2006-02-24

Repouso

Gostava de ver os sonhos
serem mais que repouso
para outros voadores,
cansados... Os sonhos também...

Ética para um Novo Milénio

Cada uma de nossas acções conscientes e, de certa forma, toda a nossa vida podem ser vistas como resposta à grande pergunta que desafia a todos: "Como posso ser feliz?"
No entanto, estranhamente, minha impressão é que as pessoas que vivem em países de grande desenvolvimento material são de certa forma menos satisfeitas, menos felizes do que as que vivem em países menos desenvolvidos. Esse sofrimento interior está claramente associado a uma confusão cada vez maior sobre o que de fato constitui a moralidade e quais são os seus fundamentos.
A meu ver, criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um mínimo de afecto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afectivos. O que gera essa situação é a retórica contemporânea de crescimento e desenvolvimento económico, que reforça intensamente a tendência das pessoas para a competitividade e a inveja.
E com isso vem a percepção da necessidade de manter as aparências por si só uma importante fonte de problemas, tensões e infelicidade. O descaso pela dimensão interior do homem fez com que todos os grandes movimentos dos últimos cem anos ou mais - democracia, liberalismo, socialismo - tenham deixado de produzir os benefícios que deveriam ter proporcionado ao mundo, apesar de tantas ideias maravilhosas.
Meu apelo por uma revolução espiritual não é um apelo por uma revolução religiosa. Considero que a espiritualidade esteja relacionada com aquelas qualidades do espírito humano - tais como amor e compaixão, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia - que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros. É por isso que às vezes digo que talvez se possa dispensar a religião. O que não se pode dispensar são essas qualidades espirituais básicas.
O amor é o círculo infinito de brincar com a magia da Vida
Por Sua Santidade, o 14.º Dalai Lama
Um resumo extraído do livro "Uma Ética para o Novo Milénio"

2006-02-22

Metáforas

Até o sono tem preguiça esta noite...
A insónia ganhou e fez-me levantar da cama...
Eu sou um outro eu de mim mesmo, que é título de poema ainda não escrito...
Esta noite só a metáfora pode ganhar, porque a sinceridade crua e dura é de matar, é de sufocar, é de aos céus (surdos, agora) bradar...
Os sonhos, esses animais, só podem ser domados por mim...
Vagueiam pelas enseadas de forma sôfrega, os sonhos, e outros também...
As notícias de amanhã chegam-me de véspera, trá-las o cansaço...
Os sorrisos que vivi, que alimentaram o sonho, estão distantes, habitam apenas na noite em que este meu "eu" vagueia pelo espaço, onde constrói cenários, onde visita aquários lodosos, onde nadam quem os sonhos não doma...
Há algo de estanho na metáfora...
De vez em quando temos que dar espaço à saudade, ao vício de lamber a ferida, como animal, como víbora que se intoxica com o seu veneno...
Há venenos que nem a víbora consegue exalar...
A metáfora ganhou à insónia, que se retira cabisbaixa, com um sorriso de esguelha e um sopro no olhar: "Vou voltar..."

Estas linhas são dedicadas às metáforas que lêm estas sonolentas mordidas, que encontram no ondular da maré a compreensão deste eu, que é um outro eu de mim mesmo...

Se as metáforas falassem...

2006-02-17

Pedras revoltas

A noite voltou a ser dia,
as nuvens que a encobriam sorrindo
eram apenas os olhares
mordazes
de quem não as viam.

Tocou suavemente na tarde,
entoando despedida,
e garganta ferida
por palavras não ditas,
mas sentidas,
não escritas,
mas vividas...

É a voz da Lua que chama
e filtra as palpitações azedas da noite,
nas mãos de quem suas mãos ajudou
pende agora arfante
um açoite...

A Lua negra e revolta,
face de três escarpas e densa barreira ausente,
não alcança o ténue e fino cortar
da vida em mim a brotar,
mesmo a chuva nasce
e cai dos sonhos em tépida sinfonia,
tudo isto porque o amor suspirou
e a noite voltou a ser dia...

2006-02-16

Menina, quanto custa isto?

Um sonho cansado encontrou-se com o dia,
enquanto fatigados
raios
suspiravam pela nesga da calada,
um novo Sol rugia
aos olhos destes astros admirados,
são os degraus fortuitos da alvorada.

Bebeu um pouco de noite fria,
antes que uns instigados
e soturnos
sorrissem gelidamente ao silêncio,
este uivou e partiu
à sombra de um outro vento
como se fosse também
mais além,
para lá do lamento.

Tinhas feridas nas mãos
gastas e moídas,
um errante sonho no olhar
pendia em lágrimas
confundidas com paixão,
não eram utópicas
ou falácias,
pareciam um pouco mais de amizade
que corria solta num cercado,
como livre é um sufoco
que sucumbe num punho fechado...

2006-02-05

Palavras incolores

Talvez o porquê das faces
encoraje o Sol a nascer,
sem que surjam esbatidas,
nas árvores,
as sombras da Lua a morrer.

Que meu abraço seja
provável, destino da saudade,
longe,
algures além da liberdade
do Inverno,
que me corteja.

Um segredo estranho
à ordem caótica do Universo;
Som inaudito
para lá desta barreira invisível,
são as metáforas
rimas de um texto em verso
e insensível,
que deixou ainda um suspiro
entre as manhãs
e o sonho
que respiro...

Parece-me o real
algo ligeiro,
passageiro,
como os anseios de criança
em tarde de Verão,
férias ausentes
que anunciam a aliança
entre a mão
e as cálidas pétalas dormentes.

As faces voam,
passam rápido por mim
como as luzes da cidade,
são vorazes
e audazes,
embora não lhes saboreie
o desejo que à vida dei,
como as palavras incolores
do poema
que não terminei...