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A mostrar mensagens de Abril, 2012
Quem embala a parte silenciosa da vida tem em si a distância entre dois objectos no mesmo local, no mesmo instante, porque o impossível é apenas um esgar entre adormecer e dormir. Alfa.
A motoreta assobia e geme, à frente, enfrentado o frio e a chuva, segue um rosto rugoso ainda mais enrugado pelos olhos semicerrados, um cigarro apagado ao canto da boca. Atrás, mais de 6 décadas seguem agarradas a si, à cintura, com a cara encostada às costas, protegendo-se do frio e da chuva. Uma mão sobe ao peito e afaga o intrépido condutor. Ele sente, o movimento e o calor, não da mão, mas do gesto e sorri. O cigarro cai. Ele não, sobe, mesmo a tempo de enfrentar um pouco mais de chuva. A motoreta assobia e geme. Sem frio, vento e chuva, os corpos não se aproximam, não se afagam e nós não procuramos aquilo de que somos feitos, amor.
Fui beijar a noite, ainda que ela me possua na palma das suas estrelas, é a mão delas que me embala e transporta, daqui para ali, de mundo em vidas, de vida em mundos, até me cansar de respirar entre dimensões e ir habitar um planeta espiral e infinito com arco-íris de oito cores, a oitava é a música que ouço de olhos fechados enquanto imagino pautas com sete cores. E sete é o número. Perfeito.
Cerrado, o dia vai fustigando impérios enquanto as cores do mundo, esvoaçando, se estatelam e esbranquiçam o basalto nascido do fogo e gelo que me liberta quando morre. Arrulham os ventos num facho braços que se abraçam fêmea e macho na guerra de homens ao mar há os que calam e os mudos cujo silêncio é áureo e lar. Cobrisse-me retalho o frio, que me rodeia, é feito de ausência e tinta que adormece no papel, é talhado cru e emerdado sobrinho de Caim irmão de Abel. A língua que se cala galgou milhas e madrugadas, é urze em foice alheia, é ilha de pangeia, o horizonte que me abala anda com a vida de mãos dadas. Foste solo antes de chão água salgada, aluvião, na caneta que me adormece escorrem as palavras de um almocreve nos séculos de uma página deposito, sem glória, em forma de grito ou vitória o soluço de uma lágrima.
Tenho em mim vazio, habito-me ilha despindo fortuna, pouso corpo e nuvem de sina minha em cousas mil que à noite o sonho arruma.
Choveu, como quem se espreguiça, fazem-me falta os trovões, o imponente barulho murmurado da Natureza, como quem se senta no colo da vida e espera, três, dois, um, outro trovão. Nada de relâmpagos, as nuvens que se afoitam e se iluminam para ver saltar a faiscada fugiram e eu, sentado no colo da vida, encosto-me a ela, fecho os olhos e espreguiço-me, como quem se choveu.
Da bruma ergue-se o fumo, o queimado, o negro que reflecte a ausência de quem se coloriu.  O combate pela terra, que não se ama, que se austera e ridiculariza, o rebanho que se precipita sem pastor ou pasto, quem lhe atira o fardo e lhe ordenha os sonhos.  A vida vive-se sem cajado, pelo pasto queimado e, ainda assim, não se acorda o gado, não vá ele saber-se gente.