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A mostrar mensagens de Agosto, 2015

Rei, nício lectivo

Crónica de domingo na Bird Magazine . Era uma vez, o mundo, redondo, há quem o tenha visto nascer arestizado, mas a berlindada a que foi submetido arredondou-o numa eternidade que tem durado até os dias de hoje. Haja moratória e berlindará por mais algum tempo. Perdoe-se-me a desatenção. Era uma vez, o mundo começava a outonizar depois de um veraneio quente de serrim colado ao corpo tangido de cansaço pueril, de gotas de suor a marcar as frontes sujas do pó do campo de futebol improvisado entre pinheiros e relva feita de mato e silvas, balneários feitos da parte de trás de um pinheiro manso largo o suficiente. Quando o Verão se carpia em fins de tarde cada vez mais frios, ainda sem ninguém que gostasse do que dizíamos em forma de gostos, sabia-se vir aí o tempo de procurar no fundo da gaveta quais os cadernos ainda mal preenchidos, com folhas pautadas ou quadriculadas, sebentas não sebentas, impolutas, para pousar o pulso e girar um compasso assemelhado a ele mesmo, sem seguranças
É na cálida madrugada do teu olhar que vejo o nascer de um dia futuro. O alimento da curiosidade traz-se pelos ombros carregados de dúvidas e ilusões, tuas e dos bichos-papões. Enquanto a vida não te molda adulto e te vinga pelas paredes de prédios devolutos que são as ideias de outrém, ergo-te à luz da lua e advogo-te às estrelas enquanto brindo com o breve nevoeiro, que te proteja o guerreiro adormecido da tua visão do amanhã. Tu. Criança. Sã. (fragmento V de crónica na Bird Magazine, 16/07/2017)
O cansaço aguarda impaciente pelo meu cansaço tarda quem a mim me traz um pouco de dia o toque de uma mão no vazio nada entre o calor e o frio navega a amplitude sem dono o imperecível  apetecível cansado sono.

À boleia de mim

in Bird Magazine . Saí e ele já lá estava. Apesar do orvalho nos carros e na relva do jardim, permanecia sentado no pequeno muro que mais não é que berma, com as pernas flectidas, a cabeça a olhar para o chão e, com um pau, fazia pequenos desenhos na gravilha. Assim que saí do passeio e pousei o pé na gravilha, mesmo perdido nos desenhos e pensamentos dele, não pode evitar de me ouvir, levantou a cabeça na minha direcção e sorriu muito. Acenou-me e gritou - “Ei!” como se eu não o pudesse ver ou ouvir dos dez metros que me separavam dele. Tem corpo, cara, olhar e sorriso de criança, espera por mim onde quer que eu vá, onde quer que eu esteja, perdi a memória de quando o conheci, até mesmo de como o conheci. Aparece aleatoriamente, segundo os meus padrões, e conta-me histórias que depois escrevo, num qualquer caderno, em prosa, poesia ou chamemos-lhe o que entendermos. Por vezes pede-me que mude de direcção quando conduzo, já nem pergunto porquê, lá terá as suas razões, mas nem assim c
A minha sombra traja-se de meu corpo, ornamenta-se de vida no hiato que separa o abraço que a vida me dá. Aqui, na escalada, sou o que o vulto me fará. A minha alma traja-se de mim. Vale-me a certeza duvidosa de Eu (nem tu) ter fim.
Não te distraias agora noite, trouxe o silêncio para nossa companhia. Se abandonado fosse, fazia-te poesia.

Noite de Verão

Crónica de Domingo na Bird Magazine . O calor vem endiabrado outeiro acima ainda o diabo esfrega um olho, o sono ainda não se lembra de acordar e o silêncio sai estremunhado pelo cacarejar de um galo madrugador, sem receio de ser transformado em cabidela. Esta terra parece ter bafo de bicho, bravo, uma tríade de maldade, humanidade e oportunidade. O mato vai seco como mato se quer, espinhoso afasta quem dele se quer aproveitar, das viagens fugidias de um jovem casal que se desprende aos iniciáticos prazeres do mundo corporal, do pastor que pé lá é coisa que não lhe apetece colocar ainda que lhe fuja uma outra mais tresmalhada, de todo o resto que vigia o terreno com receio de lhe ter que chegar a enxada à mão e esta à terra. Só não afasta a mão falheira, o olhar tolhido de tudo o que lhe possa ser ocasião, diria que não era ladrão, mas vai já lá dar tudo ao mesmo, verão, a ponta do cigarro virada para a palma rugosa e agreste, o bocado de jornal que se fez atrás companheiro de
Colho a morte que da vida nasceu entre mim, carril, e a travessa que me ardeu quero-me apeado em traje de mosto fogueado, sem que me façam ouvir por onde andei nem que me icem onde calei, ali no estender da mão daqui à imaginação sulco com os pés o chão frio quente de nada me vale a vida pela frente sem a retaguarda do torrão violado na abstinente calejada estação em ferro forjado o marco vivo no peito enterrado.
Gostava que todos os tempos caíssem, como se alguém abanasse a árvore que os frutifica, a meus pés, podendo apanhar um a um, armazená-los na minha t-shirt suja, correr para casa feliz com a minha riqueza de ter, para saborear, todos os tempos que plantei.

Sal... vação

Crónica de domingo na Bird Magazine . Existe bastante ironia no tempero entornado à vida, uma cidrazice que fica no amargo de boca de cada vez que inalamos os limites da nossa magneticidade existencial.  O dia encarregou-se de ser dia e o homem encarregou-se de ser homem, ao calor típico da inclinação orbital neste périplo em redor do Sol sucede a humanidade, que se pode avistar lá ao fundo, primeiro num fino fio de uma tonalidade cinzenta, rapidamente transformada em espessa cortina negra que ascende em golfadas como se a própria maldade fumasse desenfreadamente nesta tarde de veraneio. Agora, encarrego-me de, sentado, suster o calor que emana da parede, enquanto estico as pernas pousando-as num banco. Até as próprias inanimadas criações do homem parecem ter vida, respirando ao sabor do dia, suando vida em forma de sensação térmica. E assim, de repente, salta-me à frente a recordação do velho portão de ferro enferrujado da casa onde cresci, das suas vivências enquant

Cantar de Emigração

Crónica de domingo na Bird Magazine . O asfalto faz-se companhia, quente, nas listas alongadas e intermitentes, dum branco luzidio, por vezes apagado e esbatido, ao longo da distância que traduz a separação do ponto de partida ao de chegada, ainda que não se saiba bem qual, a partida, a chegada. O emigrante é um filho que não esquece a mãe. Ou o pai. Vai e volta no intervalo de duas lágrimas, uma pela ausência, outra pela presença. Costumo vê-los, os filhos deles, como a raiz derradeira de uma árvore que necessitou de outro sítio para crescer, florindo cá e lá, no malabarismo da saudade e da felicidade, do conforto e da necessidade, da velhice que chega antes da idade. Com eles, emigrantes, o mundo torna-se mais pequeno e mais nosso, há sempre uma voz lusa em qualquer esquina de uma cidade fora da nossa aldeia, um triunfo da perseverança, o troféu de uma travessia agreste que separa o filho do pai, a filha da mãe.  - São portugueses? - Sim, somos.  - E assim se lança a reco