2005-07-28

Adeus

Sorri para mim,
é esse raio de luz radial
ou meus olhos vêm apenas o que a imaginação florida sente?

Serpenteia entre fotões,
sê da vida um errante destino que me sacode
e cega a imaginação com agrestes arpões!

Vai,
segue um rumo que descrevo na areia,
a espuma negra das lágrimas sórdidas é má,
sabe a fel,
tolda o barro sujo com que te construí
e cospe no caminho.
Deixa que esta dor lentamente me eleve ao solo
e faça deste aperto no peito um pingo de mel.

Desapareces distante
e eu longe de mim permaneço.
Nas ondulações gigantes do sorrir vago e profundo
não sei se morro
ou adormeço.

Agora

Se me pudessem ver neste momento,
onde a sombra da caneta escurece
e as letras são todas iguais...
Toda a palavra é um tormento,
um profundo rasgar de emoções em platina
para que seja real,
sincero,
este pequeno barco de papel.

As rugas reflectem apenas ar,
são apêndices da idade,
repercutissem elas a saudade,
a ânsia de a mim chegar
então saberia o poema,
ou a tinta da pena,
que o suor que cai de meus olhos
é rude forma de matar,
aniquilar,
a vida que nada sabe de mim,
os caminhos de pedras gastas,
a tristeza pelas esquinas a matar...

E eu sentado no verde musgo do muro
com os punhos cerrados,
à espera que a calma chegue de uma ruga sem fim.

Casaco azul...

Visto o meu casaco de vagabundo e sonho.
O calor que a lã emana é vida
ou talvez seja o aconchego da alma esquecida,
quando a cabeça pende
e a sonolência é duro fardo
os olhos que se fecham são cristais
onde o passado sucede.
Um breve sorriso é enlouquecido
pelas mãos que agridem a face escariada,
as rugas que o espelho exibe
são fundas e sujas como as pedras da calçada.

Bermas de estrada suja e anoitecida
onde param luzes solitárias
e inalam a maresia qual fragrância pura estelar,
caras maltratadas,
quase mal amadas,
amortalhadas pelo vício corrosivo da manhã.
Palavras avulsas sem traves ou barreiras inócuas
e cabelos que ondulam sem brisa,
surgem um dia,
sob o trinque da porta do luar
e fecham-se às janelas que mostram o respirar...

2005-07-26

À sombra do prólogo

À sombra do prólogo

A sombra do desconhecido
Que contra sentido és tu
que me isolas da vida nunca saboreada?
Podes sorrir numa área a jusante do medo
circunscrita de fogo brando,
deixo-te ser o pesadelo que me devora cru
insensatamente de uma flor amada,
sussurra-me ao olhar,
quem és tu segredo?

Cobres-me de serena loucura,
no vento que me beija arremessando-me
em paredes de destino irreal
e travos de pesadelo numa lenta tortura,
rende-te ao som da brisa que embala o dormir
e saúda os pássaros em pinhais de clara escuridão,
não deixes nunca que o meu sonho deixe de sorrir...

Nas verdades do destino
onde os traços que se perdem são migalhas,
há um rumo que aguarda pelos serenos cantos.

Que ilusão me prende a ideais terrenos?
Quem se revela quando fecho os olhos?

As luzes que chamam por mim
encantam e desvendam a noite,
são o claro acordar
ou fruto de meus sonhos?

Não deixes que se abatam em mim
o desânimo do audível amordaçar
e a tristeza que teima em atacar...

Faces que se iluminam ao passar pelo mundo
como dormindo,
como sonhando nos dedos de um vagabundo.
Quem reflecte o olhar fundo da paisagem
sabe que no sorrir morre o medo da miragem.

O cabelo sucede à noite em sussurro despertando,
dança inebriado pelos falsos sentidos
que acometem os meus passos perdidos.
São cândidas folhas de Outono o pôr do Sol
ou o vulto que me acompanha é a sombra do lençol?

Diz-me quem canta esta melodia
que morde o limiar da fantasia,
talvez sejam os relvados pastos
que transpiram alegria,
talvez sejam os medos
que vão nascendo quando desaparecer o dia.

Se nasce numa nuvem o olhar
e o céu ameaça, com um trovão,
a noite cola-me ao vento como a resina
e a caruma acolhe o corpo vão,
se soubesses, vida, o quanto a solidão me ensina.

Não sou eu que te escrevo,
nem tão pouco a luz do dia,
desculpa, noite, pensei que era o Sol que morria…


Serenata à noite minha

Quando clamo à noite que é minha
Minto,
Sabe ela no azul escuro ou celeste
O que no fundo sinto,
Sorrio ao luar frio do Outono que me arrepia a espinha
Como um vagabundo ergue sua garrafa de líquido tinto.

Quando sóbrio estendo um dedo às estrelas
Choro,
O cintilar é código que cai em meus olhos
E pede que regresse ao vazio onde moro,
Nas mãos frias que entram nos bolsos prenhes de sonhos
Um pensamento solta-se à luz que decoro.

Na noite vadia que atrai em mim o fogo
Ressuscita o ímpeto de sorrir,
Talvez queimar folhas secas de Outubro,
Pisar o som do vento nas calçadas graníticas
Ou deixar que a felicidade possa fugir.

São rimas órfãs que lamentam a razão,
Esclarecem o poema de sombra reflectida
Na palma de minha mão.

Agora o lume crepita na imaginação
E no escuro um vulto inócuo que se aproxima,
Clamo à noite, amante, és minha…


Prólogo

Acabou-se…
Algum dia tinha que te dizer,
Que os medos que possuía
Além do prazer,
Ganharam nomes
E faces,
São agora companheiros e realidades
De dimensões onde se movimentam.

2005-07-17

Tanto o que queria...

Tanto o que queria...
Queria estar convosco sem pensar na despedida,
saborear cada toque
e olhar
com amizade,
amor,
sem render a minha mão à saudade.

Queria que todos poemas fossem música,
melodias que ouvissem
e palpassem de olhos fechados,
tocados por mãos invisíveis
que em teclas
incolores
bailam sensíveis.

Queria que não acabassem,
que fossem mais uma rima
no poema
da minha vida...

Há quanto tempo vos espero,
quanta vida me tocou
e voou
porque eu vos aguardava,
quantos anos e sonhos
ou desencontros
com o futuro
eu deixei que me mordessem,
quantos...

Queria esses olhares vagos apenas para mim,
as vossas mãos
os sorrisos,
esses braços abertos
que se estendem para lá do fim,
como queria...

Queria ver além do amanhã,
virar a página
do bailar na multidão,
sentar-me no chão
e chamar por ti, irmã,
irmão...

Queria que não terminasse este poema,
não voltasse à vida
efémera e fugaz,
sequência de pleonasmos,
não fosse sequiosa devoradora de sonhos
e dias,
ensombrada apenas por melodias
que teimam em chamar-me,
aos soluços,
do lado de lá da vida...

Do lado de lá da redoma
onde vos conheço como ninguém,
onde a tristeza nos abandona,
onde eu e tu,
todos nós,
somos muito mais que alguém...

2005-07-16

Três tristes filhos do Alvão

(I)

Sento-me.
Espero que os meus olhos vislumbrem
um pouco
mais
esta paisagem.
Enquanto o vento suaviza o calor
e esta mão,
vazia,
tenta em palavras atenuar a dor,
esta parte de mim descansa.
Ouço ao longe alguém,
uma voz que em silêncio me chama
e seduz,
oscilando uma foice
com olhares que inflamam
e um rosto escondido por um capuz.

Atiça-se a água
ou lume
que incendeia e apaga
de uma só vez
a mágoa,
o queixume
da vida, que sofregamente me agarra...

(II)

Queria ser mais que poesia,
agarrar o vento que fustiga
e clamar, antes que nasça o dia
sobre a noite,
este sabor a vida
a que chamam de maresia...
Queria que os meus braços se abrissem,
em ângulo tal
que os amigos, mesmo não sabendo,
no meu coração
em mim
morassem.
Queria que as palavras não fossem apenas minhas,
que não as tivesse que falar
e tratar,
que não fossem como eu
sozinhas...

(III)

As sombras projectam-se no horizonte,
ao longo do olhar
em que repousam vadios
sentimentos,
onde sorrisos anónimos vivem
apenas
para superar este monte.
A luz é já fraca,
balança lentamente na caneta
ao sabor do momento,
recolhem ao leito pequenos raios
e saem de lá,
quase em tormento,
suaves estrelas de papel
que pincelam o meu gasto olhar...
Faz-me companhia Solidão,
baptizei-o assim,
não é meu
creio que de ninguém,
apareceu a meu lado surpreendendo-me
contra o azul esbatido do céu...
Ao vê-lo assim perdido
questiono-me,
será ele apenas eu?
Partiu com as sombras,
desaparece no horizonte em pegadas toscas
deambulando no caminho,
enquanto Solidão busca um novo dono
sento-me no calor do Sol ido
que faz no meu olhar o seu ninho...

2005-07-12

O sorriso no olhar

Quando no escuro
brilharam pela primeira vez,
teus olhos sorriram.

Escalando este muro
e estocando ao de leve a altivez,
teus olhos sorriram.

Sorriram apenas
como se me abraçassem,
viessem de longe,
distassem ao meu sonho mil veredas
e seria eu cansaço
na noite,
nas estrelas.

Mas eu sou abraço,
elo algures de uma corrente
imaginária e longínqua,
que une os fios invisíveis
dos corpos que possuo,
um etéreo e navegante
o outro peso,
errante...

E o escuro torna
como serpente,
como sempre,
traz este esmaecer que me adorna
quando me divido
em gente,
e ausente.

E esta brisa
ou sonhar
que te embala o sorrir,
é mais que um soluçar
ou prenuncio do que há-de vir,
é a recordação
efémera
do que é teu destino,
o infinito...

Quando teus olhos sorrirem,
fecharem,
e na alma a felicidade nascer,
não é cansaço do tempo ido
sou apenas eu,
que tenta sussurrar,
no teu ouvido...

Meus olhos sorriem...

2005-07-07

A new world

"O universo não é exactamente como julgastes que fosse. O melhor será alterar aquilo em que acreditais. Porque o universo, esse, certamente não o podereis alterar"
Isaac Asimov

2005-07-02

Quase nada

Antes de me deitar escrevo. Nem sempre poesia. Nem sempre palavras. Nalgumas ocasiões fico deitado a falar, não sozinho, para o escuro, sobre o dia, as pessoas, tudo. Noutras ocasiões peço-me que escreva, coisas que por vezes não são minhas, apenas a caligrafia. Acaba por ser uma surpresa no dia seguinte, ler o que escrevi. Acho que é assim que liberto dos pecados alguns perdidos da vida, quase como eu. Mas mesmo esses perdidos são mais sinceros, têm mais ética, mais cosmoética que muitos outros que conheço.
Vou-me à vida, a esta coisa passageira.
Se me vires por aí perdido, chama-me, porque nessa altura já perdi o rumo dos vossos olhares.


Quase nada

Sorrio até à próxima lágrima,
até o teu olhar me recordar
que existe mais que esta vida.

Quando surgir novamente
pintado de alegria
seguirei rumo à insensatez.
ancorando apenas
por momentos
no sorriso que nasce
(ou morre?)
nos lábios da vida.

Ao virar da esquina
onde dorme um sentimento,
um dedo bastará
para que sinta eu na carne
(na alma...)
os teus inseguros passos,
os débeis sorrisos,
que frágil parece ser esse teu viver...

Não vás para longe,
porque o sorriso ausente
é mais do que eu...
E eu sou quase nada...

Raiado...

Raiado...
A sangue...
Com revolta...
Com asco...
Este verso vai durar apenas uma noite...
Aproveita...

2005-07-01

Cansaço

Estou cansado de chorar,
de sorrir
para não esmaecer,
cansado de lutar
e desfalecer
quando me encontro sozinho,
com ninguém
em mim,
vazio...

Estou cansado do cansaço,
do lento entorpecer
dos dedos,
dos olhares turvos
longínquos
que respiram do medo.