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A mostrar mensagens de Outubro, 2017
Na escarpada nesga do papel manuscrevo o horizonte onde formo relevos, a cinzel, com o olhar não vergado em que me fujo,  evado a monte sem me encobrir a cidade, longa nuvem na sombra curta meu corpo habitado por mim ainda luta apraz para que no sossego inaudito dos dias que não existem eu me veja nublado, em paz.

Enxertia

Crónica de domingo, na Bird Magazine . As uvas que ficaram para o podador pendem mutiladas de ferroadas agrestes, da vida e das abelhas, ébrias também de zunidos que mais ninguém escuta.acre odor das intrusas americanas encosta-se à tristeza de um Outono confundido, onde todos se queixam do queixume, sem permitirem ao azedume avinagrar na exacta medida do incorrecto, engolindo indiferentes as tragédias entre duas garfadas. O tempo de vindimar passou há muito, as folhas alaranjadas e avermelhadas aveludam o chão de pedras toscamente assentadas. Há um percurso aberto em par pelo portão de madeira que se vai desprendendo das chumbeiras e o musgo verde pacientemente aguarda a chegada do orvalho da manhã seguinte.  Chama-me à atenção a existência de um simples e alvo carrinho de bebé à entrada do pequeno carreiro. Faço por estacionar uns metros à frente e vejo a criança acompanhar o percurso com o ligeiro virar da cabeça, enquanto lhe cai das mãos o brinquedo simples e vulgar. Uma mão su
Embaraço-me enlaçando nas mãos as palavras aquelas que não proferi, "aguarda pela chuva" conforta-me a vinda na pachorrenta desdita, mas o montado ali tão perto o pasto a quem basta as abelhas e o mel de quem me vale um deserto a tela, a paleta, o pincel? As fiteiras do podador pendem na ramada, abandonada, na espera espaçada de um baldio invisível, como o uivo solitário da monda, na nudez dos torrões sob o céu. Como eu.
Cansado encosta-se a mim o dia, as estradas molhadas da secura e as leiras escondidas de tudo o que me ardia, vem lesta a colhedura germinados os joios entre margaridas quer-se o aroma a vida fria ou qualquer outras solitária fiança, por entre o montado e o meu timbre calado nem o destino me alcança.
Cobre-se a vida na candura o branco e o invisível que perdura, sagrado o dia espreguiça-se pela tarde e é Deus (de quem tudo tive) que sussurra: a vida é o que em nós Vive.

Vida às prestações

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in Correio do Porto . O termo meio do monte deve ter sido retirado por alguém que se deslocou aqui, onde estou. A carrinha entra folgadamente e sem custo, mas a saída avizinha-se difícil pois não há local para poder inverter a marcha. Um pouco como a vida, entramos de frente, saímos às arrecuas. A casa parece ter nascido ali, entre pinheiros e eucaliptos jovens, rodeada de caruma, bolotas calcadas pelo Verão e montículos de cinza onde, adivinho, se devem ter queimado restos da limpeza do terreno. Os cães surgem ao caminho, não ladram aos pneus da carrinha, fazem uma espécie de guarda ou inspecção minuciosa a quem lá vem. Não há campainha, ouço uma saudação vinda da esquina e uma senhora surge, vestida de negro, encurvada talvez pelo tempo, talvez pela idade e embora possamos pensar que se trata da mesma coisa, tempo e idade, são lados bem distintos de uma moeda que teimamos em poupar. Há quem chegue à idade sem tempo e quem não tenha tempo para ter idade. Coisas estranhas. Como est

Deus

Nada Te peço acima, Deus, do que quer que me vindime nem vinha ou estio sina que desfruto no vazio, nos antípodas que excito electrão proscrito na órbita errante da existência, faz-me crer neles como em Ti, obrigado pela consciência silenciosa alegria da existência, encontrar-Te na terra virgem  aqui ou além e rezar-Te ainda assim na elegia, pelo infinito  e mais um dia.

Ad infinitum

Crónica de domingo, na Bird Magazine . Ouço gemer, um ligeiro soluçar. A tarde quente, abafada, convida a passar o consciente pelas brasas, permitir à alma soltar-se um pouco e sorver vida.  Continuo a ouvir soluçar, abro a janela e nada que justifique o som vejo, apenas a paisagem ondulante de eucaliptos, campos arados e casas ao longe.  O soluçar, agora mais intenso, parece vir do andar inferior. Sem fechar a janela do local onde estou, desço os degraus lentamente, tentando antever o que irei encontrar.  O único barulho que ouço são os meus pés descalços em contacto com a madeira. Empurro a porta da sala e saio, dou três passos em direcção à escadaria, não vejo nada à frente, à esquerda ou direita. Fecho a porta. Vou para a cozinha, agora com os pés na tijoleira fria, chegado lá descerro a porta que dá acesso ao exterior e vejo-a, com surpresa, encostada à parede, fugindo do calor do sol, aninhada, a soluçar, com a cabeça coberta pelos pequenos braços, sujos. As vestes, velhas