2005-06-30

Em passo incerto

Percorro,
em passo incerto,
as rimas que tombam
sobre este dia,
o momento em que desperto
e quase morro
tem um nome:
poesia.

Parte de mim sou eu,
repousa nas ondas serenas da madrugada
um excerto,
um canto qualquer
que recria a alvorada
ou cair da noite, ao fundo
no horizonte...

Enquanto dia em mim
outro eu se esconde,
omite-se,
prescreve-se às máscaras que nascem
face a face
sem fim...

2005-06-25

Levem-me convosco

Deixa-me seguir teus passos,
percorrer os trilhos
dos sonhos,
fazer deles meus
como se fosse sempre a teu lado,
como se a amizade
ou a saudade
fossem apenas um espaço vazio
onde não cabe a idade...

Inunda-me um hiato
que sustenta a falta de firmeza,
não quero,
não vivo,
não respiro esta nuvem de tristeza...

2005-06-23

Coisas que não se dizem

Quando estou com amigos há pormenores que lhes escapam, faces que se mostram e há, sempre, muita coisa que não se diz.

Coisas que não se dizem (fora do silêncio)

Cada pessoa é um mar
tumultuoso
e incerto,
que busca uma reentrâncias na vida
que ampare as suas marés,
que receba com alegria
as ondas rebentando
a seus pés...

2005-06-17

Da terra

Queria escrever ainda mais.
O "post" anterior soube-me a pouco. Sabe a pouco porque consigo escrever apenas um décima parte do que penso, do que sinto. Que falta me faz um mecanismo que traduza, digitalize, automaticamente, o que se cogita.
Andei a percorrer alguns dos poemas, encontro tantos, quero escrever sobre tantos, escrever tantos mais, mas tenho que parar, respirar, escolher um que me sorri.
Mais um poema. Um que tem rastos de passeios pelo monte, pelas aldeias perdidas, pelas gentes agrestes do campo, do fim do mundo. Da minha gente. Que amo.

Da terra

Cheiro da terra,
Carícia de mão rude e calosa,
Alfabeto decorado entre tojos e medas,
O odor do presunto,
calor do lume brando,
Paro o tempo para dar de comer a esta alma gulosa.

Fumo nos telhados,
Colmos molhados,
Paredes negras de fuligem que sai dos olhos,
Imaginação do lado de lá,
A cidade surge apenas em sonhos,
Caminhos de pedra forrados a merda de gado,
O chiar de rodas,
O aceno inocente de quem em sorrisos se dá.

Saias corridas,
Cortinas de folhos até aos pés,
As chinelas ribombam no pátio como o trovão,
Um pôr do Sol indica se amanhã é dia de monção.

Corre o negro da cinza nas mãos dos putos,
Lousa que grava apenas o riscar do giz,
O nome mal escrito como o sotaque torcido de quem o diz,
Mãos e olhos,
Talvez rostos,
Gente esquecida pelo próprio tempo,
Sorrisos sinceros e bocas que soltam um só sentimento,
Quando os novos por serem velhos para longe vão
Resta à minha gente apenas um momento,
O frio modo de dizer solidão.
Boinas cumprimentam-me,
Sílabas cortadas às palavras saúdam-me,
O sorriso tímido na face apoiada à enxada,
O corpo torcido amparado no muro que ladeia a estrada.

Sempre os mesmos rostos,
Ficam para trás como uma árvore ou um cercado,
Correm os pastos quase negros, quase sós,
Morrem os olhos pela alma,
Mirra a alma por a idade,
traiçoeira,
Não deixar que a forquilha trabalhe na eira.

São cidades fantasmas por aí,
Crescem em percentagens,
números ocos como o ar,
Fantasmas vivos,
farrapos, habitam em noites chuvosas
E dias de calor ou tempestade.

O olhar continua aqui, em mim,
Furtei-o ao último pastor que saudei,
O cajado escreve umas quantas rimas, ou ovelhas,
Perpetua as gentes do campo,
A pureza com que sonhei.

2005-06-16

Saudade ou não...

Há mais histórias, contos e poemas num minuto de vida do que em todas os livros do mundo.
Escrever o que vejo, como vejo, as pessoas, os locais, cenas e cenários, tudo é imenso, tudo é enorme para poder reduzi-las a meia dúzia de palavras.
Posso tentar, sempre, que cresçam das mãos palavras, frases, tal como saem de meus olhos, mas é difícil.

Tudo é saudade

Tudo me sabe a saudade,
A terra molhada nas unhas e palmas das mãos,
O suor e seiva dos olhos
Que caem e fertilizam os chãos.

Tudo me cheira a saudade,
O corpo, um corpo estranho visto de longe,
Uma qualquer aparição consciente de meus sonhos,
Um beijo de alegria na face,
O calor tórrido, excitante, de névoas sobre a cidade.

Tudo me sabe a saudade,
Cores,
Negros, brancos, amarelos, vermelhos,
Todas as cores de um arco-íris nas faces,
O mesmo olhar, raiado ou não, da tristeza nos espelhos,
Dores,
Partos de um sorriso que teima em não morrer,
Esgares paridos de encontrões no meu peito,
A lama onde me deito,
O sumo da vida que é espesso e ambíguo,
A faca nas costas,
Falsos amigos que induzem ao sofrer
E são o meu consciente declínio
Que espreita em cada casa,
Em cada postigo.

Tudo me mata à saudade,
O aperto de mão, ou um abraço amigo,
A sensação de liberdade
Quando não estou comigo,
O vento, a luz, o escuro, a água
Tudo, mas tudo, é melancolia,
Estrangeirismo do amor afundado na mágoa.

Tudo me lembra saudade,
O vazio, o pleno, a solidão, a multidão,
O sorriso, o chorar, o amar (ai o amar…).

Tudo…
Tudo me faz sorrir,
Caminhar lentamente pela estrada acima,
Calcar merda, afagar uma planta, aspirar olhares meus vindos de outros, outras,
Mirar movimentos e saber quem sou eu,
Apenas eu e mais ninguém,
As faces, membros, olhos, tons, as estrelas do céu,
O negro do incêndio, as flores que germinam para a água dos meus sonhos a cair,
O deserto, o polar, o neutro, o ácido,
O poema, a prosa, o homem, a mulher,
O corpo sozinho que bebe e que outro corpo quer…
Tudo me cheira a poesia,
O ar quente da montanha, o salpico da maresia,
A gota leve que cai da ampulheta do sangue que vivi,
A eterna saudade do conto,
O poema que ainda não escrevi.

Lençóis

Atado em sonhos,
Sulcando novos rumos que desconheço
E que, sinceramente,
Não sei onde vão dar.

Crescem à medida que se enchem de água meus olhos,
Em loucos bailados desconexos
Num aperto de mão e sangue quente.

Memória, fustiga a paz de negro cantada,
Acordes de uma guitarra a amar,
O movimento dos dedos na estrada
Traçando linhas,
Traços longitudinais,
Paralelos, trópicos,
Guias imaginárias que percorrem a saudade.
Lágrimas que brotam
Sob o aperto surdo do coração,
Que emana medo
E consome felicidade.

Orifícios num portal,
Ferro forjado e retorcido
Que enclausura o meu segredo,
Um laço azul e amarelo
Que lidera o meu dormir,
Apaziguando o calor do corpo,
Aquecendo o frio do sofrer
De olhar para o vazio interior,
Perscrutar a parede rugosa,
Ver gotas salinas correndo,
Dançando em rugas movediças,
Saltando cicatrizes do sorrir
Que afluem ao grito inaudível
Desta que é, enfim, maneira de doer.

Respiro…
Involuntário inspirar de estrelas,
Soprando o verde de um jardim
Que nasce na palma da minha mão.
São rosas, senhor!

O canto de uma coruja,
Enquanto escrevo à luz das velas,
Um pensamento que surge e indaga:
- Porque estás assim?
São as incertezas do corpo que some,
Foge a alma para o abrigo sem guarda
Onde espera a vinda do sorrir,
E escreve o sal no vento errante
O sonho que vislumbro antes de dormir.

2005-06-15

Na matéria

Há já alguns dias que nada tenho escrito. 
Confio na memória, gravo tudo o que vejo, ouço, sinto e falo, mas no final nada tenho escrito.
Encontrei alguns poemas que escrevi, antigos, e é curioso ler com outros olhos, diferentes dos que os escreveram, mais claros. Poderia rasgar alguns, mas os poemas, o que escrevo, são como experiências vividas, são momentos gravados, fundo, vivi-os, escrevi-os.

Matéria

Quero deixar a matéria,
Que se aglomerem nas abóbadas centelhas de sorrisos
Palpitando a cada lua que passa.
Nas veredas de Inverno onde descansa num solstício
Mora o sonho de vaguear em todo o momento,
Porque tenho eu de ser corpo?

Sentimentos que se comprimem no meu peito
Fugindo à imensidão do vazio, da voz no escuro.
Sorrio apenas quando exausto me deito.
Na fria porta de saída aberta para tão alto muro,
Não cabem mais indagações à relatividade,
Nos escombros da carne crua e fria,
Mas do alto do nevoeiro que surge à madrugada
As canções que ouço são frutos,
E emergem em golfadas de água acetinada.

Estou preso numa masmorra fria e solitária,
Quero mover-me, mas o tecido tolda os movimentos.
Isto que chamam corpo é sólido,
As emoções que sou não envolvem o tudo
Pois crescem infinitamente desde sempre a nunca,
Tendem às ilações do sozinho fogo que abomina
E correm vagamente para fora da matéria
Que se ilumina.

2005-06-08

These mist covered mountais

Regresso a casa e vejo a neblina em torno das montanhas, não muito altas, com muitas casas, à boa maneira escocesa, daquilo que chamam "mist covered mountains".
O termómetro do carro assinala 30º C, um ar bastante abafado para as 21:00 tolda-me o raciocínio (se não é o calor é o frio) e vejo o nevoeiro. 
Nevoeiro? 
Parei o carro numa curva, do lado exterior, com vista para uma parte do Vale do Sousa, contemplando a paisagem, as casas como cogumelos, algumas estradas e aquele nevoeiro. 
Nevoeiro?
Não era nevoeiro, não, era fumo, despojos dos incêndios que lavram por estes lados, fumo misturado com suor dos heróis ou bombeiros. Da janela, porque é noite, vejo umas labaredas que se estendem ao longo do contorno do monte, o fumo é laranja e eleva-se no céu escuro, como se fosse uma grande fogueira de São João. Pelo meio estão homens abnegados que travam uma luta desigual. Amanhã, antes de sair para a escola, devo ver novamente "this mist covered mountains", mas este nevoeiro arde, não me permite abrir a janela e sentir o seu frio, não, arde, faz doer os olhos e quando ele se levanta ou dissipa, a paisagem que descobre faz doer a alma. Não é preocupação nossa, para quê? Natureza? Incêndios?

As pessoas estão ocas de valores, privadas dos seus sonhos, são fruto apenas da m**** que lhes enfiam através da televisão, das revistas. São marionetas movimentadas por cordas de uma guitarra tocada por energumenos, daqueles que poderiam fazer algo em prol das pessoas e não em prol da sua conta bancária, do share de audiências, são ocos. São falácias ambulantes, crentes apenas na progressão da sua carreira, de um deus qualquer, com letra minúscula, que observa do alto, de todo o lado, que "proteja os meus quando precisar".

A coerência não faz parte do dicionário de cada um, pelo menos de muitos que conheço... Existiram culturas que exultavam a seriedade, os valores pessoais, a honra, a ética (uma ética muito além da subserviência dos dias que correm), porque caíram?

Como é possível passar ao lado de problemas, varrê-los para debaixo do tapete, sentir o cheiro a m**** e nada fazer para limpar e desinfectar. Vivemos o medievalismo mental, cheira mal, não há ideias, varre-se a m**** para debaixo do tapete e continua-se a dançar sobre ela, pisando-a, sentindo o cheiro fétido, mas sorrindo pois não se vê.

Sente-se, mas não se vê.

Mas para quê preocupar? Não é meu problema. Arde e depois? Quase me consigo imaginar com os pés sobre o tapete e calcando a m****, sorrindo de desdém para alguém com uma preocupação diferente, com ideias e ideais e dizendo "isso é utopia".

A utopia é apenas um termo utilizado para nos desculparmos e fugirmos de uma ideia válida, que no entanto nos irá obrigar a mudar as nossas prioridades, que permitirá deixarmos de olhar para o nosso umbigo.

Quero estar aqui para ver a reacção das pessoas quando o verdadeiro nevoeiro se dissipar.

"These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms"
(...)
There's so many different worlds
So many different suns
And we have just one world
But we live in different ones
(...)"
Dire Straits, Brothers in arms

2005-06-01

Os vossos olhares fundos de solidão

Olhares fundos de solidão,
saliências na noite
e reentrâncias no alvorecer
que sucumbem na solidão,
longas nuvens de fumo negro
que sai da alma
e do sonho
para em teus anseios morrer.

O toque na pele é lapidar,
é frio e distante
e, no entanto,
é mais que carente,
é fremente,
é dor contida nesta lágrima
é o embalar surdo do teu chorar.

Quantas cadeiras e divãs,
quantas?
Quantas das faces te escondem
o chão,
onde te sentas e sentes
os olhares fundos de solidão...
Olhos fundos de esperança
Sou de mim eu mesmo
algo que encontra em ti,
noutro
ou noutra,
um novo sorrir
um velho olhar
que ofusca as paredes espessas de fumo.
São mais que as carências
essas rodas de algodão doce voador
em mãos vazias de outras mãos,
em sorrisos ausentes de amor.
Sobem e caem nas ausências
no âmago das tuas existências,
fazem deste fio de Ariadne
uma ténue lembrança
da água que fugia desta fonte
para cair, serena,
embalando os corpos numa indistinta dança.
Se os dedos esgrimam no ar
a ânsia de tudo dizer,
os olhos fundos de esperança
trazem à memória
mais que sonhos a viver,
toda uma vontade,
utópica,
de tudo amar...
Vem ter comigo neste recanto
onde descanso,
das almas doutros
que carrego,
que sustento,
sou eu da solidão
como o mar da gota,
da ansiedade ao tormento
um mar que não alcanço.
Termina em ti
ou na próxima vez
as mãos que suspiram
"Ainda não foi desta que vivi",
vacilam
com altivez
nos meandros da estátua que a todos sorri...