2011-06-28

Que mundo para o nosso universo? 
Quantos universos num só mundo? 
O que aprendemos na escola, de escola em escola, que não saibamos já de antemão, pelo que em nós nasce, ainda antes de o sabermos? 
De que adianta a correria, se ainda nem à linha de partida conseguimos chegar?

2011-06-27

Voltei aos meus passos, revejo-os com o temor de não saber se os foram assentes... 
Polvilho-me, à revelia do Sol, com a ambição de sair, daqui, de mim, ao encontro do meu ser que se quer Ser... 
De repente o mundo torna-se pequeno.

2011-06-22

2011-06-21

Quantas vezes a vida se cruzou com os dias, sem que os tenha visto, ouvido, falado ou sentido... Entenda-se o amanhecer, para, algures, se abraçar o mundo, iça-lo, toma-lo ao colo e sorrir, enquanto se saboreiam todas os chãos que pisaremos.
É o olhar que guarda todos os milénios que desaguam em nós. São as rugas que se formam num sorriso o leito para que serpenteiem as vidas por entre as memórias. É a noite que me embala, porque irei onde se abraçam os dias com o olhar e hoje, hoje custa-me ver.

2011-06-20

O ser é ser-se, ainda que não se seja, talvez, pela falta de conhecimento sobre o desconhecido que se É...

2011-06-18

Desserraneada

Enquanto a noite brinda à amizade
o futuro tece-se no reflexo do teu olhar,
cruzo o sorriso sobre a ilusão
bordo-me na vida que se faz trajar.
Ao longe os que me estão perto
fazem da saudade contacto
das lágrimas meu peito aberto
com que, sozinha, decoro meu quarto.
Nasce o dia
e eu nasço o mundo,
nas madrugadas em que vestia frio
e o borbulhar do rio,
a cara cintilava com o desconhecido da geometria.
Longos anos têm cem dias
e semestres que se aninham na secretária
parasse o tempo na cálida primária
em mim, criança, de longe longas férias.
Os adamastores
madrugam austeros de negro,
doutores,
com o horizonte que se faz praxe,
plantam vociferando quem caloiro se ache.
O chão mais alto que o olhar,
a amizade nascendo ao ritmo do poente,
poderá o deserto acabar
quanto noutro dorso nossa face se sente?
É de ouro o metal da latada,
o cume das caves,
o choro do riso,
no dia que começa a noitada.
Busco multidões abrilhantada
quem de mim se faz mãe,
os gritos, o eco que lá vai
nas cores que visto a emoção despida
pelos braços orgulhosos de meu pai.
Ah, os dias que meses fossem
e anos sobrassem para estudar
as sebentas que aos molhos nascem
“será que era disto que o professor estava a falar?”
Sei de cor os degraus da faculdade
os anfiteatros dramáticos e austeros
o palco em que a noite canta a saudade
e a sincera amizade construída.
Uma batina para dois corpos distantes
é aconchego para os medos, segredos e frio,
num rumo sem passeio pela beira-rio.
O olhar fundo que em ti vejo
é a equação que resolvemos com o nosso prolongado beijo.
Percorremos agora avenidas
a cada passo abrimos mil horizontes,
gladiadores modernos de cartola e bengala
esgrimem ambição e sonho comovidos,
o adeus a uma família sem nunca abandoná-la.
A tua mão alcança o Universo
e as lágrimas que trinam ao cair
são o laço firme que atravesso
no beijo que meu corpo quer sorrir.
Face-a-face e a fotografia ao quadrado,
passo levemente os dedos na saudade distante
seguir, erguer, na complacência do que se é amado
desejar que a noite jamais amadureça
parar no respirar o tempo
e deixar-me ser olhar que encante.
Acordar esmaecer
ainda que nunca viva ser sempre eternidade
ser estudante.

2011-06-15

Um dia a noite sobrepor-se-á ao crepúsculo não pela escuridão, mas porque a luz que nela habita será mais intensa que o cintilar passadossauro das estrelas.

2011-06-14

Cloud(icando)

O frio vai surgindo, deixa-se cair como um lençol invisível pelas costas... Arrepio-me... Por momentos penso que é já de manhã, sacudindo o sono debaixo da chuveirada fria (haverá melhor forma de começar o dia?)... 
Os dias têm adormecido cansados, pudera, vou deixando-os ao abandono, desterrados, para me entreter sentado no topo de um qualquer monte (hoje, Gerês), fechando as mãos e soprando para elas, para depois as abrir e moldar umas quantas nuvens. Fazem-me cócegas nas palmas das mãos, rodopiam por momentos, com os olhitos entreabertos a mirarem-me sem saberem muito bem o que fazer. Acrescento-lhes um pouco de azul que deixo cair dos olhos, moldo-as um pouco mais, ergo as mãos para um ponto cardeal a gosto (ultimamente tenho-me virado a Norte) e sopro as nuvens, que vão subindo e crescendo rapidamente, sorrindo quando o vento as leva para lá de onde eu consigo alcançar, aumentando quando alguns cristais de aglomeram para as verem passar e, desprevenidos, se deixam apanhar neste algodão doce gigante. 
Quantas nuvens terei eu já feito? 
E para quê? 
Mas, confesso ainda sem saber, vou fazendo-as, todos os dias, de diferentes tamanhos, sem qualquer molde, que fazedor de nuvens há-de ser criativo o suficiente para deixar que as nuvens moldem a mão, para que um dia elas, estejam lá onde estiverem, se lembrem de mim e me venham rodear quando estiver sentado algures, moldarem-me para que eu, de olhos entreabertos, confuso, acorde de novo, num outro monte, num outro ermo, moldado a nuvens, vento, sonhos e olhares.

2011-06-12

De farol em farol, se faz uma costa polvilhada de luzes, intermitentes, como pessoas, humanas, que lutam por encontrar o seu próprio porto.

Ca(o)s

Palmilhando caminhos, de terra, pedras soltas, folhas secas de eucalipto, pergunto-me porque razão não encontro duas pedras iguais, porque razão me vejo desprovido da capacidade de olhar em 360º esféricos, apreciando tudo por igual, deixando-me maravilhar com os padrões caóticos com que o cascalho se transforma em terra, e a terra se vê pisada por este calcário pedregal que se cobre, de livre vontade, pelas folhas dos eucaliptos que parecem acenar a quem de invisível passa ou talvez seja apenas o vento que teima em competir com os carros que vociferam, espezinhados pelos proprietários, na auto-estrada...

2011-06-11

Descalço-me, sinto a terra, quente, nos meus pés... 
Algures pelo Universo, este berlinde rodopia e rodopia-se, incessantemente, durante anos e segundos. 
Não consigo deixar de me sentir rodopiar, agora, no portátil, numa lagoa do Alvão ou num dos muitos recantos do Gerês... Quantas partes de mim se escondem num tronco, num animal faminto, numa cereja amadurecida, numa chuva quente de Primavera, num olhar pelo horizonte, num país qualquer que me acolha como voluntário. 
Lentamente, a minha unidade e identidade separam-se para percorrerem todos as dimensões que desconheço. Vou construindo as frases como quem se recorda do útero, como quem tenta, entre pinceladas, o traço fino com que desenho o dia de amanhã. A poesia, a prosa, tudo o que seja escrever, pensar, verbalizar, contextualizar, tudo me foge das mãos para se esconder e partilhar com o vento, esse sim, viajante eterno que se esconde onde todos o encontram.
Faz-me falta a caminhada, o sentir descontraído do vento e do sol, da chuva e do frio, pelos caminhos que vou percorrendo, mesmo sem rumo, mas com destino, enchendo o peito de feno, de pólen, de uma ou outra lágrima que se desprende para molhar o pensamento.
Não caibo em mim. Hoje, sou tu e tu, e tu, e tu! Hoje sou todos nós, pelos quadros que nunca pintei, pelos muros que nunca saltei com medo do lado de lá. E hoje, que não sou eu, é quando verdadeiramente me sinto em mim, sem riso ou lágrima, apenas brisa ou ar gélido, ou eu.
Se um dia as minhas mãos se calarem, que não se esqueçam meus olhos do caminho que me leva até mim, ainda que distante.
Que mundos tão desnivelados existem dentro de uma só vida... 
Tenho sede, vontade de orvalhar pelo mundo, pelos caminhos e estações de comboio desta vida.

2011-06-07

Des(níve)is

Vejo-os desarrumados, nos passeios latrinados que ladeiam as calçadas, agora sem pátria, a arrumar, em movimento sincronizados (aqui chefe!), as pessoas veiculizadas das cidades...
Os olhares de tais indivíduos são plurais, habitam neles legiões de idos, de sombras sarjetadas de quem não se sabe, ainda, arrumado.
Se um carro aponta na curva, o assobio, a corrida cambaleada, o olhar esbugalhado na dose antecipada (uma ajudinha chefe, para um caldinho; como se lhe servissem sopa, às tantas da tarde, a quem se assemelha a um vegetal desenraizado de uma terra qualquer que o pariu) e a mão estendida, mão aberta que não fala, não ouve, apenas se estende e amortalha para, aos poucos, ir consumindo o corpo, primeiro de esperança, depois de mentiras e, finalmente, de tão vão e oco, o vazio.
É vulgar o vestuário, que nunca regra geral, ser de cor das noites geadificadas, esfarrapadas, onde o frio faz morada e habita onde quem o acolha.
O cheiro vagueia pelo ar, acredito que ele mesmo nauseado, dos tempos e tempos abandonados.
É difícil imaginar, sequer ver, qualquer horizonte emparelhado, seja com a solidão, seja com alguém, onde se acalentam os dias adormecidos e se partilham cartões, canelados, cobertores, vãos de escadas, esquinas capitais e, quando a noite se permite aquecer, um banco de jardim.
Pergunto-me o que me separa disto, deles, do cartão canelado.
Que mundos tão desnivelados existem dentro de uma só vida...
Tenho sede, vontade de orvalhar pelo mudo, pelos caminhos e estações de comboio desta vida.

2011-06-05

Em porcelana

Uma chávena em porcelana, um aparo sedento e ideias que não aderem à cerâmica...

Sacia-me a vida
na sede que me nasce no olhar
pontilho-te, pigmentado, a matiz desnivelada da bebida
para na alma, colorida,
um amor se confortar...


um dia, mochila, caderno, trocando poesia por comida, por aí, até acabarem todas as estradas e me sobrarem, finalmente, as estrelas...