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A mostrar mensagens de Junho, 2015

MOSTO

Crónica de domingo na Bird Magazine . A candeia não vai à frente, alumia apenas uma vez e isso basta, o suor cai por vezes nas bagas órfãs e estas rebolam-se como que felizes.  O odor ainda não acidou, a mistura de cimento barrento e terra faz as vezes de chão, os pés são nutriente de uma noite que vai cair tarda nada e os garrafões de vidro e vime emparedam as laterais de uma quase cave, conquistada ao ventre do solo, sob o soalho de pinho repousado em vigas grossas de carvalho talhadas de goiva e ostentando a finura de uma veia cava saliente.  De cima pendem as teias de aranha, o barulho de passos da mãe, falecida, ecoam na memória, mas mesmo assim, ainda que quase perdidos no esquecimento de quem de filho se fez homem e de homem se fez pai, dão qualidade à degustação de um vinho, zurrapa, como se pela espuma vermelha, rosa, se pudessem limpar os lábios de um beijo saudoso. Dizem que não dá para o lucro.  Nem para o prejuízo.  Mas, pelo menos, dá para a ferme
Olha o barulho dos pensamentos lá fora, ecoam como se o amanhã pudesse ser antecipado, eu não nasci fui madrugado, e no calor tumefacto da minha mente quando a pele se cose ao crepúsculo vou andando em frente sem permitir que o ocaso filho bastardo da ignorância possa ousar sequer colocar um pé nos caminhos gratos da infância.

Nas asas

Crónica de domingo na Bird Magazine . Fito o meu braço, rio-me com as letras projectadas, de repente tenho escrito em mim parte da frase “quebrar em caso de emergência”. Fico a cogitar sobre o que o vidro me tenta dizer. Graúdo, não me sobra braço para toda a afirmação, mas curioso-me com a tatuagem possível e ergo um sorriso a esta espécie de sincronicidade, que leva o dia a escrever no braço, no meu braço, “caso de emergência”. Quereria dizer-me, talvez a vida, que o braço, os braços, os abraços, ainda que no calor, sejam um caso de emergência, urgência tida por quem sozinho se faz à vida? Os passos que tento dar rapidamente, para fugir do calor súbito que quase não me deixa ver o empedrado chão, fazem-se acompanhados de uma ligeira praguejação, minha e doutras que reclamam deste braseiro transmontano que visitou a cidade. Abrando o passo quando encontro uma sombra, mas mantenho-me lesto enquanto fito os ponteiros do relógio e calculo os minutos que me faltam até o comboio entrar na
As palavras somem-se no ocaso que habita nesta espécie de esquecimento e ostracismo.
Há uma certa cumplicidade entre o que somos e o que vemos. Como se todo o caminho poeirento se engalanasse para receber novos olhares. Não pela pedra de onde brotam casas ou castas, mas pelo restolhar do vento nas vinhas e pela terra que se levanta em forma de pó e faz sentir, a cada golfada de ar quente, que em Trás-os-Montes nenhum ser está só.

De vida atravessado

in Bird Magazine . Ao ver os miúdos que vão agora para a escola, consigo reviver os episódios da minha infância, a compra dos cadernos e da sebenta, as primeiras letras, um livro da escola com um cisne a ensinar o número dois, o choro de algumas crianças no primeiro dia, o tamanho imenso do recreio… Recordo a compra de um porta-lápis, na altura com um desenho de um herói de banda-desenhada que não recordo, a ultra tecnologia do fecho metálico com íman e as canetas, lápis, borracha, afia, tudo devidamente acondicionado. O caderno novo, onde escrevia, a várias cores, o sumário, a data, a matéria, os deveres, o contorcer as letras entre as linhas e a ansiedade de procurar num cérebro vazio de experiências prévias a palavra correcta para não ter erros no ditado. O correr no recreio, a gritar e com os olhos a piscar, imitando um carro da polícia. Sentar-me na esquina do recreio, que antes dava apenas para um caminho de terra, pouco largo, que dava para os campos e montes por onde passava
Olha, são vidas, mais e menos vívidas, que entram de rompante quando as pedras transpiram de tanto suportarem o engano que o mundano traz nos pés.

Bicho de contas

Crónica de Domingo na Bird .  Encosto-me ao portão de ferro. A pintura negra apresenta diversas falhas, por onde brotam bolbosas bolhas de ferrugem, com se este óxido de ferro fosse uma quente e espessa lama que nasce por baixo da pintura. A mão habitua-se ao frio do metal e à rugosidade suave da tinta descascada. A estrutura metálica a que chamam portão faz-me lembrar uma velha cancela das linhas de ferro, onde uma mão atenta ia puxando a segurança ao longo de um gasto carril por onde nunca circulou um comboio, apenas as rodas conservadas pela espessa e melada massa consistente que as protegiam da intempérie e as faziam prender na areia e terra depositada, deixando no ar o característico cheiro a caminho de ferro. Deixo-me ficar um pouco, atento ao trânsito que passa na curva cega da estrada, onde por vezes cegos condutores se aventuram como se por terem apenas meio olho fossem algo similar a rei. Ao fundo, abrigado do Sol por um telhado de chuchus e suas ramagens, vejo-o senta