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A mostrar mensagens de Março, 2017
Que me lembre, sempre, eu, de ser pobre, adormecer desnudado de mim, de não distinguir ouro de cobre, mundano contra o vil, espartano, cair por olhar as estrelas e seguir adiante, ainda que ignorante do brilho soçobrante das velas, no meu destino pelo infinito,  errante.

Livros do que somos

Crónica de domingo, na Bird Magazine . Faço-me de conta, sentado, banco de madeira, jardim, chuva, guarda-chuva, caderno, caneta, gotejar, pássaros, árvores, livro. Roubo à vida todos os episódios dos filmes com que me cruzo. Mais do que um guião, as pessoas, suas expressões, sorrisos, choros, conversas e silêncio são a sua própria legenda. Eu (coitadito, diz a cigarra), apenas queria ser espécie de personagem, talvez por isso me encontre enfiado no meio de páginas amarelecidas de livros antigos, saído, talvez fugido, de histórias onde moram pessoas, gentes embebidas em fumo e que me acompanham onde quer que a imaginação me queira levar. Cada narrativa uma vida, provavelmente por isso não me saiam dos dedos histórias, apenas palavras solitárias, casulos de uns quaisquer sentimentos que, acredito, raiam o toque que se quer do amor, Amor. O Inverno acabou de sair , mas ainda me traz no frio o refúgio escrito na lombada do livro que me olha. Que pena não me sobejar ambição quanta

Sorrisos grátis

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In Correio do Porto . Sentir e ver momentos de carinho despojado é raro, talvez por não estar com os olhos sempre sintonizados na frequência certa ou, simplesmente, porque nem sempre eles saltam à vista. Estou na fila para a caixa da Staples (Constituição), na caixa três meninas, uma funcionária e duas pré-funcionárias (estagiárias). A funcionária mais velha explica às duas meninas o que devem fazer, como fazer, aponta todos os detalhes, creio que alguns detalhes nem ela se lembrava. Ensina com um carinho e sorriso na face, com uma sinceridade que desmancha o egocentrismo, uma autenticidade despojada de quem dá de si, para que outros sejam mais do que ela mesma. Sem medo de se ver ultrapassada. Parece-me tão raro. Na vida e na escola. Quantos de nós ensinamos de facto tudo o que sabemos a outros, sem medo que nos ultrapassem? Ser professor, de escola e de vida, deve ser isto mesmo. Sermos degrau para mais altos voos. Paguei. As estagiárias, atentas a todos os procedimentos

Pai

Crónica, na Bird Magazine , a respeito deste 19 de Março. Aperto as mãos e faço força para que os braços não me escorreguem.  Encosto a cara ao blusão velho, cujo cheiro consigo distinguir na memória e fecho os olhos. O barulho da mota soluça pela noite, tenho uma lágrima presa pelo frio e o sorriso congelado na felicidade de imaginar, ainda hoje, a mota negra a ribombar por uma estrada imaginária em direção ao céu. Nada há que prenda mais à vida do que as mãos calosas de um pai, o cheiro a barba desfeita, o pegar no pincel às escondidas e imitar o gesto paternal, afagar a face barbeada e olhar, de baixo para cima, a imensidão de um ser que, saberemos depois, imitamos os gestos mesmo quando, muito mais tarde, nos confundem como irmãos. O tempo encarrega-se de nos parir para a vida, vamos subindo os dias como que se fossem ainda aqueles muros de pedras mal amanhadas e musgosas, cuja integridade se dilui um pouco como a espuma da barba quando a água se esvai pelo lavatório.  “Ali

Não saíram de mim as estrelas

Crónica de domingo, na Bird Magazine . A campânula treme assustada pelo silêncio que se inclina sobre o vale.  Aqui, as caminhadas nocturnas são feitas por entre o nevoeiro que se liberta da terra, quente ainda, porque os dias se fazem mais corados, estendidos no esverdeado pasto.  O sino repenica pelo valado, cansado de subir encostas que só vêm eucaliptal e fogo, quando ao homem interessa tal. As pessoas acumulam-se na multidão de pares, teremos seis ou sete casais, viúvas de gente feita, feitas de gente que jamais abraçou outra cor além do negro. O padre chegará e falará, do alto do seu catolicismo, muitas das vezes separado dos iniciais capítulos (e por isso mesmo, mais virginais) do evangelho e por entre o medo da vida e o terror da morte, cá se pecamina apenas e só por respirar. O dia folcloriza-se, jazem ferramentas térreas, suadas de suor alheio, pelejadas de calos, caídas como sulfato aspergido ou como a estrela cadente que vi pousada num cabo eléctrico à espera que algu

Fascínios

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Fascínios, no Correio do Porto . Por vezes viver é isto mesmo, com letra pequena, perdido nos ses da vida, assim mesmo, com letra pequena, para me descobrir, sempre, com letra grande, sem me fazer escrever, porque também não sei viver muito bem. Há algo de mágico que me fascina, sempre, as côdeas duras, o resto dos cereais no fundo do saco de pano que foi útero de pão que me alimentou, um casal de idosos que aguarda no separador central de uma avenida um carro que lhes dê passagem (e a passadeira a dez metros), o levantar do chapéu em saudação, o avental azul-escuro com um bolso central de alguém que traz um “puxo” de cabelo grisalho, uma cara vermelha que exibe o conteúdo de um saco plástico, um par de botas novas, marca feirex como usualmente ouço dizer em tom trocista, um puto que transporta um carro de bombeiros, de plástico, como há muito não via. Serei feliz apenas com o meu olhar no fundo de uma chávena de cevada, quente, em que me vejo rodopiar no sentido dos ponteiros d

Olhares

Crónica de domingo, na Bird Magazine . Vou redireccionando o sono para regiões recônditas do meu ser, mas onde quer que vá acabo por me encontrar. Amanhã suceder-se-á a este momento e lá me encontrarei, não sei com que estado de espírito, mas estarei. Fico a percorrer caminhos que trilhei apenas na mente, não são palpáveis, mas saboreiam-se, como o sabor de uma guloseima que cobiçámos, embora hoje em dia a oferta seja tanta, que os nossos gostos são moldados pelo que nos chega aos sentidos e não ao contrário. E por ser tanta a oferta e tão inusitado o gesto de escolher, que me retenho na recordação de um dia, ou noite, como outro ou outra qualquer, num corredor igual a tantos outros, que pena pecarem pelo mesmo as grandes superfícies.  Seriam quase 22 horas, hora de fecho ou próximo, percorro sem olhar as prateleiras das guloseimas com um misto de saudade pelos tempos em que algo doce era um rebuçado da tosse ou uma bomboca, quando muito um pacote de bolachas alfa ou, o top dos tops