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A mostrar mensagens de Janeiro, 2011
De todos os bocadinhos que sou, uns são meus, do granito, do solo que me foge, do musgo na parede, dos degraus toscos, de uma boa amizade, de meia dúzia de olhares trocados, do que se sabe ser, do que se desconhece não ser, das palavras que nunca escrevi, das crianças, dos sorrisos, da boroa com café quente, do riso, do choro. De todos os bocadinhos que sou, sou o mais calado, sem letras. Feliz. À minha maneira.

This was a big river

O tempo dirá, não a nós, talvez às gerações futuras, as vossas, que a minha já o tempo ma levou, se as cicatrizes que não curamos em forma de biodiversidade perdida, a troco de umas discussões egoístas e egóicas, de uns interesses camuflados, de uns emaranhados caminhos retorcidos e austeros, de umas pacificadas águas em torno de um frio muro de betão, semi-erguido por homens, terá sido o nosso caminho... Temo que, tal como hoje, sem sabermos para onde vamos, todo e qualquer caminho não construído a pensar no bem maior será, irremediavelmente, uma cova mais profunda, da qual não saberemos sair. Saberemos que a paisagem era bela porque depois, cegos, lhe sentiremos a falta, da cor, do cheiro, das mãos agrestes que se perderam.

A pé

Imagem
Chove tristeza. Chove e entranha-se na vida, pintando, gradualmente de negro e cinzento as cores errantes com que construo meu lamento. Há um bafiento odor a abandono, um borbulhante queixume ao encontro da maré, sempre vaza, pelos que nos roubam o andar sem saberem que os sonhos se fazem a pé.
De repente, já nem os olhos sentem... O corpo, que se quer ligeiro, vai acumulando vidas num só dia. Ao longe, pelo espelho, as montanhas, os nevoeiros matinais que trazem um sabor húmido, desperto apenas pelo Sol do meio-dia, o som dos regatos que nascem como flores sob as rochas. These mist covered mountains, are a home now for me...
Poucos sabores do mundo se vislumbram também como esta vidraça, quente pelo Sol, meia dúzia de passarecos tolhidos pelas migalhas que estão entre os paralelos, o barulho de um lápis a percorrer o caderno, sôfrego, e eu a imaginar-me, nos olhos fechados, algures entre o lápis e o caderno, entre o voo e o Sol.

Vidas atadas

De vidas atadas se faz um silêncio, de silêncios sulcados se ara um povo, as pedras com que os lapidam têm nome de gente, vozes surdas que se atiçam, num velho Sol que nasce, de novo. Leiloem-se mãos, cegas ocultam um céu igual às noites caladas, onde por elas navegaram os chãos, roubados, sobram agora vários farrapos de nada, afundados, por mar de gente que se faz lodaçal. Os amanheceres prometidos, as nesgas de um tudo nos vários pedaços de nada, estão minhas mãos desfolhadas e cegas abraçando mil corpos despidos. Escuto o vosso horizonte mudo na escuridão que se ajoelha e reza, para ser o amortalhado calado povo que vossa ganância despreza.
Há uma curva infinita no desalentado verde que se agresta, a vida que se jorra aos invernos na maré em forma de ombros de gigante. Escuto o silêncio que ecoo, as palavras que se esbatem no meu céu, sou o pó da sombra em que voo, a solvência de um poema no dia que se esbateu.