2007-02-26

Rain in a sunny day

Chovia tanto que ele pensava morar no fundo do mar, separado do infinito azul líquido por uma fina tela de vidro.
O vento, quando uivava, parecia um navio e, assim, fechava os olhos e imaginava-se num barco, daqueles pequenos, onde não cabe um remo, apenas existe um pequeno espaço para um punhado de sonho e ilusão.
Quando a ondulação o embalava ele deixava-se adormecer, para logo depois acordar, dentro do mar que é o peito de quem sonha. 
E assim, enquanto dormia, o sonho e ilusão saltavam, como peixe acabado de pescar, e caíam novamente ao mar, deixando-se cair ao sabor da corrente, para que outros que não dormissem os vissem lá no abismo onde habitavam e pudessem, também, sonhar.
Acordava e via-se no barco, ondulando, mas no momento em que olhava para o seu pequeno barco e não via o seu punhado de sonho e ilusão, acordava. 
Para se ver encostado ao vidro, contra o qual o vento atirava pequenas gotas de chuva. 
E estas, cansadas, escorregavam e contavam-lhe baixinho: “sonha, para que os que não dormem possam encontrar alguns sonhos”.

2007-02-20

Cold night blues

Fogem de mim,
os olhares da noite
e as mãos frias,

o aceno fugidio da mentira

e a lágrima

que já ida
nem de mim me tira.


A névoa das pessoas

e máscaras,

a chuva que inunda
a noite,

pintada de verdade,
quando cair no vazio
verá,
uns olhos cavados
e mãos,
em desespero,
agarrando a vida
que a outros tirou...

2007-02-03

Até um dia destes

Olá. 
Parece-me que é a última vez que venho aqui, ao blog, para escrever. 
Acho que me cansei de cultivar o lado bucólico da vida neste espaço virtual. 
Inevitavelmente, nada é evitável, digamos que faz parte da vida sermos assim, uma sucessão de dias e horas, segundos e noites, sonhos e pesadelos. 
Confesso que esta deve ter sido a primeira vez que me sentei em frente ao computador sem um motivo, ainda que muito distante do meu fio condutor, para escrever. 
Sentei-me e assim fiquei, a olhar, sem qualquer história para escrever, sem qualquer sonho misturado com música e flores que nascem nas encostas das estrelas. 
Orgulho-me de continuar, por aí fora, sendo eu mesmo, com mais ou menos pontapés na boca, mas escrevendo em meu nome, comigo e para mim.