2021-02-27

Soçobro

“Soçobro”, crónica no Canal N, para ler aqui ou aqui.


Badala-se o sino, a liga metálica repercutindo no ar gélido da manhã transmontana as ondas sonoras de um lamento. Sabemo-lo dia de luto pelo número de toques, o braço firme retesado que firma e puxa o arame, contrai e relaxa o arame. Viver é um ir e vir. 

Algures, entre labutas agrícolas, um ancião retira a boina negra, leva o joelho ao chão bolboso, negro e humidamente fértil, e convida ¬– rezemos um Pai-Nosso por este irmão que partiu – e lestamente, no respeito que merece o fim de uma existência terrena para a partida que se quer serena, os restantes lavradores ajoelham-se e guiados pelo mais velho, o que sabe os toques e repiques, aquele da sábia palavra final, como pontuação sensível no final de qualquer diálogo serrano, concluem a oração, solenemente, pacatamente, sabendo que o tempo é de quem o sabe deixar passar de encontro à sua própria existência.

No adro, o musgo, as ervas e as flores crescem entre as frestas das pedras da Igreja que sobra do Mosteiro. 

– Fomos terra de Mouros – confessam vozes que já não se escutam, – Fomos saqueadores do demónio – afoitam encorpados os orgulhos guardiões de um reino que se maravilha. Todos sabem, no íntimo, que são nada mais que uma ilha dentro do grande lago que os ladeia quando olham ao fundo o Sol e este se põe ondulando no final de um dia, por detrás de uma montanha, sobre uma qualquer infantil alegria.

Imunes a tristezas e pandemias, a canalhada alegra-se com a missa campal, percorrem no olhar o céu rasgado das andorinhas, silenciam-se sem saber muito bem o porquê dos requisitos da morte, mas permanecem na vivacidade típica de quem ainda amanhece.  Os fantasmas, adormecidos, vêm animados novamente os familiares que os visitam apenas ao domingo no cemitério e, de repente, precedência e destino imiscuem-se. Uns lamentando a vida, outros vivendo o lamento. 

O choro da viúva sacode um pouco a temperança da cerimónia, de olhares distantes sai um desordeiro, vil, rompendo as regras e ali mesmo, no adro cheio de vida antes da Vida, lança-lhe um abraço num covil humano onde as lágrimas puderam correr sem vergonha.


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