2008-06-27

Se por acaso (ou propositadamente) não voltar aqui hoje, sexta-feira, fica desde já os votos de bom fim-de-semana.

O suor que me escorre

brota das fotografias
nos sorrisos falsos,
a bestialidade da besta resume-se
à complexidade dos corpos
que a habitam
sem nunca os viverem.

Amortalho um corpo
resto de gente, ossos e carnes fecundas
para que descanse enfim eu
longe,
bem longe,
das pobres gentes maiúsculas
com vogais fúteis e imundas,

Dorme-me,
cansa-te do peso do irreal,
absolve-te do delito a que muitos
(quantos serão?)
chamam respirar,
tu não és aquele,
és o tal...

2008-06-26

Talvez seja isto a quem chamam crescer

Olhei-me hoje ao espelho com a mesma ingenuidade de criança, não fosse eu uma criança (bem) grande. Enquanto o cabelo cai e algumas pequenas partes começam a ficar brancas/grisalhas, dou por mim a ver que a barba está a ficar branca com mais rapidez que o (suposto) normal. E, assim, deixo-a crescer, durante uma semana (aproximadamente) vou vendo ao espelho, aqui no escritório ou em casa, o avançar, a conquista da barba branca sobre a negra. Um dia visto-me de verde, com uma espécie de veste, um chapéu à Robin dos Bosques (não confundir com o imposto) e fico o Peter Pan completo!
Gosto de me rir, ainda, com estas pequenas coisas de mim mesmo. Longe vão os dias em que me debruçava sobre o lavatório para chegar mais perto do espelho e contava (sim, contava!) os pelos aos quais já eu chamava barba e orgulhosamente cortava-os (e algumas vezes a pele), na esperança de nascerem mais, mais abundantes, mais rápido e mais negros. Agora... Agora vejo-os crescer brancos e não os corto. Cada cabeça com sua sentença. Neste caso, cada eu comigo mesmo.

O poema seguinte nada tem a ver com nada que escrevi acima, é apenas um poema, num registo que não fazia há bastante tempo e, pasmo-me, gostei de o fazer.

Não são meus os torpores,
nem o frio que a noite semeou,
são de meus braços amores
o tempo que de mim se apossou.

Um empedrado caminho oculto
que conduz ao olhar que não existe,
é tudo o que em mim resiste
na agreste mão fechada de um vulto.

2008-06-21

As esferas que oscilam
na perpendicular do meu sentir,
profetizam novos dias
que amanhecem
entre um suspiro e o sorrir.

2008-06-15

Há tanto tempo. Há tanto tempo que procurava e assim, de repente, surge um dia sem computador. Apenas desejo de escrever, de ler, de ouvir, de partir o silêncio com um silêncio ainda maior.

Tenho escrito pouco por aqui... Tenho saudades de vir deitar os meus personagens antes de ir dormir, de lhes dar asas, de pousar algumas das histórias aqui, para que leiam e para que eu desperte um pouco mais. Mas não tem dado.

Ando cansado desta máquina, vence-me aos poucos.
Não sei se planto o tempo
ou a vida
me colhe da semente,
na eira dos meus sentidos
não há Sol
que seque
alguns grãos em mim
feridos...
Enquanto o Sol não me faz nascer
germino na terra
das minhas palavras,
onde me banham húmus atenuantes
da vida
e do papel,
que rasgo e onde desenho
o Sol
que me fará nascer...
Repousaram as sombras
e os degraus que me galgaram,
não há chuva que caia em vão
nem terra
que não mereça ser chamada
chão...

2008-06-12

Foi assim (e eu gostei tanto...)

"Encontro com o poeta: José Miguel"
No dia 6 de Junho de 2008, no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa, os alunos do 7º ano puderam contactar directamente com o poeta José Miguel Alves Gomes, que gentilmente acedeu ao nosso convite e se deslocou à nossa Escola.
A sessão subordinada ao tema “ A Poesia”, contou com vários momentos: visualização de um vídeo com um excerto da apresentação oficial do livro do autor: Para Lá do Que Vejo, na Casa da Cultura em Paredes; espaço de diálogo, onde os alunos questionaram o autor sobre a sua vida pessoal, profissional e literária; leitura expressiva de poemas do José Miguel Gomes e, finalmente, os participantes do concurso literário de poesia dinamizado pela Equipa da Biblioteca brindaram-nos com a leitura dos trabalhos vencedores e tiveram a honra de receber, pelas mãos do nosso convidado, os diplomas de participação.
Em suma, foi uma actividade enriquecedora, com uma participação empenhada dos alunos e pensamos ter desenvolvido o gosto pela poesia.
Mais uma vez gostaríamos de agradecer ao José Miguel Gomes pelo momento agradável que nos proporcionou…
As professoras de Língua Portuguesa do 7º Ano."

2008-06-09

Mosto

A música
dos sons que ainda não ouvi,
os sorrisos
nas cartas que ainda não li,
o eco das palavras
que ainda não proferi,
nas costas que prenunciam um adeus
que nunca vivi
moram as vitórias,
abraços e glórias
do que sou
por ti...

Nas nuvens que dissiparam
as agruras
e lágrimas
que me lavaram
moram corpos sem rosto
e lagares velhos
sem mosto.

Traço a meta no que sou
e nos caminhos
que escondi,
na poeira
e luz
mora o tépido sonho
onde de mim
nasci...

06 de Junho (não apenas uma data qualquer)

Gosto de escrever sobre isto, as pequenas conquistas. Não sabia era que estas pequenas conquistas chegariam até mim e escreveria sobre elas.

O programa de Português, no 7º ano, da Escola Secundária de Penafiel, incluía a divulgação de jovens escritores da região (Vale do Sousa). Palavra puxa palavra e a Eulália, minha cunhada, pergunta-me se estaria disponível para ir à escola falar com os alunos, integrado nas actividades da disciplina. Aceitei, claro, como sempre faço, sem pensar nas consequências que, quase sempre, redundam na minha ansiedade a lutar contra o tempo. Vivi os dias anteriores com muito stress, pelo que poderia dizer, pelo que iria dizer, por ir levar alguém que não sou, por tudo e por nada.
Confesso que adorei e aprendi muito. As perguntas dos alunos reflectiam a análise que fizeram nas aulas (sim, durante umas aulas, o sumário foi algo do género: "Preparação para a visita do escritor José Miguel Gomes"), muitos questionaram as professoras sobre o que queria dizer "trago no corpo roupa cansada de me usar" e a maior parte tirou dos poemas algumas ilações que me fazem pensar.

Cheguei nervoso à escola, dentro do timing, mas confesso que depois de ver as 3 turmas do 7º ano tudo passou. Sabe tão bem ser bem recebido. Eu não sabia, mas, mais uma vez, a Ana e a minha irmã Anabela prepararam uma apresentação para os alunos visualizarem antes da sessão de perguntas. Composta por partes da apresentação feita no dia do lançamento, fotografias do lançamento, a música do Luís e outras "coisas", foi um momento engraçado, em que os alunos riram-se da minha abundante "trunfa" de criança :)
Algumas perguntas, pensadas na sala de aula, versavam sobre os poemas e sobre mim, quem sou, o que faço, idade, onde gosto de escrever, o que me inspira, etc. Mas algumas perguntas bateram bem cá no fundo, pela profundidade das mesmas e por serem algo que eles "assimilaram" na leitura dos meus poemas. Uma delas foi, curta e pura: "é feliz?".
Compreendo a questão, rio-me e tento responder. Sim, sou feliz, à minha maneira, na minha insatisfação, mas também porque muitos dos sentimentos que estão nos poemas não são meus, são das personagens que vejo, encontro e invento.
Seguem-se mais perguntas e eu a responder, num exercício mais enriquecedor para mim do que para eles...
"Para si o que é o amor?" - pergunta chave do encontro. Creio que já nem recordo o que disse, mas sei dentro de mim a resposta.
A primeira sessão completou-se com umas palavras do Presidente do Conselho Executivo, a entrega dos prémios de poesia e a leitura dos poemas premiados.
Esqueci-me (ainda estou algo desconexo) que no início leram poemas meus.
Hora de café e regresso ao auditório para nova sessão com as restantes turmas do 7º ano.

Desculpem-me... Estas coisas só poderiam ser escritas mais tarde, depois de estarem bem assentes em mim, mas ainda estou extasiado, com os miúdos, com a forma como fui tratado e por uma pequeníssima conquista (como a alegria de ter juntado dinheiro suficiente para um pequeno chocolate enquanto pequena pessoa) que vale por todas as possíveis derrotas, passadas e futuras.

Obrigado a todos, do coração.