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A mostrar mensagens de Maio, 2015

Haver

Crónica de domingo na Bird . Volto à folha de papel, de onde nunca deveria ter saído, confesso, para me ver sentir novamente o áspero e sensual deslizar do papel numa folha em branco. Não há barulho, apenas o silêncio se faz ouvir, entrecortado com a minha respiração e a rouquidão do lápis triangular, negro, como a noite que se levanta para me fazer companhia. Ao fim de poucas linhas o pigarrear do grafite traz a comparação com o inequívoco do arrastar dos meus passos numa estrada com dois sentidos, mas sem sentido algum. O desafio da escrita rasga-me o tecido com que cubro o local onde estou, tenho-o, o lençol, amarrado a uns galhos destes arbustos onde penduro a roupa a secar e os grossos troncos dos pinheiros onde vejo a palma das minhas mãos em cada golpe que a corda ali laçada vai escavando. Há um certo pudor que me acompanha e que, também ele, se deixa anestesiar pelo bailado do lápis, a sombra que acompanha cada letra e o salto improvisado quando termino cada palavra escri

Doi, do

Crónica de domingo na Bird .  Existe uma tangência que espreita nestes dias redondos, semi quentes… Entre a frase anterior e o momento actual, mesmo em desacordo ortográfico, creio ter escrito, digitado, dezenas de frases e uns bons centos de palavras. Apaguei tudo, excepto a tangência, pela musicalidade e por ser a forma como tudo nos toca, tangencialmente, sem nunca transpor o limite que nos separa da miscência. Tento não escrever na crueza do que me seca as noites, perpetuar um pouco a areia molhada e as pegadas que apago para que ninguém, incauto, me siga. Hoje, tal como amanhã, quero-me incógnito. Hoje, tal como ontem, quero olhar o céu e ver um tufo de nuvens arrolhar com o vento, serpenteando na inocência de um Deus que se deleita com a mesma inocência com que uma criatura, selvagem, se deita. Haveria de ter dito isto antes, mas nunca o fiz, talvez porque saiba que estas, e as outras, ao contrário das pegadas de hoje, ficaram para serem li… Não, não lidas, ficaram para serem,
Creio na raiz toda poderosa que me levará a ser seiva quando me sentar à sombra de uma árvore na esperança de adormecer e acordar fruto. Plantam-nos para darmos sementes e ai de ti se mentes com a verdade que te brota da indagação.

Renovar, de novo

Crónica de domingo, na Bird . Encosto a cabeça à porta, baixo um pouco o vidro, entra-me o fresco da noite e ainda ecos de claves que luziram de lua e não de sol. De sol em sol a falta do volante não se sente, embalo-me pelas irregularidades do piso e deixo-me ser transportado pelo pequeno emaranhado de ruas que viram, em tempos, desacordos românicos sobre qual a letra a visitar quando o amor se quer fazer entre um dó e um ré. Ré, inocente, entre o vento e a noite, a luz que passa por mim como riscos leves de pinceladas de um sem abrigo no quase breu dos candeeiros que iluminam, mas não aquecem ao longe, do lado de lá da retina, as pequenas estrelas que me fazem chegar a saudade de milhões de anos luz onde vivi como sendo apenas éter. É ter e não ser que me prevalece no untado corpo quando chovem risos de conversas que nunca soube ter. Hoje e ontem. Amanhã e no futuro, distante, onde me sentarei na pedra fria, a contar nuvens de mosquitos que conspiram sobre a pluviosidade que l
Tens as minhas palavras em tudo o que te falo não calo as partituras do som que silencio os caminhos que sigo por seguir sem destino ou cama onde dormir nunca pensar, um dia, por ser em tudo o que te falo aquilo que calo é tudo o que me peço para dizer.

Inevitalmente

Crónica de domingo na Bird . A inevitabilidade das palavras é a última barreira e a incontornável prova da justiça da banalidade, acaba por trazer ao de cima, numa ascensão volumétrica, todo o silêncio que se tenta calar, redimindo sílabas e conjugando as palavras, ora em prosaica arquitectura, ora em queda livre de escarpas feita pelas arestas das próprias letras, vou tentando entender todos os dias que vivo. Escrevo baixinho, inaudivelmente, tentando passar despercebido por entre dois parágrafos que quiseram falar, mas eu não os deixei. Soltar palavras, assim, por soltar, é como tentar perceber todas as notícias que nos tentam noticiar, sem sequer deixar de lado as realidades irreais, vou almocrevando de galho em galho, porque hoje serei pássaro, escutando o passo de quem também se escreve baixinho, indelevelmente, como quem sem parágrafos torna cem eus num só entardecer tranquilo. Oh vento. Tu que me trazes de volta ao local onde esperei pelas histórias, vais esbatendo pela tela s
A lua, cheia, diria que prenhe, faz-me sonhar com as costas encostadas ao áspero pinheiro, aquecido pelo saco-cama, enquanto adormeço lentamente e as nuvens se apressam a parturiar a nobil mãe, que vem depositar os filhos, gêmeos, no meu colo de azevinho. Há vezes que a vez aguarda apenas o caminho onde o só passeia sozinho.

Mãe?

Crónica de domingo, na Bird . A nossa mãe é a melhor do mundo. Sei que sim, vejo pela minha. Jamais poderia imaginar-me descer de qualquer dimensão onde possa ter estado antes de regressar a este mundo, e vir ao mundo parido que não pela minha mãe. Ainda a tenho, a meu lado, quase lhe consigo ouvir ainda o bater das agulhas enquanto tricoteia mangas, botões e por fim casacos inteiros de bebé, ou escutar a chuva enquanto encosto a cabeça ao seu colo, ou as noites a arrefecer depois das quentes tardes de verão enquanto sentados nos degraus ainda quentes a olhar para o céu, para as estrelas, e conversar como gente grande, eu, sempre pequeno a teu lado, sobre tudo e sobre nada, de onde vimos, para onde vamos. Ainda hoje existem as mesmas estrelas e quando olho para elas, embora nem sempre estejas a meu lado, trago comigo a certeza cósmica de nunca te perder, de me saber teu nesta jornada, para voltarmos a ser um dia estrelas num aglomerado qualquer universal onde eu, filho, e tu, mãe, po