Outeiros

“Outeiros”. a crónica tresmalhada no Canal N.

Nas viagens que se fazem pelo silêncio em nós sei-o nunca estarmos sós. 


Na neblina que se agita e nos cobre os pés de orvalho há todo um muro coberto de musgo ou as folhas de um carvalho. 


O cajado respeita-se pelo sustento, literal e metafórico, com que ordena o bastonário, a existência e as vidas, de olhos semi-cerrados, cercando o cercal em toada firme, não perdendo de vista a clareira onde o rebanho se torna como uma massa única de algodão doce, como nuvem a levitar no prado acinzentado de um verde que teima em não despontar. 


O respeito pelas profissões é urdido ao redor de um selo carimbado, os socalcos latinizados, o lacre de uma ruga que um casco selvagem de garrano gravou na face, os créditos de um labor que debita a cada dia, sem pudor, as gotas espessas de um esquecido e ostracizado suor. Pelos montes onde velejam náufragos de um mar ausente, no redemoinho do vento nas urzes paira a semente, o piscar das altas torres eólicas assinalam o caminho errado a quem voa, mas o cascalho a quem se faz ao certo não perdoa, talvez por isso o pastor percorra caminho onde não se faz estrada, no lameiro ou no trilho do cordeiro, acompanhado de si ou, então, sozinho.


Quando o vi tirava a boina, partilhava comigo uma alva careca embora nele se notasse a tez negra de uma pele que serve mais do que vestir-se de flanela, não pude reparar na fronteira estabelecida entre o olhar que fitava e o fitar que olhava. Embora não soubesse ainda, havia entre nós a certeza de que o outro estaria correcto, mas que a vida era isto mesmo, permitir-nos admirar quem se admira por a vida ser mais do que um bastão ou, noutros casos, do curricular aluvião onde se encobrem saberem para ensinar o que já se sabe, sem se doutrinar a descoberta do que paira além do nevoeiro.


Pela janela aberta ouvi o assobio, um “Ei!” interjeiçou-se, o cão saiu em defesa da ordem, o rebanho alinhou-se respeitando o que do alto vem. A boina voltou ao seu local cimeiro, ao longe sorria-me um outeiro, despedindo-me de um pastor florescido no meio do nada sigo-me viagem, como ovelha tresmalhada.

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