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A mostrar mensagens de Janeiro, 2017

Agora, que todo o tempo morreu

in Bird Magazine , em 29/01/2017. Vou caminhando por entre as palavras, há um labirinto imenso de onde não quero sair, a dimensão onde tridimensionalmente me acometo às letras e as guardo, para mim, apenas, sem saber delas onde pousar lesto o pé e devagar o olhar.  Cá dentro, na caixa onde se inspira um bater compassado, vou tecendo de olhos no céu um arco de volta perfeita, cabendo na palma das mãos a luz que invoco à gravidade do astro que um dia sonhei brilhar.  Não há pausas na vida quando ela se senta ao sol, parada, contente, como um punhado de flores que se sabe feliz por não ser gente.  Floresça a realidade por fruto de imaginação, quando nada há a dizer tudo se escreve pois infla soma e esvai-se psicose no direito a ser-se mesmice.  Quem nunca pesadelou no que já disse?  Esqueço-me de vós, mãos, porque vos trago em concha na tentativa de vos encontrar pousadas sobre os meus ombros. Quantas palavras da nebulosidade condensaram os pensamentos ascensos?  O Sol permite-se

Onde o ribeiro passava

Crónica de domingo na Bird Magazine . É sob as estrelas que me confesso senhor da criança em mim. Longe dela, alcanço-a sentada a ler num qualquer valado. Lê campos de trigo, pomares e estuda ao pormenor as grainhas das uvas que imprudentemente trinca. Chego a perguntar-lhe o que lê, mas afasta o livro e o pequeno bloco onde anota os shares e os custos das suas acções preferidas, as boas acções. Desenha caras, episódios, gentes e momentos que parecem saídos dos tempos de escola, sentimentos, sensações, passos semipassados e alguns empurrões. Tudo ganha forma de disformidade imaginada, existem poucas letras na beira da estrada, apenas passos a descansar, refúgios, não vá um dia o mundo acabar! Consigo erguer-me à altura do ombro enquanto dormita embalado por alguma recordação. Hoje não. Amanhã talvez. As palavras que este outro eu redige são as lembranças de criança adulta, poderia eu saber que estas frases mal confeccionadas são na realidade toda a minha, avulsa? Cada passo i

Eu e tu, noite.

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Crónica no Correio do Porto . Pouso a saudade no cimento frio. Nestas noites, até de mim rio. Deixo-me a olhar o céu, a claridade do dia a desaparecer, sombras de um sol já a esmaecer, as estrelas começam timidamente a cintilar, parecem mais envergonhadas do que eu, ganham força contra o próprio céu e, de este para oeste, de oeste para este meu mundo, formam as constelações que eu quero. Fazia-me já falta, o deitar no chão, o calor da terra como cama, o frio que se desprende até à madrugada. Eu e tu, noite. Eu e tu. Sibilantes correntes telúricas impelem-me a içar parte de mim, sou já folha de livro por ler, a esvoaçar, sem já me ter. Saio leve e sem prisão, sem fulgor ou religião, ascendo sem o saber, apenas puxado pelos sorrisos e aromas que mora em cada uma das estrelas. Sem lei, apenas uma, bem sei, gravada num olhar fechado sem cor, Amor. Olho para trás, já só eu no chão jaz, passo para o lado de lá da noite e espreito por cada uma das estrelas para este pequeno mundo (que pe
Tu que me ouves o silêncio, entrando a noite sem cais, um mar inteiro náufrago pergunta à espuma baça da maré onde vais? Nem me sei escrito eu que confundo o silêncio com a montanha grito onde me cais? E soçobro à singularidade matinal a vida na manhã sacia o arado o sonho o Deus dá-me vontade de outros tantos eus, no olhado semeado a inocência infantil aspira reflexo apaixonado que partira ausculta em que nota amais?

Caminhos

Crónica na Bird Magazine , 15/01/2017 Chego a um caminho que percorri de sacola às costas durante os anos da escola primária (saudades e reconhecimento à professora Eugénia e à Srª Rosalina, cujo sorriso ainda me cativa). Os campos tímidos e nus. Resta a presa de água, o rio e um pescador. Parece-me ver os marmeleiros do lado de lá do rio, os mesmos aos quais puxávamos os ramos na ânsia de apanhar algum marmelo. O caminho está mais largo, ainda de terra batida, rasgado para dar passagem a qualquer carro que deseje levar o seu dono pelo meu caminho da escola. O sol cobre os campos saciados e convida a parar um pouco. Pergunto-me se a mina ainda está no mesmo sítio, se ainda tem rãs e quase me convenço a ir lá, tirar as ervas, afugentar as rãs e beber. É engraçado, não é? Não há nenhum caminho por onde tenhamos passado que não possua ainda os nossos passos. Tenho vontade de ficar sentado ali, a ver-me passar para a escola, neste caminho onde o passado e o presente se cruza, onde os meus

Nasceu a constelação

Crónica na Bird Magazine (08/01/2017). Não havia muito por onde estar, estendia-se o olhar pelo horizonte e onde alcançássemos com a vista era onde poderíamos estar, por isso o que se via era o que existia.  Ainda que se constasse que se sonhava, tal poderia ser apenas possível em jeitos de profecia, de vozes inacabadas que o tempo ia empurrando para a frente, de gerações em gerações. O silêncio abalava-se apenas e só quando um badalo, que pendia nos muitos pescoços das pequenas nuvens que pastavam, mais pelo arrepio de frio ou por um ajuste necessário ao melhor conforto do corpo que pelo movimento. De noite todos dormem. Melhor assim, no silêncio, onde o desnível colorido entre o negrume noturno e a paisagem árida tornam possível olhar o céu na complacência ao alcance de quem, pastor, se deixa ver nas tremeluzentes estrelas que não se sabe ainda serem moradas celestes, apenas gigantes desenhos separados por um pequeno gesto de unir pontos, indicador em riste, até a imaginação dei

Folhas caídas de um mar

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in Correio do Porto . Não deves ter visto, quando certamente tiveste oportunidade já o que desenhei no céu da noite tinha desaparecido com a luz madrugadora do Sol ainda este vinha a barbear-se pelo monte acima. Passei a noite de queixo encostado ao corrimão do alpendre, a olhar para o céu, a arrumar as constelações a meu jeito. Diria que seria escrita, mas as palavras têm uma certa tendência para se aninharem no meu colo e quando as quero usar lançam-me o olhar mortiço e preguiçoso de quem está entre sonos e pede um pouco mais de descanso. Acredito que hoje, a caminha de casa, quando for a imaginar os caminhos que gostaria de percorrer, surjam perenes e sem demandas se aninhem no banco do passageiro, criando paisagens que conheço apenas de antes de nascer. Talvez logo, quando o cansaço da noite mal dormida me puxar o calção-pijama, eu sinta que as palavras que me fazem falta sejam o conforto que encontro na ausência piramidal de um futuro onde se falaram vozes que jamais ousei ouvir