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A mostrar mensagens de Março, 2015
Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro.  Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações?  O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.

Momentos

in Bird Magazine . Havia muito pouco de tudo aquilo que a vida necessita, o pó a terra arada toda a falta de um candelabro que ilumina a noite e a ressuscita. Entre muros a pedra e a ausência de uma face o nevoeiro que se enamora pela erva e o solo afoito de onde o que sou nasce. Paira no ar entre mim e a visão as aparas diluídas de uma madeira inquebrável, uma mão que quer afagar a entrada mais curta para o coração as turbulentas casualidades da amarrotada folha de papel. Não poderei abraçar o Sol sem o aquecer, nem a Lua sem a fazer tremer. Um pouco como os caminhos que não posso percorrer por me estarem, sempre, a falhar os passos porque os meus pés ainda não chegaram ao local onde estou. Vou caminhando e recuando numa recursividade que me faz grafar por memórias nunca antes navegadas. Talvez seja isto a humanidade, o conhecer e desbravar, sinapsar e abrilhantar o dia com o sorriso possível, sem que se torne o sonho impossível. Uma das minhas memórias soltou-se, por aí, quando me

Quimera

Crónica de domingo na Bird . Falaste na Primavera.  Para mim bastou-me, foi como se a própria palavra te sobrasse pelos ramos e tu mesma florisses. Aliás, sempre te vi em flor.  Renascida a cada cinza atiçada, não como fénix, mas como uma companhia solitária há muito desejada. A estrada caminhou ao meu lado, conta-me histórias de várias léguas, medidas distantes para chegar a quem nos quer hoje como antes.  Eu não falo.  Basta-me ouvir-me e desabafar com o vento, esse, de repente, sem se mostrar interessado, começa a soprar quando paro de falar, apenas como quem me diz, vá, continua, estava a ouvir.  Tem uns trejeitos de adulto criança, fingindo ouvir quem de si se fala, mesmo quando aborrecido desata a brincar a meus pés, mesmo que isso represente levantar areia e pó para os olhos, trazer consigo gotículas de um mar que ribomba ali, ao fundo, embrulhado com a praia, ali, ao fundo, nas mãos pe

Ainda que adormecido

Crónica de domingo na Bird Magazine . A facilidade com que esta folha branca se ri de mim é enervante.  Começa por um duelo, um olhar estarrecido para uma imensidão fértil, sem o conhecimento ou discernimento de qual fruto semear. Ouso acordar para a musicalidade de uns passos, o caminhar conhecido pelas mesmas ruas de hoje, mas com o mesmo olhar de ontem.  O dia amanhece sem grandes preocupações, as palavras adormeceram sem pensarem acordar para uma singularidade não repetível, eu, aqui, neste planeta.  Levo ainda o sabor a café, amargo, como uma cortina que se encosta ao interior da boca e me faz sentir acordado, ainda que adormecido.  Imagino uma estrada sem buracos, um percurso nivelado que não se transforme no ziguezaguear contínuo por entre asfalto fractado, marcações a tinta envidraçada que ninguém ousa calcar, decisões que ousam indecidir. Perco-me na imaginação, ainda que adormecido, de me ver diluir num abraço sentido ou no olhar trocado com o sentido proibido.

Mulher

Crónica de Domingo na Bird Magazine . Tens-te metade de mim, na sôfrega parte de me saberes melhor do que a metade do que fui. A ânsia do regresso ao ventre de um ventre que te pariu. Mulher, tu és a parte do mundo que nunca te sorriu. Tu. Ao longo dos tempos, antes do tempo sequer nascer, se quer nascer dê-se ao tempo o que ele deseja, a vida em forma de bandeja, como um abraço sofrido e contido porque do lado de lá de ti está a metade, aquela que te sorri. Por entre as melodias de uma canção que se quer silenciosa, não se vá acordar o som que te embala, surgem as vestes de uma nudez que te vai retirando, pele a pela, as camadas onde se escondem as estrelas que te habitam. Sim. Em ti o brilho que se quer da noite, do luar, da ausência de um astro que ilumine em torno da órbita que te faz translação, tu, mulher, poema, canção. Não. Acordas para o corpo que te veste, vestes-te de estação, qualquer uma, descansas sob a manta de um dia e acordas, novamente, ausente e presente a cada

ALEGRIA

Crónica de Domingo na Bird Magazine . É estranho, no mínimo, dizer que se perdeu o comboio. Eu perdi-o, embora nunca o tivesse tido, e ele seguiu, caminho fora, carril dentro, enquanto eu me apertava de encontro ao blusão e puxava as abas do casaco para o pescoço, lamentando no momento não ter desfeito a barba, que renasce grisalha, para poder assim sentir o calor do tecido contra o corpo. Sempre se quer outro corpo, mas na ausência deste e porque o vento corre frio, ainda mais apressado, com o qual me rio, fico-me pelo tecido tecido contra mim. Os chafarizes salpicam-se e algumas infelizes gotas caem fora do pequeno lago que significará algo, talvez para o seu autor, mas que para mim se assemelha a um caminho molhado onde no Inverno nos traz à memória pensamentos de calor e, no Verão, serve para crianças de todas as idades molharem os pés, indumentária e, talvez, alguém enxague a alma. Passo uma leitura rápida ao que a comunicação social de hoje traz do dia de ontem. A notíci