2010-09-29

Leito

Há um lamurio escorrido
das frontes,
do rio,
das cansadas enxadas
e das calosas mãos de rosas,
em borbulhar desatento
às curvas gémeas do leito
que namoram à janela do tempo
com as faces,
com o vento.

Criançalizar

As ameias do castelo eram feitas de imaginação,
o fosso cavado tinha laivos de sonhos
e Verão,
eram as tardes dias a fio,
caminhos feitos no ar
sem conhecer um navio,
mas comandar o mar.

2010-09-28

Desisto de tentar escrever no papel e faço-o no chão, primeiro com o pé, depois, aninhado, com ambas as mãos. Está lá tudo, na terra, castanha, como só as raízes conhecem. Ponho-me de pé, tudo agora em perspectiva, sacudo as mãos nas calças, uma gota de suor escorre pela fronte. Com os braços estendidos contemplo a minha (des)arte e, de repente, é como se me abraçasse e adormecesse, com a certeza de jamais acordar.

Contra(´)rio

Senta-se no banco. Um sorriso. Um esgar. Posição 3/4. Agora a cabeça, isso, um bocadinho. Tanto não. Isso. Sorri. (espera) Um bocadinho. Agora sim. Sorri. Clique. Vum! Por artes mágicas, saem 6 ou 8?, tipo passe, esta é oferta. O clarão, o barulho, a carteirinha de plástico, 8 fotografias quentinhas. Meia dúzia de passos fora e, eu sou assim? Curioso como olhamos uma vida inteira para alguém que somos ao contrário.

2010-09-27

A vida em 5:46. O tempo em que se vive uma vida. O segundo em que a vida nos pontapeia na boca. O minuto em que parece que tudo nasce à minha volta. A paisagem que muda e eu, mudo, sem escrever, sem claudicar à vontade de ser mais que palavras, apenas e porque me perguntam, a mim, 34 anos de encadernação, o que (ainda) quero ser, quando descobri, há milhentos, que eu sou eu... e vivo bem com isto.

2010-09-22

Dificilmente a terra tornará a rodar no sentido que a conheci, para lá, para cá, de uma forma que, a meus olhos, até os meus passos pareciam ter direcção.

2010-09-14

Encontrar a sombra mesmo atrás de nós, um vulto que não nos pertence, nos dias em que caminhamos contra o Sol, é aterrador. Como o é ser sombra num vulto que não somos.

2010-09-04

Arraia lar

Ainda que me morda, a vida vai despertando-me para as memórias vividas agora, no presente.
Percorro novos caminhos, mas o granito parece ser o mesmo que sucumbe primeiro e, depois, altivamente, nos suga aos confins dele mesmo, para sabermos o que é ser estrada, a direcção sem sentido, o fazer parte do percurso sem nunca ter caminhado.
O arraial arrailado está, as velas vão iluminando sem o mesmo vigor, agora que a enxurrada de orações passou e ecoa apenas nos olhares que se lançam às vestes alheias ou nos vultos que se vestem de espuma no fundo do copo.
A banda bandaliza o que pode, de música apenas o baixo, grave, que me acerta como se alguém batesse ao corpo com pressa de entrar.
A música musicada está, ameaçando com os seus espectáculos espectrantes romper o que sobra do tempo que ainda se cola à igreja.
A igreja igrejada está, teima em tentar perceber, não eu, que desisti, a característica desumanidade de humanizar a religião construindo muros em torno de altares, destruindo liberdades em torno de olhares, sem saber, a humanidade, não a igreja, que o altar mais sagrado é aquele que somos, cada um de nós, mais ou menos granitizado, mais ou menos marmorizado, dentro e fora, para dentro e para fora, do que existimos e fazemos existir, para sermos nada mais nada menos que um mero e fulcral paralelo no caminho de alguém, uma estrada sem direcção, um altar que, sem o saber, venera as fachadas que quem não se sabe luz faz erguer.
Ergue-te, altar, tu, que te esperam já as estrelas para te verem sorrir, sonhar...

2010-09-03

Com bal ido

Pousei a alma sem me lembrar onde e o meu corpo, combalido, vasculha pela mente uma acendalha que ajude a atiçar uma sombra que ilumine o cansaço e o derreta, até o curto pavio sucumbir à memória e a alma, que mora onde não estou, possa surgir novamente.