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Matizes

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"Matizes", a mais recente crónica no Correio do Porto: https://www.correiodoporto.pt/prioritario/matizes . A luz opaca e despreparada iluminava a sombra projectada pelo vulto sentado à mesa circular. A solidão teve sempre o condão de marcar presença junto de quem se despede, em vida, do que já partiu, mas ainda se senta, em espectro, velando o luto de si mesmo. A música repetitiva, cansativa, propositadamente hipnótica, guia os ávidos consumidores do desnecessário. Um dia que tudo falte, não sobrará nada para comprar e aí o que será do excesso? Estas questões não perturbam a sexagenária, sentada com a cabeça apoiada na mão, o cotovelo na mesa, um candeeiro de escuridão ilumina o horizonte estarrecido de uma existência que não se sabe infinita e procura, nos outros, a continuidade de si mesma. Talvez pelo aproximar da idade, a morte vai rondando aqueles que em criança conheci sendo já velhos.  Quando dei por mim, o café já estava frio. Sorvi-o e guardei o pacote de açúcar que ...

Fisgas

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"Fisgas". (para ler na secção Crónicas do Nada, no Correio do Porto ) As Fisgas tinham ficado para trás. Deixei-as escorrerem-se languidamente observando os mesmos turistas num miradouro recente. O rio tropeçava-se e ainda que a filosofia não o inste a percorrer-se repetidamente sob a mesma ponte, teimosamente completava o seu ciclo hídrico num vaivém aquoso irregular longe da soberania humana. De cajado na mão, a disforme imagem feminina faz-me sinal que julgo ser em aviso de rebanho na estrada. A insistência do levantar do braço leva-me, por consciência, a parar e abrir o vidro do passageiro. À janela, o rosto assustado em permanência, talvez questionando-se o que é o mundo além do redil ou para lá do Monte Farinha, o olhar esbugalhado de um azul-celeste inocente, as frases monocórdicas e sem sentido de uma criança em corpo de adulto. A boca sem dentes abria a fala que eu me esforçava em perceber. As cabras, castanhas, pretas, polvilhavam o asfalto quebrado de pequenos excr...

Caudal

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Caudal, crónica do Nada, no Correio do Porto.  https://www.correiodoporto.pt/prioritario/caudal  ao destino, ainda que pela ignorância nos caminhemos no matutino saturno, percorremos as curvas que sucedem a outros curvilíneos percursos por entre as espaçadas rectas. A manhã aconselha alguma prudência na indumentária, mas que frio teremos nós, reconhecendo-nos filhos do Sol? A torrefacção da manhã auxilia as forças no despreparado corpo, há que descarregar seis armários, três tampos de granito. Não preparado, entretanto, para serrar os barrotes de eucalipto que sustentam a torpe tábua prateleira onde repousavam, poeirentos, todo o tipo de artefactos electrónicos; raspo as mãos na parede tosca como rugas na face de qualquer vulto inocente e adulto. A louça do pequeno-almoço mira-me a descer os socalcos durienses que são os desnivelados degraus em cimento. O tecto baixo obriga-me a caminhar em vénia constante. Tudo respira a pobreza, no entanto, esta santíssima trindade ao abando...

Entrudo

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Entrudo. in Crónica do Nada, no Correio do Porto. ( https://www.correiodoporto.pt/prioritario/entrudo ) Esqueço-me da soma dos dias pelo subtrair das preocupações, ainda que alheias, agora que as águas baixaram e passamos os dias a vau.  Ainda ontem era o ano anterior, para hoje estar em meados de Fevereiro sem dar por ela, como se a maré subisse e hoje, em pé, permanecesse num cabeço qualquer numa ilha inexplorada, apenas eu e a fé. A cada manhã carpintada ou marceneirada em tarefas septuagenárias, pelos diálogos de profundo silêncio ao longo das esburacadas estradas nacionais, novos conhecimentos acumulam a riqueza que outros não conhecem. Ora pela falta de silêncio. Ora pelo silêncio imposto de quem não gosta do silêncio dos outros.  Estaciono como posso, adentro ruas com um credo mudo sem ver onde posso inverter marcha e a ponderar, enfim, retroceder com cuidado. Mas há sempre alguém ao fundo, braço no ar, avental colorido sobre um luto extenso, indicando algo que, deduzo,...

O poeta

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O poeta , nova crónica na minha secção Crónicas do Nada , no Correio do Porto. O colorido dos insufláveis onde as crianças orbitam sem cessar, enquanto outros saltam de cor em cor perante o olhar atento de uma ajudante cansada, alternando o olhar e a atenção entre os catraios irrequietos e os instagramáveis acessos de quem pulula de irreal em irreal, concorre com o cantor, jovem, num improvisado palco de mesas de refeitório amarradas umas às outras à força de abraçadeiras de plástico e boa vontade, solicitando o bater de palmas a uma plateia distante. O chão do pavilhão multiusos descansa das investidas desportivas do andebol, basquetebol, futsal, karaté e outros menos organizados, como bater-bafo, corridas de meias e futebol com bolas invisíveis. A festa de final de período, com as divindades edis no olimpo de alvas cadeiras de plástico, os responsáveis de associações, pais, culturais, desportivas, associativas, musicais e outras que tais, convivem na placidez de uma tarde cinzenta, ...

São Martinho

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"São Martinho" Crónica de mais um dia diferente, na minha secção Crónicas do Nada no Correio do Porto São Lourenço do Douro mira plácido o rio que o nomeia. O vento empurra até às encostas do Marão o bafo ameno anunciador de chuva. O vaguear da encosta trajada de asfalto não permite grandes distracções ao volante, no entanto, não resisto a olhar o espelho dourado rasgado por um batel prenhe de simpáticos e bonacheirões nórdicos, parecem-me, à distância e à imaginação. As conversas oscilam como as copas das árvores e as placas de trânsito, indecisas, quanto aos limites de velocidade curva após curva. Chegados ao destino, o que nos quis, não o que quisemos, à porta assoma a simpatia sexagenária, metro e meio de viúva, a colorida indumentária, a casa sobranceira sorridente nas obras quase terminadas. Indica-nos onde colocar o que levamos, sorri novamente e a conversa oscila entre o vento, o mesmo que nos levou até lá, a possibilidade de chuva, que são, afinal, as coisas que as ...

Rosalin(d)a

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Rosalin(d)a, ou um encontro.  A minha nova crónica do Nada, no Correio do Porto.( https://www.correiodoporto.pt/prioritario/rosalinda ) O corredor de um hipermercado ostenta quase tudo aquilo que possui e que eu não necessito. David, do alto da sua vigésima terceira ode, sabia bem o que desejava, o nada que sobra de tudo o que não faz falta. De repente, encontro-a sentada num monte de sacos de peletes em sofá improvisado. O sorriso é do tamanho das décadas que me separam da felicidade que vive na memória, aquilo a que orgulhosamente posso chamar história. No beijo e abraço que trocamos reencontro o conforto das manhãs frias onde o quente leite adocicado, retirado da gigantesca panela, servido num usado e translucidado copo, me aquecia o corpo e, agora, o olhar. A sala de aula era ágora extraordinária, a professora no centro, em todo o lado a funcionária. O viveiro colorido que era a escola primária, agora ornamentado de pomposos nomes agrupados, era ameia, muralha, castelo e univer...

O último cacho

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" O último cacho ", nova crónica do Nada, no Correio do Porto. O frio cobre-me os braços para uma manhã de sábado pré-Outonal. Esfrego-os para me aquecer e continuo o caminho. Vozes inusitadas à hora matinal percorrem o nevoeiro e chamam-me a atenção. Risos. Aqui e ali uma voz adolescente chama por alguém, numa voz estridente alguém pergunta:   – Este cacho é para a travessa?   Uma voz septuagenária responde, arrastada e agastada.   – Nem para beber há que chegue, deita-o no balde.   Os termos, os sons das tesouras de poda a tricotarem a manta que cobre as minhas recordações, emocionam-me. Ou talvez seja o frio. Apercebo-me que é a época das vindimas quando, na minha mente, já a última poda tinha talhado toda e qualquer colheita que recordasse os meus dias de adolescente. Por entre as folhas das videiras fronteiriças um rosto assoma, espreita e saúda-me. Retribuo com um sorriso. O “bom dia” ficou preso nas rememorações atravessadas na minha glote.    Ao olh...

Verão

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Verão  Nova crónica na minha secção "Crónicas do Nada", no Correio do Porto. O calor acomete-se a quem, de véspera em vésperas de dias por vir, se inunda dos pretéritos que ainda não chegaram à margem do tempo presente. O tempo ausente banha os veraneantes, a contas com protecções dérmicas, bronzeados imigrados de uma tez que não existe. A irrealidade é vivida de publicação em publicação, a leitura pulula de comentário em comentário. A curiosidade inócua intromete-se na realidade da existência irreal que nasce nas leiras dos comentários, comentados entre comentários e figuras animadas de sorrisos e palmadinhas nas costas em forma de corações. O quão mais natural seria a voz, ainda que envergonhada, desabituada, proferir o que o coração muitas vezes quer dizer, mas por falta de prática não o sabe fazer. São férias, senhor, diria um espírito mais compassivo e ausente frequentador de orbes tão densos como este terceiro planeta a contar do astro rei. Enquanto ardem as labaredas ...

Arraial

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"Arraial", para ler no Correio do Porto , na secção "Crónicas do Nada".    Fora do silêncio, tudo parece ficar para trás, com excepção do verdadeiro, pois não há memória de mentira que nos adiante o passo, além da falácia de sermos mais uns do que outros. Ou menos. Que não iguais. Com o avançar da idade, a estrada à nossa frente parece enrugar-se e recuar num destino que, apesar de cada vez mais perto, esconde-se atrás de cada novo sonho urdido. Ao presente que nos presenteia a existência, acometem-se as sonoridades de tempos em que os arraiais eram menos fartos em néon. Na avenida cortada ao trânsito automóvel, transeuntes de vestes humanas passeiam-se desnudos, gastos e menos gastos na vida. Uma matilha de cães de peluche, num irritante estridente ladrar metálico, mexem automaticamente as pequenas patas desarticuladas numa corrida desenfreada sem sair do lugar (ou a tecnologia a imitar a humanidade). Ao fundo da rua cortada longitudinalmente pelo canteiro central ...

Um café e uma nata

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“ Um café e uma nata ” ou nova crónica na minha secção Crónicas do Nada no Correio do Porto . Enquanto miro os reflexos difusos na montra do café, fugindo às conversas fúteis do noticiário matutino, vejo-o chegar num imaculado verde trajado sobre um corpo adulto, numa mente infantilizada, virgem, onde não habitam as fraquezas de outros. Sopro a espuma da meia de leite, mais para disfarçar a atenção do que propriamente preparando-me para sorver o vício lácteo imiscuído entre o café, um pouco como eu e a fé.  Quando a porta se abre, os sons pueris saltam da piscina e das toalhas à sombra prévia do Sol abrasador. A confusão assíncrona abafa o noticiário e, apesar do incómodo hertziano de ondas sonoras em diferentes timbres, sinto-me mais liberto da programação noticiosa (infecciosa?) e acabo por sorrir, escondido. Ao chegar ao balcão, a familiaridade da funcionária num português açucarado, atira um bom dia em forma de animado: – É um café e uma nata? – já com o produto pronto em band...

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“Fé”, a mais recente crónica no Correio do Porto, na minha secção "Crónicas do Nada". https://www.correiodoporto.pt/prioritario/fe-2 A manhã da Póvoa tinha dado à costa uma neblina fresca, transpirando salpicos de maresia a cada passo ao longo da linha da praia. As lojas dormitam na manhã de feriado, a liberdade ainda não saiu à rua, faces sonolentas passeiam pequenos canídeos e uma sorridente funcionária camarária varre a baixa parede que serve de degrau aos mais impacientes, longe que vêm os degraus para o areal.  Do outro lado da avenida, um ou outro estabelecimento abre as portas aos funcionários, tez asiática, um mundo de igualdade a quem procura liberdade, que vão conversando em voz alta com a invisível e incompreensível língua que ecoa no auricular. Mesmo à distância de um hemisfério, o estrangeiro pode fazer-se lar. Movimentos rítmicos e bem ensaiados à luz da prática limpam as vitrines viradas para o Atlântico. Com a ignorância de saber ao que me voto, na democrática...

Lugar de Carlão

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"Lugar de Carlão" , nova crónica no Correio do Porto, na minha secção Crónicas do Nada . O povo já era próximo antes das uniões de freguesias que nos trouxeram proximidade toponímica, mas não afastaram o abandono que grassa nos patamares oliveirescos onde crescem olivas por entre o abandono. Toda a terra nos quer seu dono. Ainda que sobrem por lá ruínas e promessas de escombro, a memória não escolhe onde criar raízes, sejam elas ausências tristes ou lembranças felizes. O largo estreito da aldeia no lugar, ou lugar da aldeia, vai vendo as casas desfalecerem à passagem do tempo. No balcão da loja há um puto que serve água em vez de bagaço, coisas da mocidade, que despertará uma boa gargalhada quando ela, a idade, surgir cinquentenária por sobre os nomes que se vão gravando nas lápides. Em muitos locais, só no cemitério cresce população. E mesmo aí, os montículos de terra, as jarras erodidas pelo vento, o verde do musgo crescido no interior das águas estagnadas, alimentam peque...

Secundária

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"Secundária", crónica publicada na minha secção "Crónicas do Nada", no Correio do Porto [ aqui ]. Enquanto desço a rua no passeio cinzento e me desvio, a sorrir, de namorados adolescentes em descobertas não lectivas ou lecionadas, oscilo na recordação do que me leva à minha antiga escola secundária de Baltar e na preocupação com o ter colocado, ou não, todos os livros na mochila e evitar uma desnecessária falta de material. Não há meninas ao largo e, assim, a vergonha passa também para dentro do saco. Sigo confiante. O portão está aberto, mas a educação imobiliza-me, enquanto coloco a mão no bolso de trás à procura do cartão de estudante. Do lado de lá do postigo, perguntam-me ao que me dirijo com uma solenidade dedicada, apenas, aos adultos externos à comunidade escolar. Acordo. Claro! Que patetice! Apercebo-me dos acumulados trinta anos de tamanho que me fizeram crescer além da última visita, ainda estudante formal, à minha outrora estreada escola secundária, ...

Reunião

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“Reunião”, resumos dos encontros adolescentes em vida de adulto na minha mais recente crónica no "Correio do Porto". https://www.correiodoporto.pt/prioritario/reuniao – Vais escrever um poema? – perguntam-me em tom divertido. A pergunta rasga-me a abstração e o anotar mental dos esquiços em palavras que me vão fugindo da memória. Retorno ao jantar e continuo a sorrir num misto de envergonhado e divertido. A funcionária bamboleia as travessas de carne semi-crua e quase morna, a travessa e a pessoa, pousando-as nas toalhas de papel onde a matemática assíncrona do filete cerâmico desenha circunferências de gordura com diferentes diâmetros. Até aqui, a matemática circunscreve-me aos tempos adolescentes, entre perguntar-me para que raio necessitaria daquilo para o meu futuro e o responder-me, volvidas décadas, o quanto o caos se cria em padrões cristalinos, numa espécie de linguagem que permite compreender a sombra do grafite caído do lápis infinito na caligrafia do Criador. Com o...