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A mostrar mensagens de Abril, 2010

Vozes que não abracei

Nascem-me os mundos pelo olhar, não suporto as vozes que não abracei, porque se me calam os acordes das letras com que à vida brindei? Há um cruzeiro de pedra quatro esquinas cinzeladas a granito e um corpo abandonado pela solidão que saúda os ventos, uma fonte seca por onde vertem terras inférteis e o cabelo desgrenhado das vinhas por não haver ninguém que lhes penteie as podas. É mato urdido num rosto encardido sob a Lua, sob o céu, um naco de vida de fugida que é tu, que sou eu.
Chega a doer ter as palavras escritas em mim e não as ter no vocabulário, estar do lado de lá enquanto me espreito do lado de cá. Escrever o que não ser, é falar ao ouvido do silêncio. Estou mudo.

Timing

No papel que me ausculto embalo a Primavera ao resguardo da tua vida onde morava o amanhã. Dou-me ao silêncio ascendente até aos limites do infinito que circundo e trovejo no teu abafado grito. Rego meu próprio medo e floresço por entre o céu e a terra, porque hoje já é tarde e ontem era cedo.

Adiado

O teu silêncio acolhe o trovão, a água salpica na noite e o musgo seco adormece na minha mão, serpenteiam-me as estradas que não conheço em busca de um eu que faz falta um tu, é um pinheiro eucaliptado no relâmpago que ascende em longas sombras de imaginação. Tenho meio cobertor, metros quadrados de um calor que não me chove na madrugada em falta à prova dos nove. É um acordar adiado e um adeus num corpo contorcido inerte, assim ecoa o arrastado gotejar da nuvem da vida que nos meus olhos verte.

Pendo

Tenho a memória completa das viagens que não escrevi, um vagão sonhador sulcando o vento que não vivi. Pendo no sobressalto meus braços para que agarrados ao vago possam suster as nuvens que ainda afago. Sou da noite porque não anoiteço inclino-me à força da esquina no pó em que me tornei na pauta que me solfeja no olhar que vertigina o sabor do beijo que te sonhei.

Distantes

É para ti (que moras em mim) as páginas tantas do que fui rasgadas vida que de meus olhos flui. Tocando-te vida de mundos distantes que me tocam vivo as recordações do que serei quando as nuvens que me suportam chovem no silêncio do que nunca te falei.