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A mostrar mensagens de Julho, 2020

É menino!

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“É menino!” Esta Crónica do Nada pode ser lida no Correio do Porto, clicando aqui . É fácil esquecer que vai o Verão no pico (chora a sirene dos bombeiros em tom aflito) pela brisa fresca que me entra no carro, sem convite, mergulhando no meu turbilhão raciocinado de uma vida que se prende às nuvens e, sem elas, cai inanimada no meu peito. O dia leva-se assim, sem respirar, a eito. Aprendi que algumas frequências rádio não transportam no seu espectro a boa nova, ondulam no intuito perverso de nos querer fora do universo. Sintonizo a radiofonia até que o som me refresca como o ar corrente, por vezes ausente, e a leveza do instrumental, desconhecendo eu qual, orquestra-se quase por magia com o borbulhar cansado, anafado, do rio por entre as pedras da levada. Está ali um eu, novo, mais novo, inocente, em pé nas pedras, preparando-se para mergulhar por entre o calor da tarde das férias grandes, o que fizemos às nossas crianças gigantes?  A profilaxia tem um traçado, o fugir por entre curva

Calor

“Calor”, crónica no Canal N.tv. A sombra quente do alto Sol transmontano baixa-se ao interior terroso de cada transeunte, independente de se abrigar nas oliveiras, na projecção dos edifícios eirados e beirados, rondando carnivoramente as entradas dos estabelecimentos com ar-condicionado, que transpira, amedrontado, o frio forçado de quem não se sabe inverno. No olhar de uma tarde febril, as nuvens encobrem, sempre que o podem, a tarde soalheira que escorre das frontes, embebe-se nos lenços de pano colocados sobre a testa, sorve as camisas coladas às costas ou sulca-se no chão poroso, transportado pela freima agrícola de quem se entrega à terra. A larga tigela de barro é alguidar para côdeas e miolo de boroa, navegando sem mar numa sopa vermelha, tinta, cujas ondas se empurram contra o vidrado cerâmico, deixando a espuma rubra sombras de frescor. O açúcar polvilhado vai escurecendo e, depois, como um corpo entregue ao Pai, deixa-se imiscuir no finito universo carrascão de uma malg

Clareiras

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“Clareiras”, Crónica do Nada no Correio do Porto. Para ler aqui também. À saída da curva onde, antes, me sustinha o esconderijo de um silêncio verde, vejo agora, ao longe, um aglomerado de paredes, propriamente e comummente, por onde respiram os poluídos rumores de camiões cuja minha visão turvam.  Abrem-se clareiras onde antes as árvores albergavam um ou outro esquilo, era a surpresa “o que é aquilo?” em rodopio espiral num tronco, ou a barriga encostada ao volante e à sombra se descansava num ronco.  Faltam-me os ramos, sobram espaços onde antes o lixo se escondia envergonhado, agora paira ao Sol o passado, apenas um sobreiro encortiçado, isolado, faz guarda de honra à tristeza que me clama, apenas porque receio não ter um dia esta cama, a enraizada matiz de restolhos que se abre onde fecham meus olhos. Desaparecem-me, desaparecem-se, exibem largas peladas os montes, elas, árvores, que de seivas se faziam pontes, caem e jazem mutiladas na carroçaria medieval de uma atrelado, o céu q