2005-12-09

Sobre os rostos de fantasmas solitários

Nos teus olhos reflectia-se a noite
e pequenos sorrisos iluminavam o Natal
nestas ruas despidas de azul,
onde se aglomeram,
caindo sobre o sonho,
falsas estrelas luzidias
e adornos vários,
que pendem lentamente
sem Norte ou Sul
sobre os rostos de fantasmas solitários…

2005-12-05

Visão de vivos e idos fantasmas

Um sorriso marginal
tende ao olhar solitário,
que se solta indelevelmente
quando este abraço ausente
de gente normal
me silencia a saudade.

Cada pessoa é um poema em movimento,
cada olhar cansado
de vida a depurar
é uma semi demência,
visão de idos fantasmas
que nascem nas sombras
e no frio de Inverno
que assola a alma.

A alma dorme,
não sabe que é ela mesma
e canta num grito de horror,
um misto de saudade
e de profunda dor,
que é ver frutos de teu ventre
serem menos que sombras,
pouco mais que um nada ausente…

E o meu abraço já não chega a ti,
esta voz longínqua sempre presente
que me pede o inaudito
está aqui,
o respirar pesa-me,
as pernas fraquejam quando saio
e vou até aí,
até às veredas do pesadelo
e te arranco às garras que te prendem ao medo…

Quando me levanto de mim mesmo
e o cansaço da tarde
(que vem devagar… devagarinho)
chama às paredes confidentes
solenes companhia ausentes,
o teu corpo é já vazio
desse fogo que ainda arde,
sonho que nasce
além,
no final deste longo pavio…

Descansa em paz,
Que os calos da vida na tua alma
são já idade
e cicatrizes,
são pele macia
e serenidade.

Fecha os olhos,
quando tua voz findar
estarás já no mundo dos sonhos…

2005-12-03

Quando o tempo morre em mim

Pouso o alforge
e a saudade escorre-me da face,
encostadas ao sonho
as cartas que carrego há milhares
dos milhares que hão-de vir,
suspiram pelo encanto do tempo
que a seus olhos foge.

São dicotómicas,
plantadas por mãos invisíveis
que cruzaram o céu nocturno,
sorriram juntas sob um olhar estrábico
que as fitava
ao sabor de um verde-esmeralda.

Algures,
sim, algures para cá da realidade
pernoito enquanto o Sol,
ou qualque outro gigante,
percorre as entrelinhas das minhas cartas.
Pela areia que dança
agarrada aqui e além ao vento,
passaram anos
ou segundos esmaecidos,
que é cor de vida assim
como quem de si mesmo se afiança...

E o sorriso cansou-se,
faltava pouco para que a luz,
ou essa sombra que seduz,
caísse do árduo e agreste espelho
que sendo menos que um átomo
foi dele a primeira centelha...

Assolaram à costa deste caderno
as pequenas letras tardias,
fugidias,
que me chamam há longos instantes
bem do alto daquele fundo ermo.
Traziam com elas algumas das tais,
uns pequenos encantos
que me deram há idos Natais...

Saltaram e subiram,
cresceram em esforço de pequena gente
e em mim tocaram,
apenas o odor do cigarro era diferente,
e assim,
olhando e chamando,
entregaram-me aquilo que parecia ser
o que não era... Um outro céu
que, após a queda
de seu último véu,
poderia muito bem ser
o velho tempo que morreu...