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A mostrar mensagens de Setembro, 2016
Vem agora a noite, pela calada do abraço, desfolhar-me o frio com que a lua me rescaldou. Ardem as chamas porque lhe regam as labaredas e adormecem as estrelas, com as luzes acesas.

António

in Correio do Porto , em 29 /09/2 016 COM o calor saem da toca os suores, que se deixam cair embalados pela gravidade e pelo ondular do andar torpe daquela forma de gente a quem chamam António. Aqui o nome é substituído pela realidade, de maneira a não se confundir com a ficção. Cruza-se António comigo, o calor não deixa escapar sonho algum de debaixo do chapéu e, como tal, olha para mim com um sorriso desolado. Dele recordo o medo que me mantinha a sorrir amareladamente enquanto passava na velha bicicleta cujo farolim a pender para o chão me hipnotizava. Ele já grande e eu puto, fugido dos horários das carreiras que na sua recta juntavam os dois pontos do segmento de recta que ia da escola a casa dos meus pais. A vida tem sempre os seus adamastores e quando os aprendemos a dobrar ou, neste caso, quando eles se dobram sem os sabermos na forma de uma mão pesada e grossa no cabelo e um “tás bão?”, transformam-se na boa esperança que nos faz passar lá sempre que a maré deixa. Há uma cer

Folheio-me

Folheio-me, os parafraseados dias ditam a brevidade do parágrafo, a pontuação onde descanso a cálida grafia ornamento da palavra que me sorria entre o suspiro e o lamento.

Feitas de sorrisos

in Bird Magazine , em 25/09/2016 Abro a porta do passageiro e iço-te, demoras a largar-te do meu pescoço, tens medo, compreendo. Sento-te no banco e o pó levanta-se, começas a tentar apanhá-lo com essas mãos pequenas e ris-te porque ele foge. Desistes pouco depois, não sei se pelo tempo em que estou simplesmente a ver-te, se por perceberes que vive-se melhor a apreciar a liberdade do pó, do que a tentar aprisioná-lo na nossa mão. O Sol da manhã, na sua diagonalidade existencial, traça pequenos véus de luz onde, deste lado, faz parecer que até o pequeno movimento de sombra que se desprende de ti reluz. Passo o cinto de segurança por ti, não sem um pequeno esforço para te fazer compreender que não é hora da papa, mas sim de viajar. O clique indica que a cegueira da minha mão encontrou o negro invólucro com as letras “PRESS” gravadas no botão vermelho. Fecho a porta com algum cuidado, se saíres a mim não gostas dos estampidos breves e altos das coisas (e pessoas) que se embatem. Embacio o
Na forja gélida da circunferência não florescem paixões, esbatem-se galeões nas rochosas ondas de uma maré, enquanto milenares árvores infinitas observam, tristes, quem as quer mortas, de pé.

Palavras manuais, abraços artesanais

in Bird Magazine em 18/09/2016. “Palavras manuais, abraços artesanais” Quando lhe perguntaram se tinha trazido lâmpadas apercebeu-se que, de facto, deveria ter lido melhor as instruções da feira de artesanato. Sorriu e perguntou onde as poderia comprar, não as queria trazer no carro, disse-lhes, tinha medo que se partissem na viagem, mentiu. Perguntaram se queria ajuda para descarregar, mas o seu encolher de ombros, o olhar para o pequeno veículo ligeiro sem bagageira para veleidades artísticas volumosas e a espécie de esgar envergonhado que lhe fez erguer apenas um canto dos lábios deram a entender que não só estavam na presença de um artesão atípico, como lhes fez crescer a curiosidade em ver, na manhã seguinte, o que estaria exposto para venda no stand C-4-D, (C de cubículo, quatro de área em metros quadrados, aproximadamente e D de tipologia, sem esquina, sem lona a improvisar alpendre, dois casquilhos a bailar no rodopio do fio eléctrico), onde estavam já coladas as letras em vin

Do lado de cá da chuva

in Corr eio do Porto , em 14/09/2 016 VOU, contente, saboreando o final de tarde por entre os pinheiros, oscilando nas sombras e calcando anos e anos de caruma que me almofadam o andar. Já não sei se é tarde, noite, manhã ou cedo. Sim, sei que era final de tarde, mas, para mim, tudo é final de tarde quando o céu se assemelha a um testo que dança ao sabor do vapor que sai do tacho, quando a toalha dobrada se deita para o prato, o garfo, o bocado de pão, a circunferência desenhada pelo cu da garrafa de vinho. Não há tempo. Para nada. Nem para o tempo. Pergunto, a mim e ao sobreiro resistente na esquina que sobeja, quanto resta de céu e inferno até se esfumarem, como o aroma na cozinha quase vazia, as guerras entre o que somos e o que pensamos ser, até por fim deixarmos cair, uma a uma, máscaras, como a caruma. Não obtenho resposta, felizmente, e vou contente saboreando o final de tarde por entre os pinheiros e as pessoas, calado na imensidão de vozes que se calcam. Escrevo-te do lado

Que diferença existirá?

in Bird Magazine em 11/09/2016. Contei três parágrafos, mas apaguei-os. Há algo de incomum em escrever na praia, ainda que a areia seja o retro iluminado monitor, a água se resuma a maré que se esvai porque nada enche o peito de quem de vida se acumula e o Sol se faça de sombras espessas dispersas no alto da noite, subindo-me pelos braços, alojando-se nas olheiras e mirando-me, repetidamente, para verificar se já terminei de escrever para tomarem conta de mim. De repente (por ser repentino e, também, porque não se espera que um parágrafo comece assim, mas perdoa-se tudo, ao menino e o mal escrito ao porque não escritor) sou apenas o reflexo de uma sala na penumbra, iluminada apenas pela música em tom baixo que ouço com o alto, esqueço-me que uso óculos, aproximo-me da janela esquecido da corpalidade e bato no vidro, óculos primeiro, cabeça depois. Rio-me sozinho. Talvez triste de me esquecer corpo. Esquecimento. Corpo. Que diferença existirá? O embaciado desaparece rápido pelo calor q

Pingos de mel

Crónica de Domingo na Bird Magazine . O Sol ainda que não vá a pique, mesmo na diagonal queima como não se lembra de o sentir ou talvez o sentisse antes, mas as memórias não parecem caber em quem vive do lado de fora do tempo e, por isso, não se apresentem sobrepostas como as camadas de pó indistinto que camuflam alguma da mobília. Tarda Agosto em fugir, Setembro impaciente promete calor no ventre e o Verão que se esvai apenas nas férias da canalhada, ávida dos mostruários das mercearias, mercados, minimercados e supermercados. Detém-se sob o beiral, mira as traves de carvalho velho, oxidado, percorre os veios com o olhar e detém-se nos nódulos negros como se todo e qualquer aglomerado de vida seivada se detivesse naqueles círculos irregulares e o chamasse de volta a ser tronco. Sem que deixasse de chover este calor abafado, com nuvens negras altas prenhes de fumo, desprende o olhar da madeira, avalia a integridade das telhas vermelhas algo fendidas, mas sem que isso (ou, na verdade,
Não fosse o relógio, pensaria estar acordado amanhã quando na verdade durmo ainda no hoje. Penso ser quase como o sentir antecipado do morno abraço ainda longe vem o corpo. Não fosse o calendário, pensaria que o tempo é tão irreal quanto de real é o tempo que passou por aqui e me deu corda ao relógio. Estamos onde agora? Entre ponteiros titubeantes com medo de se deterem num minuto? Num segundo? Num primeiro?