameaça da construção de uma barragem. Esta barragem irá inundar o vale do Tua, submergindo a maior parte da linha férrea, e alterando irremediavelmente uma paisagem única, verdadeiro património da humanidade. Estou a desenvolver um projecto de texto (prosa e poesia) e fotografia sobre o vale do Tua. Este projecto é desenvolvido em parceria com o meu amigo Norberto . Sendo o Norberto Transmontano de nascença e eu de coração, estamos obviamente preocupados com a actual realidade ou sina, do vale do Tua. O nosso projecto, procura mostrar um pouco da beleza das terras, das gentes e da sua alma e sensibilizar para a sua salvaguarda. Visitem-nos em http://www.almatua.com Trata-se do site de promoção do nosso projecto, q...

Onde quer que estejas

Meus braços quentes num corpo que nunca toquei, assim caminho na tua ausência. Clamo um nome à cor que não te dei sem saber que o teu silvo, meu respirar, é canção de embalar a quem não abracei…
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(fotografia de Norberto Valério ) A cor dos meus olhos traja fantasia, ostenta quadros de sonhos e noites orfãs de dia. Sei-te o tom a voz da tua alma o som. Cobre-te de mim e eu de ti terra austera, porque em cada ramo meu florescem rumores secos e uma espiga de Primavera. Sombra e frondosa postura, se cabelos houvesse seria hera e chuva mole aqui, meu arado em terra pura. Que me aguarde a morte e me tema a vida, as minhas searas plantam a sorte e entre mim e eu mesmo abrigam-se ainda corpos , gente que se ama de alma despida...
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fotografia de Norberto Valério Vejo horas nos fragmentos das vidas que se abatem em mim. Quebro tempos e memórias nos ponteiros que me viajam, vendo dias e histórias e arestas que se soltam do meu olhar cego. Pauto momentos em indeléveis estalidos, o tempo não se compadece do relógio, fugaz e austero lança esquecimentos nas mãos e sonhos de quem do fino frio fiava os suspiros de quem não chegava. Mudo, agora, restam-me apenas horas que não voam, minutos que anunciavam fremente vapor escasseiam, como lenços e abas que mãos tremeluzindo amor passeiam. Amparo a solidão da madeira cansada dos bancos e do uivo gasto do vento, soçobrando à ilusão de quem me olha sem ver ausculto a dimensão dos momentos, não sou a espera adiantada do início apenas prenuncio de nome: fim-dos-tempos...
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(fotografia de Norberto Valério ) Sobranceira ao meu olhar, aninho-te no regaço da saudade que o Sol dissipa, enquanto voltam a teu ventre cadilhos e a teus braços, gastos, filhos. Perdidos passos percorrem poeira, restos de memórias vivas morrem lentamente à sombra do esquecimento que um falso Sol peneira, afasta-se o rumo, a vida, os cheiros e a tez, porque já não curte o frio os frutos e as mãos de petiz, que homem se fez. Dás-me corpo ondulado, seiva e calor de teu regaço longínquo e molhado, namora-te o estio a ausência e o pousio, o vazio que te percorre arde sem chama, vivos frios olhares e labutas guardam jardins de sonhos idos que se encontram com a calma. Em ti, a paz que desejo minha, a tépida esperança acesa tem gotas de rio que te beija, que não te sabendo rainha ingenuamente murmura: princesa...