Nascem-me os mundos pelo olhar,
não suporto as vozes que não abracei,
porque se me calam os acordes
das letras com que à vida brindei?
Há um cruzeiro de pedra
quatro esquinas cinzeladas a granito
e um corpo abandonado pela solidão
que saúda os ventos,
uma fonte seca por onde vertem terras inférteis
e o cabelo desgrenhado das vinhas
por não haver ninguém que lhes penteie as podas.
É mato urdido num rosto encardido
sob a Lua, sob o céu,
um naco de vida de fugida
que é tu, que sou eu.
2010-04-29
2010-04-25
2010-04-22
Timing
No papel que me ausculto
embalo a Primavera
ao resguardo da tua vida
onde morava o amanhã.
Dou-me ao silêncio ascendente
até aos limites do infinito
que circundo
e trovejo
no teu abafado grito.
Rego meu próprio medo
e floresço
por entre o céu e a terra,
porque hoje já é tarde
e ontem era cedo.
Adiado
O teu silêncio acolhe o trovão,
a água salpica na noite
e o musgo seco adormece na minha mão,
serpenteiam-me as estradas que não conheço
em busca de um eu
que faz falta um tu,
é um pinheiro eucaliptado no relâmpago
que ascende em longas sombras de imaginação.
Tenho meio cobertor,
metros quadrados de um calor que não me chove
na madrugada em falta à prova dos nove.
É um acordar adiado
e um adeus
num corpo contorcido inerte,
assim ecoa o arrastado gotejar
da nuvem da vida
que nos meus olhos verte.
2010-04-20
Pendo
Tenho a memória completa
das viagens que não escrevi,
um vagão sonhador
sulcando
o vento que não vivi.
Pendo no sobressalto meus braços
para que agarrados ao vago
possam suster as nuvens
que ainda afago.
Sou da noite
porque não anoiteço
inclino-me à força da esquina
no pó em que me tornei
na pauta que me solfeja
no olhar que vertigina
o sabor do beijo
que te sonhei.
2010-04-10
Distantes
É para ti
(que moras em mim)
as páginas tantas do que fui
rasgadas vida
que de meus olhos flui.
Tocando-te vida
de mundos distantes
que me tocam
vivo as recordações do que serei
quando as nuvens que me suportam
chovem no silêncio
do que nunca te falei.
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